«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
05
Dez 12
publicado por FireHead, às 04:03link do post | Comentar

 

Demorei todo este tempo a digerir aquelas notícias surgidas na comunicação social de que o Papa tinha “saneado” a vaca e o burro do Nascimento de Jesus!
 
Estou profundamente desiludido com a minha Igreja e com o “meu” Papa Bento XVI!
 
Então no Nascimento de Jesus não estava nenhuma vaca nem nenhum burro?
 
Andei eu desde garotinho a aprender esta verdade tão importante da “fé”, para agora, já sessentão, me virem dizer que é mentira, que não estava lá nem vaca nem burro!
 
E agora, em que acreditar?
 
Claro que tenho que pôr tudo em causa!
 
Será que Jesus nasceu mesmo?
 
Calculem que o Papa, (ó que desilusão), também vem dizer que Jesus não nasceu naquele dia, o que nenhum livro ou documento oriundo da Igreja tinha afirmado até agora, (pelos vistos para aqueles jornalistas)! É uma perfeita e chocante novidade!
 
Mas voltemos à vaca e ao burro.
 
É que me sinto profundamente abalado na minha “fé”!
 
Constrói uma pessoa a sua vida para Deus, alicerçada na presença de dois simpáticos animais no Nascimento do Salvador, e, ... zás, vem de repente o Sumo Pontífice, ainda por cima teólogo credenciado, e retira-me toda a confiança e esperança naquele Santo Nascimento.
 
Como acreditar agora em tudo o resto que me foi ensinado pelos meus pais, na catequese, nos colégios católicos que frequentei, nos retiros que fiz, no curso geral de Teologia feito no Seminário, em tantos Bispos e Sacerdotes que mo foram ensinando?
 
Relampeja-me a inteligência, (por inspiração “divina” certamente), e penso: o Papa é homem e como homem pode enganar-se!
 
Ah, o melhor é ir à fonte e verificar como é verdade a presença da vaca e do burro, no Nascimento de Jesus.
 
Abro pressurosamente a Bíblia, com um sorriso de verdade nos meus lábios, e antevendo já ansiosamente a minha lição ao mundo: O Papa enganou-se! A vaca e o burro estavam no Nascimento do Salvador conforme nos narra o Evangelho de...
 
Bem, a verdade é que Mateus nos descreve o Nascimento de Jesus falando num sonho que teve José e logo a seguir escreve que o Menino nasceu sem dizer onde e como.
 
Descreve ainda uma visita de uns Magos do Oriente, mas não explica onde e como encontraram o Salvador.
 
Não desisto e lanço-me a Marcos, que sendo o primeiro Evangelho descreverá com certeza todas essas particularidades do Santo Nascimento.
 
Mas a verdade é que Marcos, então, nem sequer fala do Nascimento, começando logo, calcule-se, com o Baptismo de Jesus.
 
Sem dúvida que Lucas, ainda por cima médico, deve ter descrito muito bem o Nascimento, ele que tanto gosta de descrições ricas em pormenores.
 
Pois, mas a verdade é que informa muita coisa, mas a única referência mais chegada a animais é que o Menino foi envolto em panos e recostado numa manjedoura. (Lc 2, 7)
 
A minha esperança reside agora em João, que sendo muito mais “teólogo”, não deixará com certeza escapar pormenores tão importantes para a edificação da fé de cada um, como a presença da vaca e do burro no Nascimento de Jesus.
 
Mas não, também não, nem uma referenciazinha sequer, mas apenas coisas sem importância tais como: o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. (Jo 1, 14)
 
Então e agora?
 
Afinal a tal “novidade” que o Papa nos deu estava escrita há muitos séculos atrás!
 
Pensando bem, talvez não seja matéria de fé, talvez não seja importante para a minha salvação, o facto de a vaca e o burro não estarem no Nascimento de Jesus.
 
Talvez seja só importante para a minha “alma de criança” apenas “ver” aqueles bonançosos animais num presépio cheio de amor.
 
Resolvida esta questão no meu intimo, ficam-me a preocupar os jornalistas apressados, que ficaram tão incomodados com esta inusitada “verdade” “proclamada” pelo Papa, (como eu aliás fiquei também como se lê acima), e por isso tento arranjar uma explicação.
 
Ora bem, costumamos dizer que Natal é sempre que o homem quiser e que o Natal é para todos!
 
Ora se é para todos, todos devemos estar representados no presépio.
 
Ora Jesus, é Jesus, Maria, é Maria, José, é José, os pastores, são os pastores, resta-nos a presença simbólica na vaca e no burro.
 
Eu por mim tanto me faz estar representado por qualquer um dos animais, pois sinto-me bem com isso! Quero é estar no presépio!
 
Deixo aos meus leitores a possibilidade de atribuírem ao animal devido, a representatividade dos jornalistas escritores de tais notícias, (com a sua ignorância incompetente), no presépio da vossa imaginação.
 
 
Marinha Grande, 3 de Dezembro de 2012
 
 
Nota:
 
Para que se entenda bem a manipulação vergonhosa que foi feita das palavras escritas pelo Papa no seu livro “A Infância de Jesus”, transcrevo os parágrafos em questão, chamando a maior atenção para o último, em que o Papa afirma claramente que os dois animais devem fazer parte do presépio.
 
Como se disse, a manjedoura faz pensar nos animais que encontram nela o seu alimento. Aqui, no Evangelho, não se fala de animais; mas a meditação guiada pela fé, lendo o Antigo e o Novo Testamento correlacionados, não tardou a preencher esta lacuna, reportando-se a Isaías 1,3: «o boi conhece o seu dono, e o jumento o estábulo do seu senhor; mas Israel, meu povo, nada entende.
 
Peter Stuhlmacher observa que provavelmente teve influência também a versão grega, (na Setenta) de Habacuc 3,2:«No meio de dois seres vivos […] tu serás conhecido; quando vier o tempo, tu aparecerás» (cf. Peter Stuhlmacher, Die Geburt des Immanuel, p. 52). Aqui, com os dois seres vivos, entende-se evidentemente os dois querubins que, segundo Êxodo 25,18-20, estavam colocados sobre a cobertura da Arca da Aliança, indicando e simultaneamente escondendo a presença misteriosa de Deus. Assim a manjedoura tornar-se-ia, de certo modo, a Arca da Aliança, na qual Deus, misteriosamente guardado, está no meio dos homens e à vista da qual chegou, para o «o boi e o burro», para a humanidade formada por judeus e gentios, a hora do conhecimento de Deus.
 
Portanto, na singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2; Êxodo 25,18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora ensina todos a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento.
 
 

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