«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
26
Ago 12
publicado por FireHead, às 14:28link do post | Comentar
Baseado na Carta Encíclica PASCENDI DOMINICI GREGIS
(Sobre o Modernismo)


Promulgada por Sua Santidade o Papa S. Pio X
(a 8 de Setembro de 1907)



Nós precisamos agora de quebrar o silêncio, para tornar bem conhecidos à Igreja esses homens tão mal disfarçados. (S. Pio X)


NOTA DO TRADUTOR
(do francês para o inglês)

A presente tradução do Catecismo Sobre o Modernismo do Padre Lemius foi preparada com a intenção de contribuir, conforme o desejo do Santo Padre, para que a Encíclica Pascendi Dominici Gregis fosse conhecida o quanto possível por todo o rebanho, e atender, nesse sentido, o que parece ser a real necessidade do laicato católico. As questões tratadas na Encíclica se referem a profundos e árduos problemas de teologia e de filosofia, circunstância que torna o sentido completo do documento difícil de ser compreendido, excepto pela mente treinada dos teólogos; por isso não causa surpresa que a pergunta seja repetidamente apresentada: "O que é este Modernismo do qual ouvimos falar tanto?" A ignorância deste assunto por parte dos nossos católicos leigos americanos é, pelo menos, uma prova gratificante, se fosse necessária, de que o Modernismo ainda não penetrou de facto nas fileiras do nosso povo; mas é uma sábia precaução, e estritamente de acordo com as intenções do nosso Santo Padre, manter a fé em guarda contra esta "síntese de todas as heresias", informando a sua real natureza a todos, para que tenham condições de detectar a sua subtil presença nas diversas formas de literatura que têm sido influenciadas pelo seu espírito.
O método catequético há muito vem sendo reconhecido como o mais apropriado e eficiente na instrução popular, e espera-se que este pequeno tratado possa ser um suplemento útil aos sistemáticos ensinamentos verbais que são dados, nas igrejas e institutos, sobre o Modernismo. As respostas de praticamente todas as perguntas foram tiradas literalmente do texto da Encíclica, permitindo assim que o estudante tenha a filial satisfação de saber que está sendo instruído com as próprias palavras do Santo Padre. Dessa forma a Encíclica será, sem dúvida, lida e estudada por muitos que poderiam não se sentir à altura do tema, na sua forma original.
O texto utilizado nesta versão foi tomado da publicação de Setembro-Dezembro, da The New York Review, reproduzindo prévia publicação do London Tablet.

SEMINÁRIO DE S. JOSÉ, DUNWOODIE, N.Y.

Festa de S. Gabriel, 1908.



PREÂMBULO

Gravidade dos erros modernistas

P. Qual é o primeiro dever imposto por Nosso Senhor Jesus Cristo ao Soberano Pontífice?
R. Sua Santidade, Pio X, nos responde: "A missão, que nos foi divinamente confiada, de apascentar o rebanho do Senhor tem principalmente o dever, imposto por Cristo, de guardar com a maior vigilância o depósito da fé transmitida aos Santos, repudiando as profanas novidades de palavras e as oposições de uma ciência enganosa."

P. Não foi sempre necessária tal vigilância?
R. "Nunca houve um tempo em que esta providência do Supremo Pastor não fosse necessária à Igreja Católica; pois, graças aos esforços do inimigo do género humano, nunca faltaram homens falando coisas perversas (Act 20, 30), vaníloquos e sedutores (Tito 1, 10), que caídos eles em erro arrastaram os mais ao erro (2 Tim 3, 3)."

P. Esses homens desencaminhados são hoje mais numerosos? Qual é o seu objectivo?
R. "É preciso confessar que nestes últimos tempos cresceu muito o número dos inimigos da cruz de Cristo, os quais, com artifícios novos e bastante subtis, se esforçam por destruir a virtude vivificante da Igreja e, se pudessem, solapar pelos alicerces o próprio reino de Cristo."

P. Por que o Soberano Pontífice não pode mais permanecer em silêncio?
R.
 Diz o Papa: "Não nos é lícito mais calar, para não parecer faltarmos ao nosso santíssimo dever, e para que a benignidade com que até agora os tratamos, na esperança de melhores disposições, não nos seja atribuída a descuido de nossa obrigação."

P. Onde estão os sequazes do erro que precisam de ser encontrados? São eles inimigos declarados?
R. 
"O que exige que falemos sem demora é antes de tudo que os sequazes do erro já não devem ser procurados entre os inimigos declarados da Igreja; mas, o que é para deplorar e temer muito, se ocultam no seu próprio seio, tornando-se assim tanto mais nocivos quanto menos percebidos."

P. Santo Padre, estes inimigos ocultos, que causam ansiedade ao vosso paternal coração, se encontram entre os católicos? Estão nas fileiras do clero?
R.
 Sim! "Muitos no laicato católico e também, o que é mais lastimável, muitos no próprio clero, fingindo amor à Igreja e sem nenhum conhecimento sólido de filosofia ou teologia, mas antes embebidos das teorias venenosas dos inimigos da Igreja, gabam-se presunçosamente de ser reformadores da Igreja."

P. Esses católicos, leigos e sacerdotes, que se apresentam como reformadores da Igreja, ousam eles atacar a obra de Cristo? Chegam eles ao ponto de atacar a própria Pessoa de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo?
R. 
"Cerrando fileiras ousadamente na linha de ataque, eles se atiram sobre tudo que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a Pessoa do Divino Redentor, que com audácia sacrílega rebaixam à condição de um mero homem."

P. Surpreendem-se tais pessoas quando Sua Santidade os inclui entre os inimigos da Santa Igreja?
R. 
"Apesar de se demonstrarem pasmados, ninguém poderá com razão se surpreender que nós incluímos tais homens entre os inimigos da Igreja, se, deixando de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplicar a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir deles. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja."

P. Por que Sua Santidade os chama de os mais perigosos inimigos da Igreja?
R. 
Por este motivo: "Como dissemos, eles tramam os seus perniciosos conselhos não fora, mas dentro da Igreja; e, por isso, o perigo está presente nas próprias veias e no coração da Igreja, e o dano causado é tanto maior quanto mais intimamente eles a conhecem."

P. Haveria ainda outros motivos para chamá-los de os mais perigosos inimigos da Igreja?
R.
 Sim! "Eles dirigem o seu machado não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as próprias raízes, que são a Fé e as suas fibras mais vitais."

P. Atingida a raiz, eles cessam as suas actividades?
R
"Atingida a raiz da imortalidade, eles continuam a disseminar o veneno por toda a árvore, de modo que não há verdade católica poupada, não há verdade que eles deixem de corromper."

P. De que meios astuciosos eles se servem para arrastar os incautos ao erro?
R
"Ninguém é mais hábil, ninguém é mais astuto que eles no emprego dos seus inumeráveis e maléficos ardis; porque fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto."

P. As consequências dessas doutrinas não deviam assustar os sacerdotes e leigos católicos e fazê-los recuar?
R. 
"As consequências deviam fazê-los recuar; mas, como a audácia é uma das características desses inimigos da Igreja, não há consequências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos."

P. Por que são eles especialmente perigosos e calculistas para enganar as almas?
R. 
"Eles são de facto extremamente aptos para enganar as almas, pois levam vidas de intensa actividade, de aplicação assídua e vigorosa a todos os campos de estudo e, o mais das vezes, têm fama de vida austera."

P. Santo Padre, Sua Santidade tem esperança de curar esses desencaminhados?
R. 
"O que faz desvanecer toda esperança de cura é o seguinte: as suas próprias doutrinas torceram de tal forma as suas mentes que eles desprezam toda autoridade e todo freio; e, baseados numa falsa consciência, tentam atribuir a um amor pela verdade o que na realidade não passa de soberba e obstinação."

P. Santo Padre, Sua Santidade não tem esperança de reconduzir essas pessoas desencaminhadas ao bom senso?

R. "Na verdade, por algum tempo esperamos reconduzi-los ao bom senso; e, para este fim, a princípio os tratamos com a brandura com que tratamos os nossos filhos, em seguida com severidade, e finalmente, bem a contragosto, servimo-nos de penas públicas. Mas vós bem sabeis, Veneráveis Irmãos, como tudo foi em vão; pareceram por um momento curvar a fronte, para depois reerguê-la com ainda maior arrogância."

P. Como não há esperança de reconduzir esses inimigos, por que Sua Santidade levanta a sua voz de advertência?
R. 
"Porque, se se tratasse de assunto somente deles, poderíamos talvez ainda deixar desapercebido, mas é o nome católico que está em jogo. Por conseguinte, manter o silêncio por mais tempo seria um crime."

P. É agora o momento de falar?
R. 
"Nós precisamos agora de quebrar o silêncio, para tornar bem conhecidos à Igreja esses homens tão mal disfarçados."

P. Que nome nós podemos dar a esses novos inimigos de Jesus Cristo e de Sua Santa Igreja?
R. 
"Eles são chamados vulgarmente e com razão de Modernistas."




FINALIDADE E DIVISÃO DA ENCÍCLICA

P. Quais são as finalidades e as divisões da Encíclica?

R. "Visto que os Modernistas empregam o astuciosíssimo artifício de apresentar as suas doutrinas não coordenadas e juntas em um todo sistémico, mas dispersas e como que separadas umas das outras, a fim de parecerem duvidosos e incertos, ao passo que de facto são firmes e constantes, convém, Veneráveis Irmãos, primeiro exibirmos aqui as mesmas doutrinas em um só quadro, e mostrar-lhes o nexo com que formam entre si um só corpo, para depois indagarmos as causas dos erros e prescrevermos os remédios para debelar-lhes os efeitos perniciosos."


PARTE I

OS ERROS MODERNISTAS

Prólogo

P. Seguindo uma forma ordenada na apresentação dos erros do Modernismo, quantos tipos de personagens Modernistas nós precisamos considerar?
R. 
"Para procedermos com ordem em assunto tão complicado, convém primeiro notar que cada Modernista representa e resume em si muitos personagens, isto é, o de filósofo, o de crente, o de teólogo, o de historiador, o de crítico, o de apologista, o de reformador. Todos esses personagens precisam de ser distinguidos, um por um, por aqueles que querem conhecer devidamente o seu sistema e penetrar nos princípios e nas consequências das suas doutrinas."



CAPÍTULO I


A FILOSOFIA RELIGIOSA DOS MODERNISTAS


1. O Agnosticismo

P. Começamos, pois, com o filósofo. Que doutrina é utilizada pelos Modernistas como fundamento para sua filosofia religiosa?
R. 
"Os Modernistas fundamentam a sua filosofia religiosa na doutrina denominada Agnosticismo."

P. Qual é o fundamento do Agnosticismo?
R. 
"De acordo com essa doutrina, a razão humana fica inteiramente reduzida à consideração dos fenómenos, isto é, só das coisas perceptíveis aos sentidos e pelo modo como são perceptíveis; ela não tem direito nem aptidão para transpor estes limites. E daí se segue que não é dado à razão elevar-se a Deus, nem Lhe reconhecer a existência, nem mesmo por intermédio dos seres visíveis."

P. Que concluem os Modernistas dessa doutrina?
R. 
"Que Deus não pode ser de maneira nenhuma objecto directo da ciência; e também, com relação à história, não pode ser considerado assunto histórico."

P. De acordo com tais premissas, que resulta da teologia natural, dos motivos de credibilidade e da revelação externa?
R. 
"Postas estas premissas, todos percebem com clareza qual não deve ser a sorte da teologia natural, dos motivos de credibilidade, da revelação externa. Tudo isto os Modernistas rejeitam e relegam ao Intelectualismo, que chamam de sistema ridículo, morto já há muito tempo."

P. As condenações da Igreja restringem a acção dos Modernistas?
R. 
"Nem o facto de a Igreja ter formalmente condenado erros tão monstruosos os abala."

P. Que definição do Concílio do Vaticano (I) pode ser citada contra os Modernistas?
R. 
"O Concílio Vaticano (I) assim definiu:


"Se alguém disser que Deus, um e verdadeiro, Criador e Senhor nosso, por meio das coisas criadas não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, seja anátema" (De Revel., can. I);


e também:

"Se alguém disser que não é possível ou não convém que, por divina revelação, seja o homem instruído acerca de Deus e do culto que lhe é devido, seja anátema" (Ibid., can.II);

e finalmente:

"Se alguém disser que a divina revelação não pode tornar-se crível por manifestações externas, e que por isto os homens não devem ser movidos à fé senão exclusivamente pela experiência interna ou inspiração privada, seja anátema" (De Fide., can. III).

P. De que modo os Modernistas passam do Agnosticismo, que é puro estado de ignorância, para o Ateísmo científico e histórico, que, ao contrário, é estado de positiva negação? E, por isso, com que lógica eles passam do não saber se Deus interveio ou não na história do género humano a tudo explicar na mesma história pondo Deus à parte, como se na realidade não tivesse intervindo?
R. A questão pode ser entendida do seguinte: "Há para eles um princípio fixo e determinado: a ciência e a história devem ambas ser ateias, e em suas raias não deve haver lugar senão para os fenómenos, repelindo de uma vez Deus e tudo o que é divino."

P. Dessa absurda doutrina, o que precisamos deduzir a respeito da augusta Pessoa de Cristo, dos mistérios de Sua vida e morte, de Sua ressurreição e ascensão ao céu?
R. 
"Logo veremos tudo isso."



2. Imanência Vital

P. De tudo o que foi dito, está claro que "o Agnosticismo é apenas a parte negativa da doutrina dos Modernistas". Há uma parte positiva?
R. 
"A parte positiva consiste naquilo que eles denominam imanência vital."

P. Como os Modernistas passam do Agnosticismo para a imanência vital?
R. "Eis como eles passam de uma parte a outra: a Religião, quer a natural quer a sobrenatural, precisa de uma explicação, como qualquer outro fato. Ora, quando a teologia natural é destruída, quando o caminho para a revelação é interceptado pela rejeição dos motivos de credibilidade e quando toda revelação exterior é absolutamente negada, é claro que não se pode procurar fora do homem essa explicação. Deve-se, pois, procurá-la no próprio homem; e, visto que a religião não é de facto senão uma forma da vida, a sua explicação certamente deve se encontrar na vida do homem. Daqui procede o princípio da imanência religiosa."

P. Parece que os Modernistas, partidários do Agnosticismo, encontram somente no homem e na sua vida a explicação da religião. Para explicar essa imanência vital, o que eles apresentam como primeiro estímulo e primeira manifestação de todo fenómeno vital, especialmente o da religião?
R. 
"O primeiro movimento, por assim dizer, de todo fenómeno vital – e a religião, como tem sido dito, pertence a esta categoria – deve ser sempre atribuído a uma necessidade ou impulso; as suas origens, porém, falando mais especificamente da vida, devem ser atribuídas a um movimento do coração, chamado sentimento."

P. Segundo estes princípios, qual é o fundamento da fé e, consequentemente, da religião?
R. 
"Como Deus é o objecto da religião, devemos concluir que a fé, princípio e base de toda a religião, funda-se num sentimento que nasce de uma necessidade da divindade."

P. Essa necessidade da divindade, de acordo com os Modernistas, pertence ao âmbito do consciente?
R. 
"Tal necessidade da divindade, não se fazendo sentir no homem senão em certas e especiais circunstâncias, não pode per si pertencer ao âmbito do consciente."

P. Onde se oculta essa necessidade da divindade?
R. 
"Oculta-se primeiro debaixo da consciência, ou, usando uma expressão tirada da filosofia moderna, na subconsciência, onde a sua raiz fica também oculta e incompreensível."


3. Origem da Religião em Geral

P. Se alguém perguntar como essa necessidade da divindade, que o homem sente em si mesmo, rebenta em religião, o que os Modernistas dirão?
R. 
A resposta dos Modernistas será: "A ciência e a história acham-se presas entre dois limites: um externo, que é o mundo visível; outro interno, que é a consciência. Chegando a um ou outro destes limites, não se pode ir mais adiante, porque além deles acha-se o incognoscível. Diante deste incognoscível, quer se ache ele fora do homem e fora de todas as coisas visíveis, quer se ache ele oculto na subconsciência do homem, a necessidade da divindade, sem nenhum acto prévio da inteligência, como o quer o fideísmo, gera no ânimo já propenso à religião um certo sentimento especial que, quer como objecto quer como causa interna, tem envolvida em si a realidade divina, e assim de certo modo une o homem com Deus. É precisamente a este sentimento que os Modernistas dão o nome de fé, e consideram-no como o princípio da religião."


4. Noção da Revelação

P. A filosofia Modernista se restringe somente ao sistema acima mencionado?
R.
 "Não termina aí o filosofar, ou melhor, o desatinar desses homens."

P. O que os Modernistas ainda encontram nesse seu sentimento da divindade?
R. 
"Os Modernistas não encontram nesse sentimento somente a fé; mas, com a fé e na mesma fé, do modo como a entendem, sustentam que também se acha a revelação."

P. A revelação? Mas como?
R. 
"E o que mais, dizem eles, se pode exigir para a revelação? Aquele sentimento religioso, que se manifesta na consciência, já não será talvez revelação ou, pelo menos, princípio de revelação? Ou ainda, não será revelação o próprio Deus, ao manifestar-se à alma, embora um tanto indistintamente, neste mesmo sentimento religioso? E eles ainda acrescentam: sendo Deus ao mesmo tempo objecto e causa da fé, essa revelação é de Deus como objecto e também provém de Deus como causa: isto é, tem a Deus ao mesmo tempo como revelante e revelado."

P. Que doutrina absurda deriva dessa filosofia, ou melhor, desse delírio Modernista?
R. 
"Segue a absurda afirmação dos Modernistas, segundo a qual todas as religiões, sob aspecto diverso, são igualmente naturais e sobrenaturais."

P. O que se segue disso?
R. 
"Segue-se que eles transformam ‘consciência’ e ‘revelação’ em sinónimos."

P. Que lei suprema e universal os Modernistas derivam dessa doutrina?
R. 
"A lei segundo a qual a consciência religiosa é apresentada como regra universal, em pé de igualdade com a revelação, à qual todos devem se sujeitar."

P. Todos, incluindo até a suprema autoridade da Igreja, devem se sujeitar a esta lei?
R. 
Sim. "Todos devem se sujeitar, até mesmo a suprema autoridade da Igreja, seja quando ensina, seja quando legisla em matéria de culto ou disciplina."


5. Transfiguração e Desfiguração dos Fenómenos pela Fé

P. O que mais é necessário para dar uma ideia completa da origem da fé e da revelação, da forma como os Modernistas entendem este assunto?
R. 
"Em todo este processo, do qual, segundo os Modernistas, resultam a fé e a revelação, deve-se atentar principalmente a um ponto, de capital importância, pelas consequências histórico-críticas que daí fazem derivar."

P. Trata-se do modo pelo qual aquele incognoscível da filosofia dos Modernistas, conforme acima exposto, se apresenta à fé?
R. 
Sim. "Aquele incognoscível, de que falam, não se apresenta à fé como algo solitário e isolado; mas sim intimamente unido a algum fenómeno que, embora pertença ao campo da ciência ou da história, assim mesmo transpõe, de certo modo, os seus limites."

P. Qual é este fenómeno?
R. 
"Este fenómeno pode ser um facto qualquer da natureza que contenha em si algo de misterioso; ou também pode ser um homem, cuja personalidade, actos e palavras pareçam nada ter em comum com as leis ordinárias da história."

P. Da união do incognoscível com o fenómeno, o que resulta à fé?
R. 
"A fé, atraída pelo incognoscível unido ao fenómeno, apodera-se de todo o fenómeno e de certo modo o penetra com sua própria vida."

P. Que resulta disso?
R. 
"Resultam duas coisas."

P. Qual é a primeira?
R. 
"A primeira é uma certa transfiguração do fenómeno, por uma espécie de elevação sobre as suas próprias condições, que o torna mais apto, qual matéria, a receber o ser divino."

P. Qual é a segunda?
R. 
"A segunda é uma certa desfiguração, que resulta do facto de que a fé, que tornou o fenómeno independente das circunstâncias de tempo e espaço, atribui ao mesmo fenómeno qualidades que este não tem."

P. De acordo com os Modernistas, sobre que fenómenos este duplo trabalho de transfiguração e de desfiguração age principalmente?
R. "Isto se dá principalmente com fenómenos de antigas datas, tanto mais quanto mais remotas são elas."

P. Que regras os Modernistas deduzem desta dupla operação?
R. 
"Destes dois princípios, os Modernistas deduzem duas regras que, unidas a uma terceira já deduzida do Agnosticismo, constituem a base da crítica histórica."

P. Dê-nos um exemplo dessas três regras.
R. 
"Tomaremos como exemplo a própria Pessoa de Cristo. Na Pessoa de Cristo, dizem, a ciência e a história não acham mais que um homem. Portanto, em virtude da primeira regra deduzida do Agnosticismo, da história dessa Pessoa se deve riscar o que se sabe de divino. Mais: por força da segunda regra, a Pessoa histórica de Jesus Cristo foi transfigurada pela fé; é preciso, pois, despojá-la de tudo o que a eleva acima das condições históricas. Finalmente, em virtude da terceira regra, a Pessoa de Cristo foi desfigurada pela fé; logo, se deve remover dela as falas, as acções, tudo enfim que não corresponde ao Seu carácter, condição e educação, lugar e tempo em que viveu."

P. Não é estranho tal modo de raciocinar?
R. 
"É, de facto, um estranho modo de raciocinar; porém esta é a Crítica dos Modernistas."


6. Origem das Religiões em Particular

P. Então o sentimento religioso, usando uma expressão Modernista, é o verdadeiro germe e a explicação completa de tudo o que há na religião?
R. 
"O sentimento religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da subconsciência, é, pois, o germe de toda religião, e a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião."

P. Como este sentimento religioso amadurece?
R. 
"Este sentimento, a princípio rudimentar e quase informe, gradualmente se aperfeiçoa sob o influxo do misterioso princípio que lhe deu origem, a par com os progressos da vida humana, da qual, como já ficou dito, é uma forma."

P. De acordo com os Modernistas, todas as religiões se originam desta forma?
R. 
Sim. "Esta é a origem de todas as religiões."

P. Podemos dizer o mesmo até da religião sobrenatural?
R. 
Sim. "Até mesmo da religião sobrenatural: não passa de um desenvolvimento deste sentimento religioso."

P. Mas os Modernistas não fazem uma excepção à religião católica?
R. 
Não. "A religião católica não é uma excepção; ela está para eles no mesmo nível das outras."

P. Por qual processo e na consciência de quem, dizem eles, a religião católica foi concebida?
R. 
"Ela foi concebida pelo processo de imanência vital, na consciência de Cristo, homem de natureza extremamente privilegiada, como outro não houve nem haverá."

P. Isto não é uma blasfémia?
R. 
Sim. "Fica-se pasmo ao ouvir afirmações tão audaciosas e sacrílegas."

P. Certamente, Santo Padre, somente os incrédulos podem defender tais ensinamentos. É possível que sacerdotes sigam este falatório estúpido?
R. 
"Ah, responde o Soberano Pontífice, não se trata apenas do falatório estúpido dos incrédulos. Há muitos católicos, e muitos sacerdotes também, que afirmam estas coisas publicamente, e ainda se vangloriam de que reformarão a Igreja com estes delírios!"

P. O Modernismo não parece ser o velho erro de Pelágio?
R. 
"Não se trata aqui do velho erro, que atribuía à natureza humana uma espécie de direito à ordem sobrenatural. Vai-se ainda mais longe."

P. Poderia explicar?
R. 
"Chega-se até ao ponto de afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Cristo assim como em nós, é emanação inteiramente espontânea da natureza. Certamente não há nada mais destruidor de toda a ordem sobrenatural."

P. O que o Concílio Vaticano (I) definiu quanto a esta doutrina?
R. 
"Com suma razão o Concílio Vaticano (I) definiu: Se alguém disser que o homem não pode ser por Deus elevado a um conhecimento e perfeição que supere as forças da natureza, mas por si mesmo pode e deve, com incessante progresso, chegar finalmente a possuir toda a verdade e todo o bem, seja anátema (De Revel., can. III)."


7. Acção da Inteligência na Fé

P. Os Modernistas encontram fé somente no sentimento? A inteligência não tem sua parte no acto de fé?
R.
 "Até o momento não houve menção à acção da inteligência. Contudo, segundo as doutrinas dos Modernistas, ela também tem sua parte no acto de fé. E é importante ver como."

P. O sentimento, segundo os Modernistas, é suficiente para o conhecimento de Deus, objecto e causa da fé?
R. 
"Naquele sentimento do qual nós falamos muitas vezes, uma vez que sentimento não é conhecimento, Deus de facto Se apresenta ao homem, mas de modo tão confuso e indistinto que Ele mal pode ser percebido pelo crente."

P. O que mais é necessário ao sentimento?
R.
 "É necessário que um raio de luz seja lançado sobre aquele sentimento, de maneira que Deus possa ser claramente distinto e separado do sentimento."

P. Então, esta iluminação é o papel da inteligência no acto de fé Modernista?
R. 
"Este é o papel da inteligência, à qual somente cabe o reflectir e o analisar, e por meio da qual o homem a princípio traduz em representações mentais os fenómenos da vida que nele aparecem, e depois os manifesta com expressões verbais. Segue-se disso esta vulgar expressão dos Modernistas: o homem religioso deve pensar a sua fé."

P. Que paralelo os Modernistas utilizam para explicar a a ção da inteligência sobre o sentimento, no acto de fé?
R. 
"A inteligência, ao encontrar o sentimento, inclina-se sobre ele, e nele produz um trabalho parecido com o de um pintor que restaura e dá nova vida aos traços de um quadro estragado pelo tempo. O paralelo é de um dos mestres do Modernismo."

P. Qual é o trabalho da inteligência na produção do acto de fé?
R. 
"O trabalho da inteligência é duplo."

P. Qual é o primeiro?
R. 
"Primeiro, a inteligência, por um acto natural e espontâneo, expressa os seus conceitos com uma proposição simples e comum."

P. E o segundo?
R. 
"Depois, com reflexão e consideração mais profunda, ou, como dizem eles, elaborando o seu pensamento, exprime o que pensou com proposições secundárias, certamente derivadas da primeira, porém, mais polidas e distintas."

P. Como podem essas proposições secundárias, fruto do trabalho da inteligência realizado no seu próprio pensamento, tornar-se dogmas? 
R. "Estas proposições secundárias, se forem finalmente sancionadas pelo supremo magistério da Igreja, constituirão o dogma."


8. O Dogma

P. Não é o dogma o ponto principal da doutrina dos Modernistas?
R. 
"Na doutrina dos Modernistas, chegamos a um dos pontos principais, que é a origem e a natureza do dogma."

P. Qual é a origem do dogma para os Modernistas?
R. 
"Eles situam a origem do dogma naquelas fórmulas primitivas e simples que, sob certo aspecto, são necessárias à fé; pois a revelação, para ser verdadeiramente tal, requer uma clara manifestação de Deus na consciência. Mas o dogma mesmo, ao que parece, está contido nas fórmulas secundárias."

P. De acordo com os Modernistas, como poderemos conhecer a natureza do dogma?
R. 
"Para conhecer bem a natureza do dogma, é preciso primeiro descobrir que relação existe entre as fórmulas religiosas e o sentimento religioso."

P. Como descobriremos essa relação?
R. 
"Isto será facilmente compreendido por quem souber que estas fórmulas não têm outro fim senão o de propiciar ao crente um modo de explicar a sua própria fé a si mesmo."

P. Essas fórmulas estão situadas entre o crente e a sua fé?
R. 
"Essas fórmulas, portanto, são intermediárias entre o crente e a sua fé;
- com relação à fé, são expressões inadequadas do seu objecto, e são normalmente denominadas símbolos pelos Modernistas; 
- com relação ao crente, reduzem-se a meros instrumentos."

P. O que podemos dizer da verdade expressa nessas fórmulas?
R. 
"Que não é possível afirmar que elas exprimem uma verdade absoluta."

P. Como símbolos, o que essas fórmulas são para os Modernistas?
R. 
"Como símbolos, essas fórmulas são meras imagens da verdade, e portanto devem adaptar-se ao sentimento religioso, na sua relação com o homem."

P. Como instrumentos, que são essas fórmulas?
R. 
"Como instrumentos, são veículos da verdade, e assim por sua vez devem adaptar-se ao homem, na sua relação com o sentimento religioso."


9. Variabilidade do Dogma

P. Essas fórmulas (símbolos da fé e instrumentos do crente) são invariáveis?
R. 
"Como este sentimento religioso tem por objecto o absoluto, ele apresenta infinitos aspectos, dos quais pode aparecer hoje um, amanhã outro. De modo semelhante, aquele que crê pode passar por diversas etapas. Segue-se que também as fórmulas, que chamamos dogmas, devem estar sujeitas às mesmas vicissitudes, e por isso também podem variar."

P. Há uma evolução intrínseca do dogma?
R. 
"Temos, assim, o caminho aberto à evolução intrínseca do dogma. Eis uma imensa colecção de sofismas, que subvertem e destroiem toda a religião."

P. Essa evolução intrínseca do dogma, além de possível, é também necessária?
R. 
"O dogma não só pode como deve realmente evoluir e mudar. Isto é ousadamente afirmado pelos Modernistas, e claramente se deduz dos seus princípios."

P. De que princípio fundamental os Modernistas deduzem a necessidade da evolução intrínseca dos dogmas?
R. 
"Dentre os principais pontos da doutrina deles há também este, que deduzem do princípio da imanência vital: as fórmulas religiosas, para que realmente sejam tais e não só meras especulações teológicas da inteligência, precisam de ser vitais e viver da mesma vida do sentimento religioso."

P. Já que essas fórmulas precisam ser animadas pela própria vida do sentimento religioso, não devem elas ser feitas para o sentimento religioso?
R. 
"Isto não deve ser entendido no sentido de que essas fórmulas, especialmente se forem só imaginárias, sejam feitas para o sentimento religioso; pois nada importa a sua origem nem o seu número, nem a sua qualidade; o que é necessário é que o sentimento religioso, que as modifica quando é preciso, as assimile vitalmente."

P. O que é assimilação vital pelo sentimento?
R. 
"Em outras palavras, é preciso que a fórmula primitiva seja aceite e confirmada pelo coração; e que a subsequente elaboração das fórmulas secundárias seja feita sob a direcção do coração."

P. Como a necessidade da assimilação vital induz à variação substancial do dogma?
R. 
"Tais fórmulas, para serem vitais, hão-de ser e ficar adaptadas tanto à fé quanto ao crente. Por isso, se por qualquer motivo cessar essa adaptação, perdem a sua primitiva significação e devem ser mudadas."

P. Que consideração tem os Modernistas pelas fórmulas dogmáticas?
R. 
"Sendo assim mutável o valor e a sorte das fórmulas dogmáticas, não é de admirar que os Modernistas tanto as desprezem e escarneçam, e que por conseguinte só reconheçam e exaltem o sentimento e a vida religiosa."

P. Que atitude os Modernistas tomam em relação à Igreja quanto às fórmulas dogmáticas?
R. 
"Audaciosamente eles criticam a Igreja, acusando-a de ter tomado o caminho errado devido a não saber distinguir entre o sentido material das fórmulas e a sua significação religiosa e moral, e acusando-a também de agarrar-se obstinadamente, mas em vão, a fórmulas falhadas de sentido, enquanto deixa a própria religião rolar para o abismo."

P. Qual deve ser o nosso julgamento final sobre as doutrinas dos Modernistas em relação à verdade dogmática?
R. 
"Cegos, na verdade, a conduzirem outros cegos, são esses homens que, inflados pelas ostentações da ciência, deliram ao ponto de perverter o eterno conceito de verdade e a verdadeira natureza do sentimento religioso, de modo que com esse seu novo sistema são arrastados por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde certamente se acha; mas, desprezando as santas e apostólicas tradições, se apegam a doutrinas ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens estultíssimos julgam fortalecer e sustentar a verdade. (Greg. XVI Ep. Encicl. "Singulari Nos" 7 Kal. Jul. 1834)."


Pe. J. B. Lemius, O. M. I. 


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