«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
23
Mar 12
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O Pe. Santiago Martín apresenta-nos um manuscrito desconhecido, dos primeiros séculos da nossa era, que narra a vida da Virgem Maria, supostamente escrito por S. João. Aquela que sempre viveu oculta aparece aqui em primeiro plano e de uma forma muito directa. Santiago Martín nasceu em Madrid em 1954, é formado em Biologia, Teologia Moral e Jornalismo, é o Director da Secção de Religião do Diário ABC e Director do Programa da TVE "Testemunho". Autor de uma dezena de livros de espiritualidade, é também fundador de uma associação Católica - os Franciscanos de Maria - dedicada ao trabalho voluntário e gratuito com todo o tipo de excluídos e que já está presente em seis nações.

 

 

Em 1884, um especialista em manuscritos antigos surpreendeu o mundo ao descobrir uma valiosíssima peça de arqueologia. Não se tratava de um jarro antiquíssimo nem de uma escultura grega. Tratava-se de um manuscrito. J. F Gamurrini encontrou, na biblioteca de Santa Maria de Arezzo (Itália), um documento que continha um relato quase completo de uma viagem à pátria de Jesus - O Itinerarium. Tratava-se do registo das impressões vivenciadas por uma monja que, no final do século IV, decidiu desafiar todos os perigos, embarcando na aventura de visitar a Terra Santa. Aquela mulher, nascida na Espanha ainda sob o domínio romano, escreveu tudo aquilo que viu e sentiu, com a intenção de, como ela mesma relata, não privar as suas irmãs de comunidade - as que denomina "veneráveis senhoras" e "amigas da alma" - das reconfortantes dádivas espirituais que recebeu durante a sua visita aos locais santos. O Itinerarium descoberto por Gamurrini na Abadia de Arezzo era uma cópia elaborada na Abadia de Montecassino, centro do mundo beneditino e fonte do saber e da produção intelectual vigente na Idade Média. Os monges beneditinos copiaram esse livro como o fizeram com tantos outros, porque isto fazia parte de seu trabalho quotidiano. "Exportavam" para catedrais e palácios em Montecassino como em outras abadias beneditinas, os livros eram copiados em série nos Scriptorium, enquanto um monge lia em voz alta o original.


Uma dessas cópias chegou a Arezzo, onde foi descoberta por Gamurrini. O Itinerarium, da monja espanhola Egeria (ou Eteria, ou Echeria, como outros a conhecem), na forma descoberta em 1884, estava incompleto. Faltavam o início e a última parte. Além disso, no seu interior, notava-se a falta de algumas páginas, provavelmente perdidas, embora estas lacunas tenham sido preenchidas pelos especialistas com dados sobre a situação de Israel na época, recorrendo a outras fontes de informação, principalmente o Liber de Locis Sanctis, de Pedro Diácono, escrito no século XI. É evidente que a cópia que saiu de Montecassino estava completa, bem como a cópia extraída do original naquela importante abadia. Os azares da história, as pilhagens e os saques sofridos pelos mosteiros, promovidos por gente ambiciosa e sem escrúpulos, destruíram uma infinidade de obras de arte ligadas em sua origem à fé. O que ocorreu com o Itinerarium foi um caso a mais. De facto, teria desaparecido para sempre se em Santa Maria de Arezzo não tivesse sido salvo, quase milagrosamente, um dos muitos exemplares que circulavam pelo Ocidente na Idade Média. Porém, não foi Montecassino o único local que conservou o documento legado pela monja Egeria. Ela morava num mosteiro situado na Galícia espanhola, que tinha por capital, nessa época (final do século IV), a Bracara Augusta, porém contava com um número apreciável de cidades importantes, herdeiras de passados brilhantes (as actuais Astorga, León, Lugo e Oviedo, para citar somente algumas). Na época da viagem de Egeria a Israel, reinava uma certa paz no conjunto imperial. Teodósio, espanhol como Egeria, acabava de morrer (395) e deixara o seu território praticamente pacificado, dividido entre seus dois filhos. A Honório coube o território do Ocidente, e a seu irmão Arcadio, o do Oriente, incluíndo a Palestina. As peregrinações, interrompidas havia muitos anos pelas contínuas lutas e pela repressão aos Cristãos praticada pelo imperador apóstata Juliano, floresceram. Numa delas embarcou Egeria. Embora o Itinerarium tivesse sido perdido, o nome de Egeria não desapareceu, devido ao facto de que a sua obra chamou a atenção quase em seguida. Dela fala o monje galego Valério, em meados do século VII, em uma carta - Ad frates Bergidensis - dirigida a um mosteiro, hoje também desaparecido, situado em El Bierzo. Tanto a linguagem utilizada por Egeria, os seus modismos ao escrever em latim, quanto o texto de Valério confirmam a origem espanhola dessa singular monja. Esses dados confirmam também a sua elevada posição social e económica, razões que possibilitaram a sua viagem, pois isso não era barato nem seguro, a não ser que se contasse com dinheiro suficiente e com influências para receber protecção nas numerosas escalas que um peregrino do século IV se via forçado a fazer para viajar do noroeste da Espanha até o outro extremo do Mediterrâneo. Pois bem, Egeria partiu e regressou. Foi anotando tudo durante o seu trajecto como um moderno turista e, ao concluir seu périplo, redigiu as suas impressões, confiando-as às suas irmãs de comunidade, bem como aos seus superiores e aos que proporcionaram e tornaram possível a sua experiência através de donativos. O Itinerarium começou a circular e teria obtido um enorme êxito "editorial" não fosse por uma circunstância infeliz. No ano de 407, pouco depois de Egeria chegar à sua pátria, com somente algumas cópias do manuscrito original circulando pelo mundo, a Espanha sofreu invasões de vândalos, que a arrasaram. Enquanto os visigodos se fixavam na Itália, na qualidade de aliados e protetores do imperador, outras tribos godas promoviam saques, contando com o auxilio de mercenários. Neste contexto de instabilidade, foi destruído o mosteiro de Egeria. Nada se sabe do seu destino final, nem do das suas companheiras de comunidade. Os invasores estabeleceram-se na antiga província galega e conservaram a actual cidade portuguesa de Braga como a sua capital. Os vândalos, por sua vez, deixaram a península - haviam se fixado em toda a Andaluzia - e passaram a invadir a África (429) destruindo, entre outras, a cidade de Hipona, onde, na época, Santo Agostinho era bispo. A lacuna deixada pelos vândalos em Espanha foi ocupada imediatamente pelos visogodos, que se encontravam estabelecidos no sul de França e possuíam uma próspera capital em Toulouse. Com tantas idas e vindas, não só foi destruído o mosteiro de Egeria, mas também foram arrasadas diversas vilas rurais, prósperos povoados e algumas cidades. A obra de Egeria desapareceu, salvando-se milagrosamente algumas das poucas cópias que foram elaboradas, uma das quais por fim permaneceu em Montecassino.


Tudo teria acabado assim não fosse pelo recente achado que deu origem a este livro. No conjunto de desastres e guerras que sofreu a Espanha, regista-se a política anticlerical de algumas de suas autoridades. Uma delas, Juan Álvarez Mendizábal, ordenou, para maior glória das hostes reais, "desamortizar" o capital "investido", segundo ele, pelo povo durante séculos nos conventos e mosteiros. A desamortização (1835 e 1836) não passou de uma maneira delicada de justificar um roubo gigantesco, um latrocínio monumental que sequer alcançaria os seus objectivos, pois foram os ricos que adquiriram, a preço baixo, o material leiloado procedente dos mosteiros, sendo que os pobres, na sua maior parte, não obtiveram nem migalhas. Como tudo foi posto à venda de uma só vez, a liquidação foi a preço de saldo, de maneira que nem o Tesouro Real conseguiu resolver os seus problemas. O que ocorreu, em contrapartida, foi que o património cultural veio abaixo e hoje se vêem centenas de ruínas por toda a Espanha, testemunhas mudas daquilo que antes foram florescentes mosteiros, centros de espiritualidade, de cultura, bem como centros de apoio à economia rural. Num desses espólios desapareceu um antigo centro arquitectónico beneditino, o de Obona, encravado no distrito asturiano de Tineo. Nesse fértil e elevado vale tinham-se estabelecido os monges beneditinos, que, durante o século XI evangelizaram a região e auxiliaram os seus agrestes moradores a melhorar o nível de vida. Os dois mosteiros geminados de Ibona e Bárcena foram chaves na operação. Ambos caíram vítimas da rapina inútil de Mendizábal. Ambos os templos passaram a pertencer à arquidiocese de Oviedo, excepto as terras e parte dos seus tesouros culturais e artísticos.


A maior parte das posses de Obona foi adquirida por uma rica família asturiana que havia constituído a sua primeira fortuna com a importação de café procedente de Cuba e com a instalação de uma fábrica para a torrefação do produto. A biblioteca do mosteiro tornou-se apetitosa para aquele indiano, que a transladou quase toda para o seu casarão em Oviedo, sem saber exactamente o que levava, como se comprasse livros a quilo ou a metro e não pelo seu conteúdo. Tais obras passaram anos na obscuridade das estantes, embora todos na família soubessem que encerravam grandes tesouros e discutissem a necessidade de repartir a herança de bens tão incalculáveis e valiosos, que ninguém sabia precisar.

 

Por fim, numa dessas ocasiões, um fragmento do tesouro inicial, cortado e repartido ao longo do tempo, como se fossem peças de tecido ou número de contas correntes, chegou às mãos de um amigo meu, ilustre sacerdote da arquidiocese de Oviedo, cuja dedicação à leitura e ao pó dos manuscritos quase igualava-se à sua fidelidade ao Papa e aos aspectos legítimos da liturgia romana. Um dia, faz alguns meses, recebi um telefonema seu. Já me havia falado, em incontáveis ocasiões, do legado que havia recebido por herança de um tio, descendente directo da família que se beneficiara com as tropelias de Mendizábal. A ele, como sacerdote, foram confiados alguns livros procedentes do mosteiro de Obona. Folheava-os, pouco a pouco, e doava alguns ao acervo da arquidiocese, porém retinha para si aqueles que traziam mais iluminuras, entre eles uma cópia dos antigos beatos escrita originalmente nas proximidades do vale de Liébana.


Meu amigo, ao qual chamaremos de dom Ignácio, estava nervoso quando me contactou. Sabia do meu interesse pela história antiga e medieval e de meus contactos profissionais com editoras. Embora Oviedo não esteja a um passo de Madrid, ele reclamava urgentemente a minha presença na capital asturiana. Ele poderia ir a Madrid, porém não desejava transladar o "tesouro" que, segundo me disse, acabara de descobrir. Aquilo que mostrou não me decepcionou. É certo que Oviedo guarda tesouros ainda maiores - são cada vez mais consistentes os dados que identificam o sudário custodiado na santa câmara de sua Catedral com o tecido que serviu como mortalha para o rosto de Cristo -, mas aquilo que dom Ignácio possuía podia ser considerado um descobrimento comparável aos famosos manuscritos de Qumran, os rolos dos antigos essénios que viviam junto ao Mar Morto, ou, quem sabe, ainda mais importante do que esses. Era, como o leitor já pode imaginar, uma cópia do Itinerarium da monja Egeria. Uma cópia muito antiga, talvez dos primeiros anos do século VII. Possivelmente a quarta ou quinta geração das primeiras que foram feitas e levadas a algum mosteiro da Galiza hispano-romana, passando depois, junto com outros livros preciosos, por vicissitudes e perigos, até que, após a reconquista empreendida pelo mítico dom Pelágio, algum exemplar tenha ficado depositado nos mosteiros beneditinos que floresceram no novo reino Cristão, e dali, por volta do século X, tenha passado a Obona, sempre em terras asturianas. Dom Ignácio estava a par tanto da aventura da monja Egeria, quanto do seu Itinerarium. Entendia que o antigo livro que possuía era um tesouro extraordinário. Comparava-o com o de Arezzo, porque sabia que neste último faltavam alguns capítulos, e o seu estava completo. Entrei em contacto com a embaixada italiana em Espanha e com a delegação espanhola no país vizinho. Graças aos seus bons préstimos, pudemos obter, não a baixo custo, uma cópia microfilmada do texto encontrado na Itália, que cotejamos com o texto procedente de Obona. As diferenças eram mínimas, naturais das sucessivas cópias, com os habituais erros de transcrição dos copistas medievais. E foi então que decidimos traduzir os dois capítulos que foram conservados no texto asturiano mas destruídos no de Arezzo. Como não sei latim e dom Ignácio estava deslumbrado com a importância do empreendimento, ainda em segredo e sem dar a conhecer o descobrimento a ninguém, demos o trabalho relativo ao primeiro capítulo a alguns peritos da Biblioteca Nacional de Madrid; e o do último, a especialistas do Museu Nacional de Arqueologia. Não os colocamos em contacto nem dissemos de onde procedia o material cuja tradução estávamos solicitando. No primeiro caso, tudo transcorreu conforme o esperado. Era uma introdução devotada em que Egeria explicava os motivos de sua viagem e agradecia a ajuda recebida dos seus patronos e protectores. Havia somente um trecho que nos deixou confusos, porque a monja fazia uma alusão, quase como uma desculpa, à inclusão que faria no último capítulo, pois ela mesma não estava segura de que se tratava de algo correcto, de uma obra ortodoxa e não de um texto procedente de um desvio herético. Nada mais dizia e deixou que o leitor e as autoridades da Igreja julgassem por si mesmos, reiterando as suas desculpas para o caso de não ter agido correctamente ao incluir aquele texto, que não era seu, no conjunto da obra.


Quando nos chegou o relatório dos peritos do Museu de Arqueologia, o meu amigo e eu pensamos que iríamos sofrer um enfarte. A emoção de um crente se mesclava com os nervos de dois aficcionados pelos documentos antigos que possuíam em mãos, uma obra não só majestosa como também até então desconhecida. O próprio título já nos deixava estupefactos. Tratava-se do Evangelho Apócrifo da Virgem Maria. Um texto ao qual se referiram alguns dos primitivos padres da Igreja, que, no entanto, não tinham a certeza de ter existido. Naturalmente que Egeria, quando o recebeu, já traduzido para o latim, das mãos de um monge grego companheiro de São Jerónimo (que vivia em Belém, na época em que Egeria ali estivera, e havia residido na cidade natal de Jesus entre os anos 387 e 420), sentiu-se emocionada, porém teve receio de tratar-se de um texto herético, devido à confusão que envolvia o santo dálmata, em plena luta contra a heresia pelagiana, que tivera de fugir de Roma após a morte do Papa Dâmaso, acusado por Rufino de fidelidade à heresia origenista.


Egeria explica os seus temores na introdução que faz ao apócrifo mariano. Diz com clareza que não aposta na sua autenticidade e que, embora o monge que lhe fornecera a cópia garantisse se tratar de um texto autêntico e ortodoxo, ela não poderia afirmar isso com convicção. Em todo o caso, a monja espanhola não hesita em assegurar que a sua leitura revelara-se piedosa e de grande proveito espiritual, motivo pelo qual, após muito vacilar, atrevia-se a incluí-la como um apêndice do seu Itinerarium. É possível que esta dúvida de Egeria tivesse contagiado os monges de Santa Maria de Arezzo. É possível que a falta dos dois capítulos no texto que se conservava na sua biblioteca não fosse casual. É possível que algum zeloso defensor da ortodoxia chegasse a pensar que as recordações da Virgem Maria pudessem diminuir a divindade de Cristo, pois nelas se mostra o lado humano do Seu Filho. Poderia alguém ter receio que, na época mais dura da Inquisição, a inclusão de um apócrifo naquela biblioteca pudesse despertar suspeitas de conivência com as odiadas heresias. É possível até que algum severo inquisidor tenha ordenado separar e queimar os dois capítulos que faltavam à cópia italiana do Itinerarium. Em todo o caso, em Espanha se conserva agora o texto integral e o melhor que se pode fazer é ler e interpretar o que durante séculos permaneceu oculto.


Este é, segundo uma piedosa tradição, O Evangelho Secreto da virgem Maria, as suas memórias, narradas a João Evangelista em muitas daquelas tardes em que ambos descansavam das suas respectivas tarefas, nas cercanias da cidade grega de Éfeso. Que julgue o leitor o valor espiritual do texto e que deixe penetrar em si a ternura com que uma velha mãe fala de si mesma, do Seu filho e da aventura que Deus, num dia de Primavera, havia posto em andamento.

Fonte: http://www.visionvox.com.br/biblioteca/o/o-evangelho-secreto-da-virgem-maria.txt (Para quem quiser ler o apócrifo todo)


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Tive uma vez quinze anos!

 

Fazia alguns meses que me tornara mulher!

 

Lembro-me, apesar de haver passado tanto tempo e tantas coisas, a ternura da minha mãe, Ana, e a suave firmeza do meu pai, Joaquim.

 

Aquele dia era sábado. O meu pai tinha ido à sinagoga para ouvir, como sempre, a leitura de um texto da Torá e a explicação que dava o rabino. A minha mãe e eu também íamos e ficávamos bem juntas, respeitando o costume que separava os homens das mulheres. Nesse dia não pudemos comparecer e aguardámos a volta de Joaquim, para que nos dissesse o que havia ocorrido.

 

O sol já se recolhia e o sábado terminava quando o meu pai nos transmitiu o texto que fora lido na sinagoga. Era do profeta Isaías, um dos meus favoritos. Com voz solene e mais cantando do que recitando, Joaquim disse:

 

“Que belos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz boas novas, que anuncia a salvação, que diz a Sion: ‘Já reina teu Deus! Uma voz! Teus vigias elevam a voz, emitem gritos de júbilo, porque com os seus próprios olhos vêem o retorno de Yaveh a Sion. Prorrompei em uníssono em gritos de júbilo, solitários de Jerusalém, porque Yaveh consolou o Seu povo e resgatou Jerusalém’.”

 

Independentemente disto, o meu pai explicou-nos o que havia dito o rabino do nosso povoado, Asaf, filho de Coré. Tratava-se de um homem amável, idoso, porém sempre carinhoso com todos, especialmente com as crianças, por isso sempre o ouvi com dedicação, interrompendo as brincadeiras dos meus primos quando ele passava, pois todos queriam beijar a orla do seu manto.

 

Joaquim disse a mim e à minha mãe que naquela manhã Asaf estava preocupado. As notícias que chegavam das cidades que abrigavam destacamentos romanos não eram boas. Falava-se de tumultos entre alguns dos nossos e, inclusive, se comentava que na longínqua Jerusalém havia muita inquietação e que alguns rabinos haviam dito que a chegada do Messias poderia estar próxima, segundo se podia deduzir de certa profecia que fazia referência ao Seu nascimento em Belém, a cidade de David. Asaf, tranquilo como era, não desejava alarmar os seus ouvintes, entre outras coisas, porque, como ele mesmo lembrou naquela manhã, notícias semelhantes se produziam desde que os romanos ocuparam Israel e mesmo antes, sob a dominação dos sírios de Antíoco. Sem dúvida, comentou o meu pai, naquela ocasião a voz do nosso rabino parecia menos tranquila que de costume e as suas recomendações sobre calma eram menos convincentes.

 

Algo se preparava e pessoas como Asaf, como meu pai ou como a minha mãe, intuíam isso sem saber exactamente do que se tratava. Por isso o rabino escolhera o texto de Isaías; para transmitir uma mensagem de paz e esperança aos habitantes da nossa aldeia. Se o Messias estava por vir, como alguns diziam, deveríamos manter a calma, porque a Sua chegada seria a do príncipe da paz. Qualquer outra atitude seria, no fundo, uma falta de confiança no Todo-Poderoso, em cujas as mãos estão sempre as nossas vidas. Estas coisas sempre entusiasmavam a minha mãe Ana e a mim. Ouvíamos Joaquim, apertadas uma contra a outra junto ao fogo do nosso lar, numa noite de Nisan, bela e suavemente fresca. Nós as duas acreditávamos firmemente no que a Torá e os outros livros sagrados ensinavam, e Ana tinha muito cuidado ao ensinar-me o significado da fé em Yaveh, o amor e o respeito que Lhe devíamos, e a necessidade de observar fielmente a Aliança que Ele havia pactuado com o nosso povo. Por isso não nos surpreendia nada do que pudesse ocorrer, pois estávamos convencidas de que, a um só gesto de Deus, nem as poderosas legiões romanas poderiam enfrentar o Messias quando Este surgisse no mundo. Aguardávamos a Sua chegada e rezávamos todos os dias para que isto ocorresse o mais cedo possível, mas nunca antes do tempo indicado, do momento em que a vontade do Todo-Poderoso previra.

 

Eu, mais do que minha mãe, por causa dos meus quinze anos recém-completados, gostava de sonhar com o Messias. Também o faziam minhas companheiras e falávamos muito Dele nos nossos encontros, principalmente na fonte do povoado, quando íamos lavar as nossas roupas no arroio. Porém, eu desejava ardentemente que esse Messias fosse um mensageiro da paz e do amor de Deus, dois sentimentos que os meus pais sempre me inculcaram, embora quase todas as minhas amigas se deliciassem em falar de palácios e de grandes festas. Situação pior era com os meus primos, os quais tive que enfrentar em mais de uma ocasião, pois para eles o Messias que tanto se aguardava não era outra coisa senão um líder militar. Quando eu lhes falava das qualidades espirituais que adornariam a Sua alma, eles zombavam de mim dizendo que eu era uma menina incapaz de entender o que convinha ao povo de Israel, acreditando que um Messias bondoso fosse capaz de expulsar os romanos da nossa pátria.

 

Enfim, naquela noite de sábado de Primavera, a minha mãe e eu ouvíamos atentamente Joaquim, que nos estava contando a prédica do rabino Asaf. Tudo ia bem e se desenrolava conforme gostavam meu venerado rabino e meus pais, até que Joaquim disse algo que nos surpreendeu. Disse que, chegando a um certo momento da sua exortação, Asaf pareceu emudecer. Lia parágrafo por parágrafo o texto de Isaías, explicando-os em seguida até que, de repente, ao ler o que estava escrito empalideceu, fechou o livro, sentou-se e se pôs a chorar.

 

Vários homens do povoado, entre eles o meu primo José, com quem os meus pais me haviam comprometido em matrimónio, e o meu próprio pai, se acercaram de Asaf, por não conseguirem extrair dele palavra alguma. A assembleia se dissolveu e não se parou de falar sobre o assunto, todos intrigados com o que tinha lido Asaf. Como ninguém possuía o livro de Isaías, não se podia consultar o texto que tanto havia impressionado o nosso bom rabino, e assim decidiram recorrer a um homem de Caná, que morava no nosso povoado e que não fora aquela manhã à sinagoga porque estava de cama com febre. Era um mestre no conhecimento das Sagradas Escrituras e recitava de memória passagens inteiras, além de ser amigo da minha família.

 

O meu pai, consciente do aspecto intrigante que estava mostrando no seu relato, fez uma pausa e olhou-nos atentamente. Nós as duas estávamos boquiabertas, não assustadas, porque Ana, minha mãe, tem tanta fé em Deus que duvido que algo consiga abalar seu ânimo. Mas estava muito interessada. Joaquim, depois de um momento de silêncio que aumentou a expectativa, disse-nos que chegando à casa de Adonias, o cananeu, e a ele foi tudo explicado. Quando lhe disseram qual era o texto que Asaf havia lido, Adonias fechou os olhos e começoua a murmurar em voz baixa, até que chegou ao ponto do texto onde o rabino o interrompera. A partir daí, já em voz alta, acrescentou:

 

“Quem deu crédito a essa notícia? E o braço de Yaveh a quem se revelou? Cresceu como um novo broto diante dele, como raiz em terra árida. Não possuía aparência nem presença. Vimo-lO e não tinha imagem que pudéssemos estimar. Desprezível e refugo dos homens, varão de dores e conhecedor de doenças, como alguém diante de quem se oculta o rosto, desprezível, e não O percebemos. E contudo era as nossas doenças que carregava e as nossas dores que suportava! Nós O deixámos ser açoitado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi ferido por nossas rebeldias, punido por nossas culpas. Ele suportou o castigo para nos trazer a paz e com as Suas contusões fomos curados. Todos nós erramos como ovelhas, cada um seguiu o seu caminho, e Yaveh descarregou sobre Ele toda a nossa culpa. Foi oprimido, se humilhou, e não abriu a boca. Como um cordeiro levado à degola e como uma ovelha que frente aos que a tosquiam fica emudecida, Ele também não abriu a boca.”

 

Naturalmente que o meu pai pudera lembrar para nós todo aquele longo parágrafo porque o havia escutado e meditado sobre ele muitas vezes, e bastou Adonias iniciar sua declamação para que o acompanhasse em viva voz.

 

Joaquim também nos disse que alguns dos que foram consultar Adonias não quiseram dar crédito ao que dizia, porque isto poderia significar que o Messias anunciado pelo profeta Isaías não era um Messias Rei, um Messias libertador do jugo romano, e até poderia dar a entender que Ele fora traído pelo próprio povo, o que era absurdo e impossível.

 

Desse modo, divididos e confusos, saíram todos da casa do cananeu, mais preocupados ainda do que quando haviam entrado.

 

O meu pai e José, meu querido primo e quase meu marido, voltaram juntos, subindo a encosta até nossa casa, onde José deixou o meu pai, não sem antes pedir-lhe que me saudasse em seu nome, o que sempre me fazia corar. O problema é que os dois estavam de acordo em reconhecer que Adonias não se equivocara de texto e que, possivelmente, o Senhor Todo-Poderoso enviara algum sinal ao nosso rabino Asaf, que o surpreendeu a ponto de fazê-lo emudecer.

 

“Estamos em tempos sublimes, tempos de Deus. Não devemos temer, porque o Senhor nunca abandona o Seu povo, porém devemos orar intensamente para que a cada instante se faça a Sua divina vontade.”

 

Assim disse o meu pai, dando por terminado o relato e indicando-nos em seguida o horário tardio, próprio para se deitar. Obedeci imediatamente e fui ajudar a minha mãe nas últimas lidas da casa, e logo me encaminhei ao meu quarto.

 

Não podia dormir. Lá fora cantavam os grilos. A lua era lindíssima e a sua luz se filtrava pela tela de tecido que encobria a janela do meu quarto. Não havia vento e eu estava tranquila, estranhamente tranquila, pois apesar do que o meu pai nos havia contado, não me sentia inquieta. No entanto, não podia dormir.

 

Assim, comecei a rezar. Algo dentro de mim me dizia que o Senhor estava esperando uma palavra minha. Eu a pronunciei em seguida e lhe disse que se Ele queria enviar um Messias diferente daquele que todos esperavam, para mim era igual. Eu não queria que a Sua vontade se adaptasse aos meus desejos e sim o contrário. Disse-lhe também que me dava muita pena o facto de que o Messias ia ser entregue em sacrifício por nossos pecados, como um daqueles cordeiros que são mortos na noite de Páscoa, quando se comemora o gesto que marcou a origem do nosso povo, a acção de Deus contra os primogénitos dos egípcios.

 

Eu não entendia como podia vir um Messias que fracassasse no final. Os argumentos das minhas amigas, dos meus primos e dos meus antepassados, à excepção dos meus pais, pareciam-me cheios de razão. Achava lógico que Deus interviesse a nosso favor, como já havia feito no passado, na época dos Juízes ou dos Reis, quando produziu um chefe poderoso que devolveu a liberdade e a grandeza da nossa pátria. Porém, como a meus pais, não me dava prazer algum imaginar cenas de guerra e violência, de sangue e desolação que forçosamente acompanhariam essa liberdade, por mais gloriosa que fosse. Além disso, e agora a coisa já se complicava, parecia-me estranho e mais incomum ainda, que o Messias tivesse que padecer em nome de todos, sendo Ele inocente e nós culpados.

 

Sentia fortemente que, naquela noite, o Senhor esperava algo de mim. A minha resposta foi positiva. Disse-lhe que, por mim, as coisas se fariam de acordo com a Sua vontade e não seguindo os meus cálculos ou previsões. Portanto, se Ele, Yaveh, resolvera que as coisas iriam se desenvolver do Seu modo, eu aceitaria e, como em ocasiões anteriores, ofereci-me para ajudar no que fosse possível, sabedora, de antemão, que tudo o que eu fizesse seria pouco, jovem como era e a ponto de casar-me brevemente.

 

Foi quando tudo ocorreu.

 

Não havia pronunciado o meu último sim, quando o meu pequeno quarto se encheu de luz. Estava ajoelhada, com a minha roupa modesta presa acima dos joelhos para não rasgá-la, quando ele apareceu.

 

Confesso que não me assustei. Bem, me assustei sim, mas se tratava de um medo que não era medo.

 

O facto é que ali estava ele. Belo e luzidio, doce e cheio de paz. Nunca me ocorreu que fosse um enviado do Maligno, pois a paz que dele emanava era representativa apenas de Deus. Aliás, este fruto eu já saboreava antes, quando rezava e passava as longas horas livres das tardes de sexta-feira entre as oliveiras ou no meu quarto. Essa mesma paz, a de Deus, encontrava profundo eco em mim. A Sua paz e minha paz se entrelaçavam, como se no meu interior nunca tivesse existido outra coisa senão a harmonia divina, uma paz semelhante a que esse mensageiro do Senhor emanava.

 

Estou-me referindo ao anjo Gabriel.

 

Não só era belo e cheio de paz, mas também falava. Se tivesse permanecido calado, talvez eu tivesse brincado com ele, pois era grande a minha sintonia entre a sua alma e a minha tranquilidade. Porém, quando começou a falar assustei-me um pouco. Não porque a sua voz fosse feia, mas o que me disse me deixou perplexa.

 

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo”, foram suas primeiras palavras.

 

Naturalmente era de provocar espanto. O que significava “cheia de graça”? Não estávamos todos sob o efeito do pecado original, como nos ensinavam na sinagoga? Não seria, pois, um convite à soberba? Não me havia deixado enganar com a sua aparente espiritualidade?

 

Ele se deu conta em seguida e tentou tranquilizar-me: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Irás conceber no teu ventre e darás à luz um filho, a quem darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado “Filho do Altíssimo”. O Senhor lhe dará o trono de David, seu pai. Reinará sobre a casa de Jacó pelos séculos e seu reino não terá fim”.

 

Na verdade não eram palavras muito tranquilizantes. Dizia-me “não temas”, mas o que vinha em seguida era mais sério e preocupante ainda.

 

Sem dúvida, acostumada a responder com um “sim” a tudo o que Deus me pedia e já com a certeza íntima de que aquele era um mensageiro Seu, nem pensei no problema em que me metia, nem nas consequências que poderiam resultar do facto de eu já estar de uma maneira ou de outra, casada, ou pelo menos comprometida com José. Já lhe ia dizer que sim quando o sexto sentido que possuem as mulheres me levou a fazer uma pergunta, uma espécie de prova para cretificar-me de que, em verdade, o Senhor Todo-Poderoso era quem enviava aquele mensageiro. perguntei-lhe: “Como ocorrerá isso, se eu não conheço varão?”

 

Não se tatava de algo sem importância. Para mim isto era fundamental. De facto, ou se resolvia esse ponto, deixando claro que eu não me veria forçada a fazer nada que não tivesse de acordo com os preceitos de uma jovem honesta, ou não poderia estar segura de que o que me oferecia vinha directamente de Deus. Deus não poderia contradizer Deus. Deus não poderia ter semeado em minha alma, durante toda a minha vida, uma necessidade de pureza e de consagração para depois conduzir-me por caminhos contrários. E como aquilo que eu recebera sem dúvida era coisa Sua, o que ocorria agora, se também vinha de Suas mãos, forçosamente deveria estar em perfeita sintonia com o anterior.

 

O anjo Gabriel soube dissipar todas as minhas dúvidas: “O Espírito Santo descerá sobre ti”, afirmou, “e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso Aquele que nascer será santo e será chamado Filho de Deus”. Estas últimas palavras colocaram tudo no seu devido lugar. Eu continuaria mantendo a minha virgindade e minha pureza de alma e de corpo, sem ter que passar por situações que causavam repugnância não só a mim como a toda e qualquer moça honrada. É que os meus pais haviam dito muitas vezes que eu nunca devia aceitar isso de que os fins justificam os meios, por mais que fosse um lema muito usado, principalmente na hora de realizar negócios lucrativos ou quando se queria justificar a violência contra os romanos.

 

O fim era neste caso o melhor, ou ao menos assim se apresentava: deixar que nascesse ninguém menos do que o Messias. Porém eu queria assegurar-me de que também os meios e a forma como aconteceriam os factos seriam correctos. Basicamente, se assim não ocorresse, eu saberia de imediato que por trás disso não se encontravam os desígnos de Deus. O Senhor não se contradiz – não diz hoje “sim” e amanhã “não”. Ele é sempre um “sim” grande, nobre e permanente. Além do mais, a situação não era tão diferente do assunto sobra o qual eu estava meditando antes que o enviado de Deus enchesse com a sua luz o meu pequeno quarto. O povo de Israel, meu povo, queria um libertador a todo custo. A meus pais e a mim própria parecia que neste “a todo custo” havia algo que não se encaixava muito bem com a bondade divina. Nós também desejávamos que viesse o Messias para nos libertar do jugo estrangeiro, porém não a qualquer preço, não ao preço do ódio, da guerra, da violência.

 

Ainda estava tecendo estas conjecturas quando o anjo voltou a falar. Quem sabe pensava que eu tinha dúvidas. O facto é que acrescentou: “Olha, também Isabel, tua parente, concebeu um filho em sua velhice e este já é o sexto mês daquela que chamam estéril,  porque nada é impossível a Deus.

 

Não havia necessidade deste argumento, porque eu já estava decidida. De modo que, para evitar que suspeitasse de minha vontade de aceitar o que Deus me pedia, precipitei-me a dizer-lhe o que gritava o meu coração desde o primeiro momento, uma espécie de consentimento matrimonial, um “sim, quero”, que saía de mim com tanta força que me assustou, porque eu não estava acostumada a ímpetos semelhantes. “Eis aqui a Escrava do Senhor”, disse-lhe, “faça-se em mim segundo sua palavra.”

 

Então Gabriel foi-se embora. Sorriu-me e se foi. Senti algo como um beijo nas minhas mãos, como o roçar das asas de um pássaro suave e doce. Porém, o melhor foi o seu sorriso. Durante todo o tempo que durou nosso encontro, pareceu como se ele estivesse nervoso, mais ainda do que eu. A sua atitude era de expectativa de alguém que teme que possam duvidar do seu pedido e se joga todo nele. Depois compreendi que não só ele mas também a criação inteira dependia das minhas palavras naquela noite de Primavera. Todos aguardando que uma insignificância como eu, uma menina de quinze anos que apenas começava a ser mulher, desse permissão ao Todo-Poderoso para inaugurar uma nova criação, uma nova aliança, uma história de amor definitiva e eterna com um povo na qual cabiam todos os homens.

 

O facto é que eu disse “sim”. Disse ao mensageiro para levar o recado ao Senhor. Não pensei demais nas palavras exactas. Foram as que me saíram da alma naquele momento. Sabes como são estas coisas: se te dessem tempo, comporias uma bela oração ou, até mesmo, a encomendarias a um rabino ou a um homem versado em letras. Mas assim de repente, a uma pobre adolescente de aldeia só ocorreu usar a linguagem simples e vulgar a que estava acostumada, sem adornos nem sofisticação. Por isso falei em “escrava”. Eu não era escrava. Os meus pais eram livres e tínhamos a dignidade e desejos de liberdade que sempre caracterizaram o nosso povo, indómito entre os indómitos e muito zeloso de suas tradições. Eu era e sempre fui contra a escravidão, por mais que algumas pessoas do povoado tivessem escravos em suas casas e que outros dissessem que sem a existência dos escravos nada funcionaria sob o ponto de vista económico. Em minha casa, isto de usar maus meios para bons fins nunca nos agradou, como nunca nos chegou a convencer o “mal menor” de que falavam alguns, geralmente para justificar algo injustificável.

 

Contudo, na hora de expressar o meu consentimento, falei aquilo de escrava. Pode parecer uma bobagem, um contra-senso inclusive, uma vez que eu era contra a escravidão. Porém, tão pouco me arrependo, apesar de terem-se passado tantos anos e de eu ter meditado muito sobre isso. Não só respondi prontamente, sem pensar, como também, se agora tivesse que repetir tudo de novo, eu diria o mesmo.

 

Quero ser escrava do Senhor. Somente do Senhor, isto sim. Porém, com todas as minhas formças. Ser a Sua escrava não significa não possuir dignidade nem carecer de liberdade, mas sim colocar minha liberdade ao Seu serviço e confiar a minha dignidade aos Seus cuidados. Ele sabe cuidar de mim muito mais do que eu mesma. Não fosse assim, ai estão tantos que se dizem livres e no entanto são escravos do vinho ou de vícios muito piores. Eu vivo por Ele e para Ele. Fui eu que escolhi, ninguém impôs nada, quando me foi pedida a permissão para que pudesse nascer o Messias. Porém, devido à liberdade que tenho, digo-Lhe: aqui me tens, sou Tua escrava, podes fazer de mim o que quiseres, me abandono a Ti, utiliza-me para os Teus fins e só peço que sejas Tu a cuidar de mim. Sou obra das Tuas mãos e não desejo outra coisa que ser espelho que reflicta a Tua glória e o Teu prestígio.

 

Sou a escrava do Senhor. Sou Sua esposa. Sou a Mãe do Seu Filho. Porém, esta é outra história, querido João, que te contarei amanhã.


publicado por FireHead, às 17:13link do post | Comentar

O Evangelho Secreto da Virgem Maria
Por Santiago Martín

 

Revista: `Pergunte e responderemos`

D. Estevão Bettencourt, OSB

Nº 480 - Ano 2002 - Pág. 229

 

 

Em síntese: O livro, falsamente atribuído à Virgem Maria, imagina a Santa Mãe de Deus, no fim da vida terrestre, a contar a João como ela viu a vida e as façanhas de Jesus. Segue a trama dos Evangelhos e a parafraseia, ilustrando-a com notícias fantasiosas. O próprio autor dessa obra afirma tratar-se de uma composição literária que não tem valor histórico senão quando segue o arcabouço do Evangelho.


As editoras Paulus (Católica) e Mercuryo (que publica livros falsamente Cristãos) oferecem ao público “O Evangelho Secreto da Virgem Maria”, obra de título atraente, mas ilusório. O autor do livro é o sacerdote espanhol Santiago Martín, que, baseado na trama dos Evangelhos, tenta descrever como a Virgem Maria se sentia nas diversas fases da sua missão de Mãe de Jesus. A narração pretende ter base num apócrifo descoberto em Jerusalém pela monja peregrina Eteria, no século IV. No fim da sua vida terrestre, Maria estaria contando a João Evangelista a sua vivência junto a Jesus. A leitura é interessante, mas põe o leitor diante de cenas gratuitamente imaginadas que podem passar por autênticas a um leitor desprevenido.

 

Na sua Nota Final (p. 223) observa o autor:


”Como o leitor, sem dúvida, adivinhado, o conteúdo deste livro é uma composição literária, por mais que beba das fontes da tradição da Igreja e esteja em sintonia com o ensinamento oficial. O autor tentou - com ousadia talvez excessiva - colocar-se na pele da personagem, neste caso a Santíssima Virgem, para tentar expressar aquilo que ela deve ter sentido e como deve-lhe ter custado amar nas difíceis travessias que Deus lhe pedira que empreendesse. Em todo caso, o resultado - o autor é também consciente disso - não é mais do que aproximado; se é difícil saber o que pensa, experimenta ou sofre outra pessoa, o mistério se torna ainda mais insondável quando se trata de nada menos que o mistério da Imaculada, daquela que foi concebida sem pecado e que jamais conheceu a mancha que nos perturba tanto a alma quanto o corpo. Se a leitura deste relato serviu para conhecer mais Maria, para amá-la mais e para imitá-la melhor, todos aqueles que trabalharam nesta obra se darão por satisfeitos e altamente recompensados. Se não é este o caso, como nas antigas representações de teatro, rogamos ao leitor que nos perdoe e seja indulgente connosco”.

 

O traço feminino que o autor mais põe em relevo, é o amor... amor de Maria a Jesus e a São José, seu esposo, como também o amor de Jesus a toda a humanidade.


Propostas estas considerações gerais, merecem atenção alguns tópicos particulares do livro.

 

 

Alguns pontos particulares 

 

1. A consciência de Jesus


O Jesus desse “Evangelho” apócrifo ignora coisas importantes:


”Disse-me que sabia que Deus era o Seu Pai e sobre a Sua concepção não saberia responder. Inclusive perguntou-me se tinha acontecido algo extraordinário” (p. 108).


”estava chegando aos trinta anos e continuava em casa, cuidando da Sua mãe... Uma vez mais, Deus O punha à prova com essa espera tão prolongada, que não se sabia quando iria terminar. Deus Lhe ensinava a escutar a Sua voz” (p. 129).

 

Donde as perguntas: Jesus ignorava algo da Sua identidade?... algo da Sua missão?


Em outros termos: Visto que Jesus era verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, pergunta-se: Jesus, como Homem ou na Sua consciência psicológica, sabia que era Deus? Sabia que a Sua natureza humana estava unida à divina e subsistia pela Segunda pessoa da Santíssima Trindade?


Eis a resposta mais plausível que a estas perguntas se possa dar: Jesus tinha uma só pessoa, que era divina, ou a pessoa do Filho de Deus. Encarnando-se, essa pessoa nada perdeu do que era e possuía eternamente; por conseguinte, mesmo peregrino na terra, o eu de Jesus conhecia tudo o que Deus conhece: o mistério da Santíssima Trindade com a sua riqueza de atributos, e todas as coisas.


Além da Sua natureza divina, Jesus tinha uma natureza humana. Esta, embora não tivesse um eu humano próprio, mas vivesse do eu do Filho, tinha uma consciência psicológica, isto é, a faculdade de conhecer a si mesmo (como todos nós a temos). É aqui que se coloca a pergunta: como essa consciência humana de Jesus via a humanidade de Jesus?

 

Respondemos. A consciência humana de Jesus:

 

1) Sabia que Jesus era verdadeiro Homem e vivia como verdadeiro Homem;

2) Sabia que subsistia pela subsistência da Segunda pessoa da Santíssima Trindade.

3) Não podia crer que tinha uma pessoa humana; isto implicaria em Jesus uma tremenda ilusão a respeito de Si mesmo.


Em conseqüência, Jesus teve uma experiência religiosa tal como nenhuma criatura humana teve. Por isto podia dizer que ninguém conhece o Pai senão o Filho e ninguém conhece o Filho senão o Pai (cf. Mt 11, 25s). Não era possível que Jesus tivesse a consciência humana de Si mesmo sem conhecer que Ele tinha Deus como Pai... o Pai que é a primeira pessoa da Santíssima Trindade.


Na consciência de Jesus, o Divino tinha a supremacia; o principal traço dessa consciência era saber-se Filho de Deus. Isto, porém, não atenuava em Jesus a noção de ser verdadeiro homem, portador do destino do mundo inteiro, chamado a uma vida autenticamente humana até a morte, e morte de cruz.


Todavia não é necessário dizer que Jesus tinha sempre de modo plenamente actual a consciência de ser o Filho de Deus. Com outras palavras: não somos obrigados a crer que Jesus pensasse a todo momento: “Eu sou o Filho de Deus”; podemos admitir que Ele possuísse tal noção como um hábito que nunca se apagava, mas que nem sempre emergia das profundidades da Sua consciência; paralelamente, um Rei, embora nunca ignore que é Rei, nem sempre está a recordar que é Rei da Sua nação.

 


2. Uma ou três mulheres?


O autor identifica Maria, irmã de Marta e Lázaro, com a Madalena:


”Do outro lado, encontravam-se a outra Maria, irmã de Lázaro e Marta, a que chamam de Madalena...” (p. 194).


Em nossos dias a exegese distingue três mulheres, que os antigos identificavam entre si numa só, chamada Madalena. Com efeito:


- a irmã de Marta e Lázaro é uma santa mulher, que escolheu “a melhor parte”, pondo-se a ouvir o Mestre (Lc 10, 41);

 

- Madalena é aquela de quem Jesus expulsou sete demónios; tornou-se seguidora do Senhor (Lc 8, 1-3);

 

- há ainda uma mulher anónima, que em casa de Simão fariseu lavou os pés de Jesus com as suas lágrimas de pecadora arrependida e os enxugou com os seus cabelos.

 

Por ser pecadora, esta terceira mulher foi identificada com Madalena, a endemoniada, e, por ter lavado e ungido os pés de Jesus, foi identificada com Maria, irmã de Marta e Lázaro, que ungiu os pés de Jesus (mas não os lavou com lágrimas, porque não era mulher de má vida); cf. Jo 12, 1-3.


Eis como de três mulheres se fez uma só; são muito ténues os traços que pretensamente as identificam entre si. É mais correcto distingui-las.


Quanto à adúltera de Jo 7, 53-8, 11, é uma quarta mulher.

 


3. O sinal da cruz


Conforme o apócrifo, Jesus fazia o sinal da cruz antes mesmo da Sua Paixão, quando a cruz era o patíbulo da ignomínia - o que é anacrónico. A cruz só foi honrada após a Páscoa do Senhor. Por conseguinte não têm propósito os seguintes dizeres:


Jesus abençoou S. José moribundo e fez suavemente, como à sua avó, o sinal da cruz na sua testa, nos seus olhos, na sua boca e nas suas mãos” (p.126; cf. p. 122).

 

 

4. João Baptista, primo de Jesus?

 

À p. 133 lê-se:


Diz Maria: “Foi o meu próprio filho quem me falou da alegria que havia sentido ao ver seu primo João”.


A suposição de que Jesus e João Baptista eram primos um do outro deve estar baseada na hipótese de que Maria e Isabel eram primas uma da outra. Ora tal hipótese é infundada. O texto grego de Lc 1, 36 diz que Isabel era syggenís de Maria, ou seja, parente, familiar. Isabel devia ser bem mais velha do que Maria. É oportuno guardar o sentido amplo do texto grego.

 


5. Verónica


À p. 196 lê-se:


”Ali nós nos pusemos também contigo. Ela se chamava Verónica e, ao saber que eu era a mãe, dirigiu-me a palavra e, após abraçar-me fortemente, entregou-me o que levava nas mãos”.


Verónica teria enxugado a face ensanguentada de Jesus e esta teria ficado gravada no respectivo pano. Tal episódio não se encontra nos Evangelhos. É de autenticidade discutida; o nome Verónica pode provir de vera eikón (verdadeira imagem).

Eis algumas das considerações que o livro de Santiago Martín sugere. O autor o conclui com um Epílogo, no qual lembra que Deus é amor e espera a resposta do amor dos homens (p. 222).

 

Direitos reservados à Ed. Mercuryo, São Paulo (SP), 130 x 200 mm, 223 pp.

 

 

Fonte: Exsurge Domini


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