«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
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Jun 16
publicado por FireHead, às 05:03link do post | Comentar

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A UTOPIA

Desencantado com a Europa, More imaginou uma terra marcada pela felicidade entre os homens, uma ilha com novas formas ideais de organização e relação dos homens em sociedade, influenciadas por um humanismo de raiz cristã. Para expressar o conceito associado à “realidade” que concebeu literariamente, de ruptura com a realidade do seu tempo, cunhou a palavra “Utopia”, inexistente até então. Com ela designou a ilha habitada pelos homens e com ela deu nome ao livro em que a descreve. Com ela quis dizer que a ilha estava localizada em nenhures, que era um “não-lugar”.

Concentremo-nos hoje na utopia. Isto porque, em 2015, se celebraram os 500 anos da morte de Thomas More.

Claro que o conceito de utopia já existia. A ideia de Thomas More de criar uma sociedade perfeita vem de uma tradição que, na sociedade ocidental, remonta a Hesíodo (cerca de 700 a.C.) e ao conceito da Idade do Ouro em que os homens viviam livres de sofrimento, em paz e harmonia. Nesta era, os humanos não envelheciam, mas morriam pacificamente. A Primavera era eterna e as pessoas eram alimentadas com frutos silvestres e mel que gotejava das árvores, sendo que a terra produzia comida em abundância.

É esta uma utopia forjada sobre um fundamento no presente, degenerado ou distópico – a Idade do Ferro – degeneração semelhante à queda ou desobediência adâmica no Paraíso Primeiro, enunciado no livro dos Génesis.

 

AS UTOPIAS DESAFIAM O PRESENTE

É importante notar que a imagem da sociedade humana perfeita se clarifica e oferece enorme plasticidade, que abarca as suas antigas origens e a tradição judaico-cristã, envolvendo feições mais místicas ou mais políticas, mas sempre sociais e do domínio da antropologia filosófica.

Além disso, a utopia manifesta-se com permanência em vários autores e reveste múltiplas cambiantes, desde o Paraíso, à Idade do Ouro, à República ou à Atlântida platónicas, à Cidade de Deus de Santo Agostinho, à Idade do Espírito Santo de Joaquim de Fiore, à Cidade do Sol de Campanella, à Utopia de More…

No seu conjunto, estas cambiantes de utopias são formas de desafiar o possível, de resolver os desafios do presente. Digamos que se trata de utopias para serem realizadas, para um futuro outro e melhor! Suspensas no tempo imóvel da cidade ideal, ao abrigo da história, na clausura do seu espaço, as sociedades utópicas funcionam como contraponto ao mundo de injustiças, logo essas criações alegóricas tem uma função pedagógica e política e visam morigerar o porvir pela intervenção no presente.

 

UTOPIA OU EUTOPIA?

Na lógica deste contexto, aos que entenderiam que uma ilha da felicidade merecia a designação de “eutopia”, Thomas More responde no final do livro: “… não posso concordar com tudo o que ele (Rafael Hitlodeu) disse”.

Uma utopia não é realizável, é antes um referencial alternativo ao que se encontra instituído, que se oferece à razão crítica de um cidadão e que este se pode determinar a perseguir para tornar realidade, sozinho ou em conjunto com concidadãos seus.

Utopia é fazer prevalecer a referida razão crítica das gentes como força motriz do progresso, é ter na direcção dos povos os melhores e melhor preparados, com o acesso ao exercício do poder por eleição. É a ausência de preconceitos e de dogmas, é a liberdade religiosa, é a liberdade inteira e um querer responsáveis, são penas a aplicar a quem prevarica, conhecidas por todos e sentidas como merecidas por quem não cumpre as regras morais e as leis.

 

UM LUGAR ONDE TUDO É DE TODOS

Utopia é ainda o espaço de pertença em que “tudo é de todos”, sem propriedade privada, sem pobres, nem fome, onde roubar não faz sentido e a guerra é bestial, abominável, um último recurso. É uma sociedade onde o valor das coisas é atribuído pelo que trazem de útil a cada um e não por serem algo de raro ou convencionalmente precioso (o “precioso” ouro nada vale!).

E é o espaço onde a diversidade é um valor e a diferença que cada um transporta, como expressão do que é diverso em si, o valor que cada um acrescenta ao outro, logo um bem valioso que carece de ser defendido por todos. E onde o ser humano é senhor do seu destino e o centro das preocupações da organização social e do exercício do poder político.

 

6 HORAS DE TRABALHO POR DIA

Vale a pena trazer para esta evocação a forma como More organizava os dias de um habitante da sua ilha (há 500 anos ): uma jornada de trabalho de seis horas, com todos a terem de trabalhar e a poderem escolher o tipo de trabalho seguindo os seus interesses, um tempo de dormir de oito horas e o resto do dia para cada um usar como bem entendesse.

E como se consegue em Utopia, na “melhor das repúblicas”, chegar a esta sociedade humana ideal? Com educação para todos e, logo, com pessoas melhor preparadas para a vida!

 

NOS DIAS DE HOJE, FAZEM SENTIDO AS UTOPIAS?

Respondo com outra questão: que futuro poderemos antecipar para uma Humanidade onde o Homem perca toda e qualquer esperança de vir a viver num mundo sem violência, sem medo, sem iniquidades, sem pobreza, sem fome, sem ignorância, sem injustiças, sem exclusões?

 

Caixa

Sir Thomas More viveu entre 1478 e 1535. Foi um cidadão inglês, membro da Câmara dos Comuns e chanceler do rei Henrique VIII. Por se recusar a jurar o “Act of Succession” e o “Oath of Supremacy” impostos pelo rei, foi acusado de traição e sujeito a julgamento. Estava em causa a decisão de Henrique VIII se tornar chefe da Igreja para casar com Ana Bolena, na sequência da negação, pelo Papa Clemente VII, de autorização do seu divórcio de Catarina de Aragão. Considerado culpado, foi condenado à morte por “simples decapitação”, por clemência do rei – outras formas de pena capital eram bem mais demoradas e dolorosas. É um exemplo de obediência aos ditames da consciência em bases religiosas, até ao sacrifício da própria vida. Deixou-nos, como suas últimas palavras: “The King’s good servant, but God’s First”.

 

FERNANDO J. REGATEIRO

In Mensageiro de Santo António

 

Fonte: O Clarim


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