«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
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Mar 12
publicado por FireHead, às 01:02link do post | Comentar

 

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Maria, que carrega consigo o Sol divino, tem a Lua debaixo dos pés: está marcada por Deus, é a “cheia de graça”, é mais alta que os céus que abrigam o Sol e a Lua, é celestial, ainda que habite em Nazaré e caminhe por Jerusalém.

 

Um dos significados mais presentes na figura da Lua é o da morte e ressurreição, porque a Lua nasce, cresce, alcança um auge, mingua e “morre” para “ressuscitar” três dias depois. Não foi difícil ligar esse simbolismo ao papel de Maria: gerar Aquele que passará por todo o ciclo da vida e da morte, mas ressurgirá, refazendo a vida. Maria, imaculada, que carrega a Vida divina, tem o pequeno ciclo da vida e morte humanas sob os seus pés: é senhora e dona da vida e da morte.

 

(...)

 

Mãe e virgem ao mesmo tempo era Maria. A Lua sob os seus pés lembra o duplo e inseparável privilégio de Maria: ser mãe, permanecendo virgem.


A Lua depende do Sol, mas brilha soberana no meio da noite. Maria depende de Cristo, em função de cuja maternidade recebeu todos os privilégios, mas, exactamente por causa de Cristo-Sol, não é afectada pelas trevas do pecado, brilha límpida com a luz que lhe vem da maternidade divina.

 

Todos esses símbolos e outros estão contidos na frase do Apocalipse, que inspirou os escultores: “Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do Sol, com a Lua debaixo dos pés” (Apocalipse 12,1). Nos primeiros séculos do Cristianismo, essa mulher vestida do Sol era interpretada como sendo a Igreja, que recebe toda a luz de Cristo. Aos poucos, a mulher revestida de sol passou a significar Nossa Senhora.

 

(...)

 

Maria é a senhora dos tempos, a mãe das mães e a virgem das virgens, humana mas santíssima, terrena mas elevada acima dos astros e no mais alto dos céus, aquela que resplandece na plenitude da luz da graça sem jamais ter conhecido a escuridão do pecado.

 

(...)

 

O simbolismo da serpente, talvez, seja mais fácil de entender. É preciso recordar a página do Génesis, onde se conta, também em forma de figuras, a criação e a queda dos nossos primeiros pais. Deus criou Adão e Eva e os pôs num jardim, em cujo centro existia a árvore da vida (símbolo da imortalidade) e da qual Deus proibira comer os frutos. O Demónio, em forma de serpente, induziu Eva a colher e comer um dos frutos da árvore proibida. Em consequência, eles perderam a imortalidade: “sois pó e ao pó tornareis” (Génesis 3,19).

 

Sobre a cobra maldita Deus pronunciou, então, uma profecia. Uma profecia, que foi traduzida de diferentes maneiras. Na Bíblia Hebraica se diz: “Porei inimizade entre a tua descendência e o descendente dela”. Um substantivo masculino e no singular. Os Setenta Sábios, que passaram o texto para o grego, conservaram o masculino e o singular. Mas São Jerónimo, ao passar o texto para o latim, escreveu “entre a tua descendência e a descendência dela”, usando um feminino generalizado. Com isso, a frase que segue tem sentido ambíguo: “ela te esmagará a cabeça”. ‘Ela’ está no lugar de ‘descendência’ ou de ‘mulher’? Muitos Santos Padres atribuíram o ‘ela’ a Nossa Senhora. Outros mantiveram o hebraico e viram no ‘descendente’ (masculino e singular) uma alusão a Jesus Cristo.

 

Os pintores e escultores trabalharam subtilmente o tema: ora é Maria que esmaga a serpente ou enterra o dardo na cabeça do dragão, ora é o Menino, mas, nesse caso, a mãe tem o seu pé sobre o pé do Menino.


De qualquer maneira, a serpente aos pés de Maria, nos quadros da Imaculada, refere-se ao Demónio enganador do paraíso. Jesus é o novo Adão. Maria é a nova Eva. Ambos são vitoriosos sobre o Demónio. As tentações de Jesus no deserto confirmam a vitória (Lucas 4,1-13). No paraíso terrestre, o Demónio levou Eva e Adão à morte. Agora, o Diabo e a morte são derrotados e novamente a criatura humana se reveste de imortalidade (1 Coríntios 15,53), torna-se participante da natureza divina (2 Pedro 1,4). Com Cristo, Filho de Deus, fruto bendito do ventre de Maria, o homem reconquistou o paraíso perdido e ganhou o título de cidadão do céu.

 

A serpente debaixo dos pés de Maria Imaculada pode ter outros significados interessantes. Por exemplo, se nos lembrarmos que a cobra vive em buracos escuros, mas gosta de expor-se aos raios do Sol, ela bem poderia simbolizar o binómio “trevas/luz”, tão acentuado por João Evangelista. Maria, sem pecado, está inteiramente fora das trevas do pecado e é portadora daquele que se declarou a “luz do mundo” (João 8,12), o “Sol que vem do alto para iluminar os que estão sentados nas trevas e nas sombras da morte” (Lucas 1,79).

 

A cobra também troca de pele todos os anos. Por isso ela foi comparada nas culturas antigas à Lua que, sempre de novo, se refaz. A cobra aos pés de Maria poderia ter o mesmo sentido da Lua, significando que Maria Imaculada é portadora daquele que é o Senhor da vida e da morte e transformou a morte em vida.

 

Gostaria de lembrar mais um possível sentido para a serpente sob os pés da Imaculada Conceição. O Salmo 91, que celebra a protecção de Deus aos que O amam, e que foi citado pelo Demónio nas tentações do deserto (Lucas 4,11), no versículo 13 fala do servo de Deus que poderá andar sobre víboras e dragões. Lucas, o evangelista mariano, põe na boca de Jesus, quando os 72 discípulos retornaram da missão, estas palavras: “Dei-vos poder para pisar em serpentes e elas não vos fizeram mal” (cf. Lucas 10,19). Também Paulo, na carta aos romanos, retoma a figura para dizer que os sábios diante do bem e os íntegros diante do mal esmagarão Satanás debaixo dos pés (Romanos 16,20). Ora, Maria Imaculada foi protegida por Deus desde antes de sua concepção, amou ternissimamente a Deus com amor de mãe, de filha e de esposa, conservou-se íntegra diante do mal e do pecado. Por tudo isso, pisa na cabeça da serpente, símbolo do mal, da mentira e das insídias.

 

Em muitos quadros e imagens da Imaculada, em vez da serpente, encontramos o dragão, um animal imaginário, presente em todas as grandes culturas antigas, inclusive na Bíblia. O dragão sempre simbolizou as forças hostis à divindade. Em todos os mitos e lendas, a vitória sobre o dragão significava a vitória sobre as trevas, a maldade, o caos. O Apocalipse fala do dragão que perseguiu impotente a mulher que acabara de dar à luz um Menino (Apocalipse 12,4). Esta passagem do Apocalipse, ainda que passível de outras interpretações, aplica-se muito bem a Nossa Senhora e a seu Filho Jesus, ambos imaculados, ambos santíssimos, ambos vencedores do mal e da morte.

 

(...)

 

Os dois símbolos que lhe estão aos pés a proclamam sem nenhuma sombra de pecado, santíssima, cheia da graça divina, vitoriosa sobre o mal, o Demónio e a morte, mãe fecunda e virgem consagrada, portadora de vida e salvação, senhora vitoriosa e defensora da humanidade.

 

 

Frei Clarêncio Neotti, OFM

in "Nossa Senhora da Conceição Aparecida"

 

Fonte: franciscanos.org.br


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