«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
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Nov 15
publicado por FireHead, às 07:12link do post | Comentar

Como entender tantas passagens do Antigo Testamento que falam de guerras, violência e imoralidade?

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A revelação do Deus-Amor é progressiva

 

A história de Israel é a história de uma educação. Por fases, Deus faz o Seu povo sair da violência em nome de Deus, até o dia em que Jesus diz: “Bem-aventurados os mansos”.

 

A redação da Bíblia se estende aos últimos séculos antes de Jesus Cristo. Mas a história da qual ela dá testemunho se estende a dois milénios. Quando se fala da Bíblia, é preciso conhecer em que momento da Revelação ela se situa. No começo da Bíblia, os primeiros capítulos do livro do Génesis falam da criação e da origem da humanidade: a violência não tem sua origem em Deus.

 

É um facto: muitas páginas da Bíblia são extremamente violentas. Esta violência é um dos obstáculos para a leitura do Antigo Testamento. Também alimenta a rejeição às religiões, em particular às monoteístas: a Bíblia seria um manual de fanatismo que o Cristianismo e o islamismo teriam herdado.

 

De onde vem a violência, segundo a Escritura? Ela não vem de Deus. A criação é um acto de poder, não de violência. O homem tem como missão, entre outras, estabelecer a ordem neste mundo inacabado, imperfeito. Seu domínio sobre o mundo criado tem por objectivo que a paz reine.

 

Mas a serpente, o Maligno sugere ao homem que, comendo do fruto proibido, será capaz de rivalizar com Deus. Marido e mulher não se ajudam na hora de resistir à tentação. Ao contrário, um arrasta o outro e se deixam enganar: é o pecado.

 

A primeira consequência do pecado é a violência. Em meio à rivalidade, Caim mata Abel. Deus quer acabar com o ciclo infernal da violência e protege Caim. Mas a violência continua.

 

E chega a tal ponto que, como diz a Escritura, Deus se arrepende de ter criado o homem. “A terra está repleta de violência por causa dos homens”, diz a Noé. Que a humanidade tenha um novo começo, a partir do único justo que Deus encontra: Noé e sua família! O dilúvio engole pecadores e pecados. Deus não se vinga, mas não pode deixar indefinidamente que se propaguem o mal, a injustiça, a violência, o pecado.

 

No final, como sinal de uma nova aliança com a humanidade, Deus faz surgir no céu um arco que reúne a humanidade de um extremo ao outro da Terra. O arco, arma de guerra, se torna um símbolo da paz; anuncia um investimento ainda mais radical: a morte de Jesus na cruz como fonte de salvação.

 

Certamente, esses primeiros capítulos da Bíblia utilizam uma linguagem de imagens. Mas só as mentes superficiais encararão isso com superficialidade. Os textos esclarecem a situação do homem, de todos os homens, antes de que se inicie, com Abraão, a história de Israel.

 

Para dar-se a conhecer aos homens, Deus escolheu um homem – Abraão – e sua descendência. Quando os israelitas se tornam numerosos no Egipto, o faraó é violento com eles, especialmente mandando matar todos os recém-nascidos do sexo masculino. Deus sai em defesa do seu povo: isso é justiça.

 

Israel não nasceu na violência. Nasceu de um chamado: Deus chama Abraão e o convida a sair do seu país, transladando-se, como nómada, com sua família e seu gado. Ele mesmo é um homem de paz. Intercede diante de Deus a favor de Sodoma, cidade gravemente pecadora. Em caso de conflito pela utilização de um poço em Bersebá, chega a uma solução com o seu rival; faz inclusive uma aliança com ele. É saudado por Melquisedec, rei de Shalem (Jerusalém), palavra que significa “paz”.

 

Mas se Abraão é mais pacífico, o que dizer de Deus? Deus impediu que Abraão lhe oferecesse o seu filho em sacrifício e esta proibição permanecerá.

 

Em Jerusalém, o vale de Geena está amaldiçoado porque reis ímpios acreditaram atrair os favores divinos sacrificando os seus filhos e filhas. Deus condena isso, no profeta Jeremias: “Uma coisa dessas eu nunca mandei fazer!” (Jr 7, 31).

 

Mas Deus é também aquele que faz chover fogo sobre Sodoma, quem destrói a cidade e sua população. O cristão recorda que, no Evangelho, dois discípulos queriam, um dia, fazer descer fogo do céu sobre um povo que se rejeitou a recebê-los e Jesus os repreende. Algumas versões acrescentam: “Vocês não sabem que espírito os anima”.

 

Observando estas duas cenas, é grande a tentação de opor Antigo e Novo Testamentos e de rejeitar o Antigo, que apresentaria o rosto de Deus mais odioso que desejável. No entanto, ainda quando destrói Sodoma, Deus não cede à arbitrariedade ou ao exagero: é toda a cidade de Sodoma que havia pecado, faltando a um dever humano fundamental, a hospitalidade.

 

Deus não é violento: é justo e protege.

 

Alguns séculos depois, no Egipto, os descendentes de Abraão sofrem violência: são explorados e ameaçados de extermínio. Começa então outra fase da história sagrada. Deus vai salvar os israelitas “com mão forte e braço estendido”. Sob a condução de Moisés, os faz sair do Egipto. Defende-os quando são atacados. E os faz entrar na Terra Prometida.

 

Em um mundo de violência, muito frequentemente o povo de Israel se encontra em estado de guerra. O que está em jogo é a sua independência nacional, mas também religiosa.

 

Deus escolheu, portanto, um povo que nunca será um império muito poderoso, mas que entra em combate com os poderes que o cercam. Estamos acostumados, pelo menos em nossa terra, a longos períodos de paz com os nossos vizinhos. Mas isso não era assim: a guerra era uma actividade quotidiana. Pensemos na Idade Média: na medida em que Deus se confia a este povo, as guerras de Israel têm um objectivo sagrado. “Deus Todo-Poderoso” é o Senhor dos exércitos celestiais, isto é, dos inúmeros astros, mas também dos exércitos de Israel que defendem a sua independência religiosa.

 

Mistura-se também com outros povos, correndo o risco de adoptar também os seus deuses. Em alguns casos, este desejo de pureza religiosa levou ao aniquilamento de algumas populações. Mas parece que este tipo de conduta, pouco frequente, teve causas muito mais mundanas.

 

Com relação às instituições de Israel, prevêem a pena de morte para um determinado número de faltas, mas se trata tanto de faltas sociais, como o homicídio e o adultério, como de faltas propriamente religiosas: por exemplo, quando alguém entrega os seus filhos aos ídolos. Porém, tudo deve ser feito segundo o direito, sobre a base de muitos testemunhos, e o acusado deve ter a possibilidade de se defender. A “lei do talião” (“olho por olho, dente por dente”) não é um convite à vingança, mas uma limitação do castigo.

 

A violência, no final, só gera vítimas. Ela não será vencida com uma violência oposta. Se a violência vem do coração do homem, é o coração do homem que tem de curá-la. A violência sofrida deve se transformar em oferenda. É isso que Cristo fez. Mas inclusive depois de vinte séculos de educação por parte de Deus, nenhum contemporâneo de Jesus O entendeu. E nós, já O entendemos?

 

Em sua história, Israel foi mais frequentemente vítima da violência que autor dela. Pelos profetas, Deus faz o Seu povo descobrir progressivamente que a violência é certamente uma rua sem saída e que inclusive o exercício da força não porá fim ao pecado que está no homem. O importante é a conversão dos corações. A mudança total de perspectivas é anunciada pelas profecias do Servo de Deus: “Meu servo justificará muitos e suportará as culpas deles” (Is 53,11). O cristão reconhece em Jesus Cristo a realização desta profecia.

 

A história da violência na Bíblia é a história de uma educação. É inútil negar a presença da violência em nossos corações, na nossa sociedade, no nosso mundo. É preciso, em primeiro lugar, regulá-la, impedindo que invada todo o campo. Também é preciso saber que as regressões são possíveis: o século XX foi um século de extrema violência.

 

Se existe ódio, ele se dirige a todas as formas do mal: a rejeição de Deus, a falsidade, a injustiça, o desprezo dos outros, da sua dignidade, dos seus bens. É preciso odiar o pecado e amar o pecador. É o que o autor do salmo citado não podia entender: “Com grande ódio eu os odeio”; é o que Jesus realizou perfeitamente e que seus adversários não entenderam.

 

E nós, já entendemos isso?

 

Monsenhor Jacques Perrier


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