«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
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Abr 12
publicado por FireHead, às 18:15link do post | Comentar

1. O facto como critério

 

Nós dispomos de um documento histórico que chegou até nós para nos mostrar como o problema surgiu pela primeira vez: os Evangelhos. A natureza deste documento colocou problemas à investigação histórica. Antes de entrarmos no mero registo dos factos tal como eles nos chegaram, façamos algumas observações.

 

a) Comecemos por esclarecer o que os Evangelhos não são: deste modo evitaremos usar, para os abordar, um método inadequado ao objecto. Das definições de diversos autores podemos tomar de empréstimo alguns exemplos “em negativo” dos Evangelhos, a dificuldade está só na escolha. Citamos uma, bem conhecida e recapitulativa das definições dadas: «Os evangelistas [...] não pretenderam [...] fazer nenhum relato estenográfico do que Cristo dizia ou um relatório das suas acções, como poderia fazer um oficial da polícia» (R. Schnackenburg, La Chiesa nel Nuovo Testamento, Milão, Jaca Book, 1973, p.14). Eis como o documento conciliar Dei Verbum define a actividade dos evangelistas: «Os apóstolos, depois da ascensão do Senhor, transmitiram aos seus ouvintes aquilo que Ele tinha dito e feito, com aquela mais completa compreensão de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito da verdade, gozavam. E os autores sagrados escreveram os quatro Evangelhos escolhendo algumas coisas entre as muitas que tinham sido transmitidas oralmente ou até por escrito, sintetizando algumas, explicando outras, tendo em conta a situação das igrejas, conservando, enfim, o carácter de anúncio, mas sempre de modo a referirem-se a Jesus com sinceridade e verdade» (Dei Verbum, 19).

Somos, deste modo, avisados de que não estamos diante de todos os factos acontecidos, mas certamente diante de factos acontecidos, que nos foram confiados pela recordação de testemunhas, movidas pela urgência e pelo imperativo de dá-los a conhecer aos indivíduos e à humanidade. Por exemplo, se o meu carro novo, desejado durante muito tempo e comprado com sacrifício, fosse roubado e depois encontrado, eu poderia ter conhecimento disso de dois modos diferentes. Poderia ser chamado à esquadra e ver o relatório da polícia, assinalando a presença de um carro abandonado numa determinada estrada, sem pneus e sem matrícula, mas correspondente à descrição que forneci ao fazer a queixa, ou então poderia receber o telefonema de um amigo a dizer que, ao passar de autocarro, tinha visto o meu carro numa estrada secundária, de que não sabe o nome, mas que tem a certeza de poder localizar. Não perde tempo a descrever o carro, mas garante-me que aquele era o meu. E iríamos ver. Ambos os modos de receber a notícia são razoavelmente fidedignos: o que muda é o método da verificação.

 

b) Encontramo-nos, portanto, diante de um documento que, como outros, tem que ver com a memória e, de modo original, com a intenção do anúncio: a forma do documento é dada por esta intenção. O seu valor histórico poderá ser reconhecido desde que não se menospreze aquilo que o caracteriza: o que se pretende relatar é a recordação de um facto excepcional transmitido por alguém que considera vital dá-lo a conhecer a outros. Tendo apurado, assim, que não nos encontramos diante de um relato estenográfico, de uma acta, de uma redacção feita com a preocupação de cumprir um dever de crónica no sentido estrito do termo, devemos, para o compreender, colocar-nos diante do dado tal como ele surge: memória e anúncio. É preciso encará-lo na sua globalidade e perguntarmo-nos: «É plausível? É convincente?». Qualquer outro método evitaria o dado tal como ele hoje chega até nós e, por isso, seria aplicado a um objecto no fundo inexistente.

A este respeito parecem muito persuasivas as observações de Von Balthasar: «O primeiro pressuposto para compreender é a aceitação do facto tal como ele se dá. Se desde o início são feitos cortes no Evangelho, o fenómeno não conserva a sua integridade e torna-se incompreensível. [...] Já não se conserva um contexto minimamente plausível. Cada elemento, de facto, apenas é plausível dentro da totalidade da imagem» (Hans Urs von Balthasar, «A percepção da forma», in Gloria, Una Estetica Teologica, Milão, Jaca Book, 1985, pp. 437, 438, 456). É preciso, portanto, estarmos dispostos a deixar-nos provocar pela totalidade do facto, que não consiste no inventário completo dos seus factores. Isto é reforçado por De Lubac quando, referindo-se ao Concílio, recorda: «Ora, também para o Concílio o objecto da Revelação é Deus propriamente dito, mas este Deus vivo interveio na história dos homens e nela deu-nos testemunhas, e todas essas testemunhas remetem para a Testemunha por excelência, a Testemunha fiel e verdadeira, que é a sua palavra encarnada. O primeiro objecto da minha fé não consiste numa lista de verdades, inteligíveis ou não [...]. Se esse objecto me é, no sentido etimológico do termo, incompreensível - e como poderia desejar que assim não fosse? -, se não o posso circunscrever como faria com uma criação do meu espírito, isso resulta do facto de que ele [...] é o abraço de uma Pessoa viva. [...] Isto é o essencial, o objecto revelado não é concebido como uma série de proposições [...], mas é reconhecido na sua unidade originária como o mistério de Cristo, a realidade de um ser pessoal e vivo» (H. de Lubac, «La rivelazione divina e il senso dell’uomo», in Opera Omnia, vol. XIV, Milão, Jaca Book, 1985, pp. 161-167).

Adverte ainda de Lubac: «É impossível dissociá-Lo do seu Evangelho. [...] O Padre Pierre Rousselot (†1915) tinha-o dito de forma admirável numa página escrita há mais de cinquenta anos: “O cristianismo está fundado num facto, o facto de Jesus, a vida terrena de Jesus. E os cristãos são, mesmo hoje, aqueles que crêem que Jesus ainda vive. É esta a originalidade fundamental da religião cristã”»(H. de Lubac, op.cit., pp. 33-34). Um facto é um critério ao alcance de qualquer pessoa. Um facto pode ser encontrado, pode-se embater num facto, desde que se esteja em condições de vê-lo. Como poderemos então captar o facto de Cristo para depois avaliarmos a sua pretensão? Começando a percorrer a memória e o anúncio que d’Ele fazem os que já foram alcançados por Ele.

Começaremos, então, por abordar a companhia dos primeiros que O encontraram.

 

 

2. Uma consideração metodológica

 

Antes de entrarmos no âmago da narrativa, é oportuno ter em conta a importância do método para estudar um objecto. Neste caso, o objecto consiste na veracidade de um testemunho a respeito de uma pessoa viva que pretendeu ser o destino do mundo, o Mistério entrado para fazer parte da história. Mantém-se presente, por isso, a unicidade de tal pretensão [cf. Apêndice: Primeira premissa].

 

Sintonia com o objecto no tempo

 

Chamamos a atenção aqui para a primeira das observações feitas por nós relativamente à obtenção d a certeza existencial: «Eu estarei tanto mais habilitado a ter uma certeza sobre ti quanto mais atento estou à tua vida, quer dizer, partilho a tua vida. Por exemplo, no Evangelho, quem foi capaz de compreender que era preciso confiar naquele Homem? Não a multidão que ia para se curar, mas quem o seguiu e partilhou a sua vida.» (L. Giussani, O Sentido Religioso, Lisboa, Editorial Verbo, 2000, p.35). Isto é, a necessária sintonia com o objecto que se quer chegar a conhecer é uma disposição viva que se constroi no tempo, na convivência. «Para ver que o aspecto singular recebe verdadeiramente o seu sentido pleno apenas numa totalidade que o ultrapassa é necessária a arte da visão da totalidade.[...] O arqueólogo é capaz de reconstruir a estátua a partir de um braço, o paleontólogo reconstitui o aminal a partir de um dente. O teórico da música poderia talvez reconhecer, do motivo particular de uma fuga, se ele faz parte de uma fuga dupla ou tripla e que estrutura rítmica devem mais ou menos ter o segundo e o terceiro tema... O mesmo é válido para o Evangelho.» (H.U. von Balthasar, A Percepção..., p. 480).

Como se deduz dos exemplos citados aquela «arte da totalidade» só pode ser obtida, para continuarmos na analogia artística, escutando muita música, vendo muitos quadros ou, para passar à analogia científica, reconstruindo muitas estátuas ou muitos animais fósseis. O que confirma a condição da «convivência» - ou seja, «tempo dado» - para os propósitos de obtenção daquela prerrogativa qualitativa que determina certeza.

 

A inteligência dos indícios, caminho da certeza

 

Voltamos agora à segunda das observações que dizem respeito ao método do conhecimento que conduz à certeza existencial. «Quanto mais alguém é intensamente humano, tanto mais é capaz de chegar a certezas sobre o outro a partir de poucos indícios, [...] tanto mais é capaz de confiar, porque intui os motivos adequados para acreditar em outra pessoa. [...] Isto pode ser irrazoável se não existem motivos adequados; é razoável se eles existem. [...] Se a razoabilidade residisse unicamente na evidência imediata ou pessoalmente demonstrada [...] o homem não poderia nunca agir, porque cada um teria sempre de refazer todos os processos do início» (L. Giussani, O Sentido Religioso, pp.35-36). Rousselot sublinha-o neste belo texto:

«No conhecimento natural, quanto mais a inteligência é ágil e penetrante, tanto mais lhe basta um indício ténue para induzir com certeza uma conclusão» (P. Rousselot, Gli Occhi della Fede, Milão, Jaca Book, 1977, p.57).

Também esta inteligência do mínimo indício, ainda que o homem disponha dela a um nível fundamental para sobreviver, precisa de tempo e de espaço para chegar a evoluir.

Uma inteligência que reconhece os indícios a fim de encontrar a certeza acerca de qualquer coisa fundamental para a sua existência é uma inteligência mais aberta do que aquela que a priori nega poder fazê-lo.

 

 

3. O ponto de partida

 

O Mistério escolheu entrar na história do homem com uma história idêntica à de qualquer homem: por isso entrou de modo imperceptível, sem que ninguém o pudesse observar e registar. Num dado momento, apresentou-se e, para quem o encontrou, esse foi o grande instante da sua vida e de toda a história. Partiremos então desse ponto, servindo-nos de uma página do Evangelho de S. João em que, como qualquer coisa de extremamente importante que se aponta no bloco de notas, é transcrito o que poderemos designar como o primeiro instante, o primeiro estremecimento perante o problema de Cristo tal como se apresentou na história. Jesus, até à idade em que começou a falar em público, vivia como qualquer outro rapaz e observava rigorosamente os ritos religiosos do seu povo. Naquela época, o nome de João Baptista estava muito difundido; falava-se dele como o profeta que há 150 anos faltava ao povo hebreu, o qual tinha sempre sido acompanhado pelo fenómeno profético. João Baptista, isto é, aquele que baptiza, interrompia finalmente aquilo que era vivido pelo povo como um desconcertante período de seca. Vinham de toda a Judeia e de toda a Galileia, para o ouvir falar. Hoje diríamos que ele era objecto de algo semelhante a uma peregrinação. Até Jesus foi ter com ele. Disse anteriormente que a página em que este facto é relatado se assemelha muito à página de um bloco de notas. Conserva-se uma frase, talvez truncada, e o apontamento resume uma infinidade de coisas que são dadas por supostas; o apontamento pretende ser um sinal para uma memória em actividade, para uma influência já vivida e não, como num romance, para acompanhar o leitor numa descrição detalhada que tem como ideal a recriação de uma continuidade até ao ínfimo pormenor para uma totalidade sem vazios. O romance tem um público, a nota tem um utilizador. A nota é concisa e, lendo-a, quem a usa imagina o que não está dito entre uma frase e outra, aquilo que um ponto final remete para a recordação. É o fenómeno da memória. A memória não retém o passado segundo a sequência ininterrupta dos factos, antes o grava em fragmentos.

Ora, esta página de que vamos falar exprime a memória de um homem que conservou no olhar e no coração, durante toda a vida, o instante em que a sua existência foi atingida e virada ao contrário por uma determinada presença. Conservou com lucidez esse instante até à velhice: mas naquele momento certamente não se deu conta da plenitude e da totalidade em que embatera. Como duas pessoas que se encontram normalmente e que depois, sem o terem previsto, acabam por casar-se; e um dia, mais tarde, na velhice dizem: «Lembras-te de quando nos encontrámos pela primeira vez, na montanha? Quem poderia imaginar o que ia suceder?».

Assim é esta página. Nela, cada ponto é completado por um desenvolvimento que é dado por adquirido pela pessoa que escreve. Pois bem, também Jesus tinha ido ouvir João Baptista. Suponhamos que era por volta do meio-dia e que, como de costume, havia um grupo de pessoas que se demorava a ouvi-lo. A certa altura, Jesus, que tinha ido ouvi-lo, levanta-se para se ir embora. E João, como que tomado pelo espírito profético, grita: «Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo». Os seus ouvintes estão provavelmente habituados a ouvi-lo explodir em frases nem sempre compreensíveis; aceitam-no, porque «É o profeta», mas não lhe prestam muita atenção. Contudo, há alguns que se impressionam com aquele grito e com aquele olhar fixo nessa pessoa. São dois homens que vêm de longe, dois pescadores da Galileia, e que estavam ali atentíssimos a tudo o que acontecia, como dois provincianos na cidade. Ora bem, aqueles dois, reparando em quem João Baptista olhava ao pronunciar a frase, seguem-no. «Jesus voltou-se e, vendo que o seguiam, disse: “Que quereis?”. E eles disseram-lhe: “Rabi, onde moras?». Jesus responde: “Vinde e vede”. Eles foram, viram onde Jesus morava e ficaram com Ele até à noite. Era por volta das quatro da tarde». É sugestiva a falta de lógica com que se relata que os dois ficaram com Ele até à noite e depois, sem mais, volta-se à hora em que começaram um relacionamento com Ele: às quatro da tarde. Um deles chamava-se André. Encontrando o seu irmão Simão, diz-lhe: «Encontrámos o Messias». Bem, duas pessoas vão a casa de um desconhecido, passam meio dia com ele, e não nos é dito o que fizeram ou o que disseram. O que sabemos é que um deles, ao voltar a casa, diz ao irmão: «Encontrámos o Messias». Há uma incrível naturalidade nesta narração. Eles ficaram lá até se esquecerem de que estava a chegar a hora em que os seus companheiros sairiam para pescar, à noite; ficaram lá e obtiveram aquela certeza que depois comunicaram. Não são descritos os passos intermédios. Mas eles devem ter feito alguma coisa: ouviram-no falar, fizeram-lhe perguntas, viram-no mover-se e agir em casa, ocupar-se dos seus afazeres, viram a sua mãe a preparar a comida. Nós só voltamos a vê-los na manhã seguinte, no lugar onde os barcos atracavam na praia, à espera daqueles que tinham ido trabalhar sem eles, e a primeira coisa que um deles diz ao irmão que está no barco é: «Encontrámos o Messias». Podemos imaginar as reacções e tudo o mais; o facto é que André leva Simão a Jesus. Pensemos em Simão, ali, cheio de curiosidade diante daquele indivíduo de quem o seu irmão dissera: «É o Messias». Sente-se olhado por Ele e ouve dizer: «Tu és Simão, filho de João; chamar-te-ás Pedro».

Os judeus costumavam atribuir uma alcunha para indicar o carácter de uma pessoa ou um facto importante ou singular que lhe tivesse acontecido. Assim, Pedro, através daquele olhar, sente-se compreendido até ao fundo do seu carácter, sólido, granítico. No dia seguinte, à tarde, os pescadores estavam na praia, a consertar as redes. Jesus tinha decidido ir à Galileia, e o caminho passava perto da praia. Simão e André devem tê-lo visto e terão dito aos outros: «Olhem, é aquele que vai ali a passar». E um deles, Filipe, impulsivo como o seu irmão Tiago, põe-se em pé e corre pelo caminho para vê-lo de perto; com muita familiaridade, Jesus diz-lhe: «Acompanha-me». Através de uma sucessão de certezas comunicadas com naturalidade, Filipe encontra Natanael e também ele lhe diz, tal como os outros tinham feito: «Encontrámos o Messias, aquele que foi prometido por Moisés! Chama-se Jesus, é de Nazaré, é filho de José». Natanael é o mais velho, o sábio do grupo, aquele que já não se deixa perturbar por nada. E diz a Filipe: «De Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?», que, de facto, não gozava de boa fama. «Vem e vê», replica Filipe. Jesus vê chegar Natanael e, voltando-se para ele, diz-lhe: «Eis um verdadeiro israelita em quem não há fingimento». A reacção de Natanael trai quase um instinto de defesa: «Como podes dizer isso, se nem sequer me conheces?». Jesus responde: «Antes de Filipe te chamar, já eu te tinha visto, quando estavas debaixo da figueira». E Natanael gritou: «Tu és o Filho de Deus, Tu és o Messias». Reparemos bem onde estão os sinais de veracidade, a natureza de memória desta página. Não diz, não descreve, pressupõe tudo, não selecciona num projecto orgânico os acontecimentos que devem passar para a história.

Esta página, tal como está formulada, testemunha-nos qualquer coisa que permanece válido desde então e enquanto o sol continuar a levantar-se sobre o mundo, hoje e amanhã; testemunha-nos a modalidade profunda e simplicíssima com a qual o homem compreendeu, compreende e compreenderá quem é Cristo. Pessoas que, sem jamais o terem imaginado, seguem aquele homem por curiosidade, ficam com ele até à noite, esquecendo-se até de ir trabalhar. Ficam tão impressionadas que referem como verdadeira uma afirmação talvez feita por Ele próprio, que respondia a todas as expectativas daquele tempo.

Não há proporção aparente entre aquela modalidade simplicíssima que estivemos a percorrer de novo, entre aquele homem que convida para ir à sua casa, e a certeza dos dois: «Encontrámos o Messias», certeza que depois se repercute em Simão, Filipe e Natanael. Encontravam-se diante de uma pessoa diferente das outras. Os que entram em contacto com ele sentem-se atraídos pela sua personalidade excepcional. A vida poderá talvez trazer outros detalhes, mas a impressão, a primeira percepção da diversidade singular permanece.

Na certeza de terem encontrado o Messias, tudo pareceria concluído. Mas isto é só o ponto de partida.

 

 

4. A trajectória da convicção

 

Vejamos agora como se confirmou o carácter excepcional do facto encontrado, como uma impressão, embora carregada de evidência, se transformou em convicção.

Depois dos encontros que descrevemos, Jesus continuava a viver como todos e, como sempre, em sua casa, dedicado às suas ocupações. Mas aqueles três ou quatro que ficaram tão impressionados com ele tornaram-se seus amigos, iam ter com Ele, e Ele ia pescar com eles. O segundo capítulo do Evangelho de João narra uma festa de casamento. Segundo o costume, o convidado levava os amigos; e como Jesus foi convidado para aquele casamento com a sua mãe, levou o grupo de novos amigos.

O milagre das bodas de Caná – esse estranho prodígio pelo qual, no fim da festa, a água se transformou em vinho – é uma das páginas mais significativas da concepção que Jesus tem da vida: qualquer aspecto da existência, mesmo o mais banal, é digno da relação com Ele e, portanto, também da sua intervenção. «Segundo o costume judaico, se a esposa se casava pela primeira vez, a festa durava uma semana. Preocupavam-se em ter vinho suficiente, porque durante a festa se bebia abundantemente. Era normal dar presentes de casamento, aliás, era lícito pretendê-los da maior parte dos convidados. Por isso, é compreensível o embaraço do dono da casa quando o vinho veio a faltar» (R. Schnackenburg, Il Vangelo..., p.460).

Maria, a mãe de Jesus, com uma atenção e sensibilidade que certamente a familiaridade com o filho lhe tinham ensinado (recordemos que ela devia ser só 15 ou 16 anos mais velha que Ele) percebe aquele embaraço e comunica-o a Jesus. E Ele intervirá. O evangelista conclui a narração desse episódio dizendo: «E os discípulos acreditaram nele»(Jo 2, 11). Essa frase poderia surpreender-nos. Não tínhamos visto, no capitulo anterior, que os discípulos já tinham «acreditado nele»? No entanto, essa é a descrição psicologicamente perfeita e precisa de um fenómeno comum a todos nós. Quando encontramos uma pessoa importante para a nossa vida, há sempre um primeiro momento em que o pre-sentimos; alguma coisa dentro de nós se curva à evidência de um reconhecimento iniludível: «é ele», «é ela». Mas só o espaço dado à repetição dessa documentação confere à impressão um peso existencial. Só a convivência, de facto, faz com que essa impressão entre mais profunda e radicalmente em nós até que, num determinado momento, se torna absoluta.«Os primeiros discípulos tinham reconhecido, mas não ainda inteiramente conhecido»(R. Schnackenburg, Il Vangelo..., p.455). E este caminho de «conhecimento» receberá muitas outras confirmações no Evangelho, isto é, terá necessidade ser muito sustentado, tanto que a expressão «os discípulos acreditaram nele» será repetida muitas vezes, até ao fim. Esse reconhecimento consistirá numa persuasão que acontecerá lentamente e nenhum passo sucessivo desmentirá os precedentes: também antes já tinham acreditado. A convivência confirmará aquela excepcionalidade, aquela diversidade que desde o primeiro momento os impressionara. Com a convivência, tal confirmação aumenta.

 

A descoberta de um homem incomparável

 

O primeiro grupinho vai-se habituando cada vez mais a acompanhar Jesus quando Ele começa a falar nas cidades, nas praças e nas casas. Um dia, Ele foi convidado para almoçar numa casa, em cuja entrada se comprimia uma pequena multidão para O escutar. Jesus detém-se, quase como se tivesse dificuldade em se separar de quem está atento às suas palavras. Na primeira fila estão as autoridades do lugar. Jesus tinha iniciado o seu itinerário público há pouco tempo, mas quem detinha um certo poder já estava alerta. Enquanto está a falar, chegam alguns homens que carregavam um paralítico deitado num leito. Eles queriam chegar ao pé de Jesus, mas o povo impede-os. Então, resolvem dar a volta a casa, subir com o doente ao telhado, onde abriram um buraco nas telhas para descer o paralítico para dentro de casa, por trás de Jesus. Este volta-se e olha para eles. Imaginemos como aquele homem se deve ter sentido, olhado por Jesus e ouvindo-o dizer: «Tem confiança, filho; os teus pecados te são perdoados». A reacção das autoridades presentes é imediata: ninguém pode perdoar os pecados, a não ser Deus. Mas Jesus, desviando o olhar do enfermo, fixa-o naqueles que o contestam: «O que é mais fácil dizer a um homem: os teus pecados te são perdoados ou levanta-te e anda? Para que saibais que eu tenho o poder de perdoar os pecados, eu digo-te: levanta-te, toma o teu leito e anda!». E ele levantou-se, entre os gritos compreensíveis do povo (cf. Mc 2, 1-12; Lc 5, 17-26). Experimentemos pensar naquele grupo de pessoas que durante semanas, meses e anos viram coisas deste tipo todos os dias. Aqueles primeiros amigos, e outros que se juntaram, assistem quotidianamente e cada vez mais à excepcionalidade, à exorbitância daquela personalidade.

O que impressiona não é só a repetição do facto de os prodígios chegarem a preencher os seus dias: As coisas, o tempo e o espaço obedecem-lhe sem nenhum aparato «mágico». Ele consegue-o com uma manipulação inteiramente «natural» da realidade, como quem é o senhor da realidade. O Evangelho observa que à noite ele estava «cansado de curar», tendo exercido ininterruptamente o seu poder sobre a realidade física. Mas não era essa a coisa mais impressionante. Nem mesmo a sua inteligência, capaz de confundir e encostar à parede a proverbial esperteza dos fariseus, como no episódio do tributo a César (Cf. Mt 22,15-22; Mc 12,13-17; Lc 20,20-26).

A sua inteligência aniquilava qualquer tentativa de surpreendê-lo em alguma falha. Trazem à sua presença uma mulher apanhada em flagrante adultério (Cf. Jo 8, 1-11) e perguntam-lhe se, na sua opinião, deveria ou não ser aplicada a Lei de Moisés, lapidando-a. Ele deixa-os falar, olhando-os com aquele olhar penetrante que descobria o coração dos homens, curva-se e com uma das mãos rabisca sinais no pó, como se dissesse: «As vossas palavras são palavras escritas na poeira». Os acusadores pensam que o apanharam e insistem para obter uma resposta. Ele levanta-se e diz: «Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra». Podemos imaginar a consistência do silêncio que se segue às suas palavras. Lentamente, todos se voltam e vão-se embora, enquanto ele permanece ali rabiscando as suas simbólicas letras na poeira e a mulher de pé, perturbada, sozinha diante dele. Jesus diz-lhe: «Ninguém te condenou?». E ela: «Ninguém». E Jesus então diz-lhe: «Nem eu te condeno. Vai e não peques mais». Nem essa inteligência consequente, essa dialéctica imbatível, representavam a impressão mais vertiginosa para aqueles que o acompanhavam sempre.

O maior milagre, que impressionava os discípulos todos os dias, não era o das pernas curadas, da pele purificada, da visão readquirida. O maior milagre era aquele de que já falámos: um olhar revelador do humano, a que ninguém podia subtrair-se. Não há nada que convença mais um homem do que um olhar que o atinja e reconheça o que ele é, que revele o homem a si mesmo. Jesus via o homem por dentro, ninguém podia esconder-se diante dele, diante dele a profundidade da consciência não tinha segredos. Como no caso da mulher da Samaria (cf. Jo 4,1-42), que numa conversa ao pé do poço ouviu-o contar toda a vida dela e narrou tudo isso aos habitantes da cidade como testemunho da grandeza daquele homem: «Ele disse-me tudo o que fiz!». O mesmo acontece no caso de Mateus, o publicano (cf. Mt 9, 9-13; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32) considerado um pecador público porque estava ao serviço do poder económico romano, a quem Jesus, ao passar, disse simplesmente: «Vem». E Mateus, reconhecido, tomado, aceite, deixou tudo e seguiu-o. A mesma coisa aconteceu com o chefe dos publicanos, o homem mais odiado de Jericó: Zaqueu (cf. Lc 19,1-10). Jesus, rodeado por uma grande multidão, ia a passar pela estrada e ele, de baixa estatura, sobe a uma árvore, curioso, para vê-lo. Quando Jesus passa por baixo da árvore, pára, olha-o e diz: «Zaqueu!», e acrescenta: «Desce depressa porque hoje quero ir a tua casa». O que é que teria acontecido com Zaqueu? O que é que o teria feito correr cheio de alegria? Projectos sobre as suas riquezas, desejo de restituir em abundância o que conquistara fraudulentamente, dar a metade dos bens aos pobres? O que é que o perturbou e mudou? Simplesmente foi acolhido e penetrado por um olhar que o reconhecia e o amava tal como era. A capacidade de apreender o coração do homem é o maior milagre, o mais persuasivo.

 

O poder e a bondade

 

É difícil que uma pessoa poderosa seja verdadeiramente boa. Com Jesus, porém, aqueles que foram suas testemunhas puderam ver aquele olhar não só poderoso e prodigioso, inteligente e penetrante, mas também bom. Como quando numa cidade, ele depara com um cortejo fúnebre e vem a saber que o morto é o filho único de uma mãe viúva (Cf. Lc 7, 11-17). Imediatamente a dor da mãe comove-o, e diz-lhe: «Mulher, não chores». O seu primeiro gesto é um acto de ternura; depois, restituir-lhe-á o seu filho vivo. Não lhe fora pedido nem o milagre nem o gesto de profunda compaixão.

Diversos textos evangélicos relatam a sua atenção com as crianças, a sua capacidade de se relacionar com elas (cf. Mt 19, 13-15; Mc 10, 13-16; Lc 18, 15-17). O evangelista Marcos diz: «traziam as crianças para que ele as acariciasse» e ele não se limita a um vago gesto de bênção: toma-as nos braços, reage contra quem quer impedi-lo e depois abençoa-as, recomendando a todos, para poderem entrar no reino dos céus, aquela atitude de positiva dependência do real que as crianças têm.

Jesus aprecia no homem aquilo que este lhe pode dar e não coloca obstáculos de qualquer natureza política, social ou cultural a esse seu acolhimento. Como no episódio narrado por Lucas (cf. Lc 7, 36-50), quando, durante uma refeição em casa de um fariseu, irrompe, certamente sem ser convidada, uma conhecida prostituta que rodeia Jesus de atenções, provocando a indignação do dono da casa, que se pergunta até que ponto seria possível dizer que Jesus era um profeta, visto que aceitava os perfumes e os gestos afectuosos de uma mulher daquele nível. A reacção de Jesus é imediata, e mostra ao fariseu Simão que acolheu os beijos e as lágrimas da mulher como sinal da fé n’Ele que ela podia testemunhar, desafiando comentários e conversas, ao contrário de Simão, que poderia muito bem, como anfitrião, ter-Lhe oferecido água para os pés empoeirados e o beijo da amizade, mas que não o fizera: «A ela, muito foi perdoado porque muito amou». Devemos recordar também a emoção até as lágrimas que tomou Jesus por ocasião da morte de seu amigo Lázaro, emoção misteriosa, mas sinal de uma íntima solidariedade com o coração humano e as suas vicissitudes (cf. Jo 11, 1-44).

 

 

5. O aparecimento de uma pergunta e a irrupção de uma certeza

 

Jesus mostra-se em todas as circunstâncias como um ser superior a todos os outros; há nele alguma coisa, um “mistério”, porque jamais se vira uma tal sabedoria, um tal poder, uma tal bondade. Essa impressão, como dissemos, torna-se aos poucos mais precisa apenas naqueles que se envolvem numa convivência sistemática com Ele: os discípulos. Nascia espontaneamente uma pergunta paradoxal: "Quem é?". Paradoxal porque eram bem conhecidas a origem de Jesus, a sua identidade, a sua família, a sua casa. Esta pergunta surgia inicialmente nos amigos e depois, muito tempo depois, também nos inimigos, que estavam muito bem informados sobre Ele. Esta pergunta demonstra que não seria possível dizer por conta própria aquilo que Ele realmente é. Só é possível constatar que Ele é diferente dos outros, merece a maior confiança, e quem o segue experimenta a plenitude de uma vida sem comparação. Assim, quando Jesus, num momento de dramática tensão, toma a iniciativa e rompe o silêncio perguntando, de forma provocadora, aos seus discípulos: «Vós também vos quereis ir embora?», Pedro, com a sua veemência, irrompe com a frase que resume toda a experiência de certeza que eles tinham: «Senhor, nós também não compreendemos o que dizes, mas se formos embora, a quem iremos? Só tu tens palavras que explicam, que dão sentido à vida» (Jo 6, 22-69).

 

 

6. Um caso de certeza moral

 

Psicologicamente, na frase de Pedro está presente aquela posição humana identificável com a expressão «certeza existencial ou moral». Aquela atitude é, de facto, profundamente racional. Com base na convivência com a excepcionalidade do ser e das atitudes de Jesus, aquele grupinho não poderia deixar de confiar nas suas palavras. Deveriam negar uma evidência mais persuasiva que os seus próprios olhos: «Se eu não posso crer neste homem não posso crer em mais nada». Certamente, para a multidão que ia vê-lo por curiosidade ou por interesse e depois se ia embora sem se confrontar com aquilo em que tinha embatido, o brilho daquela excepcionalidade não podia determinar nenhum juízo digno desse nome. O juízo exige que se enfrente a experiência incluindo nesta o tempo da sua «duração».

Por isso, para responder à pergunta de amigos e inimigos: «Mas então, quem és tu?» (cf. Mc 4, 35-41 para os amigos; cf. Jo 10, 24 para os inimigos), Jesus esperou que o tempo tornasse os discípulos mais seguros do seu apego e os inimigos mais pertinazes na sua hostilidade. Ou seja, Jesus esclareceu o Seu mistério quando os homens já estavam definitivamente fixados no Seu reconhecimento ou no Seu desconhecimento. A Sua revelação final revelou também «os pensamentos secretos dos corações» (cf. Lc 2, 33-35) como profetizara Simeão. A sua revelação final confirmou a extrema pobreza de espírito daqueles que acreditavam nele; e ofereceu o último e supremo pretexto para aqueles que, no seu coração, já tinham decidido recusá-lo. «Bem-aventurados os pobres de espírito» (Mt 5, 3), «se não vos tornardes como crianças, não entrareis jamais...» (Mt 18, 3).

 

 

Fonte: As origens da pretensão Cristã


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