«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
04
Mar 13
publicado por FireHead, às 17:32link do post | Comentar

Continuação do post anterior.

Sitio de Jerusalém

 

Esse é o modo preferido de pôr em evidência o carácter malévolo das Cruzadas.

 

Num discurso em Georgetown, o ex-presidente Bill Clinton disse que esse foi um dos motivos pelos quais agora os Estados Unidos são alvo de terroristas (embora no citado discurso o sr. Clinton tenha subido o nível do sangue até a altura dos joelhos, para dar mais ênfase).

 

É certamente verdade que muita gente morreu em Jerusalém após a tomada da cidade pelos Cruzados.

 

Mas o facto deve ser analisado no seu contexto histórico.

 

O costume vigente em todas as civilizações pré-modernas, tanto na Europa quanto na Ásia, era que se uma cidade resistisse à captura e fosse tomada pela força, sua posse caberia às forças vitoriosas.

 

Isso incluía não somente os edifícios e os bens, mas também as pessoas.

 

Por isso, cada cidade ou fortaleza devia pensar muito bem se podia ou não resistir a um cerco: se não pudesse, o mais prudente era negociar os termos da rendição.

 

No caso de Jerusalém, os seus defensores resistiram até o último instante. Calcularam que as imponentes muralhas da cidade conteriam os Cruzados até chegarem os reforços do Egipto.

 

Eles erraram: a cidade caiu e consequentemente foi saqueada.

 

 

Muitos morreram, mas outros muitos foram aprisionados ou deixados livres para partir.

 

Para elos padrões modernos, isso talvez pareça brutal, mas até mesmo um cavaleiro medieval poderia replicar dizendo que nos bombardeios modernos morrem mais inocentes – homens, mulheres e crianças – do que seria possível passar ao fio da espada em um ou dois dias.

 

Convém lembrar também que nas cidades muçulmanas que se renderam aos Cruzados, as pessoas foram deixadas em paz, na posse das suas propriedades, e com permissão para praticar livremente a sua religião.

 

Quanto às ruas cheias de sangue, nenhum historiador aceita isso: não passa de um mero recurso literário.

 

Jerusalém é uma cidade grande, e a quantidade de pessoas que seria necessário abater para inundar as ruas com dez centímetros de sangue é muito superior à população de toda a região.

 

 

Autor: Thomas F. Madden

Fonte: Ignatiusinsight.com

 

As Cruzadas

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06
Dez 12
publicado por FireHead, às 03:47link do post | Comentar

Continuação do post anterior.

 

 

Uma opinião comum entre os historiadores é a de que o aumento da população na Europa originou uma crise, devido ao excesso de “segundos filhos” de nobres, treinados nas artes bélicas de cavalaria, mas sem terras ou feudos onde se estabelecer.

 

Por esse motivo, as Cruzadas seriam uma válvula de escape, mandando esses homens belicosos para longe da Europa, onde pudessem obter terras para si à custa dos outros.

 

Os pesquisadores actuais, graças à ajuda de bancos de dados computadorizados, desmontaram esse mito.

 

Hoje sabemos que os “primeiros filhos” da Europa foram os que responderam ao apelo do Papa em 1095, e também nas Cruzadas seguintes.

 

Empreender uma Cruzada era uma operação extremamente cara.

 

Os Senhores tiveram que hipotecar as suas terras para angariar fundos necessários.

 

Além do mais, não estavam interessados em reinos no além-mar. Como os soldados de hoje, o Cruzado medieval orgulhava-se de estar cumprindo o seu dever, mas queria voltar para casa.

 

 

Após o espectacular sucesso da Primeira Cruzada, com Jerusalém e grande parte da Palestina em seu poder, quase todos os Cruzados voltaram.

 

Somente um pequeno grupo ficou para consolidar e governar os territórios recém-conquistados.

 

Foram raras as pilhagens.

 

Embora de facto sonhassem com as grandes riquezas das cidades do Oriente, praticamente nenhum Cruzado conseguiu recuperar os seus gastos.

 

Mas não foram nem o dinheiro nem as terras o principal motivo que os levaram às Cruzadas: o que queriam era fazer penitência pelos seus pecados e merecer a própria salvação fazendo boas obras em terras distantes.

 

 

Autor: Thomas F. Madden

Fonte: Ignatiusinsight.com

 

As Cruzadas

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04
Out 12
publicado por FireHead, às 16:16link do post | Comentar

Altar em Gante, cavaleiros de Cristo, Jan van Eyck.

 

Não há nada de mais falso.

Desde os tempos de Maomé, os muçulmanos lançaram-se à conquista do mundo cristão.

E fizeram um óptimo trabalho: após poucos séculos de incessantes conquistas, os exércitos muçulmanos tomaram todo o norte de África, o Médio Oriente, a Ásia Menor e a maior parte da Península Ibérica.

Em outras palavras: ao findar o século XI, as forças islâmicas já haviam capturado dois terços do mundo cristão.

A Palestina, terra de Jesus Cristo; o Egipto, berço do monaquismo cristão; a Ásia Menor, onde São Paulo estabeleceu as primeiras comunidades cristãs.

Não conquistaram a periferia da Cristandade, mas o seu núcleo. E os impérios muçulmanos não pararam por aí: continuaram pressionando a Leste em direcção a Constantinopla, até que finalmente a tomaram e invadiram a própria Europa.

Se uma agressão não-provocada existiu, foi a muçulmana. Chegou-se a um ponto em que só restava à Cristandade defender-se ou simplesmente sucumbir à conquista muçulmana.

A Primeira Cruzada foi convocada pelo Papa Urbano II em 1095 para atender aos apelos urgentes do Imperador bizantino de Constantinopla, Aleixo I Comneno (1081-1118).

Urbano convocou os cavaleiros cristãos para irem em socorro dos seus irmãos do Leste.

Foi uma obra de misericórdia: livrar os cristãos do Oriente dos seus conquistadores muçulmanos.

Em outras palavras, as Cruzadas foram desde o início uma guerra defensiva.

Toda a história das Cruzadas do Ocidente foi a história de uma resposta à agressão muçulmana.

 

 

Autor: Thomas F. Madden

Fonte: As Cruzadas

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20
Set 12
publicado por FireHead, às 22:26link do post | Comentar
O Beato Papa Urbano II prega a I Cruzada
O Beato Papa Urbano II prega a I Cruzada


Muitas pessoas, no Oriente e no Ocidente, consideram as Cruzadas uma mancha negra na História da Civilização Ocidental em geral, e da Igreja Católica em particular.

Citadas por ambas as partes no conflito entre os Estados Unidos e os terroristas árabes, as Cruzadas voltaram aos noticiários, aos filmes e às séries de televisão.

Propalam-se velhos mitos e reacendem-se discussões. Um bom exame da História das Cruzadas é, portanto, indispensável.

O Presidente George W. Bush foi infeliz quando chamou a guerra contra o terrorismo de “Cruzada”, tendo recebido inúmeras críticas por empregar uma palavra que seria tão ferina e ofensiva para com os muçulmanos de todo o mundo.

No entanto, os próprios árabes também fazem uso desse termo. Osama bin Laden e o Mulá Omar com frequência chamaram os norte-americanos de “cruzados”, e qualificaram os actuais conflitos como uma “Cruzada contra o Islão”.

De facto, as Cruzadas estão bem presentes na memória do mundo muçulmano.

O Ocidente, por sua vez, também não esqueceu as Cruzadas. Qualquer um que queira intimidar os católicos não demorará a jogar-lhes no rosto as Cruzadas e a Inquisição.

As Cruzadas estão bem presentes na memória do mundo muçulmano
As Cruzadas estão bem presentes na memória do mundo muçulmano


As Cruzadas são com frequência apresentadas como um exemplo clássico do mal que pode ser feito por uma religião organizada. 

O homem médio, tanto no Cairo como em Nova Iorque, tende a concordar com a ideia de que as Cruzadas foram um ataque não-provocado, cínico e insidioso, promovido por fanáticos contra o pacífico, próspero e sofisticado mundo muçulmano da época.

Isso não foi sempre assim. Na Idade Média, não havia cristão na Europa que não tivesse certeza de que as Cruzadas eram sumamente boas e justas.

Os próprios muçulmanos respeitavam os ideais das Cruzadas e a nobreza dos homens que nelas lutavam.

As coisas começaram a mudar com a Reforma Protestante. Para Martinho Lutero – que já havia rejeitado a autoridade do Papa e a doutrina sobre as indulgências – as Cruzadas não passavam de manobras de um Papado sedento de poder.

Chegava a afirmar que lutar contra os muçulmanos equivalia a lutar contra o próprio Cristo, pois Ele tinha enviado os turcos para punir a Cristandade pelos seus pecados.

Quando o sultão Suleiman, o Magnífico (1495-1566) começou a invadir a Áustria com os exércitos otomanos, Lutero mudou de opinião sobre a necessidade de lutar, mas manteve-se firme em suas críticas às Cruzadas.

As Cruzadas foram vituperadas por Lutero e distorcidas pelo Iluminismo
As Cruzadas foram vituperadas por Lutero e distorcidas pelo Iluminismo


Ao longo dos duzentos anos seguintes, as pessoas tendiam a ver as Cruzadas com olhos confessionais: os protestantes lançavam-lhes vitupérios e os católicos, elogios. Quanto a Suleiman e os seus sucessores, ambos concordavam: queriam livrar-se dele.

A actual visão a respeito das Cruzadas nasceu do Iluminismo do século XVIII. Muitos dos então chamados “filósofos”, como Voltaire, pensavam que a Cristandade medieval fora apenas uma vil superstição.

Para eles as Cruzadas foram uma migração de bárbaros devida ao fanatismo, à ganância e à luxúria.

A partir desse momento, a versão iluminista sobre as Cruzadas entrou e saiu de moda algumas vezes.

As Cruzadas receberam boa imprensa e foram consideradas como guerras de nobreza (mas não de religião) durante o Romantismo e até o início do século XX.

Depois da Segunda Guerra, contudo, a opinião geral voltou-se decisivamente contra as Cruzadas. Na esteira de Hitler, Mussolini e Estaline, os historiadores concluíram que a guerra por motivos ideológicos – seja qual for a ideologia em questão – é abominável.

Esse sentimento de aversão foi resumido por Steven Runciman nos três volumes do seu livro “A History of the Crusades” (“Uma História das Cruzadas”, 1951-1954).

Para Runciman, as Cruzadas foram actos de intolerância moralmente repugnantes praticados em nome de Deus. Os homens medievais que brandiam a cruz e marchavam rumo ao Médio Oriente eram ou perversos cínicos, ou avarentos vorazes, ou crédulos ingénuos.

Esse livro, aliás literariamente bem escrito, tornou-se logo o padrão: com esse único golpe, Runciman conseguiu definir a moderna visão popular sobre as Cruzadas.

A partir de 1970, as Cruzadas receberam a atenção de centenas de pesquisadores, que as esquadrinharam meticulosamente.

Como resultado, sabemos hoje muito mais a respeito das guerras santas da Cristandade do que jamais soubemos.

Contudo, os frutos de décadas de pesquisa histórica só lentamente vão penetrando nas mentes do grande público. Isso se deve em parte aos próprios historiadores profissionais, sempre propensos a publicar estudos que pela sua própria natureza exigem uma linguagem muito técnica, de difícil compreensão para quem não é especialista.

Verdadeira Cruzada: empresa religiosa militar convocada pelo Papa
Verdadeira Cruzada: empresa religiosa militar convocada pelo Papa


Contribui também para essa situação a clara relutância das elites contemporâneas em abandonar a visão “runcimaniana” das Cruzadas. 

Sendo assim, os livros populares sobre o tema – livros que as pessoas continuam querendo ler, apesar de tudo – tendem a repetir a conversa de Runciman.

O mesmo vale para os outros média, como o cinema e a televisão. Um exemplo é o documentário As Cruzadas, uma produção da BBC/A&E de 1995, estrelada por Terry Jones.

Para dar um certo ar de autoridade ao que mostravam, os produtores intercalaram as cenas com entrevistas a importantes historiadores das Cruzadas, que expressavam as suas opiniões sobre cada evento retratado.

O problema é que os historiadores de hoje discordam das ideias de Runciman. Mas os produtores não se importaram com isso: simplesmente editaram as gravações das entrevistas, seleccionando fragmentos e sequências que, uma vez montados, davam a impressão de que os historiadores concordavam com Runciman.

Um deles, o Dr. Jonathan Riley-Smith, veio dizer-me depois, num tom irado: “Eles me mostraram dizendo coisas nas quais eu não acredito!”

Mas afinal, qual é a verdadeira história das Cruzadas?

Como o leitor pode imaginar, trata-se de uma longa história. Mas existem muitos bons historiadores que ao longo dos últimos vinte anos vêm colocando as coisas no seu devido lugar.

Por agora, tendo em vista o bombardeio que as Cruzadas vêm recebendo actualmente, o melhor será esclarecer justamente o que as Cruzadas não foram.

Enumeramos a seguir alguns dos mitos mais comuns, dizendo por que eles são falsos.


Continua...


Thomas F. Madden, Professor de História
e Diretor do Centro de Estudos Medievais
e Renascentistas na Universidade
de Saint Louis, EUA


Autor: Thomas F. Madden

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