«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
27
Mai 15
publicado por FireHead, às 11:07link do post | Comentar


Sempre que converso com neo-ateus me deparo com a seguinte aporia (deles): Deus é violento e gosta de sangue e, portanto, não pode ser um Deus bom. Assim sendo, é impossível crer neste Deus. Seu Deus não passa de um assassino, sanguinário, genocida, que mandou matar crianças, mulheres grávidas, mandou matar famílias inteiras, pessoas inocentes, animais! Como para corroborar, eis alguns textos mais ou menos usados por eles:

 

DEUTORONÓMIO 21, 18-21: Quando o filho se torna contumaz e rebelde, os pais devem levá-lo à porta da cidade para ser apedrejado pelos homens da cidade.

ÊXODO 21:20-21: Com a aprovação divina, um escravo pode ser surrado até a morte sem punição para o seu dono, desde que o escravo não morra imediatamente.
LEVÍTICO 26:29, DEUTERONÓMIO 28:53, JEREMIAS 19:9, EZEQUIEL 5:8-10: Como punição, o Senhor fará com que as pessoas comam a carne de seus próprios filhos, filhas, pais e amigos (aqui nem pensam nisso com sentido figurado)
NÚMEROS 15:32-36: Um homem que no Sábado estava pegando gravetos de lenha para uma simples fogueira é apedrejado até a morte segundo a ordem de Deus.
NÚMEROS 16:49: Uma praga divina mata 14.700 pessoas.
NÚMEROS 25:9: Mais outra praga divina mata 24.000 pessoas.
NÚMEROS 21:35: Com o apoio divino os Israelitas matam Ogue, seus filhos e todo o seu povo até não haver sequer um sobrevivente.
NÚMEROS 25:4: Disse Deus a Moisés: Toma todos os cabeças do povo e enforca-os ao Senhor diante do Sol, e o ardor da ira do Senhor se retirará de Israel.
DEUTERONÓMIO 20:16: “Das cidades destas nações, que o Senhor teu Deus te dá em herança, nenhuma coisa que tem fôlego deixarás com vida”.
JOSUÉ 6:21-27: Com aprovação divina, Josué passa ao fio da espada todos os homens, mulheres e crianças da cidade de Jericó.
JOSUÉ 8:22-25: Com aprovação divina, Josué destrói todo o povo de Ai, matando 12.000 homens e mulheres, sem que nenhum escapasse.
JOSUÉ 10:10-27: Com aprovação divina, Josué destrói todo os Gibeonitas.
JOSUÉ 10:28: Com aprovação divina, Josué destrói todo o povo de Maqueda.
JOSUÉ 10:40: Assim feriu Josué toda aquela terra, as montanhas, o sul, e as campinas, e as descidas das águas, e a todos os seus reis. Nada deixou de resto; mas tudo o que tinha fôlego destruiu, como ordenara o Senhor Deus de Israel.
JOSUÉ 11:6: O senhor ordena o mutilamento (corte dos tendões das pernas) dos cavalos.
Sl 137:9: Feliz o homem que arrebentar os seus filhinhos de encontro às rochas.
ISAÍAS 14:21-22: Preparai a matança para os filhos por causa da maldade de seus pais.
EZEQUIEL 9:4-6: Ordem do Senhor: “sem compaixão... matai velhos, mancebos, e virgens, e meninos, e mulheres, até exterminá-los...”
EZEQUIEL 21:3-4: O Senhor diz que exterminará tanto o justo quanto o ímpio, ferindo-lhes a carne com sua espada.
 
 
A questão aqui não é refutar cada uma das citações como numa frenética necessidade de escusar Deus dessas acusações infamantes. A questão é ir entendendo, ponto por ponto, como e porquê tais textos foram escritos e por fim, a plenitude da revelação em Cristo. Aqui começo minha argumentação. Em primeiro lugar, o que os ateus não sabem ou preferem omitir é que sua abordagem de Deus é extremamente unilateral. Partem de textos estanques para tentar montar um quebra-cabeças que custou cerca de 14 séculos para ser montado. Logo de início depara-se com a dificuldade de se reconstruir historicamente os factos de cada texto destes supra-citados. Em segundo lugar, o ateu ou neo-ateu, toma por base que a Bíblia foi escrita tendo sido ditada por Deus no ouvido do escritor sagrado como uma espécie de crónica. Não levam em consideração nenhum aspecto antropológico na construção do texto bíblico, tão pouco ambiental ou cultural. Aqui já se percebe a pobreza da argumentação ateia sem tocar - o que logo faremos - no processo revelatório de Deus desde o Antigo até o Novo Testamento culminando em Jesus Cristo. Porém, para enfrentar mais amiúdo este tema, vamos usar o bom e velho método cartesiano: separar as partes diminutas, compreendê-las e depois juntá-las para compreender o todo.
 
1. O contexto do texto
 
O que é inspiração bíblica?
Todos os livros da Bíblia são inspirados por Deus. Os escritores da Bíblia foram muitos, às vezes com intervalo de centenas de anos de um livro para o outro. Porém, em todos eles, era Deus quem os inspirava a escrever. Quem escrevia (com a caneta) era o autor humano, mas quem colocava as ideias na cabeça do autor era Deus. A inspiração define-se assim: um influxo sobrenatural sobre o autor humano para escrever o que Deus quer. “Toda escritura é inspirada por Deus” (2Tm 3,16; 1,21).
 
O que não é inspiração bíblica?
Inspiração é diferente de ditado mecânico. É iluminação que um escritor pode ter, de Deus, para escrever. Não descarta o linguajar humano e a cultura humana. A inspiração é diferentemente das ciências históricas que pretendem ser uma crónica dos acontecimentos. Ela é, outrossim, o influxo da graça no autor humano para escrever aquilo que é vontade de Deus, no tempo, mas com um alcance atemporal.
 
Onde entra Deus e onde entra o autor humano?
Deus inspira ao autor humano escrever. Porém, como se disse acima, Deus nada dispensa do autor humano na escrita: sua cultura pessoal, seu conhecimento pessoal da língua, da geografia e da política de seu tempo, seus laços pessoais e familiares, suas experiências profissionais (carpinteiro, agricultor, pastor de ovelhas, etc). Tudo isto está presente no texto bíblico como pano de fundo a ressaltar a importância da mensagem nele contida.
 
2. Como interpretar correctamente um texto biblico?
 
Parte-se do contexto do autor, depois, da intenção do autor, depois da intenção de Deus ao inspirar aquele texto, depois do próprio texto que nunca deve ser lido estanque, mas sempre dialogado com outros textos similares. Assim, pode-se chegar a ter alguma visão mais ampla do texto o que ajuda a fugir da leitura literal e da interpretação unilateral do texto sagrado. A Bíblia é toda sagrada e inspirada por Deus, porém, isto não dispensa o trabalho humano de compreendê-la em seu contexto vital (sitz in leben), ao contrário, exige-o para não falar asneiras como estas dos ateus/neo-ateus.
 
3.Deus mandou ou não matar pessoas?
 
A resposta é obviamente não. Ainda que um texto ou outro se pareça a uma crónica, ele não é uma crónica histórica no sentido moderno do termo. Pode se tratar de uma novela, uma saga, uma etiologia, um oráculo de salvação, uma lenda, um mito, um relato de vocação, uma acção simbólica, um vaticínio apocalíptico, etc. As formas e géneros literários do Antigo Testamento são a forma dentro da qual o texto foi composto e como tal possuem características suas, próprias, o que as diferenciam umas das outras, óbvio! "Ah, então a Palavra de Deus não é histórica" ou "Ah, tudo o que está escrito no Antigo Testamento (e por correspondência no Novo) é mentira?". Calma! Tudo o que está escrito na Bíblia é a mais pura verdade. Porém, uma verdade que não é necessariamente uma verdade histórica, factível, porque o autor sagrado não é preocupado em escrever uma crónica (estou aqui me referindo exclusivamente ao Antigo Testamento). A Bíblia é, sobretudo em seu Antigo Testamento, uma memória da fé de Israel que enxerga em seus portentos nacionais os mesmos portentos de Deus em favor de seu povo (relativo à segunda e terceira etapa da revelação: teologia da prosperidade e da retribuição). Todavia, esta leitura de fé dos eventos nacionais não exclui que estes tenham acontecido de facto, como a própria arqueologia bíblica hoje aponta. A pouca compreensão de todo este contexto não permite compreender os textos supra-citados como fruto do tempo, da cultura e da experiência do povo de Deus, pois, Deus é o mesmo e não pode mudar. Ele não pode mandar matar num dia e parar depois. Portanto, a falha está no homem (escritor sagrado, povo de Israel, leitor e intérprete da bíblia hoje) e não em Deus.
 
4. O processo revelatório
 
"Deus dá-se a conhecer, revela-se, entra na história, agindo por meio de mediadores, como Moisés, os Juízes, os Profetas, que comunicam ao seu povo a Sua vontade. Esta revelação alcança a sua plenitude em Jesus Cristo. N’Ele, Deus vem visitar a humanidade, de um modo que excede tudo o que se podia esperar: fazendo-Se homem" (Papa Bento XVI).
 
"Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), mediante o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso no Espírito Santo ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4). Em virtude desta Revelação, Deus invisível (cf. Cl 1 ,15; 1Tm 1,17), no seu imenso amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e conversa com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir a participarem da sua comunhão" (Dei Verbum, n.2)
 
"Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas" (Hb 1,1-2).
 
Estes três textos que coloquei o fiz de modo intencional para compreender que de facto houve uma revelação de Deus na história do homem que aconteceu de modo processual, gradual, levando em consideração a condição do homem em acolher e compreender esta mesma revelação. Deus não chegaria, por exemplo, a se revelar em mandarim ao povo brasileiro, ninguém o entenderia. Também não chegaria falando de elevadores, escadas rolantes e aviões a um jeca como Pedro ou um colérico como Jeremias. Cada homem de cada tempo compreende Deus e sua revelação à sua maneira, com suas categorias de conhecimento, de cultura e ambiente. Isto posto, porque básico, vamos às etapas sucessivas da revelação. Inicialmente eu poderia seguir o esquema do Catecismo da Igreja Católica para explicar a revelação. Ele (o Catecismo) usa a sequência: criação e alianças com Noé, os patriarcas e os profetas. Assim, o Catecismo quer ensinar que Deus começa a se revelar à humanidade na criação mesma e depois nas sucessivas alianças que fez com Noé, com Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Josué e os profetas, Davi, Josias, Esdras e Judas Macabeu. Mas creio que esta explicação é por demais causal e teológica para o neófito a quem, espero, este texto possa iluminar. Por isso vou seguir outra via de explicação das etapas da revelação começando por aquela primeira experiência de Deus que teve o povo santo ao pé do monte Sinai. Uma primeira experiência de Deus terrificante e ao mesmo tempo fascinante. A percepção da omnipotência divina, da absoluta alteridade e transcendência de Deus sobre seu povo. Assim se expressa o livro do Êxodo: "Moisés levou o povo para fora do acampamento ao encontro de Deus, e pararam ao pé do monte. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor tinha descido sobre ele no meio de chamas; o fumo que subia do monte era como a fumaça de uma fornalha, e toda a montanha tremia com violência. O som da trombeta soava ainda mais forte; Moisés falava e os trovões divinos respondiam-lhe. O Senhor desceu sobre o cume do monte Sinai; e chamou Moisés ao cume do monte. Moisés subiu, e o Senhor lhe disse: “Desce e proíbe expressamente o povo de precipitar-se para ver o Senhor, para que não morra um grande número deles" (cf. Ex 19,17-21). Esta primeira etapa se dá no primeiro contacto do povo com seu Deus. É de facto no deserto que o Senhor forma seu povo: “Foi num deserto que o Senhor achou seu povo, num lugar de solidão desoladora; cercou-o de cuidados e carinhos, e o guardou como a pupila de seus olhos” (Dt 32,10). Catecismo n. 62: "Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egipto. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, por intermédio de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e juiz justo, e para que esperasse o Salvador prometido". Esta experiência do deserto é fundante para Israel e a ciência exegética a identifica como a experiência-raiz da fundação e estabelecimento da identidade e eleição do povo como povo de Deus. Esta primeira etapa da compreensão da revelação comporta os limites que lhe são próprios: Deus ainda é visto como um Deus distante, terrível e ao mesmo tempo fascinante, um Deus de força e poder capazes de fazer tremer todo o mundo (Salmo 28/9):
 
3 Eis a voz do Senhor sobre as águas, *
sua voz sobre as águas imensas!
= 4 Eis a voz do Senhor com poder! †
Eis a voz do Senhor majestosa, *
sua voz no trovão reboando!
 
– 5 Eis que a voz do Senhor quebra os cedros, *
o Senhor quebra os cedros do Líbano.
– 6 Faz o Líbano saltar qual novilho *
e o Sarion como um touro selvagem!
 
= 7 Eis que a voz do Senhor lança raios, †
8 voz de Deus faz tremer o deserto, *
faz tremer o deserto de Cades.
= 9 Voz de Deus que contorce os carvalhos, †
voz de Deus que devasta as florestas! *
 
A segunda etapa identificada pela exegese já dá um passo a mais na compreensão da revelação de Deus. É a teologia da prosperidade. Nesta etapa Deus é aquele que caminha com seu povo, é um Deus guerreiro que dá os despojos das guerras e entrega reinos e terras a Israel. A base desta teologia/compreensão de Deus é que Deus premia os bons com riquezas. Tais "bons" são os cumpridores estrictos da Lei, abençoados por Deus. A bênção do Senhor passou a ser objecto de distinção social via teologia da prosperidade que funcionava assim: os abençoados por Deus eram os bons cumpridores da Lei e dos costumes de Israel; os desafortunados e desfavorecidos eram os amaldiçoados por causa de sua má conduta (Dt 30,15ss) ou - no extremo - por causa de um pecado de seus pais (cf. Jo 9,2). Assim, o documento javista do Pentateuco, que é responsável por boa parte do livro do Génesis, situa a figura de Abraão dentro do contexto da bênção: "Abençoarei os que te abençoarem e amadiçoarei os que te amaldiçoarem" (cf. Gn 12,1-3). A bênção de Deus era, portanto, algo precioso sem o qual o homem ficaria desprotegido contra os intempéries da vida. Dada a precariedade da vida na antiguidade - escassez de comida, doenças, invasões de exércitos inimigos, etc - podemos supor que a busca da bênção de Deus que fazia o homem prosperar se tornava imprescindível.
 
No entanto, esta teologia começou a entrar em crise com a constatação de que o ímpio prospera enquanto o justo passa fome. "Porque o caminho do ímpio prospera" (Jr 12,1) se Deus abençoa e faz prosperar apenas os bons? Por que Deus não impede que as mazelas que acometem aos que não O amam caiam também sobre os que procuram viver do lado dEle? Esta foi a grande dúvida que inspirou Asafe a escrever o Salmo 73 (Sl 73,3-5): "porque me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens". Aqui é também compreendido o sucesso e o insucesso militar. Deus, nesta etapa, caminha com o povo para o campo de batalha através da arca da aliança que acompanha o exército. É aqui que se compreende os textos que causam espanto e furor logo no topo deste texto: são resquícios da segunta etapa da revelação, quando esta ainda não estava concluída, mas, parcialmente concretizada. Nesta etapa também se torna presente a exclusão dos não prósperos entendidos como amaldiçoados por Deus.
 
Com a crise da prosperidade, veio a terceira etapa: a teologia da retribuição. Nesta teologia fica mais explícito que Deus premia os bons e castiga os maus. Esta teologia é uma reelaboração da teologia anterior (prosperidade) e um anelo para a solução do problema: "porque o justo sofre e o ímpio prospera?". Manifesta confiança em Deus e demonstra uma compreensão de Deus pela via da barganha. Nesta etapa da compreensão de Deus, ele é visto como aquele que pode ser comprado pelas atitudes puras, rectas e justas do homem, sendo assim obrigado a dar-lhe o shalon: paz, prosperidade financeira e saúde nesta vida. Mas logo esta terceira etapa entra em crise.
 
A crise da retribuição/prosperidade é captada pelos livros sapienciais: "A vida do homem é ilusão e correr atrás do vento" (Qohélet). O livro que mais agudamente apresenta o problema é a novela Jó, ou o livro de Jó. Um escrito do tempo sapiencial para meditar sobre a prosperidade para o justo sendo este justo um homem não próspero, Jó. Aqui volta a pergunta: porque o justo sofre? Nesta etapa do conhecimento de Deus, o homem compreende que a retribuição intra-terrena (Deus premeia os bons e castiga os maus) não resolve o problema do mau e da injustiça. Quanto ao livro de Jó se encontra um excelente e breve resumo aqui. A teologia judaica ainda não é capaz de dar esta resposta e a quarta etapa, do período Macabeu/Asmoneu vai relegar para a vida eterna a retribuição que, anteriormente, era intraterrena.
 
Perceba o leitor que nesta suscinta e pobre apresentação das primeiras quatro etapas da revelação não toquei no tema "compaixão" que, embora seja presente no Antigo Testamento (duas vezes) vai ser revelada totalmente em Cristo Jesus (29 vezes no Novo Testamento). "Misericórdia" aparece 166 vezes com inúmeras referências no Antigo Testamento. Bondade (de Deus) aparece 29 vezes (no N.T. apenas 5 vezes). O verbo grego ágapa (amor ao próximo, caridade) aparece 38 vezes com inúmeras referências no A.T. Isto posto uma pergunta se impõe: Será que Deus inspirou errado o povo que escreveu o Antigo Testamento? Claro que não! Ele inspirou certíssimo! Porém, como você pode perceber com sua razão, a consciência e o conhecimento a respeito de Deus foi crescendo com o passar do tempo. É como na nossa vida. Ninguém nasce adulto ou velho. Nascemos bebé e vamos crescendo, adquirindo consciência e conhecimento das coisas, da vida, etc. E isto é porque somos humanos!!! Exactamente por isso que a Revelação se fez tão pausada, respeitando os tempos e processos humanos, os avanços e retrocessos que o povo de Deus fazia durante a aliança com Deus. É do mesmo modo que Ele age hoje: Ele não invade nem exclui nossa liberdade. Espera nossos tempos e momentos, nossos avanços e retrocessos no seguimento D'Ele.
 
Mas, vamos à quinta etapa. Aqui colocarei um excerto da minha monografia de teologia:
 
Foi vontade do Pai revelar-se bondoso e misericordioso em seu filho Jesus. Mateus diz no capítulo 1, versículo 21 o nome do Messias. Com isso diz que a missão do Filho de Deus é salvar o povo de seus pecados. Jesus, Yehoshú’a, quer dizer Deus salva (Yehoshú’a). O nome e a missão do Filho de Deus estão ligados não como simples etiqueta, mas com sua identidade mesma. Seu nome é expressão de seu ser. Em consonância com a Revelação veterotestamentária, Jesus salva porque é Deus Connosco, o Emanuel (cf. Is 7,14; 8,8). A mesma presença salvífica de Deus a podemos encontrar em Ex 3,7-8. Deus que vê a opressão pela qual passa seu povo escolhido e não fica indiferente: decide libertá-lo. A libertação temporal no Egipto prefigura a libertação essencial realizada por Jesus. Jesus é a resposta de Deus aos clamores do pobre que anseia pela libertação plena de seu ser. Deus se revelou para que o homem o pudesse conhecer e assim conhecendo-o pudesse praticar o bem, a justiça, o ágape. Tivesse fé e esperança para viver na honradez de uma vida íntegra (cf. Fl 3,7-9). Jesus, cume desta revelação, a plenifica dando-lhe seu sentido último (cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 592), consumando a obra trinitária da salvação (cf. DV n. 4) em continuidade com a intenção primeira de Deus ao criar: para que tudo fosse bom (cf. Gn 1,31a).
 
Desde o início de seu ministério, Jesus se apresenta como o “hoje” da libertação proclamada pelo profeta para os tempos messiânicos (Lc 4,16-21 com Is 61,1-2). Os milagres realizados são os “sinais” desse cumprimento (Lc 7,18-23) e dessa libertação, que concerne em primeiro lugar ao pecado, mas diz respeito também a todo o homem, alma e corpo (Lc 5,17-26). O Evangelho que Cristo proclama aos homens é o Evangelho da libertação e da liberdade dos filhos de Deus (Jo 8,31-36; cf. também Hb 3,5-6). A expressão suprema da libertação de Cristo é constituída pelo mistério da cruz e da ressurreição da morte. Aquilo que se realiza no mistério pascal de Jesus é o acontecimento decisivo da história do mundo. Nada terá maior importância para a humanidade do que a libertação que se realiza naquele acontecimento. A existência finalmente é resgatada de sua condição de pecado e morte sendo “lavada” no sangue de Cristo para constituir a existência redimida, a existência de graça: “Não foi com coisas perecíveis, isto é, com prata ou com ouro, que fostes resgatados da vida fútil que herdastes dos vossos pais, mas pelo sangue precioso de Cristo, como cordeiro sem defeito e sem mácula” (1Pd 1,18-19) (ROCCHETTA, 1991, p. 101-102).
 
5. Quem é Deus? (Lc 15)
 
As atitudes de Jesus estavam levantando suspeitas e com isso ele estava se tornando incómodo (cf. Mc 1,40-42; Mt 15,3-9; Lc 13,15-16; 14,3-4; Jo 8,2-11) para aqueles que praticavam uma religião legalista, que dividiam a vida entre o puro e o impuro e os homens entre bons, cumpridores da Lei, e ímpios - todos os outros. Jesus de facto viveu num tempo em que crer em Deus e, sobretudo, trabalhar para Ele era um lucrativo negócio (cf. Lc 19,45-46). Como revelar a face misericordiosa de Deus a homens inteligentes, religiosos e convictos de suas verdades? Jesus ensina lições como um Rabi, um mestre.
 
Primeiro mostra quem é Deus. Compara-o a um extremoso pai de família com dois filhos (cf. Lc 15,11). Depois mostra o pecador como aquele que tem tudo na casa paterna, mas livremente prefere outra vida, outro caminho distante desta mesma casa (cf. v. 12-13). Depois mostra os filhos de Israel, os herdeiros da promessa (cf. Jo 1,11), os escribas e fariseus do versículo 2 do nosso texto, identificados com as atitudes do filho mais velho, mais ranzinza, mais amargo e que não entende o amor do Pai nem a queda do irmão (cf. v. 30).
 
As atitudes do Pai, de imediato, contrastam com as atitudes dos filhos: da liberalidade do Pai a dissolução de um filho. Da compaixão do Pai ao fechamento e falta de amor do outro filho. Da alegria do Pai à tristeza do filho mais velho e à vergonha do filho mais moço. Jesus pinta Deus com cores vivas: um Deus que se compadece dos mais fracos, sejam eles os fracos por causa dos pecados ou os fracos na compreensão do amor. O Rabi ensina quem é Deus, como Ele age, como Ele nos vê. Como Ele espera a resposta humana e o quanto ainda o homem carece de conhecê-lo. Ele ensina que a alegria no céu é por um pecador que se converte e não porque se condenou alguém em flagrante. Ensina que o Pai sabe esperar o tempo de cada filho voltar a casa e quando este volta, o que passou já não é mais lembrado. O Pai sabe entender o limite de cada filho sem julgar ou condenar a cada um por suas debilidades. O Pai sabe abraçar e beijar, ou seja, sabe demonstrar seu amor ao filho que volta. Amor-compaixão que restitui a humanidade e a filiação perdidas nas ondas da poeira do tempo. Por fim, Jesus ensina que o Pai não sabe fazer contas a respeito dos pecados cometidos quando o filho sinceramente se arrepende. Esse Pai que Jesus revela é simples: abraça, ama, perdoa e faz festa. Não anda com listas de deveres e obrigações, com listas de chamadas ou coisa semelhante. Anda somente com o coração aberto para amar e ser amado porque Ele é amor (cf. 1Jo 4,8; Ap 3,20).
 
É desta humanidade salva e resgatada com o abraço do amor que o Papa João Paulo II fala no número 6 da Dives in Misericordia. Comentado Lc 15,20 o Papa diz que é por ser fiel a si que Deus resgata a humanidade decaída, faz o homem reencontrar o sentido mais profundo de sua existência e reconhecer que o que se perde com o pecado não é somente uma lei transgredida, mas algo mais profundo e fundamental: perde-se a própria essência de homem e de filho. Como vimos, Cristo inaugurou o tempo da nova aliança em seu sangue (cf. Lc 22,20). Ele trouxe a libertação radical revelando um Pai que ama a todos. Em Cristo, o amor-compaixão de Deus se mostra capaz de salvar o homem através da celebração de um novo pacto. A encarnação do Verbo eterno do Pai representa o fundamento da nova e eterna aliança: em Jesus, é o próprio Deus que une irrevogavelmente a si a natureza humana. E nada mais poderá desfazer essa união, realizada “uma vez por todas”. Cristo é, em si mesmo, a aliança nova e eterna. Graças a Moisés, fora dada a lei aos pés do Sinai; graças a Jesus foram-nos dadas “a graça e a verdade” (Jo 1,17). Com efeito, a encarnação direcciona-se inteiramente para o mistério da morte e ressurreição, que constitui o mistério fundamental da salvação, adquirida definitivamente para toda a humanidade (ROCCHETTA, 1991, p.111).
 
Pronto. Explicadas as 5 etapas da revelação, o processo lento e contínuo de aprendizagem de "Quem é Deus?" espero que algumas dúvidas tenham sido sanadas. Ao mesmo tempo espero ter ficado claro a inconsistência da dúvida/pergunta dos ateus e neo-ateus quanto à suposta maldade em Deus. Sem entrar no mérito lógico da questão (Deus é bom e nele não há nenhum mal - princípio de não-contradição) e permanecendo apenas no campo escriturístico e racional, é possível compreender a revelação de Deus, o processo de conhecimento humano e como estes dois mundos se uniram em Cristo Jesus.
 
"Agora, porém, graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo. Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade" (cf. Ef 2,13-16)
 
 

26
Mai 15
publicado por FireHead, às 10:02link do post | Comentar
Um dos grandes cavalos de batalha da militância dos arautos de Satanás, entenda-se, os ateus, é a maneira como Deus é retratado no Antigo Testamento. Segundo eles temos um Deus que manda enforcar, saquear, fazer sacrifícios e matar crianças. Como base para tal argumentação eles citam trechos das Esrituras como os seguintes:
 
Êxodo XXXII, 27: Aos quais disse: Eis aqui o que diz o Senhor Deus de Israel: Cada um cinja a sua espada sobre a sua coxa: passai, e tornai a passar de porta a porta pelo meio do campo; e cada qual mate a seu irmão, a seu amigo, e a seu vizinho.
 
Números XXV, 4: Disse a Moisés: Toma todos os príncipes do povo, e pendura-os em forcas contra o sol: para que o meu furor se aparte de Israel.
 
Números XXXI, 17-18: Matai pois a todos os machos, ainda os que são crianças; e degolai as mulheres que tiveram comércio com os homens. Mas reservai para vós as meninas e todas as donzelas.
 
Deuteronómio II, 33-34: E o Senhor nosso Deus no-lo entregou: e nós o derrotamos com seus filhos  e com todo o seu povo. Tomamos-lhe ao mesmo tempo todas as suas cidades, mortos os seus habitantes, homens mulheres e meninos: e nela não deixamos nada.
 
Isaías XIII, 18: Mas eles matarão as crianças com as suas setas, e não se compadecerão das mães em cujo ventre elas andarem, e a seus filhos não perdoará o olho deles.
 
Jeremias XIX, 9: E dar-lhes-ei a comer as carnes de seus filhos, e as carnes de suas filhas: e cada um comerá a carne de seu amigo, no cerco, e no aperto, em que os terão encerrados os seus inimigos, e os que buscam as almas deles.
 
Ezequiel IX, 6: O velho, o moço e a donzela, o menino e as mulheres, todos matai, sem que nenhum escape; mas não mateis nenhum daqueles sobre quem virdes o thau, e começarei pelo meu santuário. Começaram pois a matança pelos homens mais velhos que estavam diante da casa. 
 
Melhor que tratar cada versículo de modo específico (coisa que poderei fazer futuramente neste blogue), o ideal é dar uma visão exegética geral que engloba a eles e a muitos outros. 
 
Em primeiro lugar, devemos saber que a inspiração divina se dá por meio do arcabouço cultural e das limitações pessoais do escritor sagrado. Nesse sentido, uma das características da linguagem semita era o uso de hipérboles; dada a sua vivacidade, o israelita era muito propenso às expressões fortes, exageradas e contrastantes.

 

Daí ocorrerem no Antigo Testamento, principalmente nos Salmos, fórmulas em que o autor sagrado ou outro personagem deseja mal àqueles que o angustiam. Diz D. Estevão Bettencourt:

 

Em verdade, os autores sagrados, ao pleitear sua causa perante o Senhor, advogavam os interesses do bem, da justiça ou da verdadeira religião; por conseguinte, explícita ou implicitamente a sua causa se identificava com a de Deus, e os seus inimigos vinham a ser adversários do próprio Deus. Assim entendida a situação, não podiam ver motivo para abrandar o rigor dos termos com que os antigos orientais, dotados de ânimo fervido, costumavam pedir a extirpação dos adversários; não pode haver compatibilidade entre o bem e o mal, o reino de Deus e o do pecado; a toda instituição que se opõe a Deus, o homem justo não pode deixar de desejar completa ruína.

 

Ou seja, eles procuravam mostrar qual o caminho recto, mas faziam isso imbuídos de toda a sua carga cultural.

Tal postura ainda é mais patente pelo facto de que não diferenciavam entre a pessoa que fazia o mal e o mal em si. Desconheciam o adágio retirado por Santo Agostinho da Lei aperfeiçoada e definitiva (o Evangelho):

Odeia o pecado, mas ama o pecador.

Daí, fazendo um parêntese, já se observa que a dicotomia promovida pelos protestantes liberais entre "o Deus do Antigo Testamento" e o "Deus revelado por Jesus" é falsa e absurda. É falsa porque deriva de conceitos que, em geral, não têm nenhuma relação com a religião, representando, tão somente, uma perspectiva culturalmente fechada. É absurda porque pressupõe a possibilidade de contradição num texto inspirado.
 

Isso é muito perigoso. As críticas que se fazem em torno dessa ideia levaram alguns a negar a necessidade de Cristo para nos salvarmos. Principiam contestando a “intolerância religiosa” presente na Antiga Aliança e disso passam a ver negativamente a exclusividade do culto ao Deus verdadeiro.

Mais uma ilusão dos hereges... eles não vão "descobrir a roda" e, no mínimo, deveriam procurar saber qual o status quaestionis antes de abrir a boca, seja para evitar erros conceituais, seja para não cair na posição orgulhosa de quem procura adaptar Deus a si.

A Sagrada Escritura é património da Igreja, sua penetração, sendo função da fé na Encarnação, não pode deixar também de estar intimamente associada à fé vivida eclesialmente. O Novo Testamento não é “complemento” do Antigo, mas ápice. O dedo de Deus na Bíblia só se torna visível a quem considere a direcção geral da mesma ou a quem observe as fases da história bíblica se encaminhando aos poucos para um termo único: o Messias. Isto é particularmente belo, pois para tal convergência Deus não violenta a natureza humana: a miséria humana actua sem pudor no Antigo Testamento, perfazendo uma base para a plena manifestação do Bem.

 
O Deus do Antigo Testamento é Jesus (que é a Revelação).
 
Bem, para continuar vale a leitura de um texto do Pe. Elílio de Faria Matos Júnior que certa vez foi postado pelo confrade Ricardo na comunidade Apologética Católica do Orkut:

 
A concepção que Israel alcançou de Deus se deu no âmbito da história, não da reflexão filosófica. Foi a experiência da acção de Deus em sua história que revelou o rosto de Deus ao povo, experiência esta que se acha documentada de forma canónica nos livros bíblicos do Antigo Testamento. O conjunto desses livros indica uma evolução que se elaborou durante quase mil anos, e, por isso mesmo, como registo da experiência de Deus que age poderosamente na história de Israel, não se presta a um tratado sistemático ou catecismo sobre Deus. Tal evolução percorre um caminho que vai desde o "Deus da história", experimentado como aquele que age junto de seu povo, ao "Deus cósmico", criador do céu e da terra. No entanto, ao estudioso perspicaz, é possível detectar certos atributos que pretendem dizer qual é o rosto desse Deus que age na história de Israel e manifesta, no percurso mesmo da história, sua identidade.

De acordo com os estratos mais antigos do Antigo Testamento, a experiência de Deus primeiramente se dá como uma experiência familiar: Deus é o Deus dos pais, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Deus escolhe a família para si e mantém relações pessoais com ela e promete-lhe descendência [Cf. Gn 46,3]
. Entretanto, a experiência decisiva de fé no Antigo Testamento se dá por ocasião da libertação da escravidão do povo hebreu do Egipto, da Aliança estabelecida no Sinai e da promessa da terra de Canaã. É nesse acontecimento, a libertação do Egipto, a Aliança e a promessa da terra, que Israel experimenta com vigor inédito a acção de Deus em seu favor e se constitui como o povo da Aliança. O nome do Deus que liberta o povo com poder e majestade, é Iahweh [Cf. Ex 3,14]. Segundo a tradição javista, o culto a Iahweh remonta aos tempos anteriores ao dilúvio [Cf. Gn 4,26]. Pela tradição sacerdotal, Iahweh ter-se-ia dado a conhecer aos patriarcas com o nome de El-Shaddai [Cf. Gn 17,1; Ex 6,2-3] . Para o texto de Ex 3,12ss, de tradição eloísta, é no momento da libertação egípcia que Deus revela seu verdadeiro nome - Iahweh - pelo qual deseja ser reconhecido doravante pelos israelitas.

Iahweh, ao que tudo indica, segundo os estudiosos, é uma forma primitiva do verbo ser. A tradição o traduziu por Aquele que é. Essa designação, na tradição filosófica, se tornaria a noção mais apropriada que o homem pode aplicar a Deus, no sentido de, por ela, designar o Ser Absoluto, o Ato Puro de existir. Entretanto, certamente a designação de Deus como Iahweh não foi fruto de especulações filosóficas entre os israelitas. Há várias interpretações para o nome: indicaria a solicitude de Deus para com o povo, e, assim, deveria ser traduzido por "Eu sou aquele que é convosco"; indicaria a existência do Deus verdadeiro em contraposição ao nada dos outros deuses; ou mesmo seria um artifício para evitar nomear Deus, pois Deus não se deixa nomear pelos homens, para que o dominem. Como quer que seja, Iahweh indica positividade e concretude, porque está associado à acção divina na libertação de Israel por meio de Moisés, com os atributos divinos de bondade que supõe.

Com os profetas, os atributos de Deus, tais como o poder sobre Israel, sobre outras nações e sobre o mundo inteiro, a misericórdia, a justiça, a santidade, desenvolvem-se. A partir do século VI, por ocasião dos reveses do Exílio, a ideia do Deus único, criador e organizador da matéria afirma-se de vez. Os escritos apocalípticos vétero-testamentários enfatizam a providência de Deus, em cujas mãos está a sorte de todos os povos e o domínio directo sobre todas as coisas.

A fé vétero-testamentária no Deus único, criador do céu e da terra, ao mesmo tempo transcendente e imanente ao mundo, é o resultado da experiência histórica da acção de Iahweh, que, por sua vez, mostra-se, cada vez mais, no decorrer dos acontecimentos, o Soberano dos povos e da natureza, o Princípio último de toda realidade.

Em síntese, podemos dizer que o Antigo Testamento apresenta-nos Deus como único ["Ouve, Israel, Iahweh, nosso Deus, é o único" (Dt 6,4)
], pessoal [sua personalidade não implica limitação, no sentido de ser uma entre outras pessoas, mas é experienciada como presença do Mistério no âmago da história e da vida das pessoas, Mistério este que é consciência, liberdade, vontade, palavra dirigida], transcendente, santo, eterno [Cf. Hab 1,12; Dt 32,40; Ex 15,18], imutável [Cf. Sb 7,27; Is 40,8; Sl 102,26-28], como alguém que ultrapassa os limites corpóreos ['Mesmo se a Escritura fala, várias vezes, de Deus como se ele tivesse um corpo, membros corpóreos, atribui a Deus coisas que não podem convir a um ser corpóreo: transcendência, eternidade, imutabilidade, onipresença' (Patfoort, A. O mistério do Deus vivo. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1983, p.43)], solícito para com os homens, benevolente, justo e sábio [Cf. Dt 10,14-15; Sl 116,6; Jr 24,6-7, Ez 11,19-20; Gn 18,25]; criador de tudo o que existe, infinito, como o Primeiro e o Último [Cf. Is 44,6; 48,12], como o Bem e a Beleza inebriante que causa gozo e admiração para quem o conhece e felicidade para quem o serve. Associado à ideia da beleza de Deus, o termo glória (kabod) é frequentemente usado e designa propriedade exclusiva de Deus, significando a riqueza e a transcendência do divino Ser e o esplendor inebriante e terrificante de suas teofanias [Cf. Is 6,3-5; Ex 29,43; 33,18.20; 40,34ss]. O livro da Sabedoria, partindo da observação da beleza das criaturas, convida a reconhecer a fonte de toda beleza, a Beleza mesma que as criou: "aprendam quanto lhes é superior o Senhor dessas coisas, pois foi a própria fonte da beleza que as criou" [Sb 13, 3].

Enfim, percebemos um eixo central da auto-revelação de Deus no Antigo Testamento: transcendente ao mundo, Deus interessa-se por ele em sua ilimitada autodisponibilidade, não para ter mais alguma coisa, mas para que o mundo e o homem sejam e tenham em Deus mesmo a sua plenitude.


Alguém, então, frente a esse texto, pode perguntar:

- Essa visão historicista não é perigosa? Ela não esvazia o conteúdo revelado presente nos Livros Sagrados?

Não, não esvazia.

Essa perspectiva, tão somente, leva em conta o conceito de inspiração nos Livros Sagrados. A inspiração não torna o hagiógrafo (aquele que recebe a inspiração) numa espécie de "caneta", mas respeita suas características particulares e seu arcabouço cultural.

Por exemplo, se Deus inspirasse um agricultor sertanejo, ele poderia passar a mensagem divina em forma de poesia de cordel e jamais falaria sobre a neve (já que isso não faz parte de seu imaginário).

O conteúdo espiritual, sobre fé ou moral, deve ser "peneirado" no meio disso. Historicismo seria querer ver esse conteúdo como algo condicionado (condicionada é a moldura dele).

Deus quis se acomodar na educação do seu povo. Já antes de receberem a lei de Moisés, os filhos de Israel praticavam o talião, em meio a muitas outras nações que consideravam tal praxe como normal. Pois bem, ao promulgar a Lei de Israel, o Senhor se dignou respeitar a tradição da sua gente; haveria de reformá-la, sim, mas aos poucos. Com efeito, os historiadores extrabíblicos referem que, entre os judeus próximos à era cristã, o talião podia ser substituído pela indemnização pecuniária. É o que atesta, por exemplo, o historiador judeu Flávio Josefo no século I da nossa era (Ant. IV, 8, 35):

Aquele que mutilar o próximo padecerá pena idêntica, sendo despojado daquilo que tiver tirado ao próximo. Dado, porém, que a pessoa lesada prefira receber uma quantia monetária, a lei lhe reconhece pleno direito de avaliar a perda sofrida, e autoriza-a a proceder assim, caso tema cometer alguma crueldade.

Por fim, o Messias, rematando o processo pedagógico do Antigo Testamento, aboliu a prática, aconselhando mesmo aos discípulos que perdoassem gratuitamente a quem os ofendessem (Mateus V, 39).

Um só tipo de talião continua em voga na legislação de Cristo:

Quem pratica a misericórdia, obterá misericórdia. (Mateus V, 7)

Quem não julga, não será julgado; cada qual será julgado conforme tiver ele mesmo julgado; de modo geral, a cada um será aplicada a medida que ele tiver aplicado ao próximo. (Mateus VII, 1s; Marcos IV, 24; Lucas VI, 37s)
 

Novamente, podemos ouvir o questionamento:
 

- Hum... mas permitir que se matem inocentes é um bem?
 

A isso eu respondo de maneira mais teórica, sem me ater ao contexto do Antigo Testamento.

 

Na Redenção, a grande Vítima inocente que se imolou por nossos pecados foi Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Inocentíssimo por excelência, que Se fez vítima para nos salvar. E sua imolação foi de um valor divinamente infinito, e superabundante para resgatar os pecados de toda humanidade passada, presente e futura. Tal não significa porém que “não precisamos sofrer, porque Ele já sofreu por nós”. Para que os méritos infinitos de Jesus Cristo sejam aplicados a cada um de nós individualmente, torna-se indispensável unirmos os nossos sofrimentos aos Sofrimentos d´Ele. Daí que a cada um de nós cabe nesta vida a sua quota de expiação e de sofrimento.

 

Mas aqui entra outro mistério de nossa santa religião: o da Comunhão dos Santos. Deus convoca os justos para completar em sua carne a quota de reparação e sofrimentos que os outros não preencheram. Por isso se diz que os justos pagam pelos pecadores. E é uma honra fazermos isso, pois estamos atendendo ao apelo de Deus em favor de nossos irmãos, ou seja, “amando nosso próximo como nós mesmos”. Nessa misteriosa substituição dos justos pelos pecadores se vislumbra a explicação das vítimas inocentes que o Senhor suscita neste mundo. O sofrimento de tantos inocentes (aos quais Deus muitas vezes, não revela o motivo de seu sofrimento) não é porém sem sentido aos olhos do Criador.

 

Se nós sentimos comiseração por essas vítimas inocentes, a bondade e a consideração de Deus para com elas é infinitamente maior do que a nossa. E assim, ao permitir sofrimentos tão dilacerantes, aufere deles mérito para a salvação de incontáveis almas. Não obstante, é preciso confessar que estamos diante de um mistério de Deus, que só no Céu entenderemos perfeitamente.

 

Nesse quadro, no que se refere ao extermínio dos inimigos, temos ainda de lembrar que o facto dos hebreus possuírem a verdadeira religião num mundo idólatra fazia com que a sorte desse povo viesse a ser nada menos que a do Reino de Deus em meio do erro e do pecado.
 

E isso não é falar em evolução na Revelação (no que discordo do texto do Pe. Elílio). Não há “evolução” em nada. O que há é “desenvolvimento”. Evolução denota uma mudança ontológica e isso, no que tange a princípios revelados, é impossível.
 

Finalmente, trago uma colocação que um protestante certa vez escreveu num debate no Orkut:
 

- Mas Thiago, sendo Deus um pai amoroso como Ele pode permitir tantas mortes injustas nesses trechos criticados do Antigo Testamento? Nosso bem maior não é a vida?!? E a perspectiva universalista dos judeus, como interage com xenofobia demonstrada nessas passagens?
 

A vida não é o maior bem, o maior bem que podemos ter é a salvação. E isso, é bom lembrar, não vai de encontro ao entendimento da sacralidade da vida humana, pelo contrário, é o que dá razão a essa valorização.

 

A morte dos inocentes é mistério, como já expliquei.

Não conheço nenhuma perspectiva universalista judaica, tanto hoje como nos tempos antigos. Aliás, o desvio deles em relação ao Projeto de Deus tem a ver com isso: de um povo que devia servir aos outros como testemunha profética e sacerdotal, passaram a se considerar os únicos escolhidos para a Salvação.

 

Vamos, mais uma vez, tentar entender um pouco melhor o quadro do Antigo Testamento.

No Oriente antigo, ao povo vencedor de uma guerra reconhecia-se a faculdade de dispor das posses e da vida dos vencidos, mesmo de mulheres e crianças; felizes se poderiam considerar aqueles que, derrotados na batalha, fossem apenas despojados de suas posses e reduzidos à escravidão.

 

Além disso, aqueles povos (e também os de outras partes da terra) julgavam que na guerra a honra de seus deuses estava em jogo. Uma derrota militar seria escárnio para as divindades da nação vencida, assim como a vitória um triunfo. Por conseguinte, aos deuses do vencedor deviam ser religiosamente imolados, por um acto de extermínio total, os homens, as famílias, as cidades, os haveres.

 

Ora, tal praxe, familiar aos antigos, foi também respeitada pela Lei de Moisés; a mentalidade rude seria paulatinamente corrigida... Deve-se dizer que para os hebreus essa prática (chamada herém) se tornava particularmente necessária e imperiosa: este povo possuía a verdadeira fé, para um dia transmiti-la ao mundo (o que esqueceram); por conseguinte, era de sumo interesse que Israel não corrompesse sua religião. Todavia, a fim de manter incontaminada sua crença, não havia outra alternativa aos hebreus que a separação absoluta dos demais povos; a experiência mais de uma vez comprovou que, ao habitar pacificamente com tribos subjugadas em guerra, os judeus se deixaram seduzir pelas suas pompas religiosas. Em consequência, era absolutamente necessário que a legislação de Israel apelasse para o hérem e o sancionasse (repita-se: a fidelidade dos filhos de Abraão ao verdadeiro Deus era, na história, um valor insubstituível, que não podia ficar exposto a risco nenhum).

 

Apoiando-se nestas ideias, eis como o legislador sagrado incutia o hérem a Israel (Deuteronómio XX, 16-18):

Quanto àquelas cidades porém, que  te hão-de ser dadas, nenhum absolutamente deixarás com vida. Mas passá-los-as todos  ao fio de espada; convém a saber, aos heteus e aos amorreus, e aos cananeus, aos fereseus, e aos heveus, e aos jesubeus, assim como o Senhor teu Deus te mandou: para que não suceda que vos ensinem a cometer todas as abominações, que eles mesmos fizeram a seus deuses, e venhais a pecar contra o Senhor vosso Deus.

 

O facto de que os hebreus possuíam a verdadeira religião num mundo idólatra, fazia que a sorte desse povo viesse a ser nada menos que a do Reino de Deus em meio ao reino do erro e do pecado. Noutros termos: já que o Senhor decretaria realizar o seu plano salvífico através das vicissitudes de Israel, os hebreus não podiam evitar a conclusão de que os seus sucessos militares seriam vitórias do Reino de Deus. Dentro da mentalidade do Antigo Testamento, portanto, podia-se com toda razão dizer que o reino das trevas triunfava sobre o Reino da Luz cada vez que Israel sucumbia na guerra; nessas ocasiões parecia estar em perigo a causa messiânica, a salvação do género humano. Eis por que os judeus diziam que os inimigos de Israel eram inimigos de Javé e vice-versa; que as suas guerras eram “as guerras de Javé” (Êxodo XVII, 16) ou que“Javé combatia em favor de Israel” (Josué X, 14 e 42). Eis igualmente por que se afirmava, segundo um modo típico, que Deus mesmo inculcava o hérem (Josué X, 40) e, caso não fosse devidamente executado (o que geralmente se dava por desejo ganancioso que os israelitas tinham de se aproveitar dos bens alheios), puniria os próprios judeus.

 

É de notar, como já foi dito, que o extermínio dos homens e mulheres em guerra não implicava na condenação póstuma deles; podiam estar inocentes em sua consciência e merecerem o agrado divino.

Mais uma observação se impõe: embora a legislação de Israel reconhecesse o hérem, ela o abrandava assaz, em confronto do que faziam as outras.

 

Os monumentos e os textos assírios dão testemunho da maneira realmente bárbara como os soldados pagãos tratavam seus prisioneiros de guerra: crivavam-lhes os olhos, tomavam-nos como supedâneos para os pés dos monarcas, etc.

 

Na Sagrada Escritura mesma, o profeta Amós repreende os amonitas porque, entre outros crimes cometidos, abriram os ventres das mulheres israelitas grávidas (Amós I, 13).

 

O simples facto de que o extermínio dos inimigos figurava no catálogo das leis religiosas, devia concorrer para coibir a eventual tendência dos chefes hebreus ao seu abuso.Assim, tolerando o hérem, mas um hérem mitigado, o Senhor dava a entender que imperfeito era tal procedimento. Eis alguns testemunhos:

 

a) O Deuteronómio (Deuteronómio XX, 10-18) muito insiste na humanização do código militar de Israel; recomenda, por exemplo, que na campanha de conquista da terra prometida, ao defrontar uma cidade inimiga, não-cananeia, o povo eleito procure reduzir os seus habitantes a tributo e serviço temperados pela benevolência, evitando o derramamento de sangue; caso, porém, o adversário obrigue a uma campanha militar e seja derrotado, Israel vitorioso é exortado a poupar mulheres e crianças.

 

O modo de tratar as cidades cananeias seria outro, pois, estando localizadas na terra que os hebreus deviam habitar, a coexistência oferecia grave perigo de contaminação. Não era, portanto, permitido aos judeus abster-se do hérem ao vencer os cananeus, como inculda Deuteronómio VII, 2-5; XX, 15s. Isto vem confirmar a observação de que em Israel o preceito em análise era ditado principalmente pelo ideal religioso; era em vista da fidelidade de homens rudes ao verdadeiro Deus que ele fora sancionado.

 

b) A mulher não-cananeia feita prisioneira de guerra, podia ser tomada como esposa de um judeu, que a trataria com todo carinho; abusar de tal prisioneira era estritamente vedado (Deuteronómio XXI, 10-14).

c) Dois episódios da História Sagrada, um do período dos Juízes (Juízes XXI, 13) e o outro do reinado de David (II Samuel XX, 14-22), dão a ver que as exortações à brandura não ficaram sendo letra morta: em ambos os casos, os chefes israelitas entram em acordo com inimigos não-cananeus.

 

d) Houve também varões do povo de Deus que espontaneamente se mostraram humanitários para com os adversários. Por exemplo: conforme II Samuel VIII, 2, David, animado de louvável compaixão, não hesitou em romper o costume de matar todos os prisioneiros; resolveu exterminar “apenas” a metade dos cativos moabitas, metade designada pela sorte...! Para os padrões da época isso é o que explica que, em I Reis XX, 31, os sírios reconheçam a clemência rara de que dão provas os reis de Israel; com efeito, diziam os soldados a seu monarca Ben-Hadad, vencido por Acab:

 

Ouve: nós temos ouvido dizer que os reis de Israel são clementes. Ponhamos sacos sobre nossos rins e cordas ao nosso pescoço, e vamos ter com o rei de Israel; talvez ele te poupe a vida.

 

Acontecia também que os israelitas, ao aplicarem a lei do hérem, por vezes deixavam-se levar não pelo zelo de Deus, mas por paixão humana. É o que se verifica, entre outros casos, na história de Jeú: este general foi, por mandado divino, ungido rei de Israel e recebeu a incumbência de exterminar a Casa de Acab, mas, embora intencionasse zelar pelo interesses de Javé, cedeu a crueldade horrorosa (II Reis X, 1-17)... Ora, o feito de Jeú foi, um século mais tarde, explicitamente repreendido pelo Senhor mesmo, mediante o profeta Oseias (Oseias I, 4s). Este episódio permite concluir que nem tudo que a Sagrada Escritura refere ter sido mandado por Deus foi executado de maneira correspondente à vontade divina.

 

Também David parece ter-se deixado arrastar a excessos no episódio relatado em I Samuel XXVII, 8-11. Certa vez, perseguido por Saul, o futuro monarca se refugiou nas terras do rei filisteu Aquis, que o recebeu benevolamente; de sua nova mansão, porém, David fazia incursões contra populações vizinhas: os amalecitas, que Samuel condenara ao anátema (I Samuel XV, 3); os gessuruianos e os gezrianos, que eram provavelmente tribos amalecitas. O grande guerreiro tudo devastava, matando homens e mulheres, roubando gado e vestes. A seguir, voltava à presença do rei Aquis e, temendo o controlo ou represálias da parte deste, dizia-lhe ter feito expedições nas regiões do Negeb, regiões que pertenciam à tribo de Judá e seus aliados. Tais depredações procediam realmente zelo religioso? E a mentira subsequente que as encobria, poderia ser justificada?

 

De resto, a Bíblia fornece indícios de que os constantes derramamentos de sangue cometidos por David nem sempre corresponderam ao Plano Divino; antes, desagradaram ao Senhor. Com efeito, quando o rei de Israel desejou edificar o Templo de Javé em Jerusalém, recebeu formal recusa de Deus, pois, como reconheceu o próprio monarca, não convinha que o Templo, santuário da paz, fosse erguido por mãos que haviam feito correr tanto sangue (I Crónicas XXII, 8-10; XXVIII, 3).

 

Era igualmente a necessidade de manter pura a religião de Israel que fazia que o hérem fosse praticado entre os próprios hebreus, caso um ou mais indivíduos caíssem na idolatria ou em outro pecado grave. Tal sanção é prescrita por Moisés em Deuteronómio XIII, 13-19; foi a aplicação da mesma que motivou a guerra fraticida contra a tribo de Benjamim (Juízes XX, 1-48; XXI, 1-14). À medida, porém, que ia se elevando o nível cultural e moral dos hebreus, abrandava-se a praxe do hérem entre co-nacionais; assim na época de Esdras (século V/VI), implicava não já a morte do réu, mas a confiscação dos seus bens e sua exclusão das assembleias do povo (Esdras X, 8).
 
O hérem existe até hoje. No final do ano passado nosso país foi abalado pela notícia de um ataque contra 80 compatriotas (alguns foram mortos e muitos ficaram feridos) no interior do Suriname, como vingança colectiva pelo facto de um nativo daquele país ter sido assassinado por um imigrante brasileiro.

 

Ainda outro elemento que deve ser levado em conta para se entenderem devidamente as façanhas bélicas do Antigo Testamento é a mentalidade do clã. Entre os antigos, de modo geral, o indivíduo costumava ser prezado não somente como tal, mas também (e, não raro, preponderantemente) como membro de uma colectividade; dava-se muita importância à solidariedade natural que une todo homem à família, tribo ou nação. Isso se explica, em grande parte, pelo género de vida nómada que levavam os primitivos. De facto, os nómadas vivem da grei, dos rebanhos que os acompanham, e isto (dizem os psicólogos) não pode deixar de imprimir um caráter coletivista à vida do clã, fazendo com que o indivíduo como tal desapareça na engrenagem do todo. Ademais, nesse modo de vida é mais difícil que na vida sedentária descobrir o autor de um crime (fora os casos de delito flagrante); por conseguinte, julgava-se muitas vezes na antiguidade que os factores da história não são “este” e “aquele indivíduo”, mas “este” e “aquele clã”. Este modo de ver implicava que, ao se cometer um crime contra determinado sujeito, todo o grupo respectivo se julgava atingido. Por conseguinte, era a tribo inteira que se levantava para reagir, e reagir não contra o agressor isolado, mas contra a colectividade de que fazia parte o ofensor. É o que explica os frequentes choques de grupo contra grupo, choques em que nem as mulheres, nem as crianças eram poupadas; é também este o motivo por que muitas vezes filhos, netos e ulteriores descendentes da geração criminosa eram por um legislador condenados à maldição.
 
A História Sagrada apresenta disto um exemplo significativo em I Samuel XV, 1-3: Samuel manda a Saul que extermine os amalecitas – homens, mulheres e crianças – e todo o seu gado, pois em três ocasiões durante a travessia do deserto, havia mais de dois séculos, se tinham oposto à passagem do povo de Deus (Êxodo XVII, 8-13; Números XIV, 45; Juízes III, 13; VI, 3); Moisés, em consequência, os tinha condenado a completo extermínio (Deuteronómio XXV, 17-19; Números XXIV, 20). Segundo a ordem de Samuel, pois, uma geração bem posterior pagaria pela culpa de antepassados longínquos!
 

Vale notar que resquícios desse tipo de mentalidade existem até hoje no nosso país, em  especial nas regiões rurais (quem nunca ouviu falar de "guerras de famílias" no Nordeste?).
 
Aos poucos, porém, Deus quis corrigir também essa postura imperfeita. Acontecia no século VI que os judeus, punidos por guerras de deportações, se queixavam de que seus pais haviam “comido uvas amargas e os dentes dos filhos sofriam em decorrência” (um provérbio que os exilados aplicavam a si mesmos, lançando sobre os pais a falta cujo castigo suportavam - Ezequiel XVIII, 2; Jeremias XXXI, 29); apoiados em tal tese, dispensavam-se hipocritamente de qualquer propósito de penitência, pois se apregoavam inocentes. Foi então que o Senhor se dignou explicitamente negar a veracidade do pressuposto (Ezequiel XVIII, 4; cf, Jeremias XXXI, 30):

 

Eis que todas as almas Me pertencem: a alma do filho como a alma do pai é minha; a alma que pecar, essa morrerá.

 

Ainda mais uma vez se manifestava a paciência divina em lenta tarefa educacional.

 

Os dizeres de Ezequiel e Jeremias indicam bem que a mentalidade do clã está abolida. Não se diga, pois, que alguém está pagando pelos pecados de seus antepassados.
 

Sendo assim, podemos afirmar que a mensagem revelada tinha de ser passada segundo o grau de civilização em que estavam os ouvintes ou não seria entendida.

 

Consideremos uma criança.

 

A sua consciência é rudimentar, poucos deveres indica e poucas restrições impõe. O pequeno conhece, sem dúvida, o preceito fundamental da lei moral: "Faz o bem, evita o mal." Todavia, em que consiste exactamente o bem a praticar e o mal a evitar ele não sabe dizer com clareza; poucas são as conclusões práticas que ele deduz daqueles mandamento básico; assim o bem, para ele, vem a ser primeiramente o que os mais velhos lhe indicam como tal; o mal será desobedecer a estes. Só aos poucos é que o adolescente vai percebendo as consequências do princípio "Faz o bem, evita o mal."

 

Pois bem, Deus quis que se desse com o género humano inteiro algo semelhante ao que se verifica com toda criança: nos primórdios da história, os homens tinham uma consciência moral pouco desenvolvida, a qual através dos séculos foi-se tornando mais apurada, minuciosa.

 

Também os membros do Povo de Deus, que o Criador se dignou tornar portadores da verdadeira fé, possuíam, apesar da sua sublime vocação, uma consciência moral ainda embrionária. Percebiam bem que é preciso "fazer o bem e evitar o mal", obedecer a tudo que vissem ser a Vontade de Deus; mas a maioria das aplicações concretas deste princípio escapavam à sua percepção. Não há dúvida, o Senhor poderia ter revelado tudo que a Lei Natural nos incute; preferiu, porém, um lento desabrochar que, de resto, mais condizia com a maneira como Ele criou e rege o mundo.

 

Ao chamar Abraão, Deus não quis cortar bruscamente todas as suas tradições de família (isso seria anti-pedagógico); eliminou em termos severos o que era estritamente politeísta; quanto às outras observâncias, preferiu ir contemporanizando, tomando o israelita como era; permitiu, pois, que o povo vivesse, em parte, à semelhança dos demais povos orientais; às práticas antigas não politeístas, o Mestre Divino apenas quis insuflar novo espírito, comunicando nobres ideias e aspirações. Assim fazia com que o povo se fosse elevando espiritualmente, até um dia poder ouvir a mensagem do Evangelho (João XV, 12):

 

Este é o meu preceito: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei.

 

É muito importante frisar, ainda, que uma consciência moral ora mais, ora menos embrionária, como tinham os homens do Antigo Testamento, não é incompatível com a santidade, e elevada santidade, pois esta consiste em cumprir generosamente a vontade de Deus manifestada através da consciência recta e sincera. Notemos o caso de Abraão, que não hesitou em deixar sua terra e sua parentela para ir à região à qual Deus o chamava (Génesis XII, 1-4). Também não vacilou quando o Senhor lhe pediu que oferecesse seu filhos em sacrifício (Géneses XXII, 1-18).

 

Em conclusão: a História Sagrada é, sim, apesar de todos os escândalos e vicissitudes que os homens nela disseminaram, um movimento ascensional contínuo, que tem por fundamento uma mensagem perene: Cristo. Infelizmente a má vontade para se entender essas coisas é muito grande; para tudo se tem condescendência, menos para se entender a Palavra de Deus. Façamos a nossa parte, expliquemos a verdade para quem tem um coração aberto, os outros que assumam a responsabilidade de sua falta de zelo no estudo da Revelação no dia de prestarem contas a Deus.
 
 
Thiago Santos de Moraes

18
Mai 15
publicado por FireHead, às 10:10link do post | Comentar

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 A Leonor Abrantes puxou recentemente o tema à baila no "post" A Criação de Fátima. Ora cá está uma oportunidade para falar sobre o dito "milagre do Sol".

Sem querer, de forma nenhuma, menosprezar a componente sociológica, religiosa e política do fenómeno de Fátima, pois tudo isso dá pano para mangas, queria apenas deixar claros alguns pontos bastante objectivos, que normalmente não são conhecidos.

1. Que os pastorinhos andavam a avisar as pessoas de que Nossa Senhora lhes prometera um sinal milagroso é facto bem sabido: por exemplo, a 13 de Setembro, certamente mais de dez mil pessoas estavam com eles na Cova da Iria, e sem discutir o que as pessoas viram nesse dia, o que é certo é que uma multidão seguiu-os na expectativa de verem sinais.

2. A previsão definitiva de um sinal milagroso foi feita pelos pastorinhos para o dia 13 de Outubro, e nesse dia, estavam 50.000 pessoas com eles; que outra razão para estarem lá senão a promessa de um grande sinal? Estiveram horas à chuva… os guarda-chuvas vêem-se nas fotografias desse dia.

3. Os pastorinhos, como dos dias 13 dos meses anteriores, trouxeram multidões para a Cova da Iria, por volta do meio-dia. Pouco depois dessa hora, por sugestão da Lúcia, as pessoas fecharam os guarda-chuvas e puseram-se todas a olhar para o céu, e isso está provado de forma documental, por várias fotografias.

4. Que não se tratou de uma alucinação colectiva é atestado pelo facto de que o poeta Afonso Lopes Vieira também viu o fenómeno a partir de sua casa em São Pedro de Moel, a menos de 40 km da Cova da Iria; ora fazendo as contas (como fez Stanley Jaki), para o fenómeno ser visto na Cova da Iria, e também em São Pedro de Moel, o fenómeno teria ocorrido pelo menos a 500 metros de altitude; se não foi visto a partir de locais mais afastados, é de supor que o fenómeno terá ocorrido na atmosfera, a uma baixa altitude (mas superior a 500 metros, aproximadamente), logo teria sido um fenómeno ATMOSFÉRICO e não astronómico; junte-se ainda o testemunho de um rapaz de seis anos, da aldeia de Alburitel, chamado Inácio Lourenço, que viu o fenómeno, estando a uns dez quilómetros da Cova da Iria.

5. A descrição do “bailar do Sol” é uma criação literária do jornalista Avelino de Almeida, do jornal “O Século”, e terá sido inspirada nos dizeres de certos populares que assistiram ao fenómeno.

6. É curioso que ninguém ligue nenhuma ao depoimento, não de populares iletrados, mas de académicos reputados: Gonçalo Xavier de Almeida Garrett, professor de Matemáticas em Coimbra, estava na Cova da Iria, juntamente com o seu filho José Maria, advogado. Ambos deixaram depoimentos escritos datados de 18 de Dezembro desse mesmo ano. José Maria usa, no seu depoimento, o termo técnico "cirros" para descrever as nuvens de alta altitude que observou no céu. Juntem-se ainda os testemunhos válidos da poetisa Maria Madalena de Martel Patrício, dado no final de 1917, e o testemunho do Barão de Alvaiázere, datado de 30 de Dezembro de 1917, nos quais ambos referem a presença de nebulosidade. E estes são apenas os mais conhecidos! O fenómeno teve inúmeras testemunhas.

7. Infelizmente, os depoimentos Almeida Garrett, valiosos porque escritos por quem tinha formação académica, nunca tiveram uma divulgação tão ampla e generalizada quanto as descrições distorcidas, como as da “dança” ou “baile” do Sol, ou pior ainda, quanto as especulações do jesuíta Pio Scatizzi, que publicou em 1947 uma das obras mais equivocadas acerca da interpretação científica do fenómeno: Fatima alla luce di fede e della scienza. Esta obra deixou para trás uma posteridade de equívocos, só porque o autor não se deu ao trabalho de investigar os factos e ouvir as testemunhas oculares.

8. O Físico e Padre beneditino Stanley Jaki (1924-2009) fez o trabalho de casa e veio a Portugal várias vezes investigar o tema, e deixou-nos com uma interpretação bastante decente do fenómeno. Segundo ele, o fenómeno é de natureza meteorológica, e é corroborado pelos depoimentos dos Almeida Garrett, e pelo testemunho do Afonso Lopes Vieira, que estava a 40 Km do local.

E então o milagre?

Ora bolas, o milagre é a previsão da data e da hora! Três pastores analfabetos prevêem a data e hora de um impressionante e raríssimo fenómeno meteorológico, resultante da conjugação improvável de nuvens do tipo cirro (a altas altitudes, feitas de cristais de gelo), nuvens de baixa altitude (feitas de partículas de água no estado líquido), e uma conjugação de ventos com a necessária orientação para moverem as partículas de água e gelo numa roda espiralada, que por sua vez gerou em simultâneo um feixe de cores cintilantes (resultantes da refracção dos raios solares nas partículas de água e gelo) e um raro efeito de “lente”, que explica a estupefacção das pessoas na Cova da Iria, que achavam que o Sol, aparentando aumentar de tamanho, se iria precipitar sobre elas..

Seria bizarro supor que as leis da Física teriam sido todas violadas, com o Sol aos saltos. É tolo imaginar, sequer, essa possibilidade. E mais tolo ainda, se tivermos em conta a falta de testemunhos de “desvios” do Sol, que teriam que ter sido detectados em vários observatórios um pouco por todo o planeta.

Como de costume, os verdadeiros milagres são sempre compatíveis com a Ciência, e parece-me que a previsão impressionante dos pastorinhos já é suficientemente improvável para se reconhecer que não existe explicação “naturalista” para essa previsão tão precisa, que é improvável quer pela precisão temporal, quer pela raridade do fenómeno meteorológico.

Fátima foi uma coisa grande que aconteceu a Portugal.
Estão enganados todos aqueles que julgam o contrário.

PS: Quando se tem preconceitos, quando se é ateu, quando se rejeita a existência de Deus, quando se rejeitam os milagres, não há nada que se possa dizer, nem mesmo a previsão precisa de um raro fenómeno meteorológico, para abalar a crença do céptico irrazoável. A pessoa que leva o cepticismo ao extremo de acreditar em coisas altamente improváveis e inexplicáveis não está disposta a considerar alternativas racionais que não se encaixem na sua visão estreita da realidade.

 

Fonte: Espectadores


14
Mai 15
publicado por FireHead, às 05:09link do post | Comentar

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13
Mai 15
publicado por FireHead, às 06:03link do post | Comentar

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12
Mai 15
publicado por FireHead, às 09:01link do post | Comentar
O mês de Maio é o tempo favorável para fixar em ti o meu olhar, descobrindo na tua vida a obediência, a entrega e a confiança nos desígnios de Deus. 

Na liberdade do teu coração, disseste o sim mais definitivo da história dos homens. Na obediência à Sua vontade experimentaste o que significa a liberdadede quem se deixa conduzir pela Verdade, sem pôr entraves, nem dúvidas. 

No silêncio do teu coração de Mãe, amaste o teu Filho, amando o teu Senhor. Enquanto O geravas, esperavas um inesperado acontecimento, totalmente sustentada pela Graça que te habitava. 

Enquanto O alimentavas e vias crescer, contemplavas a obra que Deus fizera através de Ti. Enquanto Jesus percorria a Galileia, ensinando e dando-Se a conhecer como o Messias, permanecias serena e escondida na tua casa de Nazaré. 

Quando te chegaram aos ouvidos as acusações e o risco de vida a que o teu Filho estava sujeito, deixaste tudo e partiste ao Seu encontro. A caminho do Calvário encontraste-O desfigurado e humilhado…e deste-lhe tudo o que te restava… a ternura da tua presença.E junto d’Ele ficaste, dorida e sofredora… mas ficaste,até ao seu último suspiro. 

Foi aí, junto à Cruz, que aceitaste o Seu último pedido de ser a Mãe de quantos O seguiram e n’Ele puseram a sua esperança. A tua maternidade, nascida na Cruz, chegou a até mim como Graça que guardo, abraço e agradeço, em cada hora e em cada instante, «agora e na hora da minha da morte». Amen!

 

Rui Corrêa d'Oliveira

11
Mai 15
publicado por FireHead, às 17:48link do post | Comentar

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Estava calor, muito calor. Uma daquelas tardes quentes e abafadas de Macau. Fui para o centro da cidade. Passei na Livraria Portuguesa, como sempre que podia. Mas naquele fim de tarde o meu rumo era outro. Sim, era a igreja do Convento dos Dominicanos de Nossa Senhora do Rosário. Assim quase ninguém a conhece, a igreja de São Domingos, como é comum ser designada popularmente. Ou “Pan Cheong Miu” (o “templo de tábuas de madeira”), como lhe chamam os habitantes chineses de Macau, pois, originalmente, a igreja, fundada em 1587 por frades dominicanos hispano-filipinos, fora construída em madeira. No século XVII seria então reedificada, aparecendo a actual construção.

 

E já agora, não esqueçamos que o primeiro jornal português de Macau e também o primeiro jornal da História moderna da China, A Abelha da China, viu o seu primeiro número ser precisamente publicado nesta igreja, a 12 de Setembro de 1822. A memória do lugar, do espaço, que eu contemplava, naquele fim de tarde plúmbeo e cálido, naquele 13 de Maio, outras histórias… Mas naquele dia, havia – há! – outros motivos para se ir ali. E curiosamente, parece que milhares de outras pessoas têm motivos para ali estar, dentro e fora da igreja, aos milhares no seu todo. É verdade, parece que desde 1929 assim se passa.

 

Com a introdução do culto a Nossa Senhora do Rosário de Fátima, anualmente, a 13 de Maio, sai desta igreja a “Procissão de Nossa Senhora de Fátima” (organizada pela Confraria de Nossa Senhora do Rosário da Mãe de Deus), talvez a maior manifestação de culto da Igreja Católica em Macau. De São Domingos, uma imensa multidão ruma, recitando o Rosário trilingue (Português, Inglês, Cantonense), até à Ermida de Nossa Senhora da Penha, larga cópia de fiéis, turistas ou curiosos acompanham, ano após ano, a imagem da “Senhora de Fátima” e o clero, com o Senhor Bispo à frente, em preito de devoção e fervor como dificilmente se vê. Confesso, permitindo-me o estimado leitor, o uso da primeira pessoa, que poucas vezes, ou nenhuma até, testemunhei tal piedade filial de tão grande concurso de gente em torno de uma devoção.

 

Sim, Fátima é isto, tem disto. Mobiliza, enfatiza, acrisola fé e comunhão, dimensiona a espiritualidade e irmana, em qualquer paragem deste mundo, o vale de lágrimas que clama piedade, com intercessão da Virgem. Em tudo e para Tudo, como dizia o beato D. Álvaro del Portillo, Maria, a Virgem de Fátima, assume-se como a luz no caminho para os que querem seguir fielmente a Jesus. A via para a santidade que é Maria, na sua invocação de Fátima, está bem evidente nos ânimos e esperanças de todos aqueles que seguem a sua imagem redentora e salvífica em todos os 13 de Maio, por ali acima, até à Penha. Iriam até Coloane, se fosse preciso, pois acreditam, como D. Álvaro, que a Mãe está em tudo, para tudo.

 

Mas afinal o que está por detrás desta enorme devoção, que move multidões e enxameia por todo o mundo em expressão de adesões plurais de fé? Para começar, a festa litúrgica foi instituída em 1949, vinte anos depois da primeira procissão em Macau em devoção à Virgem. Nossa Senhora de Fátima, ou mais correctamente, Nossa Senhora do Rosário de Fátima, é uma das designações, ou invocações, atribuídas à Virgem Maria que, segundo os relatos que surgiram na época e depois por parte da Igreja Católica, terão sido registadas várias aparições, repetidamente a três pastores, então crianças, no lugar de Fátima, na freguesia de Aljustrel, concelho de Ourém, distrito de Leiria, no centro de Portugal.

 

A primeira aparição terá ocorrido no dia 13 de Maio de 1917. As restantes aparições sucederam-se durante os seis meses seguintes, sempre no mesmo dia (exceptuando em Agosto). A aparição está relacionada também com a invocação de Nossa Senhora do Rosário, pois de acordo com os relatos, a Virgem ter-se-á dirigido aos pastorinhos como “Nossa Senhora do Rosário”. Na narrativa das Aparições é aliás coerente, pois a mensagem que a Virgem trazia era uma súplica de oração, em particular a oração do Santo Rosário.

 

As Aparições de Fátima surgiram na sequência de outros fenómenos idênticos, de âmbito Mariano também, em França, no século XIX. O primeiro foi em Notre-Dame de La Salette, na montanha de La Salete, Isére, nos Alpes franceses. Nossa Senhora apareceu então, a 19 de Setembro de 1846, a duas crianças, Maximin Giraud de 11 anos e Mélanie Calvat de 15 anos. Em 11 de Fevereiro de 1858, em Lourdes, na gruta de Massabielle, na diocese de Tarbes, e até 16 de Julho desse ano, a Virgem apareceu a Bernardette Soubirous.

 

O acolhimento popular a estas aparições foi grande, embora com problemas, suscitados por resistências políticas, institucionais e governamentais. Mas Fátima, como as congéneres francesas, resistiu e impôs-se. Como prenunciaria a Virgem, refira-se, a Jacinta Marto, umas das videntes de Fátima: «Virão modas que ofenderão muito Nosso Senhor. As pessoas que servem a Deus não devem seguir essas modas. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o Mesmo».

 

As Aparições de Fátima, assim, começaram a 13 de Maio de 1917, quando três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, em Fátima. Chamavam-se Lúcia de Jesus, de 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 9 e 7 anos. Cerca do meio dia, já tinham rezado o terço, como costume, estando a brincar, no local onde hoje se encontra a Basílica. Surgiu então uma luz brilhante. Era um relâmpago, acharam, hora de ir embora mas mais abaixo, um clarão iluminou o lugar: no cimo de uma pequena azinheira (onde agora se encontra a Capelinha das Aparições), avistaram uma «Senhora mais brilhante que o Sol», de cujas mãos pendia um terço branco. A Senhora de Branco incitou os três pastorinhos a rezar muito, lembrando-os de que iria aparecer na Cova da Iria durante mais cinco meses consecutivos, no dia 13 e àquela hora. Nos dias 13 de Junho, Julho, Setembro e Outubro, a Virgem apareceu e falou-lhes, como prometido; a 19 de Agosto, a aparição ocorreu no lugar de Valinhos, a uns 500 metros do lugar de Aljustrel, pois, no dia 13, as crianças tinham sido levadas pelo Administrador do Concelho, para Vila Nova de Ourém. Foi na última aparição, a 13 de Outubro, perante cerca de 70 mil pessoas, a Senhora anunciou-se como “Senhora do Rosário”, exortando que ali se fizesse uma capela para seu louvor, que fizessem ali uma capela em Sua honra. Depois desta aparição, conforme prometera aos meninos nas aparições de Julho e Setembro, deu-se o milagre do Sol, que girava sobre si mesmo como uma roda de fogo, parecendo precipitar-se na terra, tudo perante aquela gente. A Virgem apareceria ainda a Lúcia, a única das crianças que viveria para além da adolescência, em 1925, 1926 e 1929, no convento das Doroteias em Espanha onde esteve recolhida.

 

Francisco morreria em 1919 e Jacinta em 1920. Em 1921 celebrou-se a primeira missa na Capelinha das Aparições. Em 3 de Maio de 1922 deu-se a abertura do processo canónico sobre os acontecimentos de Fátima, ano em que se inicia a publicação da Voz de Fátima. A primeira pedra da Basílica foi lançada em 13 de Maio de 1928, dois anos antes da abertura oficial do culto de Nossa Senhora de Fátima, por parte da diocese de Leiria-Fátima. A Basílica de Nossa do Rosário, a igreja do Santuário de Fátima, será sagrada em 7 de Outubro de 1953, a qual se torna Basílica Menor no ano seguinte. Em 2007 foi inaugurada a Basílica da Santíssima Trindade, completando um conjunto de valorizações do grande santuário mariano universal que é Fátima.

 

Desde 1917 podíamos contar como milhões os peregrinos que têm afluído à Cova da Iria, vindos de todo o mundo. Primeiro, vinham nos dias 13 de cada mês, depois nos meses de férias de Verão e Inverno. Actualmente, segundo o Santuário, cada vez mais há peregrinos todos os fins de semana e no dia-a-dia, num montante anual de cinco milhões. Do outro lado do mundo, em Macau, Fátima também move multidões e aquece corações.

 

 

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

 

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