«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
18
Fev 13
publicado por FireHead, às 02:21link do post | Comentar

Julgo que não se consegue imaginar o peso que cai em cima de quem aceita ser Papa. Torna-se o responsável primeiro pela Igreja Católica, com 1200 milhões de fiéis. Uma Igreja vergada sob a rigidez da tradição e talvez a única instituição verdadeiramente global, portanto, confrontada com múltiplas sensibilidades, problemas e aspirações: as questões dos europeus não são as dos norte-americanos, dos sul-americanos, dos africanos, dos asiáticos, dos australianos. É uma figura de relevo mundial, com imensa influência política no mundo, mas sujeito aos seus jogos, manhas e ardis. Mesmo viajando pelo mundo inteiro, fica a viver num pequeno território, com os seus rituais seculares e rígidos. Num mundo de homens. Só, onde, quando e como contacta com a família e com os amigos? E os olhos de todos estão sobre ele. Quase sem vida privada. Monarca absoluto, mas com todos os passos vigiados. Qual é o seu poder real? O Papa João XXIII, interrogado por um estudante num Colégio universitário pontifício: "Santidade, como é sentir-se o primeiro?", terá respondido: "Está enganado. Pus-me a contá-los e eu, lá no Vaticano, devo ser o quarto ou quinto."

Bento XVI não foi sempre conservador. Ainda só professor, escreveu em 1968: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se for necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens que amem a Igreja mais do que a comodidade da sua própria carreira." Também escreveu que era necessário repensar a descentralização da Igreja, abrindo um debate sobre o primado papal. Opondo-se à teologia da "satisfação" que situava a Cruz "no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido", rejeitou a noção de um Deus "cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa". Defendeu, com outros grandes teólogos, a necessidade de debater a questão do celibato obrigatório.

Quando, jovem professor de Teologia, chegou ao Concílio Vaticano II como assessor do cardeal J. Frings, de Colónia, foi crítico de cinco dos sete esquemas preparatórios e foi provocador, criticando duramente a Cúria e a sua "atitude antimoderna": "A fé tem de enfrentar-se com uma nova linguagem, uma nova abertura."

Em 1968, frente à revolução de estudantes ateus de Teologia, teve medo, encontrando-se aí o ponto decisivo para a sua orientação conservadora; abandonou então a Universidade de Tubinga e o colega e amigo Hans Küng, para ir para Ratisbona. Depois, foi feito arcebispo de Munique e, mais tarde, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, condenou dezenas de teólogos.

Aceitou o papado como "humilde servidor da vinha do Senhor". Deixa uma marca num tema que lhe é caro: a exigência do diálogo entre a fé e a razão; acabou por ser duro e inequívoco contra a pedofilia na Igreja; prosseguiu, embora timidamente, o diálogo com as confissões cristãs e as diferentes religiões, em ordem à paz; condenou sistematicamente a ditadura financeira sem regulação.

Percebeu que não controlava a Cúria, mergulhada em escândalos de corrupção e intrigas, até ao Vatileaks. Foi admoestando cardeais para "renunciarem ao estilo mundano de poder e glória", e dizendo que lhe coubera viver o pontificado de "um pastor rodeado de lobos". Queixava-se: "Os javalis entraram na vinha do Senhor." O cardeal W. Kasper foi advertindo que Bento XVI andava "muito triste" com o péssimo clima no Vaticano.

Fragilizado, sentindo-se sem forças no corpo e no espírito, anunciou que resigna no próximo dia 28, às 20.00 (19.00 em Lisboa e Funchal). Um gesto de inteligência, honestidade e humildade, que fica para a História, pois quebra um tabu e mostra que o Papa é tão-só um servidor da Igreja e do mundo, continuando humano, também com as suas debilidades. Depois, retira-se para um convento, para rezar, meditar, tocar e ouvir música, escrever, mantendo o apagamento. Os cardeais elegerão um novo Papa. Talvez europeu ou latino-americano.

 

Pe. Anselmo Borges


08
Out 12
publicado por FireHead, às 02:23link do post | Comentar

Aí está uma pergunta recorrente: Jesus foi casado? Agora, de repente, pensou-se que se tinha encontrado a resposta definitiva, na sequência da investigação de Karen King, professora da Harvard Divinity School, Massachusetts, do fragmento de um papiro em copta, do século IV. Aí, lê-se: "Jesus disse-lhes: a minha mulher... poderá ser minha discípula."

Mas nem sequer para a investigadora, que acaba de apresentar as conclusões do seu estudo no Congresso Internacional de Estudos Coptas em Roma, a que se deu imensa publicidade, o fragmento do papiro prova que Jesus foi casado. Do que se trata é que "desde o começo, os cristãos estavam em desacordo sobre se era melhor não contrair matrimónio, mas só um século depois da morte de Jesus começaram a dissentir sobre o estado marital do Messias para defender as suas posições".

Embora seja necessário aprofundar ainda a questão, pois desconhece-se a origem exacta do fragmento, propriedade de um coleccionador anónimo - é sabido como pululam no mercado textos antigos falsos -, vários especialistas de renome, como Antonio Piñero e Xabier Pikaza, pensam que o papiro é autêntico e poderá ser uma tradução de um texto gnóstico grego do século II (à volta do ano 160).

De qualquer modo, não é por esta via que ficamos a saber se Jesus foi ou não casado. De facto, o texto pertence ao contexto da gnose e, assim, como explica Xabier Pikaza, "não pode utilizar-se de modo nenhum para falar de um possível casamento de Jesus com Maria Madalena ou outra mulher, pois não trata de um casamento 'físico', mas de uma presença espiritual do Revelador Celeste na alma dos fiéis". Nos evangelhos gnósticos, chega a dizer-se que "se beijavam na boca", mas isso tem apenas sentido simbólico, como explica Antonio Piñero, um dos maiores peritos nesta temática: "os gnósticos gostam de metáforas sexuais para designar a união espiritual forte", e, portanto, comparando com outros textos gnósticos, "o texto do papiro pode ter o mesmo significado 'místico' ou simbólico".

Continuamos, portanto, na situação em que estávamos: "Este texto não nos ensina nada sobre o Jesus histórico e o seu possível casamento." Mas a pergunta permanece: o Jesus histórico foi casado? O mesmo X. Pikaza responde em síntese: "Não se pode 'demonstrar' que Jesus foi celibatário, mas todos os indícios apontam nesse sentido."

É certo que o celibato não era o estado civil comum. Diz o Talmude: "Quem não tem mulher é um ser sem alegria, sem bênção, sem felicidade, sem defesa contra a concupiscência, sem paz; um homem sem mulher não é um homem." Por isso, há quem argumente que, se o Novo Testamento nada diz sobre o estado civil de Jesus, é porque se supõe que estava casado. Antonio Piñero contrapõe que Jesus não era um rabino estrito e entre os essénios da época de Jesus havia muitos que não se casavam. Afirma, pois, que poderia ser viúvo, mas durante o seu ministério público não teve mulher. Jesus andava rodeado de mulheres juntamente com os discípulos homens e, se estivesse casado, seria normal que os Evangelhos o dissessem, como se fala com naturalidade da sogra de S. Pedro.

Embora não haja provas definitivas, a maioria dos grandes exegetas, apoiando-se nas fontes fiáveis, coincidem na afirmação de que Jesus não foi casado. Assim, um dos maiores historiadores sobre Jesus, o americano John Paul Meier, afirma: "Jesus nunca se casou, o que faz dele um ser atípico e, por extensão, marginal na sociedade judaica convencional." Por outro lado, é certo que Jesus teve especial predilecção por Maria Madalena, "mas casá-la com Cristo é um disparate", assegura o teólogo jesuíta Juan A. Estrada.

De qualquer forma, o celibato de Jesus não é dogma e a mim, pessoalmente, não me causaria incómodo nenhum, se se demonstrasse que foi casado. Como disse ao Expresso, embora compreenda a situação, do que mais me impressiona é verificar que, "quando aparecem estas coisas, a curiosidade das pessoas é superior à curiosidade que têm pela mensagem de Jesus, que é o essencial", uma mensagem decisiva, também para os tempos dramáticos que estamos a viver.

 

Pe. Anselmo Borges


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