«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
23
Mar 12
publicado por FireHead, às 17:14link do post | Comentar

Tive uma vez quinze anos!

 

Fazia alguns meses que me tornara mulher!

 

Lembro-me, apesar de haver passado tanto tempo e tantas coisas, a ternura da minha mãe, Ana, e a suave firmeza do meu pai, Joaquim.

 

Aquele dia era sábado. O meu pai tinha ido à sinagoga para ouvir, como sempre, a leitura de um texto da Torá e a explicação que dava o rabino. A minha mãe e eu também íamos e ficávamos bem juntas, respeitando o costume que separava os homens das mulheres. Nesse dia não pudemos comparecer e aguardámos a volta de Joaquim, para que nos dissesse o que havia ocorrido.

 

O sol já se recolhia e o sábado terminava quando o meu pai nos transmitiu o texto que fora lido na sinagoga. Era do profeta Isaías, um dos meus favoritos. Com voz solene e mais cantando do que recitando, Joaquim disse:

 

“Que belos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz boas novas, que anuncia a salvação, que diz a Sion: ‘Já reina teu Deus! Uma voz! Teus vigias elevam a voz, emitem gritos de júbilo, porque com os seus próprios olhos vêem o retorno de Yaveh a Sion. Prorrompei em uníssono em gritos de júbilo, solitários de Jerusalém, porque Yaveh consolou o Seu povo e resgatou Jerusalém’.”

 

Independentemente disto, o meu pai explicou-nos o que havia dito o rabino do nosso povoado, Asaf, filho de Coré. Tratava-se de um homem amável, idoso, porém sempre carinhoso com todos, especialmente com as crianças, por isso sempre o ouvi com dedicação, interrompendo as brincadeiras dos meus primos quando ele passava, pois todos queriam beijar a orla do seu manto.

 

Joaquim disse a mim e à minha mãe que naquela manhã Asaf estava preocupado. As notícias que chegavam das cidades que abrigavam destacamentos romanos não eram boas. Falava-se de tumultos entre alguns dos nossos e, inclusive, se comentava que na longínqua Jerusalém havia muita inquietação e que alguns rabinos haviam dito que a chegada do Messias poderia estar próxima, segundo se podia deduzir de certa profecia que fazia referência ao Seu nascimento em Belém, a cidade de David. Asaf, tranquilo como era, não desejava alarmar os seus ouvintes, entre outras coisas, porque, como ele mesmo lembrou naquela manhã, notícias semelhantes se produziam desde que os romanos ocuparam Israel e mesmo antes, sob a dominação dos sírios de Antíoco. Sem dúvida, comentou o meu pai, naquela ocasião a voz do nosso rabino parecia menos tranquila que de costume e as suas recomendações sobre calma eram menos convincentes.

 

Algo se preparava e pessoas como Asaf, como meu pai ou como a minha mãe, intuíam isso sem saber exactamente do que se tratava. Por isso o rabino escolhera o texto de Isaías; para transmitir uma mensagem de paz e esperança aos habitantes da nossa aldeia. Se o Messias estava por vir, como alguns diziam, deveríamos manter a calma, porque a Sua chegada seria a do príncipe da paz. Qualquer outra atitude seria, no fundo, uma falta de confiança no Todo-Poderoso, em cujas as mãos estão sempre as nossas vidas. Estas coisas sempre entusiasmavam a minha mãe Ana e a mim. Ouvíamos Joaquim, apertadas uma contra a outra junto ao fogo do nosso lar, numa noite de Nisan, bela e suavemente fresca. Nós as duas acreditávamos firmemente no que a Torá e os outros livros sagrados ensinavam, e Ana tinha muito cuidado ao ensinar-me o significado da fé em Yaveh, o amor e o respeito que Lhe devíamos, e a necessidade de observar fielmente a Aliança que Ele havia pactuado com o nosso povo. Por isso não nos surpreendia nada do que pudesse ocorrer, pois estávamos convencidas de que, a um só gesto de Deus, nem as poderosas legiões romanas poderiam enfrentar o Messias quando Este surgisse no mundo. Aguardávamos a Sua chegada e rezávamos todos os dias para que isto ocorresse o mais cedo possível, mas nunca antes do tempo indicado, do momento em que a vontade do Todo-Poderoso previra.

 

Eu, mais do que minha mãe, por causa dos meus quinze anos recém-completados, gostava de sonhar com o Messias. Também o faziam minhas companheiras e falávamos muito Dele nos nossos encontros, principalmente na fonte do povoado, quando íamos lavar as nossas roupas no arroio. Porém, eu desejava ardentemente que esse Messias fosse um mensageiro da paz e do amor de Deus, dois sentimentos que os meus pais sempre me inculcaram, embora quase todas as minhas amigas se deliciassem em falar de palácios e de grandes festas. Situação pior era com os meus primos, os quais tive que enfrentar em mais de uma ocasião, pois para eles o Messias que tanto se aguardava não era outra coisa senão um líder militar. Quando eu lhes falava das qualidades espirituais que adornariam a Sua alma, eles zombavam de mim dizendo que eu era uma menina incapaz de entender o que convinha ao povo de Israel, acreditando que um Messias bondoso fosse capaz de expulsar os romanos da nossa pátria.

 

Enfim, naquela noite de sábado de Primavera, a minha mãe e eu ouvíamos atentamente Joaquim, que nos estava contando a prédica do rabino Asaf. Tudo ia bem e se desenrolava conforme gostavam meu venerado rabino e meus pais, até que Joaquim disse algo que nos surpreendeu. Disse que, chegando a um certo momento da sua exortação, Asaf pareceu emudecer. Lia parágrafo por parágrafo o texto de Isaías, explicando-os em seguida até que, de repente, ao ler o que estava escrito empalideceu, fechou o livro, sentou-se e se pôs a chorar.

 

Vários homens do povoado, entre eles o meu primo José, com quem os meus pais me haviam comprometido em matrimónio, e o meu próprio pai, se acercaram de Asaf, por não conseguirem extrair dele palavra alguma. A assembleia se dissolveu e não se parou de falar sobre o assunto, todos intrigados com o que tinha lido Asaf. Como ninguém possuía o livro de Isaías, não se podia consultar o texto que tanto havia impressionado o nosso bom rabino, e assim decidiram recorrer a um homem de Caná, que morava no nosso povoado e que não fora aquela manhã à sinagoga porque estava de cama com febre. Era um mestre no conhecimento das Sagradas Escrituras e recitava de memória passagens inteiras, além de ser amigo da minha família.

 

O meu pai, consciente do aspecto intrigante que estava mostrando no seu relato, fez uma pausa e olhou-nos atentamente. Nós as duas estávamos boquiabertas, não assustadas, porque Ana, minha mãe, tem tanta fé em Deus que duvido que algo consiga abalar seu ânimo. Mas estava muito interessada. Joaquim, depois de um momento de silêncio que aumentou a expectativa, disse-nos que chegando à casa de Adonias, o cananeu, e a ele foi tudo explicado. Quando lhe disseram qual era o texto que Asaf havia lido, Adonias fechou os olhos e começoua a murmurar em voz baixa, até que chegou ao ponto do texto onde o rabino o interrompera. A partir daí, já em voz alta, acrescentou:

 

“Quem deu crédito a essa notícia? E o braço de Yaveh a quem se revelou? Cresceu como um novo broto diante dele, como raiz em terra árida. Não possuía aparência nem presença. Vimo-lO e não tinha imagem que pudéssemos estimar. Desprezível e refugo dos homens, varão de dores e conhecedor de doenças, como alguém diante de quem se oculta o rosto, desprezível, e não O percebemos. E contudo era as nossas doenças que carregava e as nossas dores que suportava! Nós O deixámos ser açoitado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi ferido por nossas rebeldias, punido por nossas culpas. Ele suportou o castigo para nos trazer a paz e com as Suas contusões fomos curados. Todos nós erramos como ovelhas, cada um seguiu o seu caminho, e Yaveh descarregou sobre Ele toda a nossa culpa. Foi oprimido, se humilhou, e não abriu a boca. Como um cordeiro levado à degola e como uma ovelha que frente aos que a tosquiam fica emudecida, Ele também não abriu a boca.”

 

Naturalmente que o meu pai pudera lembrar para nós todo aquele longo parágrafo porque o havia escutado e meditado sobre ele muitas vezes, e bastou Adonias iniciar sua declamação para que o acompanhasse em viva voz.

 

Joaquim também nos disse que alguns dos que foram consultar Adonias não quiseram dar crédito ao que dizia, porque isto poderia significar que o Messias anunciado pelo profeta Isaías não era um Messias Rei, um Messias libertador do jugo romano, e até poderia dar a entender que Ele fora traído pelo próprio povo, o que era absurdo e impossível.

 

Desse modo, divididos e confusos, saíram todos da casa do cananeu, mais preocupados ainda do que quando haviam entrado.

 

O meu pai e José, meu querido primo e quase meu marido, voltaram juntos, subindo a encosta até nossa casa, onde José deixou o meu pai, não sem antes pedir-lhe que me saudasse em seu nome, o que sempre me fazia corar. O problema é que os dois estavam de acordo em reconhecer que Adonias não se equivocara de texto e que, possivelmente, o Senhor Todo-Poderoso enviara algum sinal ao nosso rabino Asaf, que o surpreendeu a ponto de fazê-lo emudecer.

 

“Estamos em tempos sublimes, tempos de Deus. Não devemos temer, porque o Senhor nunca abandona o Seu povo, porém devemos orar intensamente para que a cada instante se faça a Sua divina vontade.”

 

Assim disse o meu pai, dando por terminado o relato e indicando-nos em seguida o horário tardio, próprio para se deitar. Obedeci imediatamente e fui ajudar a minha mãe nas últimas lidas da casa, e logo me encaminhei ao meu quarto.

 

Não podia dormir. Lá fora cantavam os grilos. A lua era lindíssima e a sua luz se filtrava pela tela de tecido que encobria a janela do meu quarto. Não havia vento e eu estava tranquila, estranhamente tranquila, pois apesar do que o meu pai nos havia contado, não me sentia inquieta. No entanto, não podia dormir.

 

Assim, comecei a rezar. Algo dentro de mim me dizia que o Senhor estava esperando uma palavra minha. Eu a pronunciei em seguida e lhe disse que se Ele queria enviar um Messias diferente daquele que todos esperavam, para mim era igual. Eu não queria que a Sua vontade se adaptasse aos meus desejos e sim o contrário. Disse-lhe também que me dava muita pena o facto de que o Messias ia ser entregue em sacrifício por nossos pecados, como um daqueles cordeiros que são mortos na noite de Páscoa, quando se comemora o gesto que marcou a origem do nosso povo, a acção de Deus contra os primogénitos dos egípcios.

 

Eu não entendia como podia vir um Messias que fracassasse no final. Os argumentos das minhas amigas, dos meus primos e dos meus antepassados, à excepção dos meus pais, pareciam-me cheios de razão. Achava lógico que Deus interviesse a nosso favor, como já havia feito no passado, na época dos Juízes ou dos Reis, quando produziu um chefe poderoso que devolveu a liberdade e a grandeza da nossa pátria. Porém, como a meus pais, não me dava prazer algum imaginar cenas de guerra e violência, de sangue e desolação que forçosamente acompanhariam essa liberdade, por mais gloriosa que fosse. Além disso, e agora a coisa já se complicava, parecia-me estranho e mais incomum ainda, que o Messias tivesse que padecer em nome de todos, sendo Ele inocente e nós culpados.

 

Sentia fortemente que, naquela noite, o Senhor esperava algo de mim. A minha resposta foi positiva. Disse-lhe que, por mim, as coisas se fariam de acordo com a Sua vontade e não seguindo os meus cálculos ou previsões. Portanto, se Ele, Yaveh, resolvera que as coisas iriam se desenvolver do Seu modo, eu aceitaria e, como em ocasiões anteriores, ofereci-me para ajudar no que fosse possível, sabedora, de antemão, que tudo o que eu fizesse seria pouco, jovem como era e a ponto de casar-me brevemente.

 

Foi quando tudo ocorreu.

 

Não havia pronunciado o meu último sim, quando o meu pequeno quarto se encheu de luz. Estava ajoelhada, com a minha roupa modesta presa acima dos joelhos para não rasgá-la, quando ele apareceu.

 

Confesso que não me assustei. Bem, me assustei sim, mas se tratava de um medo que não era medo.

 

O facto é que ali estava ele. Belo e luzidio, doce e cheio de paz. Nunca me ocorreu que fosse um enviado do Maligno, pois a paz que dele emanava era representativa apenas de Deus. Aliás, este fruto eu já saboreava antes, quando rezava e passava as longas horas livres das tardes de sexta-feira entre as oliveiras ou no meu quarto. Essa mesma paz, a de Deus, encontrava profundo eco em mim. A Sua paz e minha paz se entrelaçavam, como se no meu interior nunca tivesse existido outra coisa senão a harmonia divina, uma paz semelhante a que esse mensageiro do Senhor emanava.

 

Estou-me referindo ao anjo Gabriel.

 

Não só era belo e cheio de paz, mas também falava. Se tivesse permanecido calado, talvez eu tivesse brincado com ele, pois era grande a minha sintonia entre a sua alma e a minha tranquilidade. Porém, quando começou a falar assustei-me um pouco. Não porque a sua voz fosse feia, mas o que me disse me deixou perplexa.

 

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo”, foram suas primeiras palavras.

 

Naturalmente era de provocar espanto. O que significava “cheia de graça”? Não estávamos todos sob o efeito do pecado original, como nos ensinavam na sinagoga? Não seria, pois, um convite à soberba? Não me havia deixado enganar com a sua aparente espiritualidade?

 

Ele se deu conta em seguida e tentou tranquilizar-me: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Irás conceber no teu ventre e darás à luz um filho, a quem darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado “Filho do Altíssimo”. O Senhor lhe dará o trono de David, seu pai. Reinará sobre a casa de Jacó pelos séculos e seu reino não terá fim”.

 

Na verdade não eram palavras muito tranquilizantes. Dizia-me “não temas”, mas o que vinha em seguida era mais sério e preocupante ainda.

 

Sem dúvida, acostumada a responder com um “sim” a tudo o que Deus me pedia e já com a certeza íntima de que aquele era um mensageiro Seu, nem pensei no problema em que me metia, nem nas consequências que poderiam resultar do facto de eu já estar de uma maneira ou de outra, casada, ou pelo menos comprometida com José. Já lhe ia dizer que sim quando o sexto sentido que possuem as mulheres me levou a fazer uma pergunta, uma espécie de prova para cretificar-me de que, em verdade, o Senhor Todo-Poderoso era quem enviava aquele mensageiro. perguntei-lhe: “Como ocorrerá isso, se eu não conheço varão?”

 

Não se tatava de algo sem importância. Para mim isto era fundamental. De facto, ou se resolvia esse ponto, deixando claro que eu não me veria forçada a fazer nada que não tivesse de acordo com os preceitos de uma jovem honesta, ou não poderia estar segura de que o que me oferecia vinha directamente de Deus. Deus não poderia contradizer Deus. Deus não poderia ter semeado em minha alma, durante toda a minha vida, uma necessidade de pureza e de consagração para depois conduzir-me por caminhos contrários. E como aquilo que eu recebera sem dúvida era coisa Sua, o que ocorria agora, se também vinha de Suas mãos, forçosamente deveria estar em perfeita sintonia com o anterior.

 

O anjo Gabriel soube dissipar todas as minhas dúvidas: “O Espírito Santo descerá sobre ti”, afirmou, “e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso Aquele que nascer será santo e será chamado Filho de Deus”. Estas últimas palavras colocaram tudo no seu devido lugar. Eu continuaria mantendo a minha virgindade e minha pureza de alma e de corpo, sem ter que passar por situações que causavam repugnância não só a mim como a toda e qualquer moça honrada. É que os meus pais haviam dito muitas vezes que eu nunca devia aceitar isso de que os fins justificam os meios, por mais que fosse um lema muito usado, principalmente na hora de realizar negócios lucrativos ou quando se queria justificar a violência contra os romanos.

 

O fim era neste caso o melhor, ou ao menos assim se apresentava: deixar que nascesse ninguém menos do que o Messias. Porém eu queria assegurar-me de que também os meios e a forma como aconteceriam os factos seriam correctos. Basicamente, se assim não ocorresse, eu saberia de imediato que por trás disso não se encontravam os desígnos de Deus. O Senhor não se contradiz – não diz hoje “sim” e amanhã “não”. Ele é sempre um “sim” grande, nobre e permanente. Além do mais, a situação não era tão diferente do assunto sobra o qual eu estava meditando antes que o enviado de Deus enchesse com a sua luz o meu pequeno quarto. O povo de Israel, meu povo, queria um libertador a todo custo. A meus pais e a mim própria parecia que neste “a todo custo” havia algo que não se encaixava muito bem com a bondade divina. Nós também desejávamos que viesse o Messias para nos libertar do jugo estrangeiro, porém não a qualquer preço, não ao preço do ódio, da guerra, da violência.

 

Ainda estava tecendo estas conjecturas quando o anjo voltou a falar. Quem sabe pensava que eu tinha dúvidas. O facto é que acrescentou: “Olha, também Isabel, tua parente, concebeu um filho em sua velhice e este já é o sexto mês daquela que chamam estéril,  porque nada é impossível a Deus.

 

Não havia necessidade deste argumento, porque eu já estava decidida. De modo que, para evitar que suspeitasse de minha vontade de aceitar o que Deus me pedia, precipitei-me a dizer-lhe o que gritava o meu coração desde o primeiro momento, uma espécie de consentimento matrimonial, um “sim, quero”, que saía de mim com tanta força que me assustou, porque eu não estava acostumada a ímpetos semelhantes. “Eis aqui a Escrava do Senhor”, disse-lhe, “faça-se em mim segundo sua palavra.”

 

Então Gabriel foi-se embora. Sorriu-me e se foi. Senti algo como um beijo nas minhas mãos, como o roçar das asas de um pássaro suave e doce. Porém, o melhor foi o seu sorriso. Durante todo o tempo que durou nosso encontro, pareceu como se ele estivesse nervoso, mais ainda do que eu. A sua atitude era de expectativa de alguém que teme que possam duvidar do seu pedido e se joga todo nele. Depois compreendi que não só ele mas também a criação inteira dependia das minhas palavras naquela noite de Primavera. Todos aguardando que uma insignificância como eu, uma menina de quinze anos que apenas começava a ser mulher, desse permissão ao Todo-Poderoso para inaugurar uma nova criação, uma nova aliança, uma história de amor definitiva e eterna com um povo na qual cabiam todos os homens.

 

O facto é que eu disse “sim”. Disse ao mensageiro para levar o recado ao Senhor. Não pensei demais nas palavras exactas. Foram as que me saíram da alma naquele momento. Sabes como são estas coisas: se te dessem tempo, comporias uma bela oração ou, até mesmo, a encomendarias a um rabino ou a um homem versado em letras. Mas assim de repente, a uma pobre adolescente de aldeia só ocorreu usar a linguagem simples e vulgar a que estava acostumada, sem adornos nem sofisticação. Por isso falei em “escrava”. Eu não era escrava. Os meus pais eram livres e tínhamos a dignidade e desejos de liberdade que sempre caracterizaram o nosso povo, indómito entre os indómitos e muito zeloso de suas tradições. Eu era e sempre fui contra a escravidão, por mais que algumas pessoas do povoado tivessem escravos em suas casas e que outros dissessem que sem a existência dos escravos nada funcionaria sob o ponto de vista económico. Em minha casa, isto de usar maus meios para bons fins nunca nos agradou, como nunca nos chegou a convencer o “mal menor” de que falavam alguns, geralmente para justificar algo injustificável.

 

Contudo, na hora de expressar o meu consentimento, falei aquilo de escrava. Pode parecer uma bobagem, um contra-senso inclusive, uma vez que eu era contra a escravidão. Porém, tão pouco me arrependo, apesar de terem-se passado tantos anos e de eu ter meditado muito sobre isso. Não só respondi prontamente, sem pensar, como também, se agora tivesse que repetir tudo de novo, eu diria o mesmo.

 

Quero ser escrava do Senhor. Somente do Senhor, isto sim. Porém, com todas as minhas formças. Ser a Sua escrava não significa não possuir dignidade nem carecer de liberdade, mas sim colocar minha liberdade ao Seu serviço e confiar a minha dignidade aos Seus cuidados. Ele sabe cuidar de mim muito mais do que eu mesma. Não fosse assim, ai estão tantos que se dizem livres e no entanto são escravos do vinho ou de vícios muito piores. Eu vivo por Ele e para Ele. Fui eu que escolhi, ninguém impôs nada, quando me foi pedida a permissão para que pudesse nascer o Messias. Porém, devido à liberdade que tenho, digo-Lhe: aqui me tens, sou Tua escrava, podes fazer de mim o que quiseres, me abandono a Ti, utiliza-me para os Teus fins e só peço que sejas Tu a cuidar de mim. Sou obra das Tuas mãos e não desejo outra coisa que ser espelho que reflicta a Tua glória e o Teu prestígio.

 

Sou a escrava do Senhor. Sou Sua esposa. Sou a Mãe do Seu Filho. Porém, esta é outra história, querido João, que te contarei amanhã.


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