«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
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Fev 12
publicado por FireHead, às 02:38link do post | Comentar

Um certo biólogo americano, ateu, gestor de um site (daqueles também ateus, onde se reúnem ateus) disse que eles, os ateus, não acreditam em fantasmas nem em elfos ou no coelhinho da Páscoa – nem em Deus. Devo confessar que eu, que não sou ateu - já duvidei da existência de Deus – nunca acreditei em elfos ou no coelhinho da Páscoa. Nunca sequer acreditei no Pai Natal quando era miúdo, ao contrário de muitas crianças.

Há que fazer os possíveis para iluminar as mentes. Ao contrário de alguns ateus, que até têm sites próprios para fomentarem o ateísmo militante ao mesmo tempo que, incompreensivelmente (ou talvez compreensivelmente), criticam as crenças das outras pessoas precisamente porque a maior alegria consiste sempre em gozar com as outras pessoas, eu cá prefiro gostar de deixar as coisas em pratos limpos, doa o que doer.

Ora bem, o ateísmo é o quê? É algo que rejeita a natureza espiritual do homem, muito embora a sua mera existência e condição de ser racional, por mais incrível que pareça, clamem em favor dessa mesmíssima natureza espiritual. O ateísmo é uma revolta contra a natureza. Não sei onde é que está o brilhantismo nas pessoas cuja mente opaca, centralizada num auto-suficiente narcisismo, se revela mais impenetrável à luz da verdadeira intelectualidade. Será que o ateísmo é mesmo uma consequência duma madura reflexão ou é resultado inelutável do conhecimento científico ou filosófico? Ou será que é antes uma escolha pré-racional de ordem metafísica, fruto do orgulho e da rebeldia, uma manifestação de puberdade intelectual, tal como é o acne na biologia?

Um ateu bem formado é aquele que é tolerante e que respeita as crenças alheias. Coisa diferente é o ateu militante, cujo aderente encara a descrença como um dogma e a destruição da fé como um apostolado. Esses são adolescentes eternos que elegem o próprio ego como deus de si mesmos. Buscam justificações racionais para a escolha feita e encantam-se com a sua própria inteligência. Esse processo não será mais emocional do que propriamente racional? Os ateus olham de cima para os que crêem em Deus, considerando-os pessoas de mentes infantis, incapazes de escalar as alturas da sua própria compreensão. E isso enche-os de uma enorma auto-importância e de satisfação para com eles próprios. Eles precisam de reforçar a sua própria descrença com a corroboração de outros egos e de aplauso público.

A crença em elfos deve calhar melhor ao ateísmo, pois, como disse Chesterton, o problema do céptico não é não crer em nada, mais sim crer em tudo. Basta que eles sejam convenientemente chancelados com o aval da comunidade científica. E isso é o racionalismo, a fé irracional na razão. Mas como pode a ciência explicar, por exemplo, o que existia antes do que existe? A ciência pode apenas dizer que não existem muitos factos comprovados da mesma natureza, mas entre “não poder afirmar que acontece” e “afirmar que não pode acontecer” é uma diferença simplesmente brutal. A ciência não consegue provar a não existência do que não é observado, mas só a existência do que dá para ver (seja através dos olhos, microscópios, telescópios ou modelos matemáticos). Ela não está do lado dos ateus, embora eles gostem de pensar que sim. Talvez aí, com um pouquinho de honestidade intelectual em vez de cegueira pela paixão dogmática, se deva conceder à crença em Deus pelo menos o benefício da dúvida. A apresentação de hipóteses e teorias incomprovadas e incomprováveis como verdades científicas cabalmente demonstradas não podem servir como argumento para alimentar o ateísmo.

Já o agnóstico é aquele que se opõe à possibilidade de a razão humana conhecer Deus (já a Gnose, ao invés, tem a sua origem etimológica na palavra grega que significa «conhecimento»). O agnosticismo dita que, assim como é impossível provar racionalmente a existência de Deus, também é impossível provar a Sua inexistência. O agnosticismo contradiz-se na sua essência porque a questão de Deus não deve sequer ser colocada como um problema porque simplesmente não há como provar racionalmente se Deus existe ou não. No fundo, o agnosticismo separa aqueles que defendem a capacidade da razão de afirmar ou negar a veracidade da crença teísta.

Falar do agnosticismo pressupõe falar da Gnose. A Gnose afirma que existe uma centelha divina no homem e que o conhecimento de Deus se tem quando se conhece que se é divino e se estabelece uma experiência pessoal interior do eu com a partícula divina que existiria dentro de nós. Afirma, portanto, que o mistério de Deus é o mistério do homem. Para a Gnose, o homem é deus em evolução. Todo o homem então estaria salvo, sendo ele de que religião for e obedecendo ou não à moral, uma vez que o Deus criador do mundo seria o Deus do mal, que pretende mandar no homem. Logo, conclui-se que a Gnose é satânica, do anjo portador da luz. Logo, conclui-se também que as seitas heréticas do novo paganismo que existem no mundo, como por exemplo o movimento Nova Era, não é mais que uma simples palhaçada que visa colocar o homem num patamar que ele jamais conseguirá alcançar. A Gnose é a maior heresia que o mundo já viu.

Contudo, em termos de finalmente, cada qual é livre de fazer o que quer e de ser como quer ser ou de acreditar ou deixar de acreditar no que bem entender, pois realmente há coisas que não são para quem quer, mas sim para quem pode. Acredito piamente que existe um fim quando acabarmos a nossa caminhada e que haveremos de enxergar a verdadeira verdade… e isso sem uma segunda hipótese para corrigirmos os erros cometidos no único tempo que temos, por não existir um tempo que não teremos.

“Nunca devemos esquecer-nos de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.” (Epicuro, na sua “Carta sobre a Felicidade”)


PS. Não existe ateu num avião em queda livre.


Muito bem. Parabéns! E: perseverança!

Santa Quaresma
Mariam a 21 de Fevereiro de 2012 às 16:13

Perseverança sempre, pois "aquele que perserverar até ao fim será salvo". :)
FireHead a 22 de Fevereiro de 2012 às 02:31

ótimo texto. bela percepção das verdades da vida.

eu não acho que tenha alcançado a maturidade intelectual, mas percebo claramente que não estou mais na minha puberdade intelectual.
já neguei a existencia de deus, cegamente, mas hoje acredito que ou não saberemos nunca o que ele é, ou ele não é algo como deus, e sim uma simples forma de energia/vibração.
grato.
Matheus a 28 de Janeiro de 2016 às 19:43

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