«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
30
Abr 12
publicado por FireHead, às 23:10link do post | Comentar

 

A intenção do texto não é esgotar a teologia em torno do Rosário, mas apenas demonstrar superficialmente que não existe oposição entre esta devoção e a Palavra de Deus, como julgam alguns hereges.

 

Vários protestantes têm uma grande pulga atrás da orelha com o Rosário. "Como é antibíblico!", dizem eles. Pois bem, é hora de analisar o Rosário e ver o que a Bíblia tem a dizer sobre este assunto.

 

O Rosário é uma colecção de orações individuais:

 

1 - O Credo
2 - O Pai Nosso
3 - A Avé Maria
4 - Glória
5 - Salve Rainha

 

 

1. O Credo Apostólico

 

"Creio em Deus, Pai todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo, Seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pela Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos e ressuscitou ao terceiro dia. Subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso, donde há-de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém."

 

Este é um dos credos mais antigos que se conhece. Foi inicialmente usando pelos Cristãos de Roma. Não há nada de antibíblico nele. A única coisa que alguém poderia objectar seria a expressão "creio... na Santa Igreja Católica". Bem, a primeira pessoa a utilizar a expressão "Católica" (palavra grega para "geral, universal") foi Santo Inácio de Antioquia na sua carta aos Esmirnenses. Ele morreu em 107 A.D., o que nos faz tirar a lógica conclusão que tal designação para a igreja já era utilizada desde antes. Ele utilizou este termo para diferenciar a Igreja fundada por Cristo e pelos apóstolos das outras igrejas e filosofias heréticas que estavam aparecendo.

 

 

2. O Pai Nosso

 

Bem, nada de antibíblico aqui. Sem mais comentários.

 

 

3. A Ave Maria

 

"Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém".

 

Isto coloca um bom problema aos protestantes. Porquê? Veja o que a Bíblia diz sobre isso (versão KJV):

 

"E o anjo veio sobre ela, e disse, Ave, tu que és grandemente favorecida, o Senhor está contigo. Bem-aventurada és tu entre as mulheres". (Lc 1,28)

 

São Jerónimo, um dos primeiros Pais da Igreja, traduziu a Bíblia grega para o latim, e a melhor forma de traduzir para o latim a forma "grandemente favorecida" foi "Gratia Plena", que significa "cheia de graça". Isto denota muito bem o estado de Maria, "cheia de graça", sem pecado. Desta forma, a primeira parte da Ave Maria não deixa problema algum. E quanto à segunda parte?

 

Santa Maria? É esperado que, sendo Maria a mãe do "Santo dos Santos", ela seja também uma pessoa santa. Isto não pode ser problema para os protestantes, que acreditam que todos os Cristãos são santos, de uma forma ou de outra, no mínimo.

 

Mãe de Deus? Maria é a mãe de Jesus, certo? Jesus era uma pessoa divina com uma natureza divina e humana. Maria "assim como fazem todas as mães" deu a luz à pessoa, não à natureza. E a qual pessoa ela deu à luz? Uma pessoa divina. Logo, Maria é a mãe de Deus.

 

Rogai por nós, pecadores? Pedimos que Maria ore por nós. Mas ela não está morta? Não de acordo com a Bíblia (Mc 12,26-27; Mt 27,52-53).

 

Nós devemos orar pelos outros, diz Tiago (Tg 5,16). Ora, mas Jesus não é o único mediador? Sim, assim como Ele é o único rei, o único Senhor, o único sacerdote, etc... E enquanto partilharmos deste Seu sacerdócio e reinado, também partilhamos desta única mediação.

 

Agora e na hora de nossa morte? Oh oh!, como Maria sabe quando morreremos? Bem, ela possui a visão beatífica (1 Cor 13:12; 2 Pd 1:4), e além do mais, não existe época no Paraíso, somente eternidade e, portanto, nem Maria ou os anjos estão sob o limite do tempo e por isso podem ouvir todas as nossas orações.

 

 

4. Glória

 

"Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, assim como era no princípio, agora e sempre. Amém".

 

Pequena e linda oração. Que ninguém reclame dela.

 

 

5. Salve Regina (Salve Rainha)

 

"Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas. Ei-a pois, advogada nossa, esses vossos olhos misteriosos a nós volvei. E depois deste desterro nos mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria! Rogai por nós, santa mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém".

 

É bem complicado, vamos com calma.

 

Rainha? Considere que Jesus, Rei dos Reis, nunca foi casado. Se um rei não possui esposa, quem, portanto, é a rainha? A sua mãe! E isto se aplica aqui.

 

Vida, doçura e esperança? Isto diz respeito à mediação de Maria, assunto que não abordaremos neste texto pela sua natureza mais profunda. Chamamos Maria desta forma porque ela é a causa, estritamente na forma subordinada "claro", da nossa salvação, vida, doçura e esperança (que é Jesus).

 

Vossos olhos misericordiosos? Maria, como imaculada, tem misericórdia dos seus filhos. Lembrando que todos somos os seus filhos. Ela é a nossa mãe, porque somos parte do corpo de Jesus, nascido de Maria.

 

Clemente, piedosa, doce? Quem nega que a mãe de Jesus é clemente? Ou piedosa? Ou doce? A minha mãe (carnal) é! Quanto mais com um filho como Jesus, o filho de Deus!

 

Como vimos, são várias orações. Claro, existem entre nós questões sobre o Rosário, como apontam alguns quando dizem que Jesus nos recomendou não rezar em "vãs repetições" como fazem os gentios (Mt 6,7). Mas note que Jesus não condena as repetições, somente as que são "vãs". Se nós condenamos Católicos bêbedos, não estamos condenando todos os Católicos que bebem e nem significa que todos os Católicos "são" bêbedos. Isto somente significa que aqueles Católicos que "estavam" bêbedos são condenados. Aqui é a mesma coisa. Jesus disse para não rezarmos as repetições "que são vãs", ou sejam, de nada adiantariam. E porque o Rosário não é incluído nestas "vãs repetições"? Porque nele nós meditamos os mistérios da vida, morte e ressurreição de Cristo, e isto nunca será "vão". A Ave Maria somente é a base para todos estes mistérios. Nunca se acreditou que se consegue alguma coisa com uma certa quantidade de orações. O Rosário bem recitado é aquele bem meditado, com concentração. Onde as palavras não são somente balbuciadas, mas rezadas com Fé.

 

Então, da próxima vez que alguém se dizer um Cristão, pergunte como honra a Maria. Se disser "não, obrigado, não sou idólatra, somente honro a Jesus", pergunte então porque a Bíblia nos pede para honrarmos os santos (1 Pd 1,6-7), e porque Maria é tão "grandemente favorecida".

 

"Doravante, todas as gerações me proclamarão bem-aventurada" (Lc 1,48).

 

 

*Traduzido para o Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro Rosa.


29
Abr 12
publicado por FireHead, às 00:04link do post | Comentar

Por Orlando Fedeli

Associação Cultural Montfort

 

 

Com a queda do marxismo, o que já se manifestava aqui e acolá se irradiou por todo o nosso céptico século XX: houve uma grande explosão de misticismo. Só se fala em horóscopos, tarot, hinduísmo, homeopatia, alquimia, ocultismo, esoterismo e todos os tipos de superstição se alastram. E até os ateus marxistas passaram a exibir nos seus carros o dístico “Eu creio em duendes”.

 

O fenómeno foi tão invasivo que a famosa revista internacional 30 Giorni começou a publicar repetidos artigos sobre o misticismo herético e sobre a Gnose. E o que era assunto de eruditos passou a ser tema amplamente divulgado e universalmente admitido (1).

 

Assim, torna-se hoje bem claro que razão cabia bem a Simone de Pètrement que, ao analisar a literatura a partir do Romantismo, isto é, a partir da Revolução Francesa, concluiu: “a julgar pela nossa literatura, nós entrámos numa idade gnóstica” (2).

 

Erich Voegelin, examinando os sistemas totalitários do nosso tempo – nazismo, fascismo, e comunismo – chega à conclusão de que eram sistemas gnósticos e os partidos que adoptaram esses sistemas eram, na verdade, “ersatzs” da religião. Ele não hesita em colocar também a psicanálise e o progressismo no mesmo balaio da Gnose:

 

“Dizendo movimentos gnósticos entendemos referir-nos a movimentos como o progressismo, o positivismo, o marxismo, a psicanálise, o comunismo, o fascismo e o nacional-socialismo (nazismo)” (3).

 

Não falta mesmo quem veja na própria ciência moderna reflexos da Gnose antiga. Por exemplo, Jacques Lacarrière chama Einstein, Planck e Heisemberg “ces gnostiques de notre temps” (4).

 

Sem significar que endossemos as conclusões da obra, é interessante, entretanto, lembrar o best-seller de Fritjoff Capra – “O Tao da Física”-, que pretende ligar toda a física moderna ao gnosticismo.

 

Poderíamos citar muitos outros autores. Para os limites de um artigo bastam-nos entretanto os factos, esses eruditos e as revistas de divulgação cultural.

 

Quando se estuda a Gnose entra-se num labirinto cheio de brumas, tentando descobrir segredos que permitirão chegar a um mistério. Não é de estranhar que o tema se preste a confusões.

 

É pois necessário estabelecer distinções. E uma primeira é entre panteísmo e Gnose. O próprio Dictionnaire de Théologie Catholique de A. Vacant e E. Mangenot (5) cita, de cambulhada, doutrinas panteístas e gnósticas, sem distingui-las. No seu elenco estão desde as religiões hinduístas, do Egipto, China e Caldeia, passando por Heráclito e Parménides juntos, pelo sufita Ibn Arabi, Campanela até Diderot, Kant, Novalis e os românticos.

 

Ora, o panteísmo é a doutrina que considera que tudo – inclusive a matéria – é Deus. A Gnose, pelo contrário, em quase todos os seus sistemas condena a matéria como obra maligna.

 

Simplificando um tanto o problema, cujos meandros não podem ser examinados nos limites deste artigo, pode-se dizer que o panteísmo representa uma corrente plutôt optimista, enquanto que a Gnose é pessimista (6).

 

O panteísmo é naturalista, monista e tende ao racionalismo.

 

A Gnose é dualista, anti-cósmica e anti-racionalista. Mas essa é uma distinção que deveria em alguns casos ser matizada porque alguns sistemas gnósticos são ambivalentes, com relação ao mundo material, que é dialecticamente amado e odiado ao mesmo tempo (7). Por outro lado, há sistemas panteístas que admitem a transformação da matéria em espírito, ao fim da evolução (8).

 

Por exemplo, nota-se no sistema panteísta de Plotino uma clara tendência para a Gnose, embora esse autor neoplatónico tenha até escrito uma obra contra os gnósticos do seu tempo.

 

Conviria ainda dizer que o panteísmo é uma anti-câmara para a Gnose, sistema reservado para espíritos mais tendentes ao misticismo orgulhoso do que ao sensualismo.

 

Para conceituar a Gnose, poderíamos dizer que ela pretende ser “o conhecimento do incognoscível”.

 

Evidentemente, essa conceituação revela uma contradição que é típica da Gnose. Conhecer o incognoscível é uma contradição conceitual e lógica. Mas ocorre que a Gnose repele a inteligência e a lógica como enganadoras. O verdadeiro conhecimento seria intuitivo, imediato e não discursivo e lógico.

 

Conhecer o incognoscível, de facto, significa dar ao homem o conhecimento de Deus e do mal, coisas impossíveis de compreender. De facto não podemos compreender ou conhecer a própria essência de Deus que é ser infinito e transcendente, impossível de ser captado pelo nosso intelecto. Também não podemos entender o mal e o pecado: o mal enquanto ser não existe, e o mal moral não tem razão que o justifique.

 

Assim, a Gnose pretende oferecer ao homem um conhecimento natural que o colocaria em posição de compreender – e portanto superar – a Deus, de compreender o mal, e, ademais, de conhecer a sua natureza mais íntima, que seria divina.

 

A Gnose é então a religião que oferece ao homem o conhecimento do bem e do mal.

 

Ora, sabe-se que a árvore do fruto proibido do Éden era exactamente a árvore do conhecimento ou ciência do bem e do mal (Gen. II,10). Assim, teria sido a Gnose a tentação de Adão. Com efeito, a serpente prometeu aos nossos primeiros pais que, se comessem o fruto proibido, “seriam como deuses, conhecendo o bem e o mal” (Gen., III,5). A tentação de Adão e Eva foi a de se tornarem deuses. Essa é a grande tentação do homem, que, levado pelo orgulho, como Lúcifer, não admite a sua finitude, não aceita a sua contingência.

 

Essa tentação é, de facto, uma revolta anti-metafísica. Ora, é esse um outro modo de conceituar a Gnose: uma revolta anti-metafísica.

 

Se admitirmos essa interpretação da tentação adâmica, teremos que concluir a existência de uma continuidade da Gnose na História. E é o que constatam os estudiosos: a Gnose apresenta-se realmente como uma religião ora oculta, ora pública, mantendo porém unidade e continuidade no transcorrer da História.

 

Ladislao Mittner, estudou o pietismo protestante, seita mística e gnóstica oriunda dos tratados de Jacob Boehme e fundada por Spenner liga, seita essa que é uma única grande corrente gnóstica existente na História.

 

Para representar a unidade do fenómeno religioso gnóstico, Mittner usa a imagem muito própria e muito cogente do rio cársico.

 

No Carso, região calcárea da ex-Jugoslávia, há rios que de repente desaparecem no solo extremamente permeável de calcário e passam a correr subterraneamente, voltando a aparecer na superfície muitos quilómetros depois. O rio cársico é aquele que aparece e desaparece, tornando-se ora visível ora oculto no seu percurso.

 

Mittner diz que “é quase impossível distinguir o pietismo das muitas outras seitas religiosas da época. Filões singulares do movimento apresentam fenómenos cársicos: aparecem, desaparecem, e, de repente, reaparecem mais além, sem que a identidade do filão possa ser propriamente demostrada” (9).

 

Assim é a Gnose: na história, ela é um fenómeno religioso do tipo cársico.

 

Essa unidade histórica da Gnose através dos tempos e civilizações é constatada por muitos autores. Dennis de Rougemont, por exemplo, escreve:

 

“Mais perto de nós que Platão e os druidas, uma espécie de unidade mística do mundo indo-europeu se desenha como em filigrama no plano de fundo das heresias da Idade Média. Se nós abraçamos o domínio geográfico e histórico que vai da Índia à Grã-Bretanha, constatamos que uma religião aí se espalhou, para falar a verdade, de um modo subterrâneo, desde o século III da nossa era, sincretizando o conjunto dos mitos do Dia e da Noite tal como eles tinham sido elaborados inicialmente na Pérsia, depois nos segredos gnósticos e órficos e é a fé maniqueia” (10).

 

Por sua vez, H. I. Marrou atesta:

 

“(…) de facto, a Gnose e o seu dualismo pessimista exprimem umas das tendências mais profundas do espírito humano, uma das duas ou três opções fundamentais entre as quais o homem deve finalmente escolher. Claude Tresmontant mostrou bem a permanência da tentação gnóstica, sem cessar reaparecida, sob formas diversas no pensamento ocidental no curso da sua história nos Bogomilas e Cátaros da Idade Média, em Spinoza, Leibnitz, Fichte, Schelling, Hegel. Poder-se-ia continuar esta história além do romantismo alemão e até os nossos dias: o destino de Simone Weil é particularmente muito significativo; foi bem o seu neo-gnosticismo que a deteve finalmente na soleira da Igreja e a sua herança se reencontrava na obra histórica da sua amiga e discípula Simone de Pétrement” (11).

 

O tema, além de misterioso e fascinante, é muito actual. Voltaremos a ele, a fim de informar os nossos amigos leitores sobre as brumas que envolveram a nossa época após o Vaticano II e o fim do Marxismo.

 

 


Notas:

(1) cfr. 30 Giorni Ano VII, fev. 1992, pag.54, artigo “Lutero? Delírio Maniqueísta”; ano V no.2, fev. 1990, pag.3. Nessa revista é citado o Cardeal de Lubac, para quem a corrente espiritualista, mística e gnóstica da maçonaria prevalece na cultura atual.
 (2)Simone de Pètrement, “Le dualisme chez Platon, les gnostiques et les manichéens”, PUF, Paris, 1947, pg.347
 (3) Erich Voegelin, ” II mito del Mondo Nuovo”, Rasconi Mildo, 1976, pág.16
 (4) Jacques Lacarrière, “Les Gnostiques”, Gallimard, Paris, 1973, pág.78
 (5) Paris, Lib. Letourzey et Assé, 1932, verbete Pantheisme
 (6) cfr. R.P. Festugère, La Revèlation d’Hermes Trimegiste, Lib. Lecoffre J. Gabalda, Paris, 1954, 4 vols., especialmente o vol. III Les doctrines de l’âme págs. 73/83
 (7) cfr. Robert M. Grant, La gnose et les origines chretiènnes, Seuil, Paris, 1964, p.17
 (8) cfr. H.C. Puech, Position spirituelle et signification de Plotin, in En quête de la gnose, 2vol., Gallimard, Paris, p. 74/75
 (9) L. Mittner, Storia della Letteratura Tedesca – Dall Pietismo al Romanticismo, Einandi, Milão, 1964, p.40
 (10) Dennis de Rougemont, L’amour et I’Occident, Plon, Paris, 1939, p. 47
 (11) H. I. Marrou, prefácio da edição francesa da obra de R.M. Grant, La gnose et les origines chretiènnes, Seuil, Paris, 1964, p.8.


27
Abr 12
publicado por FireHead, às 18:34link do post | Comentar

Por Ronaldo Mota

Associação Cultural Montfort

 

 

Tomados de feroz anticlericalismo, os enciclopedistas franceses, com Voltaire à frente, converteram a Inquisição na sua principal arma de combate contra a Igreja. Tratava-se, diziam, de instrumento de opressão contra as liberdades individuais, manejado por um clero fanático e corrupto, desejoso de manter o povo na ignorância... As mesmas ideias, as mesmas palavras, idênticos chavões continuaram sendo utilizados, como um cantochão, com infatigável insistência pelas correntes liberais do século XIX e chegaram até os nossos dias. (João B. G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 101).

 

Vê-se continuamente em nossos dias repetir-se a velha lenda da Inquisição. Tal lenda é bem conhecida. Nela apresenta-se um tribunal tenebroso que tortura as suas pobres vítimas. Por trás dele encontrar-se-ia uma Igreja opressora das consciências e inimiga da ciência, representada por monges ignorantes, corruptos e sádicos. Como sempre um tribunal pernicioso, impiedoso etc...

 

Entretanto, a Inquisição é antes de tudo um facto histórico e deve ser tratado como tal. Sendo assim, para não confundirmos a história com a lenda, indicaremos em linhas gerais o que ficou conhecido como a lenda negra da Inquisição, para logo em seguida tratarmos da História.

 

Podemos encontrar essa literatura tendenciosa já no século XVI, momento de ascensão do protestantismo, e constatarmos o seu crescimento com o iluminismo no século XVIII. Contudo, é no século XIX que nos deparamos com os autores que mais contribuíram para a estruturação e perpetuação da lenda negra: Juan Antonio Llorente e Henry Charles Lea.

 

Juan Antonio Llorente[1] (1756-1823) foi mais um daqueles sacerdotes que trocaram a Fé pelos ideais do mundo moderno. Tornando-se liberal, combateu a Igreja Católica calorosamente. Negava o voto perpétuo das comunidades religiosas, defendia o casamento de padres e bispos, defendia ainda – como um bom nacionalista oitocentista – que a Igreja deveria ser dirigida pelo Governo Supremo Nacional, não sendo o clero mais que uma categoria de funcionários públicos sem nenhuma relação como o Papa. Embora fosse espanhol e nacionalista, colaborou com as tropas napoleónicas invasoras e, após a sua derrota, retirou-se com elas, estabelecendo-se em Paris a partir de 1814. Apesar das suas ideias liberais terem galgado, em 1789, o posto de Secretário Geral da Inquisição.

 

Al abandonarlo, recogió todos los procesos de valor inapreciables de la Inquisición y procedió a quemar aquellos que podían ser favorables a dicha Institución y a apartar aquellos otros que le servirían después para utilizarlos en su Histoire critique de l’Inquisition.” (William T. Walsh. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963, pp. 306-307).

 

Como se vê, Llorente visava antes à luta política que à veracidade histórica. Sabemos ainda que foi nos documentos fornecidos por ele que a Comissão das Cortes de Espanha, em 1812, se baseou para negar a legalidade da fundação da Inquisição.

 

O fanatismo do padre Llorente na luta contra a Igreja Católica era tanto que, já sexagenário, escreveu uma obra intitulada Retrato político de los Papas, no qual, além de enumerar uma porção de calúnias, dava crédito à lenda da papisa Joana. Vê-se, pois, como surgem as lendas...

 

Essas e outras exibições de Llorente foram demais para o governo francês, que o convidou oficialmente a retirar-se do país.

 

Por isso, Fernando Ayllón tem razão ao afirmar, comentando o êxito da obra de Llorente: Su éxito publicitario se debió a que sus escritos fueran usados como arma predilecta de los enemigos de España y de la Iglesia Católica por la supuesta seriedad y objetividad del autor, características ambas de las cuales en realidad carecía. Indubitablemente Llorente es el escritor que más ha alimentado la leyenda negra contra el Santo Oficio y su propio país.” (Fernando Ayllón, El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997, p. 18).

 

Outro autor influente foi o protestante norte-americano Henry Charles Lea, que dedicou grande parte da sua vida à publicação de escritos contra a Igreja Católica[2]. Dentre os seus escritos sobre o tema Inquisição, os principais são História da Inquisição Medieval e História da Inquisição Espanhola. Lea também se baseou em Llorente, porém, fez um grande trabalho de pesquisa histórica, chegando a apresentar documentos inéditos. Contudo, os seus preconceitos e as suas convicções protestantes levaram-no a uma manipulação parcial e negligente da documentação adquirida.

 

Les ouvrages de H.-Ch. Lea, traduits par Salomon Reinach, ont été écrits  dans un esprit voltairien, et l’auteur n’a cessé, au long de ses livres, de s’indigner et de déplorer. (Georges Deromieu. L’Inquisition. Paris, Presses Universitaires De France, 1946, Préface).

 

Ilarino da Milano, na sua erudita obra Eresie Medioevali, comenta que a documentação apresentada por Lea dava a sua obra uma aparência de ciência histórica. Porém: in realtà il bibliofilo americano fu più controversista che storico; si mantenne protestante avverso alla Chiesa romana nella interpretazione partigiana dei fatti e nel tono generale, nonostante la sua sincera professione di lealtà; (Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 444).

 

É interessante notar que um escritor protestante, Häbler, é quem nos dá uma clara visão do método de Lea: La agrupación de la materia va toda encaminada a echar en cara a la Inquisición un registro de crímines lo más voluminoso posible. Puesto que no podían mantenerse en la forma en que se ha hecho hasta el presente todos los reproches de crueldad, ansia de persecución y opresión de la inteligencia han sido reforzados por medio de una inmensa mole de las particularidades más triviales, etc. Todo con el objeto de que la imagine de la Inquisición resultará lo más repugnante posible. (F. Ayllón. op. cit. p. 25).

 

Conhecendo essa tradição historiográfica anticatólica, conhecemos também a origem da dita leyenda negra. De modo que – precavidos contra os seus prejuízos históricos – poderemos tratar aqui de alguns factos esquecidos, ou melhor, propositalmente negligenciados por ela.

 

Historicamente, a Inquisição não pode ser considerada como a criação de um Papa, ou de uma mente maquiavélica de pretensões despóticas. A história é muito mais complexa do que a lenda pode imaginar. A Inquisição foi, antes de tudo, fruto da reacção de uma sociedade contra movimentos degeneradores da ordem, da moral e da cultura então reinantes. A forte reacção contra as heresias, que levará ao processo de formação do Tribunal Eclesiástico, ao contrário do que alguns pensam, parte antes do povo e do Estado que da Igreja:

 

O impulso para a radicalização da atitude social contra os heréticos partiu de baixo para cima, ou seja, do fanatismo popular que tomava corpo à medida que se cristianizava a sociedade bárbaro-europeia. Mesmo no ano de 1045, quando foram descobertos alguns heréticos em Châlons, as autoridades eclesiásticas recorreram aos legisladores, pois ainda não sabiam o que fazer com eles. (Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 15)

 

Notemos que esse autor, que julga de forma preconceituosa o povo Católico medieval, afirma que não foi a Igreja quem iniciou o movimento de radicalização contra os hereges, mas o povo.

 

João Bernardino Gonzaga, ao analisar o contexto social no qual surgiu a Inquisição, afirmou: No caso da Inquisição, quem a exigiu e impôs, antes da Igreja, foram os governantes e o povo, que viam, nos hereges, rebeldes perigosos e perturbadores. A História mostra que, muitas vezes, os populares se antecipavam às autoridades e se encarregavam de puni-los, levando-os à fogueira. (João B. G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, ed. Saraiva, 1993, p. 114).

 

Disto decorre que a Inquisição não é – como querem os inimigos da Igreja Católica – uma mera invenção da Igreja, que eles erroneamente julgam tirana, mas um fruto da reacção da sociedade contra as heresias. A Igreja foi obrigada, pelo seu dever de julgar questões teológicas, a criar um tribunal que impedisse excessos do povo e abusos do Estado.

 

É exactamente por isso que trataremos – dentro dos limites de nosso pequeno artigo – de duas das principais heresias que invadiram a sociedade medieval nos séculos XII e XIII, sem o conhecimento das quais não é possível avaliar a reacção dessa sociedade nem compreender o que foi a Inquisição.

 

 

As Heresias

 

Os Valdenses

 

No século XII várias heresias alarmaram a sociedade Cristã. Dentre elas, as mais notáveis, devido à penetração que tiveram na sociedade, foram: o catarismo (cujos sectários são também conhecidos como albigenses, devido ao grande centro cátaro da cidade de Albi) e a heresia valdense.

 

Os valdenses, ou pobres de Lyon, denominação conferida pelo seu fundador Pierre de Vaux (Pedro Valdo), surgiram organizados numa fraternidade entre os anos de 1173 e 1178. A princípio, como nota Ilarino[3], eles permaneceram fiéis à Igreja Católica e procuraram distinguir nas suas pregações, ao contrário dos cátaros, o magistério sagrado da má conduta de alguns dos seus membros. Em 1179, no Terceiro Concílio de Latrão, o Papa Alexandre III (1159-1181) decide que eles poderiam pregar com autorização eclesiástica prévia. Entretanto, os valdenses passaram da crítica aos vícios de alguns clérigos para uma negação da autoridade eclesiástica. Essa atitude levou à sua condenação pelo Papa Lúcio III no Sínodo de Verona em 1184[4]. A partir desse momento, os valdenses assumem o seu estado de rebelião contra a Igreja, constituindo dessa forma uma nova igreja com uma estrutura própria:

 

Cumpriam o tríplice voto da pobreza, da castidade e da obediência aos superiores, isto é, ao próprio Valdo, como a um encarregado de Deus, praepositus et pontifex, e aos bispos presbíteros e diáconos por ele ordenados. As Sagradas Escrituras, que traduziram para as línguas vulgares e que recomendavam calorosamente para leitura, tinham o valor de norma doutrinal absoluta e de código jurídico. (N. Falbel. op. cit. p. 62).

 

Os valdenses da Lombardia, relativamente aos do Languedoc, assumiram uma oposição mais agressiva. Segundo eles, os juramentos eram proibidos pelos Evangelhos e a pena capital não era permitida ao poder civil. Todo o leigo tinha o poder de consagrar o sacramento do altar; não aceitavam as orações pelos mortos; o Purgatório não existia e a Igreja Romana não era a Igreja de Cristo. Evidentemente, essas doutrinas demonstram a forte influência cátara sobre os valdenses, ao mesmo tempo em que tornam claro o grande problema que eles representavam para a ordem social.

 

 

O Catarismo

 

Problema ainda maior, quer pelas proporções que tomou, quer pelas doutrinas estapafúrdias e fantásticas que propagou, foi o catarismo.

 

Ils rejettent l’Église romaine qu’ils appelent, nous dira plus tard Bernard Gui, «Mère des fornications, grande Babylone prostituée, basilique du diable et synagogue de Satan». Ils nient l’incarnation et même l’existence réelle de la Vierge Marie, dont ils font un symbole. (G. Deromieu. op. cit. p. 2)

 

Este ódio à Igreja e à sua Fé, que nos relata Deromieu ao citar Bernard Gui e E. AEgerter, na realidade ultrapassa – no caso dos cátaros – o ódio à Igreja Católica. Representa em última análise um ódio ao mundo e, como tal, combaterá não só a Igreja, mas também toda a ordem existente. Será, portanto, contra essa heresia e outras, defensoras de doutrinas igualmente perniciosas, que a sociedade medieval reagirá.

 

O catarismo dos países ocidentais provém do bogomilismo búlgaro-constantinopolitano dos séculos XI e XII, que é na verdade um maniqueísmo sob nova denominação.[5] Essa ligação entre catarismo e bogomilismo é tão real e constante que, em 1167, os cátaros organizaram um concílio em St. Félix de Caraman (Toulouse) no qual compareceu o bispo bogomilo Niketas, vindo de Constantinopla, para unificar o dualismo das seitas dos países ocidentais, levando-as do dualismo moderado ao dualismo absoluto da igreja de Dragowitsa (Tracia).[6] Entretanto, tanto o dualismo moderado quanto o absoluto partem de um mesmo princípio.

 

Esso prende le mosse dalla constatazione del male, del peccato, delle difettosità esistenti negli individui, nella società, nel creato (cfr. Testi: I, 1). L’uomo ne sente il peso e ne cerca la liberazione. (I. Milano. op. cit. p. 19 – o negrito é nosso).

 

Para os cátaros o mundo, ou seja, toda a realidade criada era essencialmente má. Segundo eles, o mundo fora criado pelo deus-mal. Esse mesmo deus-mal, que eles chamavam de Satanás, haveria encarcerado os anjos do deus-bem na matéria e os induzido ao pecado da carne por meio do qual ele continuaria a encarcerá-los.

 

Há, portanto, uma contradição total entre a visão de mundo cátaro e a doutrina da Igreja Católica.

 

O encargo de Cristo foi uma simples missão num mundo satânico, sendo negadas a encarnação, a paixão e a ressurreição. O homem não foi criado à imagem de Deus, mas pelo demónio. Daí o ódio dos cátaros pelo sinal da cruz que se relacionam aos sofrimentos de Cristo e o ligam à matéria impura. (N. Falbel. op. cit. p. 54).

 

A salvação para o catarismo era a libertação da alma de seu invólucro satânico, isto é, o corpo material impuro. Devido a essa concepção, os cátaros viam com bons olhos o suicídio.

 

Além do suicídio por envenenamento ou salto num precipício, ou ainda a pneumonia voluntariamente contraída, era comum procurar-se a morte pela fome ou endura; deixavam de comer até se extinguir. (N. Falbel. op. cit. p. 58).

 

Os perfeitos, ou seja, aqueles que receberam o consolamentum, dedicavam-se absolutamente, como indicam os historiadores, ao proselitismo:

 

Eles percorriam as cidades e os campos, pregando com a palavra e como exemplo. A finalidade dos Perfeitos era, por um lado, engrossar as fileiras dos seus adeptos e, por outro, arrebatar seguidores da Igreja de Satanás, a Igreja Católica. Daí arremeterem com violência contra os sacramentos, as igrejas, a cruz e os cemitérios, contra o culto, as relíquias e, enfim, contra o clero.” (N. Falbel. op. cit. p. 59 – o negrito é nosso).

 

Não é difícil perceber quais foram os graves problemas trazidos por essa heresia para a sociedade. Por exemplo, os cátaros abominavam o casamento: O casamento era considerado um estado satânico porque regularizava o crime da carne e tinha como consequência natural a procriação. A concubina era mais aceite do que a mulher casada, facto que levou aos cátaros a acusação de terem hábitos promíscuos. (N. Falbel. op. cit. pp. 55-56 – o negrito é nosso).

 

Deste modo, o casamento era condenado e a destruição da família favorecida, levando assim à aceitação da união livre e à restrição de nascimentos. Foi uma antecipação da liberdade sexual absoluta. (N. Falbel. op. cit. p. 56 – o negrito é nosso).

 

Os problemas não param por aí.

 

Na cerimónia do consolamentum, o sacramento cátaro por antonomásia, o iniciado devia renunciar a prestar juramento[7]. Essa negação de prestar qualquer juramento, como nota N. Falbel,[8] vai directamente contra a base das relações humanas na Cristandade medieval. Fica patente, pois, o enorme perigo que o catarismo representava para a sociedade, visto que o cátaro não podia aceitar o juramento que significaria, em última analise, a sua inserção nessa sociedade e a aceitação de uma organização que ele considera má e satânica.

 

Le sue comunità fomentarono un clima di rivolta all’autorità ecclesiastica, in cui pullularono altri moti ereticali e reazioni politiche. Ma i catari dotrinalmente sono opposti anque all’organizzazione imperiale e nazionale d’un mondo che essi condonnano come cattivo; considerano le autorità statali, anche in ragione dell’esercizio dello « jus gladii », come rappresentanti del maligno; imperatore e re li perseguitarono como reazionari. (I. Milano. op. cit. p. 19 – o negrito é nosso).

 

A revolta cátara contra o mundo, além de se opor absolutamente à Igreja Católica, a qual afirma que o mundo criado por Deus é bom, tinha necessariamente que se voltar contra toda a ordem que imperava nesse mundo, de modo que o Estado tornava-se também um alvo da heresia. Isso levou, como constata Ilarino e qualquer outro historiador sério, ao surgimento de diversos focos de revolta no seio da sociedade medieval. Estes e outros problemas, causados pela heresia, são alguns dos motivos que nos permitem compreender porque o povo e as autoridades laicas anteciparam-se à Igreja, numa enérgica reação contra o perigo que os afrontava.

 

 

A Sociedade frente às heresias

 

D’autres «publicains» sont arrêtés à Vézelay en 1167. L’abbé demande à la foule ce qu’il faut en faire. La foule s’écrie : «Qu’ils soient brûlés, qu’ils soient brûlés». (Henri Maisonneuve. L’Inquisition. Paris, ed. Desclée, 1989, p. 26).

 

Essa atitude do povo contra os hereges não era nada incomum. Veja-se que H. Maisonneuve nos fala de “autres” (outros), pois já havia relatado diversos casos onde o povo e as autoridades laicas reagiam violentamente contra os hereges. Por exemplo, em 1025, um grupo de clérigos de Orléans, defensor de doutrinas heréticas, expõe a sua doutrina diante de uma assembleia de bispos, abades e senhores presidida pelo rei Robert. Os hereges aferram-se às suas doutrinas, recusam submeter-se e são excomungados pelo clero. Contudo, o castigo ordenado pelo rei é a pena da fogueira.[9] Os exemplos são diversos. Em 1144, em Liège, alguns hereges aguardam a sentença do Tribunal. Os juízes, esperando a conversão dos hereges acusados, conseguem a custo livrá-los do furor do povo impaciente, que quer queimá-los.[10] Em 1163, uma dezena de hereges provindos de Flandres estabelece-se às portas de Colónia. Como eles não assistem aos ofícios da Igreja, seus vizinhos assustados os denunciam. As autoridades fazem vir o monge Robert, futuro abade de Schönaugen, para discutir com os hereges. A discussão faz-se na presença do clero e de uma parte importante da população. O monge Robert esforça-se para trazê-los novamente à Igreja, mas eles se recusam. As autoridades eclesiásticas os condenam como heréticos e eles são conduzidos aos magistrados de Colónia, os quais os condenam à fogueira.[11] Por volta de 1140, os discípulos de Pierre de Bruys, uma seita iconoclasta, conseguem algum sucesso na região do Mediterrâneo. Pedro o Venerável, abade de Cluny, chega a escrever um tratado contra eles, chamando-os de “inimigos da cruz de Cristo”. Esses sucessos, entretanto, não duram por muito tempo, pois o povo, cansando das suas profanações, queima-os nesse mesmo ano.[12] No Saxe, em 1052, o Imperador Henrique III enforca muitos hereges.[13] Em 1120, em Soissons, a multidão impaciente com o bispo, que demorava em justiçar alguns hereges, arranca-os das suas mãos para levá-los imediatamente à fogueira.[14]

 

A reacção contra a heresia ocorre de forma generalizada na Cristandade medieval. Mesmo no Languedoc, que foi sem dúvida a região onde o catarismo encontrou maior aceitação, a população fiel, como verifica Georges Deromieu,[15] exigia uma acção vigorosa contra ela.

 

Em Inglaterra, não houve meias medidas: quando um grupo de cátaros lá desembarcou em 1160, foram todos logo presos, marcados a ferro incandescente e expulsos da ilha. Sumariamente afastou-se pois o problema, de tal sorte que, nesse país, inexistiram tribunais de Inquisição durante toda a Idade Média. (J. B. Gonzaga. op. cit. p. 95).

 

Os casos são numerosos, eles revelam ao mesmo tempo uma vigorosa reacção da sociedade e a atitude particular da Igreja diante da erupção de heresias. Um caso emblemático é o do massacre de Colónia em 1145.[16] Nesse ano foram trazidos alguns hereges diante do arcebispo de Colónia e da sua corte clerical e laica. Eles rejeitavam os sacramentos da Eucaristia e da Penitência, rejeitavam a liturgia, a crença no Purgatório e todo o alimento que provinha de um acto de acasalamento. Eles discorriam sobre a sua acção missionária e sobre os seus sucessos entre monges e clérigos. Durante três dias, eles discutiram com os Católicos. Alguns abjuraram de suas ideias e outros se negaram terminantemente a deixá-las. Estando sob o poder das autoridades, as quais ainda não tinham pronunciado a pena, a multidão arrombou a prisão e levou os cátaros para a fogueira.

 

A atitude da Igreja em todos esses casos foi sempre de tentar converter os hereges. Por mais que os lendólogos neguem-se a ver, foi a conversão dos hereges – e não a sua condenação à morte – o verdadeiro objectivo da Igreja. O espírito da Igreja Católica – que a lenda insiste em apresentar como tirana – está expresso nas palavras de São Bernardo de Claraval, referentes ao massacre de Colónia:

 

O povo de Colónia passou da medida. Se aprovamos o seu zelo, não aprovamos, de modo algum, o que fez, pois a Fé é obra da persuasão e não podemos impô-la. (N. Falbel. op. cit. p. 57.)

 

Portanto, tanto o povo quanto o Estado reagiram vigorosamente contra a heresia. De modo que, com o passar do tempo e o agravar do problema, a própria Igreja, fazendo jus ao seu direito e mesmo ao seu dever de julgar em causa religiosa, procurou regulamentar essa reacção, desencadeando assim, o processo que culminou no surgimento do Tribunal do Santo Ofício. Tal processo, que delinearemos em linhas gerais, deixará claro qual era o verdadeiro objetcivo que animava a Igreja, mostrando como sua acção reguladora foi benéfica, inclusive ao criar a Inquisição, que foi – como veremos – de longe, um tribunal bem menos severo que o da Justiça civil comum.

 


 

[1] Cf.  William T. Walsh. Personajes de la Inquisición. Madrid, Espasa-Calpe, S. A., 1963.   

[2] Fernado Ayllón. El Tribunal de la Inquisición; De la leyenda a la historia. Lima, Fondo Editorial Del Congreso Del Perú, 1997, p. 24.      

[3] Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 33.

[4] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 62.

[5] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 38.

[6] Ilarino da Milano. Eresie Medioevali; Scritti Minori. Itália, Maggioli Editore – Rimini, 1983, p. 20.

[7] Nachman Falbel. Heresias Medievais. São Paulo, Ed. Perspectiva S. A., 1977, p. 57.

[8] N. Falbel. op. cit. p. 56.

[9] Henri Maisonneuve. L’Inquisition. Paris, Ed. Desclée, 1989, p. 22.

[10] H.  Maisonneuve. op. cit. p. 24.

[11] Idem, p. 25.

[12] Idem, p. 27.

[13] João Bernardino G. Gonzaga. A Inquisição em seu mundo. São Paulo, Ed. Saraiva, 1993, p. 93. 

[14] Idem, p. 95.

[15] Georges Deromieu. L’Inquisition. Paris, Presses Universitaires De France, 1946, p. 10.  

[16] H.  Maisonneuve. op. cit. p. 24.


26
Abr 12
publicado por FireHead, às 02:21link do post | Comentar

São Paulo recomenda e ordena a manutenção da Tradição Oral. Em 1 Cor 11,2, por exemplo, lemos: Eu vos felicito por vos lembrardes de mim em toda ocasião e conservardes as tradições tais como eu vo-las transmiti (4). São Paulo está claramente recomendando que mantenham a Tradição Oral, e deve ser notado em particular que ele congratula os fiéis por fazê-lo (Eu vos felicito...). Também é explícito no texto o facto de que a integridade desta Tradição Oral apostólica era claramente mantida, da mesma forma como Nosso Senhor havia prometido, sob o auxílio do Espírito Santo (cf. Jo 16,13).

 

Talvez o mais claro apoio bíblico para a Tradição Oral seja 2 Ts 2,15, onde os Cristãos são enfaticamente advertidos: Assim, pois, irmãos, ficai inabaláveis e guardai firmemente as tradições que vos ensinamos, de viva voz ou por carta. Esta passagem é significante porque: a) mostra uma Tradição Oral apostólica vivente, b) diz que os Cristãos estarão firmemente fundamentados na Fé se aderirem a estas tradições e c) claramente afirma que estas tradições eram tanto escritas como orais. A Bíblia distintamente mostra aqui que as tradições orais - autênticas e apostólicas na sua origem - deveriam ser seguidas como componente válido do Depósito da Fé, então por quais razões ou desculpas os protestantes a rejeitam? Com que autoridade podem rejeitar uma exortação clara do apóstolo Paulo?

 

Além do mais, devemos considerar o texto desta passagem. A palavra grega krateite, traduzida aqui como “guardar”, significa “estar firme”, “forte”, “prevalecer” (5). Esta linguagem é enfática, e demonstra a importância da manutenção destas tradições. Obviamente, devemos diferenciar o que seja Tradição (com T maiúsculo), que é parte da revelação divina, das tradições da Igreja (com t minúsculo) que, mesmo que sejam boas, desenvolveram-se tardiamente e não fazem parte do Depósito da Fé. Um exemplo de algo que seja parte da Tradição seria o baptismo infantil; um exemplo de tradições da Igreja seria o calendário das festas dos santos. Tudo que venha da Sagrada Tradição é de origem divina e são imutáveis, enquanto que as tradições da Igreja são cambiáveis pela Igreja. A Sagrada Tradição serve-nos como regra de Fé por mostrar no quê a Igreja tem consistentemente crido através dos séculos e como ela sempre entendeu uma determinada parte bíblica. Uma das principais formas pela qual a Sagrada Tradição foi transmitida a nós está nas doutrinas dos textos litúrgicos antigos, o serviço divino da Igreja.

 

Todos já notaram que os protestantes acusam os Católicos de promoverem doutrinas novas e anti-bíblicas baseadas na Tradição, por afirmarem que tal Tradição contém doutrinas que são estranhas à Bíblia. Entretanto, esta acusação é profundamente falsa. A Igreja Católica ensina que a Tradição Oral não contém nada que seja contrário à Tradição Escrita. Alguns pensadores Católicos afirmam, inclusive, que não há nada na Tradição Oral que não seja encontrado na Bíblia, mesmo que implicitamente ou em formas seminais. Certamente as duas estão em perfeita harmonia e complementam-se uma à outra. Para algumas doutrinas, a Igreja faz uso da Tradição mais que pelas Escrituras para o seu entendimento, mas mesmo estas doutrinas estão incluídas nas Sagradas Escrituras. Por exemplo, as doutrinas seguintes são preferencialmente baseadas na Sagrada Tradição: baptismo infantil, o cânone das Escrituras, o domingo como Dia do Senhor, a virgindade perpétua de Maria e a assunção de Maria.

 

A Sagrada Tradição complementa a nossa compreensão da Bíblia ao mesmo tempo que não constitui uma fonte extra-bíblica de revelação, com doutrinas novas ou estranhas a ela. Muito pelo contrário: a Sagrada Tradição age como a memória viva da Igreja, relembrando-a constantemente o que criam os Cristãos antigos, como entendiam e interpretavam as passagens bíblicas (6). De certa forma, é a Sagrada Tradição que diz ao leitor da Bíblia: você está lendo um livro muito importante, que contém a revelação de Deus aos homens. Agora deixe-me explicá-lo como ela sempre foi entendida e praticada pelos Cristãos desde o início dos tempos.

 

 

Notas

 

(4) A palavra traduzida como ordenança é também traduzida como ensinamento ou tradição, por exemplo, a NIV traz ensinamento com uma nota dizendo: "ou tradição".

(5) Vine, op. cit., p. 564.

(6) Um exemplo desta forma interpretativa envolve Ap 12. Os Padres da Igreja entenderam a mulher vestida de sol como referência à Assunção da Virgem Maria. Alguém afirmar que esta doutrina não existia até 1950 (o ano em que o Papa Pio XII definiu-o como dogma de Fé) corresponde a uma grande ignorância de história eclesial. Essencialmente, a crença surgiu desde o início, mas não fora formalmente definida até o século XX. Deve-se saber que a Igreja geralmente não costuma definir uma doutrina formalmente a não ser que esta seja questionada por correntes heréticas perigosas. Tais ocasiões requerem uma necessidade oficial de definir parâmetros sobre a doutrina em questão.

 

Fragmentos da obra "Scripture Alone? 21 Reasons to reject Sola Scriptura" de Joel Peters, traduzido e editado em português pelo Apostolado Veritatis Splendor na forma de ebook com o título "Somente a Escritura?". Tradução de Rondinelly Ribeiro Rosa. Pgs 15-17.

 

 

Fonte: Veritatis Splendor


25
Abr 12
publicado por FireHead, às 02:06link do post | Comentar

24
Abr 12
publicado por FireHead, às 00:33link do post | Comentar
Vou mostrar a vocês
as igrejas do cifrão,
elas têm nome na frente
para enganar o Cristão.
Passem longe desses antros
que promovem a divisão (Romanos 16,17-18).
 
Eles dizem que Jesus
ali dentro fez morada (Actos 17,24).
É mentira que Jesus
não mora em casa alugada,
nem de porta sobe e desce
com letreiro na fachada (Mateus 24,23-24).
 
Tem a tal de EPI$COPAL
A$$EMBLEIA, ADVENTI$TA.
tem a BRA$IL PARA CRI$TO,
RENA$CER, a METODI$TA,
a CONGREGAÇÃO CRI$TÃ,
tem os MÓRMONE$, e a BAPTI$TA.
 
Tem “igreja” só para missi
chamada MI$$IONÁRIA,
tem a $ARA NO$$A TERRA
para a classe milionária
e a “igreja” UNIVER$AL
para os de condição precária.
 
Tem a PRE$BITERIANA
e a CRI$TÃ MARANATA.
Tem a $INOS DE BELÉM,
que seu dono é pederasta,
e a CU$PE DE JE$U$
que se não aleija, mata.
 
Tem a tal de TE$TEMUNHA$,
aquela de JEOVÁ,
tem a COBRA DE MOI$É$
para o povo enrolar
e a “QUE ENGOLIU A$ OUTRA$”
para o teu dinheiro papar.
 
Já a de David Miranda
se chama DEU$ É AMOR,
proíbe o “crente” ir à praia,
mas um jetski comprou,
para andar em cima d'água
imitando a Senhor...
 
Tem a tal VOLTA DE CRI$TO,
$ALVAÇÃO, $OPA E $ABÃO,
40 PENTECO$TAI$,
EXÉRCITO DA $ALVAÇÃO
e a MENINO$ DE DEU$
todas elas do cifrão.
 
Eu prefiro a de Jesus
que no topo tem a cruz
sem letreiro na fachada
com o seu sino que reluz.
Viva a IGREJA CATÓLICA
que à Verdade conduz. 
 
 
Fernando Nascimento

23
Abr 12
publicado por FireHead, às 22:46link do post | Comentar

Muitos protestantes, através de livros, folhetos e sítios na Internet, procuram defender a sua posição contra os livros deuterocanónicos do Antigo Testamento, afirmando que estes livros contêm heresias. Segundo eles, (que eles chamam de "apócrifos") não são livros canónicos porque ensinam as seguintes heresias:

 

1. Perdão do pecado mediante esmolas: Dizem que Tobias 12,9; 4,10; Eclesiástico 3,33 e 2 Macabeus 43-47 ensinam que as esmolas apagam os pecados, negando então a redenção do sacrifício de Cristo e por isso não podem ser considerados canónicos. Primeiro estas referências são do Antigo Testamento, portanto não podem ter qualquer relação com o sacrifício de Cristo. Segundo, elas estão em plena conformidade com o Antigo Testamento, que ensina que o bem feito ao próximo será considerado em nosso julgamento. Este é o princípio das esmolas. E esta mesma doutrina se encontra em Prov 10, 12, por exemplo. Será que o Livro dos Provérbios não é canónico também? Em terceiro lugar, esta mesma doutrina é confirmada no Novo Testamento, basta verificar Mc 9,41; Lc 11,41. Jesus confirma até mesmo o valor da esmola juntamente com outras formas de piedade (cf. Mt 6,2-18). Veja também 1 Pd 4,8; Act 10,3-4; 10,31.

 

2. A vingança e a prática do ódio contra os inimigos: Dizem que isto está em Eclo 12,6 e Judite 9,4 e contradiz ferozmente Mt 5,44-48. Mais uma vez Eclesiástico diz respeito ao Antigo Testamento, onde valia a lei do retalião. Se o Livro do Eclesiástico não é canónico por esta razão, também não são Êxodo, Deuteronómio e Levítico, veja Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,19-21.

 

3. Prática do suicídio: Dizem que o ensino sobre a prática do suicídio está em 2 Macabeus 14,41-42. Entretanto em Jz 16,28.30 Sansão se suicida e a sua morte é tida como grandiosa pelo autor do Livro de Juízes. A Bíblia possui diversos casos de suicídio - principalmente entre guerreiros -, basta ver: Jz 9,54; 16,28-29; 1Sm 31,4-5; 2Sm 17,23; 1Rs 16,18.

 

4. Ensino de artes mágicas: Dizem que Tobias 6,8-9 favorece a prática de artes mágicas. Ora, em Tobias 8,3 vemos que não é Tobias quem expulsa o demónio, mas sim o Anjo Rafael. O interesse era ocultar a acção do Anjo para Tobias. Em Jo 9,6 vemos que Jesus reconstituiu os olhos de um cego com saliva e logo, em Tg 5,14 há instruções para usar óleo na cura dos enfermos; será que por isso estes livros também deixaram de ser canónicos?

 

5. Prática da mentira: Dizem que Judite 11,13-17 e Tob 5,15-19 favorecem a prática de mentiras. Abrão disse ao rei Abimelec que Sara era a sua irmã, e na verdade era a sua esposa (Gn 20,2). Jacó, auxiliado pela mãe, mente ao pai cego, dizendo que era o filho mais velho e no entanto era o mais novo (cf. Gn 27,19), além de também enganar o sogro (cf. Gn 31,20). Será que o livro de Génesis também não é canónico?

 

6. Erros históricos e cronológicos: Dizem ainda que os livros de Baruc e Judite estão cheios de contradições em relação aos protocanónicos do Antigo Testamento. Devemos lembrar-nos que a Sagrada Escritura não é um livro histórico ou geográfico, nela Deus através das limitações humanas comunicou os Seus desígnios. Veja que II Reis 8,26 se contradiz com II Cro 22,2; II Reis 23,8 também se contradiz com I Cro 11,11. Isto também faz deles livros não canónicos?

 

 

Há citações dos deuterocanónicos do Antigo Testamento no Novo Testamento?

 

Um grande motivo de disputa entre Católicos e protestantes em relação ao Cânone Bíblico diz respeito a um conjunto de sete livros disponíveis na Septuaginta, além de acréscimos nos Livros de Daniel e Ester; e que se encontram no Antigo Testamento Católico e ortodoxo e não no protestante. Estes livros são considerados apócrifos pelas confissões protestantes e deuterocanónicos pelas confissões Católica e ortodoxa. São eles: Judite, Baruc, Sabedoria de Sirac, Eclesiástico1 Macabeus2 Macabeus e Tobias.

As confissões protestantes acreditam que este conjunto de livros apresenta erros doutrinários e até mesmo heresias; por isso seriam contrários à Fé Cristã. Porém, o facto do Novo Testamento possuir tantas referências à versão da Septuaginta, que continha esses livros, pode ser um indício de que nem os judeus de Alexandria, nem os da Palestina, nem Jesus e nem os Apóstolos, tiveram qualquer restrição a esses livros, ou então por que usariam uma versão bíblica que continham livros heréticos?

Há ainda objecções que afirmam que nem Jesus e os Apóstolos citaram os deuterocanónicos. Ora, se este fosse um critério verdadeiro para determinar a conformidade de um livro com a Fé Cristã, estariam em não conformidade pelo menos os livros Juizes, Crónicas, Ester, Cântico dos Cânticos, que também não são citados por eles. Entretanto, não é verdade que falta no Novo Testamento referências aos deuterocanónicos do Antigo Testamento.

Por exemplo, em Hebreus 11, somos encorajados a imitar os heróis do Antigo Testamento, as mulheres [que] receberam a seus mortos pela ressurreição. Alguns foram torturados, recusando aceitar ser libertados, para poder levantar-se novamente a uma vida melhor (Hb 11,35). Nos protocanónicos do Antigo Testamento (que corresponderia ao Antigo Testamento protestante), encontramos vários exemplos de mulheres recebendo a seus mortos mediante a ressurreição. Encontraremos Elias ressuscitando o filho da viúva de Sarepta em 1 Reis 17, encontraremos o seu sucessor Eliseu ressuscitando o filho da mulher sunamita em 2 Reis 4. Mas jamais encontraremos (desde Génesis até Malaquias) algum exemplo de alguém sendo torturado e recusando aceitar ser liberto por causa de uma melhor ressurreição. A história, cuja referência é feita em Hebreus, encontra-se em um dos livros deuterocanónicos, a saber, em 2 Macabeus. Vejamos:

 

[Durante a perseguição dos Macabeus] Também foram detidos sete irmãos, juntos com a sua mãe. O rei, flagelando-os com açoites e feixes de couro de boi, tratou de obrigá-los a comer carne de porco, proibida pela Lei. [...] Os outros irmãos e a mãe se animavam mutuamente a morrer com generosidade, dizendo: "o Senhor Deus está nos vendo e tem compaixão de nós..." Uma vez que o primeiro morreu [...] levaram o suplício ao segundo [...] também ele sofreu a mesma tortura que o primeiro. E quando estava por dar o último suspiro, disse: "Tu, malvado, nos privas da vida presente, mas o Rei do universo nos ressuscitará a uma vida eterna, se morrermos por fidelidade às suas leis’" (2 Mac 7,1.5-9)

 

Um após outro os filhos morrem, proclamando que serão recuperados na ressurreição. Vejamos ainda:

 

Incomparavelmente admirável e digna da mais gloriosa lembrança foi aquela mãe que, vendo morrer os seus sete filhos em um só dia, suportou tudo valorosamente, graças à esperança que tinha posto no Senhor. Exortava a cada um deles, [dizendo] "Eu não sei como vocês apareceram em minhas entranhas; não fui eu que lhes dei o espírito e a vida nem fui eu que ordenei harmoniosamente os membros do seu corpo. Por conseguinte, é o Criador do universo, o que formou o homem no seu nascimento e determinou a origem de todas as coisas, quem lhes devolverá misericordiosamente o espírito e a vida, já que vós vos esqueceis agora de vós mesmos por amor à suas leis", dizendo ao último: "Não temas a este verdugo: mostra-te digno dos seus irmãos e aceita a morte, para que eu volte a encontrá-lo com eles no tempo da misericórdia" (2 Mac 7,20-23.29).

 

Perceba o leitor que em Hb 11,35, o escritor sagrado, ao ensinar um artigo de Fé refere-se a um exemplo de testemunho, que se encontra somente num dos livros deuterocanónicos. Ora, se por isto o livro dos Macabeus contivesse alguma doutrina estranha à Fé, com toda certeza o autor da Carta aos Hebreus evitaria mencioná-lo na sua pregação.

Esta informação possui mais um detalhe muito importante: a Carta aos Hebreus foi escrita para os judeus da Palestina, demonstrando mais uma vez que a versão da Septuaginta foi também aceite por eles; caso contrário, não faria sentido o escritor sagrado fazer referência a uma história que não era conhecida pelos seus destinatários.

Também é importante saber que em alguns dos livros deuterocanónicos do Antigo Testamento, há revelações divinas confirmadas no Novo Testamento. Por exemplo:

 

Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua refeição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia, para sepultá-los quando viesse a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor. Mas porque eras agradável ao Senhor, foi preciso que a tentação te provasse. Agora o Senhor enviou-me para curar-te e livrar do demónio Sara, mulher de teu filho. Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistem na presença do Senhor (Tobias 12,12-15) (grifos meus).

 

Em nenhum lugar nos livros protocanónicos do Antigo Testamento, há alguma revelação dos sete anjos que assistem na presença do Senhor e que Lhe entregam as orações dos justos. Esta revelação é confirmada no livro do Apocalipse:

 

Eu vi os sete Anjos que assistem diante de Deus. Foram-lhes dadas sete trombetas. Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os oferecesse com as orações de todos os santos no altar de ouro, que está adiante do trono. A fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos santos, diante de Deus. Depois disso, o anjo tomou o turíbulo, encheu-o de brasas do altar e lançou-o por terra; e houve trovões, vozes, relâmpagos e terremotos (Ap 8,2-5) (grifos meus).

 

Um outro caso interessante está no livro da Sabedoria:

 

Ele se gaba de conhecer a Deus, e se chama a si mesmo filho do Senhor! A sua existência é uma censura às nossas ideias; basta a sua vista para nos importunar. Sua vida, com efeito, não se parece com as outras, e os seus caminhos são muito diferentes. Ele nos tem por uma moeda de mau quilate, e afasta-se dos nossos caminhos como de manchas. Julga feliz a morte do justo, e gloria-se de ter Deus por pai. Vejamos, pois, se as suas palavras são verdadeiras, e experimentemos o que acontecerá quando da sua morte, porque, se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá, e o tirará das mãos dos seus adversários. Provemo-lo por ultrajes e torturas, a fim de conhecer a sua doçura e estarmos cientes da sua paciência. Condenemo-lo a uma morte infame. Porque, conforme ele, Deus deve intervir (Sabedoria 2,13-21).

 

A profecia acima se refere ao escárnio promovido pelo Sinédrio contra o Senhor Jesus. Veja o testemunho do Novo Testamento sobre o seu cumprimento:

 

A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus! [...] Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. [...] Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós! (Lc 23,35.37.39).

 

Mas Jesus se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito? [...] Alguns começaram a cuspir nele, a tapar-lhe o rosto, a dar-lhe socos e a dizer-lhe: Adivinha! Os servos igualmente davam-lhe bofetadas (Mc 14,61.65)

 

Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado. [...] Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo. Depois de terem escarnecido dele, tiraram-lhe a púrpura, deram-lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar (Mc 15,15.19-20).

 

Salva-te a ti mesmo! Desce da cruz! Desta maneira, escarneciam dele também os sumos sacerdotes e os escribas, dizendo uns para os outros: Salvou os outros e a si mesmo não pode salvar! Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos! Também os que haviam sido crucificados com ele o insultavam” (Mc 15,30-31).

 

É importante dizer que nos protocanónicos do Antigo Testamento há registo de coisas muito reprováveis, como as filhas de Lot se engravidaram dele, depois de o embebedar (Gn 19,30-36). O Rei Saul consultou uma espírita (I Reis 28,8), Abraão arrumou um filho fora do seu casamento (Gn 16), e o Patriarca Jacó vários (Gn 30,4-5.7.9-10.12). David planeou a morte de um dos seus soldados para ficar com a sua esposa (cf. 2 Sm 11). Alguém poderia dizer ainda que o Livro de Génesis promove a poligamia (cf. Gn 29,28-30) e todos os Cristãos sobre a terra ainda o consideram canónico apesar disso. Portanto, se não é o juízo subjectivo e pessoal que coloca ou retira livros no Cânone Bíblico, o que é? Qual foi o juízo adoptado pelos primeiros Cristãos para receber ou não um livro como canónico?

O critério deles foi o mesmo dos Cristãos que viveram na era apostólica quando aceitaram que a Lei de Moisés não era necessária para alcançar a Justiça (cf. Act 15): o discernimento da Única e Verdadeira Igreja de Cristo.

 

 

Fonte: Veritatis Splendor


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Quando Católicos e protestantes falam sobre a Bíblia, os dois grupos actualmente possuem dois livros diferentes.

No século XVI, os reformadores protestantes removeram uma parte do Antigo Testamento que não era compatível com a sua teologia. Diziam que estes livros não eram inspirados e os chamaram de "apócrifos".

Os Católicos referem-se a eles como "Deuterocanónicos" (pois foram disputados por alguns autores e a sua canonicidade foi estabelecida mais tarde que o resto), enquanto que os demais livros são chamados de "Protocanónicos" (a sua canonicidade foi estabelecida primeiro).

Seguindo o argumento protestante sobre a integridade da Bíblia, a Igreja Católica reafirmou a inspiração divina dos livros deuterocanónicos no Concílio de Trento em 1546. Fazendo isto, ela reafirmou o que já havia sendo crido desde os tempos primitivos.

 

 

Quem organizou o Antigo Testamento?

 

A Igreja não nega que existem alguns livros que são realmente "apócrifos". Durante a era da Igreja Primitiva, existiam manuscritos que supunham ser inspirados, mas não eram. Muitos chegaram até nós, como o "Apocalipse de Pedro" e o "Evangelho de Tomé", cujas igrejas Cristãs rejeitaram como não pertencendo às Escrituras.

Durante o primeiro século, os judeus discordavam sobre a constituição do cânone das Escrituras. De facto, havia muitos "cânones" sendo usados, incluindo livros usados por Cristãos. Para combater a disseminação do rito Cristão, os rabinos encontraram-se na cidade de Jâmnia em 90 d.C. para determinar quais os livros que continham as verdadeiras palavras de Deus. Pronunciaram-se afirmando que muitos livros, incluindo os Evangelhos, eram impróprios para serem considerados Escritura Sagrada. Este cânone também excluiu 7 livros (Baruc, Sirácida, 1 e 2 Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, e algumas porções de Daniel e Esther) que os Cristãos consideravam como parte do Antigo Testamento.

O grupo de judeus que estavam em Jâmnia tornou-se o grupo dominante no decorrer da história judaica, e hoje muitos judeus aceitam tal cânone. Entretanto, alguns judeus, como os da Etiópia, seguiam um cânone diferente, e idêntico ao cânone Católico do Antigo Testamento, pois incluíam os sete livros deuterocanônicos (cf. Enciclopédia Judaica, vol 6, p. 1147).

Não é necessário dizer que a Igreja não aderiu ao resultado de Jâmnia. Primeiro, um Concílio judaico após a época de Cristo não guarda ligações com os seguidores de Cristo. Segundo, Jâmnia rejeitou precisamente os documentos que constituíam a base da Igreja Cristã: os Evangelhos e outros documentos do Novo Testamento. Terceiro, rejeitando os deuterocanónicos, Jâmnia rejeitou livros que foram usados por Jesus e os apóstolos  e que estavam contidos na edição da Bíblia que os apóstolos usaram no dia-a-dia: a Septuaginta.

 

 

Os apóstolos e os deuterocanónicos

 

A aceitação pelos Cristãos dos deuterocanónicos era lógica porque estes estavam incluídos na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento que os apóstolos usaram para evangelizar. Dois terços das citações do Antigo Testamento no Novo são oriundos da Septuaginta. Em nenhuma parte os apóstolos falaram aos seus discípulos ou convertidos para evitar estes sete livros ou alguma doutrina contida nele. Assim como os judeus pelo mundo que usam a versão da Septuaginta, os primeiros Cristãos aceitaram os livros encontrados nela. Sabiam que os apóstolos não iriam enganá-los ou arriscar as suas almas colocando falsas Escrituras nas suas mãos , especialmente não os avisando contra isto.

Mas os apóstolos não colocaram os deuterocanónicos nas mãos dos seus convertidos simplesmente como parte da Septuaginta. Eles regularmente citavam-nos nos seus escritos. Por exemplo, Hebreus 11 encoraja-nos a imitar os heróis do Antigo Testamento e no Antigo Testamento mulheres houve, até, que receberam ressuscitados os seus mortos. Alguns foram torturados, rejeitados, não querendo o seu resgate, para alcançarem melhor ressurreição (Hb 11,35).

Existem alguns exemplos de mulheres recebendo de volta os seus mortos pela ressurreição no Antigo Testamento protestante. Você pode achar Elias ressuscitando o filho da viúva de Sarepeta em 1 Reis 17, e você pode achar o seu sucessor Eliseu ressuscitando o filho da mulher sunamita em 2 Reis 4, mas uma coisa não se poderá achar em nenhum lugar no Antigo testamento protestante, do começo ao fim, de Génesis a Malaquias: alguém é torturado e rejeita o seu resgate para alcançarem melhor ressurreição. Querendo achar tal facto, deve procurar no Antigo Testamento da Bíblia Católica, justamente nos livros deuterocanónicos que Martinho Lutero retirou da sua Bíblia.

Esta história é encontrada em 2 Mac 7, onde lemos que durante a perseguição dos Macabeus, Aconteceu também que, tendo sido presos sete irmãos com sua mãe, o rei os queria obrigar a comer carne de porco contra a lei... os outros irmãos exortavam-se mutuamente com a sua mãe, a morrerem corajosamente, dizendo: "O Senhor Deus vê e consola-se em nós"... Morto deste modo o primeiro, levaram o segundo ao suplício... respondendo na língua dos seus pais, disse: Não! Pelo que este também padeceu os mesmos tormentos que o primeiro. Estando já para dar o último suspiro, disse desta maneira: "tu ó malvado, fazes-nos perder a vida presente, mas Deus, o Rei do universo, nos ressuscitará para a vida eterna, a nós que morremos, por fidelidade às suas leis" (2 Mac 7,1.5-9).

Os filhos morreram um por um, proclamando que eles serão recompensados pela ressurreição. Entretanto a mãe deles, sobremaneira admirável e digna de memória, vendo morrer os seus sete filhos em um só dia, suportou heroicamente a sua morte, pela esperança que tinha no Senhor. Cheia de nobres sentimentos, exortava, na língua dos seus pais, a cada um deles em particular, dando firmeza... Dizia-lhes: "não sei como fostes formados em meu ventre; não fui eu quem vos deu o espírito e a vida, ou que formei os membros do vosso corpo. O criador do mundo, que formou o homem no seu nascimento e deu a origem a todas as coisas, vos tornará a dar o espírito e a vida, por sua misericórdia, em recompensa do quanto agora vos desprezais a vós mesmos, por amor das suas leis". Diz o último irmão, Não temas este algoz, mas sê digno de teus irmãos, aceita a morte, para que eu te encontre com eles no dia da misericórdia (2 Mac 7,20-23.29).

Este é uma das referências do Novo Testamento aos deuterocanónicos. Os primeiros Cristãos reconheciam amplamente estes livros como Escrituras Sagradas, não somente porque os apóstolos os colocaram nas suas mãos, mas porque também se referiram a eles no próprio Novo Testamento, citando o que recordavam como exemplos a serem seguidos.

 

 

Os Padres da Igreja

 

A aceitação dos deuterocanónicos é evidente ao longo da história da Igreja. O historiador protestante J.N.D. Kelly escreve:

Deveria ser observado que o Antigo Testamento admitido como autoridade na Igreja era algo maior e mais compreensivo que o Antigo Testamento protestante... ela sempre incluiu, com alguns graus de reconhecimento, os chamados apócrifos ou deuterocanónicos. A razão para isso é que o Antigo Testamento que passou em primeira instância nas mãos dos Cristãos era... a versão grega conhecida como Septuaginta... a maioria das citações nas Escrituras encontradas no Novo Testamento são baseadas nelas preferencialmente do que a versão hebraica... nos primeiros dois séculos... a Igreja parece ter aceitado a todos, ou a maioria destes livros adicionais, como inspirados e trataram-nos sem dúvida como Escritura Sagrada. Citações de Sabedoria, por exemplo, ocorrem em 1 Clemente e Barnabé... Policarpo cita Tobias, e o Didache cita Eclesiástico. Irineu se refere a Sabedoria, a história de Susana, Bel e o dragão (livro de Daniel), e Baruc. O uso dos deuterocanónicos por Tertuliano, Hipólito, Cipriano e Clemente de Alexandria é tão frequente que referências detalhadas são necessárias (Doutrina Cristã Antiga, 53-54).

O reconhecimento dos deuterocanónicos como parte da Bíblia dada pessoalmente pelos Padres da Igreja também foi conferido por esses mesmos Padres como uma regra, quando se encontravam nos Concílios da Igreja. Os resultados dos Concílios são especialmente úteis porque não representam a visão de uma só pessoa, mas o que fora aceite pelos líderes da Igreja de todas as regiões.

O cânone das Escrituras, Antigo e Novo Testamento, foi fixado definitivamente no Concílio de Roma em 382, sob a autoridade do Papa Dâmaso I. E foi logo reconhecido por sucessivos Concílios, tanto regionais como gerais. O mesmo cânone foi firmado no Concílio de Hipona em 393 e no de Cartago em 397. O facto destes Concílios não serem "ecuménicos" não rejeita o facto das suas decisões não serem aceites como baseadas em verdade de fé. Em 405 o Papa Inocêncio I reafirmou o cânone numa carta ao bispo Exuperius de Toulouse. Outro Concílio de Cartago, este no ano de 419, reafirmou o cânone como os seus predecessores e pediu ao papa Bonifácio que  confirme este cânone, pois estes são o que recebemos de nossos pais para serem lidos na Igreja. Todos estes livros formavam a mesma Bíblia Católica actual, todos eles incluindo os deuterocanónicos.

Este mesmo cânone foi implicitamente confirmado no sétimo Concílio Ecuménico, o de Nicéia II (787), que aprovou os resultados do Concílio de Cartago de 419, e explicitamente reafirmou nos Concílios Ecuménicos de Florença (1442), Trento (1546), Vaticano I (1870) e Vaticano II (1965).

 

 

As acusações protestantes

 

Os deuterocanénicos mostram doutrinas da Igreja Católica, e por esta razão eles foram retirados do Antigo Testamento por Lutero e colocados como apêndice sem números de páginas! Lutero também retirou livros do Novo Testamento: Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse  e os colocou como apêndice, sem páginas, da mesma forma que os outros. Estes foram mais tarde recolocados de volta no Novo Testamento por outros protestantes, mas os sete livros do AT foram deixados. Em 1827, o British and Foreign Bible Society retirou também este apêndice, sendo este o motivo pelo qual não são encontrados nas Bíblias protestantes mais contemporâneas, apesar de ainda serem encontradas em traduções protestantes clássicas, como a King James Version.

A razão porque eles foram retirados é que ensinam doutrinas Católicas que os protestantes rejeitam. Acima citamos um exemplo onde a carta aos Hebreus nos mostra um exemplo do Antigo Testamento contido em 2 Mac 7, um incidente não encontrado em nenhuma Bíblia protestante, mas facilmente localizada na Bíblia Católica. Porque Lutero teria retirado este livro se ele claramente serviu de fonte para aquela parte do Novo Testamento? Simples: alguns capítulos mais adiante o livro apoia a prática da oração às almas dos mortos para que sejam purificados das consequências dos seus pecados (2 Mac 12,41-45); em outras palavras, a doutrina Católica do Purgatório. Desde que Lutero rejeitou o ensino histórico do Purgatório (que data de antes de Cristo, como mostra o livro de Macabeus), ele teve que retirar este livro da Bíblia e colocá-lo como apêndice (Note que ele também retirou Hebreus, o livro que cita 2 Macabeus, e o colocou também como apêndice).

Para justificar esta rejeição aos livros que estavam na Bíblia desde os tempos antes dos apóstolos (a Septuaginta foi escrita antes dos apóstolos), os primeiros protestantes recorreram ao facto de que os judeus daqueles dias não honraram tais livros, retornando assim ao Concílio de Jâmnia. Mas os reformadores estavam atentos apenas aos judeus europeus; não prestando a devida atenção aos judeus africanos, como os etíopes, que aceitavam os deuterocanónicos como parte da sua Bíblia. Eles censuraram as referências ao deuterocanónicos no Novo Testamento, assim como o seu uso da Septuaginta. Ignoraram o facto de que existiam múltiplos cânones judaicos circulando no primeiro século, apelando a um Concílio judaico pós-Cristão que não possuía nenhuma autoridade para com os Cristãos para se falar que "os judeus não aceitaram estes livros". Na verdade, foram longe tentar buscar algo que suportasse a rejeição a estes livros da Bíblia.

 

 

Reescrevendo a história da Igreja

 

Anos mais tarde eles até iniciaram a propagação do mito de que a Igreja Católica "adicionou" estes sete livros à Bíblia no Concílio de Trento.

Os protestantes também tentaram distorcer as evidências patrísticas em favor do deuterocanónicos. Alguns superficialmente afirmam que os Pais da Igreja não os aceitavam, enquanto outros fazem reivindicações comedidas que certos importantes pais, como Jerónimo, também não os aceitavam. É verdade que Jerónimo, e poucos e isolados escritores, não aceitavam alguns deuterocanónicos como inspirados. Entretanto, Jerónimo fora persuadido, contra a sua convicção original, a incluir os deuterocanónicos na sua edição Vulgata pelo facto de que os livros eram comumente aceites e era esperado que fossem incluídos em todas as edições da Bíblia. Além do mais, deve ser documentado que em anos mais tarde Jerónimo de facto aceitou certos deuterocanóônicos como inspirados. Na sua resposta a Rufino, ele defendeu bravamente as partes deuterocanónicas de Daniel mesmo que os judeus do seu tempo não o fizessem. Ele escreveu, Que pecado eu cometi se segui o julgamento da Igreja? Mas ele que traz acusações contra mim por relatar as objecções a que os judeus estavam acostumados a formar contra a história de Susana... e a história de Bel e o dragão, que não se acham nos volumes hebraicos, provam que ele é apenas um bajulador insensato. Eu não estava relatando a minha própria visão, mas antes as questões que eles (os judeus) estavam acostumados a fazer contra nós ("Contra Rufinus" 11,33 [402 d.C.]). Desta forma Jerónimo reconheceu o princípio pelo qual o cânone foi fixado: o julgamento da Igreja, não o dos judeus.

Outros escritores protestantes citam como objecção aos deuterocanónicos que Atanásio e Orígenes não os aceitavam. Ora, Atanásio aceitava o livro de Baruc (Festal Letter 39) e Orígenes aceitava todos os deuterocanónicos, mas simplesmente recomendava não os usar nos debates com os judeus.

Contudo, apesar de alguns disparates e hesitações de alguns escritores como Jerónimo, a Igreja permaneceu firme na sua afirmação histórica sobre os deuterocanónicos como inspirados e vindos com os apóstolos. O protestante J.N.D. Kelly afirma isto apesar da dúvida de Jerónimo.

Pela grande maioria, porém, os escritos deuterocanónicos atingiram o grau de inspirados com o máximo de senso. Agostinho, por exemplo, cuja influência no Ocidente foi decisiva, não fazia distinção entre eles e o resto do Antigo Testamento... a mesma atitude com ao apócrifos foi demosntrada nos Sínodos de Hipona e Cartago em 393 e 397, respectivamente, e também na famosa carta do Papa Inocêncio I ao bispo de Toulouse Exuperius, em 405 (Doutrina Cristã Antiga, 55-56).

Este é, portanto, um grande mito pelo qual os protestantes acusam os Católicos de terem "adicionado" os deuterocanónicos à Bíblia no Concílio de Trento. Estes livros estavam na Bíblia antes de o cânone pretender ser definido, o que ocorreu só em 380 d.C. Tudo o que Trento fez foi reafirmar, em face dos ataques protestantes à Bíblia Católica, o que tem sido a histórica Bíblia da Igreja: a edição padrão seria a Vulgata de Jerónimo, incluindo os deuterocanónicos!

 

 

Os deuterocanónicos do Novo Testamento

 

É irónico que os protestantes rejeitem a inclusão dos deuterocanónicos pelos Concílios de Hipona e Cartago, porque nestes Concílios da Igreja antiga também foram definidos os livros do Novo Testamento. Principalmente pelo ano 300 havia uma ampla discussão sobre que livros deveriam exactamente pertencer ao Novo Testamento. Alguns livros, como os Evangelhos, Actos e a maioria das cartas de Paulo foram rapidamente aceites. Contudo, alguns livros, mais notavelmente Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, e Apocalipse permaneceram em ardente disputa até que o cânone foi fixado. São, de facto, "deuterocanónicos do Novo Testamento".

Enquanto os portestantes aceitam o testemunho dos Concílios de Hipona e Cartago (os Concílios que eles mesmos mais citam) para a canonicidade dos deuterocanónicos do Novo Testamento, não estão dispostos a aceitar o testemunho dos mesmos Concílios para a canonicidade dos deuterocanónicos do Antigo Testamento. É realmente irónico!

 

 

Fonte:Catholic Information Network

Tradução: Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro


21
Abr 12
publicado por FireHead, às 01:46link do post | Comentar

Os protestantes garantem que Pedro nunca esteve em Roma e quando este mesmo apóstolo diz que escrevia da Babilónia, explicam que não se referia a Roma; quando, porém, querem "provar" que Roma é a "grande prostituta" do Apocalipse, aí sim, Roma é chamada simbolicamente de Babilónia (vejam neste artigo mais esta contradição dos "crentes").

 

O herege pensa assim: "Estou sempre com a verdade, portanto, todos os demais têm que estar no erro". Para ele é coisa tão evidente que dispensa considerar quaisquer tipos de prova. Escorado nesta "verdade", portanto, manda às favas a história na qual decidiu que não se pode fiar.

 

Desta feita é que temos este tipo de declaração destinada a justificar todos os desmandos heréticos - que ele sempre julga estar com a razão - e derrear até à ruína total tudo o que contrarie a "sua" verdade.

 

É claro que para todos semelhantes a este será inútil pedir que comprovem as suas afirmações mediante documentação competentes. Nem vão encontrá-la e, tão-pouco, sequer acreditam que seja necessário.

 

Para você, porém, caríssimo leitor, que prefere não ser enganado e, muito menos ainda, enganar, é que me atrevo em postar as provas que desmentem inteiramente a assertiva acima de que a "Igreja de Roma não possuía moralmente maior autoridade que as outras". Então vamos às provas!

 

Provas Bíblicas: Os elos da corrente que devem prender a metafórica barca de São Pedro ao cais de uma instituição divina são, segundo o requisitório protestante baseado no livro do gramático paulista, sr. Carlos Pereira:

 

Barca de Pedro

 

1.º Pedro é a pedra fundamental de que trata o texto de S. Mateus XVI, 13-19;

 

2.º Pedro foi o superior hierárquico dos apóstolos;

 

3.º Pedro estabeleceu em Roma a sede de seu episcopado;

 

4.º Pedro instituiu os bispos de Roma seus herdeiros.

 

 

Nesta parte interessam-nos apenas os dois primeiros itens. Os demais itens já pertencem à história:

 

 

Pedro é a pedra fundamental (Mt 16,13-19)

 

a) A sua preemniência entre os apóstolos: Tu és Simão, diz-lhe Jesus, chamar-te-ás Cefas (Jo 1,42). Cefas em aramaico corresponde a pedra. Jesus impõe-lhe um nome, acto carregado de muito significado e promessa.

 

Três vezes em toda a Escritura mudou Deus o nome dos homens e em todas as três vezes se tratava de elevar alguém à dignidade de chefe dos eleitos. Mudou-o a Abraão, ...porque farei de ti o pai de uma multidão de nações (Gn 17, 5); mudou-o a Jacó: ...E chamou-o Israel... De ti nascerão um povo e uma assembleia de povos... (Gn 35, 10-11). Mudou-o finalmente a Pedro: tu és Pedro [Cefas] e sobre esta pedra [cefas] edificarei a minha Igreja (Mt 16,18). Igreja, um povo, uma assembleia de povos!

 

Que o apóstolo Simão foi tratado de forma distinta dos demais apóstolos só basta ter um mínimo conhecimento dos Evangelhos no que me deterei apenas assinalando alguns factos mais importantes:

 

1.  Nas suas pregações à beira-mar Cristo sempre preferiu a barca de Simão (Lc 5,1-4);

 

2. Ao ficar em Cafarnaum hospedam-se na casa de Simão (Mt 8,14);

 

3. O cobradores de impostos dirigem-se a Simão para cobrar o imposto do seu mestre (Mt 17,24-27);

 

4. Temos à disposição quatro listas dos apóstolos: Mt 10,2-4, Mc 3,16-19, Lc 6,14-16, At 1,3 e nestas, o nome Pedro é sempre o que encabeça o primeiro lugar de honra, enquanto o do Escariotes é sempre mencionado por último;

 

5. Além disso é o nome Pedro  que encabeça a lista dos três principais apóstolos: Pedro, Tiago e João, nomeados nos momentos mais importantes e solenes do ministério de Cristo, a saber:

 

a) - Na ressurreição da Filha de Jairo;

b) - Na transfiguração do Tabor;

c) - Na sua agonia no Jardim das Oliveiras

(Mc. 5, 37; 9, 12; 14, 33 e lugares paralelos.)

 

6. Às vezes quando se designam colectivamente os apóstolos o nome Pedro é colocado em destaque, por exemplo: "Pedro e os que o acompanhavam" (Mc 1,36; Mc 2,25; Mt 27,54; Lc 8, 45; 9, 32; At 2, 14; 5, 29; Mc 16, 7).

 

Devido à rusticidade dos discípulos nem se deve levar em consideração a sua disputa sobre quem deveria ser o primeiro dentre eles.

 

Além disso ainda temos:

 

1. É a Pedro singularmente que Cristo dá o poder de ligar e desligar aqui na terra e aos demais tal poder é dado colectivamente (Mt 16,19).

 

2. Somente Pedro recebe as chaves dos Reino dos Céus (M6 16,19);

 

3. É somente a Pedro que Cristo reza para que sua fé não desfaleça e recebe a missão de confirma os seus irmãos (Lc 22,32).

 

4. É somente a Pedro que foi dado o múnus de apascentar os cordeiros (fiéis) de Cristo e também suas ovelhas (bispos) (Jo 21,15-17).

 

 

Pedro estabeleceu o seu Episcopado em Roma e a sua sucessão

 

Para tanto não nos faltam documentos, inclusive bíblicos, que comprovam que Pedro morreu em Roma, crucificado de cabeça para baixo:

 

- Por Silvano, vosso fiel irmão, como cuido, escrevi abreviadamente, exortando e testificando que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual estais firmes. A vossa co-eleita na Babilónia vos saúda, e meu filho Marcos. Saudai-vos uns aos outros com ósculo de amor. Paz seja com todos vós que estais em Cristo Jesus. Améml" (1Pd 5,12-14);

 

- "A que está na Babilónia, eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, o meu filho" (1Pd 5,13).

 

Observação: eleita como vós é a forma de se referir à Igreja;

 

- A Babilónia corresponde a Roma: Clemente, no sexto livro das Hypotyposes conta essa história e confirmaã com o seu testemunho o bispo de Hierápolis, chamado Papias. Pedro menciona Marcos na sua primeira carta que, diz-se, ele mesmo compôs em Roma, assinalando-a com o nome simbólico de Babilónia no seguinte trecho: A que está na Babilónia, eleita como vós, vos saúda, com também Marcos, o meu filho (1Pd 5,13). (História Eclesiástica de Eusébio, II, 15, 2)

 

- Se consultar a “Grande Enciclopédia Larousse Cultural“, ilustrada, vol. 7 (1998), verbete “Cruz”, na pág. 1713, poderá ver que existe um quadro contendo 26 tipos de cruzes, entre elas (a nº 3), uma cruz invertida devidamente chamada “cruz de São Pedro”, por fazer referência ao martírio do bem-aventurado Apóstolo.

 

Clemente de Alexandria (c.150-215), mestre e predecessor de Orígenes, atesta-nos que São Marcos escreveu o seu Evangelho a pedido dos romanos que ouviram a pregação de São Pedro. (Pedro anunciava a palavra publicamente em Roma e explicava o Evangelho guiado pelo Espírito Santo. Os numerosos ouvintes insistiram para que Marcos, seu companheiro por muito tempo e, por isso, bem lembrado de suas palavras, transcrevesse o que ele havia dito. Marcos o fez e transmitiu o Evangelho aos que lho haviam pedido. (Eusébio, Hist. Ecles., VI, 14). 

 

- Euzébio Panfílio afirma que é dito que a Primeira Epístola de Pedro ... Foi composta em Roma, e que isso indica que ele está-se referindo à cidade em sentido figurado como Babilónia...

 

Aí, fui procurar na Internet em que lugar é que estava escrito esta afirmação de Panfílio e acabei surpreendido com uma incrível descoberta:

 

Os protestantes quando querem "provar" que Pedro não esteve em Roma e, quando ele diz que escrevia da Babilónia certamente não se referia a Roma; porém, quando querem provar que Roma é a grande prostituta do Apocalipse, aí sim, Roma é chamado simbolicamente de Babilónia. Veja isto:

 

http://solascriptura-tt.org/Seitas/Romanismo/AGrandeProstituta-porMSchultze.htm

 

 

Pedro instituiu os bispos de Roma seus herdeiros

 

Primeiro veremos a verdade sobre a sucessão dos apóstolos que podemos provar biblicamente pela seguinte passagem:


Mas Jesus, aproximando-se, disse-lhes: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; baptizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo. (Mt 28, 17-20).

Mas como,até o fim do mundo?! Os santos apóstolos estariam vivos até lá? Claro que não, pois o último dos apóstolos morreu por volta de 98 d.C. Então, como se realizará esta promessa senão através dos prolongamento dos discípulos de Cristo através da sua sucessão?

Se Ele promete estar com os apóstolos até o fim do mundo, é claro que Ele não está-se dirigindo aos apóstolos como pessoas físicas, mas como um "corpo moral", que deve perpetuar-se nos seus sucessores, e há-de durar atá o fim dos tempos.

Eis a prova evidente que o bispo de Roma, que é o Papa, é o sucessor de São Pedro e da sua "jurisdição".

 

Se tal não basta para convencer os obstinados, então recorramos aos escritos dos primeiros Cristãos:

 

1. Nunca tivestes inveja de ninguém; ensinastes a outros. Quanto a mim, quero que permaneçais firmes no que ensinastes... (Carta de Santo Inácio de Antioquia aos Romanos 3.1)

 

2. Inácio... à Igreja que preside na região dos romanos, digna de Deus, digna de honra, digna de ser chamada "feliz", digna de louvor, digna de sucesso, digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai, eu a saúdo em nome de Jesus Cristo, o Filho do Pai (Inácio de Antioquia, +107, Carta aos Romanos [Prólogo]);

 

3. São Clemente, que foi o terceiro sucessor de São Pedro, depois de São Lino e de Santo Anacleto na Sé de Roma, na sua "Epístola aos coríntios" (Ep. 59), no ano 95 ou 96, portanto, ainda no I século da era Cristã, e só trinta anos após o martírio de São Pedro, suplica para que se recebam os bispos que tinham sido expulsos injustamente dizendo:Se algum homem desobedecer às palavras que Deus pronunciou através de nós, saibam que esse tal terá cometido uma grave transgressão, e se terá posto em grave perigo. E São Clemente incita então os coríntios a “obedecer às coisas escritas por nós através do Espírito Santo (São Clemente, Ep.59);

 

4. E Pedro, sobre quem a Igreja de Cristo foi edificada, contra a qual as portas do Inferno não prevalecerão. (...) (In Joan. T.5 n.3.178 d.C.)

 

5. ... Com esta comunidade, de facto, dada à sua autoridade superior, é necessário que esteja de acordo com toda a conunidade, isto é, os fiéis do mundo inteiro; nela sempre foi conservada a tradição dos apóstolos. (...) (Pedro e Paulo) confiaram a Lino o ministério do episcopado. (...) A Lino sucedeu Anacleto. A seguir, Clemente; Clemente vira os apóstolos, conversara com eles e ainda tinha ouvido a sua pregação. (...) A Clemente sucedeu Evaristo, e a Evaristo, (sucedeu) Alexandre. Depois, em sexto lugar após os apóstolos, veio Xisto... " (Ireneu de Lião, 180 d.C., Contra as Heresias III,3,2-3).

 

 

Fonte: ÍNDICE DAS MENTIRAS CONTRA A IGREJA CATÓLICA


20
Abr 12
publicado por FireHead, às 18:03link do post | Comentar

O Cristianismo é uma das doutrinas a respeito das quais circulam mais mentiras. O combate ao Cristianismo no Ocidente foi muito intenso, é muito intenso ainda. Como acontece com quaisquer tradições espirituais, em volta das quais sempre existem incontáveis grupos interessados não em discutir as doutrinas cara-a-cara, mas em deformá-las, para lhes atribuir absurdos.

 

(...)

 

Um dos grandes segredos da história do Ocidente é a Gnose. Quem entender isto, entenderá em consequência tanta, tanta coisa! Entre os vários inimigos do Cristianismo, desde o começo, há um sector chamado Gnose. Ela defende uma série de doutrinas que, quando expostas à luz do dia, se mostram realmente escandalosas. Em parte sabendo disto, ela mesma atribui suas doutrinas ao adversário.

 

(...)

 

O Cristianismo não é uma religião feita para ser compreendida por pessoas de baixa qualificação intelectual. É difícil. Então, é muito fácil entendê-lo pela versão popular inventada por intelectuais anticristãos e combatê-lo por aí mesmo.

 

(...)

 

As pessoas formam uma ideia do Cristianismo a partir do que é divulgado por não-Cristãos. Para saber o que é uma religião, deve-se perguntar a quem a conhece e a pratica, não ao seu adversário. Para saber sobre o Judaísmo pergunta-se a um rabino, não a um nazi. Do mesmo modo, para saber o que é o comunismo não vou perguntar à CIA, tenho de ler Marx, Lenine etc. Só o Cristianismo é que não merece este privilégio. As pessoas divulgam o Cristianismo já propositadamente distorcido e tornado absurdo para ser mais fácil combatê-lo. As grandes obras de doutrina Cristã ninguém lê. Qualquer ideia tem o direito de ser defendida por ela mesma. Não se concede este privilégio ao Cristianismo. As pessoas não têm ideia do que é a guerra pró e contra o Cristianismo há dois mil anos. É uma coisa terrível. Ao mesmo tempo, não se pode identificar o Cristianismo com a horda de padres e pastores que podem falar o que lhes dá na cabeça. O que a Igreja em si pensa está nas sentenças dos Papas e nos chamados "doutores da Igreja", um grupo selecto dentre os santos, cuja fala foi incorporada como parte do dogma - como por exemplo São Tomás de Aquino, Santa Teresa de Ávila ou Santo Afonso de Ligório. Não é o que qualquer pensador Cristão fala que vale. Somente aquilo é pensamento da Igreja. Agora, um certo estado de espírito difuso que as pessoas chamam de Cristianismo nada tem a ver com isto.

 

(...)

 

Onde aparece uma tradição espiritual, uma revelação, uma eclosão de inteligência, surge necessariamente em seguida uma sombra e às vezes esta sombra tenta agir por conta própria, como se o rabo abanasse o cachorro. Do mesmo modo que existe um esforço humano em direcção à verdade, existe um esforço no sentido contrário, no sentido do erro. A paixão pelo erro é incoercível, e certas pessoas, quando ouvem falar a verdade, isto lhes provoca raiva.

 

(...)

 

Do mesmo modo, em relação ao Cristianismo. É mais fácil inventar um Cristianismo do que procurar o que realmente existe.

 

(...)

 

Há pessoas que não gostam de Cristianismo porque um padre as suspendeu da aula ou lhes botou medo da masturbação. E fica aquela raiva de padre, que depois, travestindo-se de filosofia, é projectada sobre dois mil anos de Cristianismo. Mas não é filosofia, é rancor pessoal mesquinho. É querer medir a civilização com o tamanho das suas dorzinhas pessoais. Não se pode fazer isto. E condenar o Cristianismo é praticamente condenar a humanidade.

 

 

Olavo de Carvalho

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publicado por FireHead, às 02:02link do post | Comentar
Bento XVI atravessa a Praça de São Pedro no dia do seu aniversário

 

O Papa está atento à actualidade, aos "problemas das pessoas", da crise económica à crise de valores, garante o número dois do Vaticano.

 

No 7.º aniversário da eleição do Papa Bento XVI, o secretário de Estado Tarcisio Bertone assegura que o Sumo Pontífice "confronta os problemas do mundo e das pessoas", "do emprego à crise económica e, sobretudo, à crise dos valores", escreve o cardeal num artigo publicado hoje no Il Messagero.

"Aqueles que querem ver o Papa unicamente concentrado sobre os livros e desfasado dos problemas reais das pessoas cometem um erro crasso de análise", escreve Bertone.

Bento XVI é o Papa mais velho em funções desde Leão XIII, falecido em 1903 com 93 anos. O novo ano de pontificado poderá ficar marcado pelo acordo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o grupo integrista fundado em 1970 por monsenhor Marcel Lefebvre e separado, de facto, de Roma desde 1988.

Nos últimos dias surgiu "uma evolução encorajadora", disse ontem o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. "Tivemos uma resposta efectivamente diferente das precedentes" e, esta uma vez analisada, o Papa tomará uma decisão final, possivelmente no final deste mês.

Por outro lado, o Vaticano considerou sem fundamento rumores surgidos nos dias mais recentes, a coincidir com o 85.º aniversário de Joseph Ratizinger na segunda-feira, dando como provável o seu abandono do cargo a curto prazo.

O porta-voz do Vaticano garantiu que, apesar de cansado, Bento XVI não tem intenção de abandonar os seus deveres, como aliás o tornou claro no dia anterior ao seu aniversário, ao pedir que "rezem por mim" para "que o Senhor me dê forças para cumprir a missão que me foi confiada".

 

 

Fonte: Diário de Notícias


19
Abr 12
publicado por FireHead, às 15:39link do post | Comentar
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18
Abr 12
publicado por FireHead, às 01:00link do post | Comentar

 

Entre os não Católicos que têm a ignorância suprema de afirmar que são Cristãos estão os ditos ortodoxos (cismáticos). O que é que todos esses pseudo-Cristãos (protestantes e ortodoxos) têm em comum? A Gnose. Era natural que a Gnose arrastasse atrás de si também os cismáticos que, ao não se apoiarem na rocha de Pedro colocada por Cristo como fundamento da Sua Igreja, teriam que sossobrar.

 

Algumas ideias originárias da doutrina ortodoxa afirmam existir uma suposta "energia divina não criada", porém diferente da essência de Deus e que permite que Deus possa conhecer o mal sem ter arquétipos do mal na Sua essência. Segundo essa doutrina, a concepção Católica seria equivocada, deficiente e contraditória, uma tentativa malograda, segundo os ortodoxos, de explicar o modo em que Deus conhece o mal, o pecado, a queda do homem e a consequente necessidade da salvação através do sacrifício "Vicário" de Cristo - determinado por Deus, mesmo antes da fundação do mundo - sendo Deus eternamente Santo e, portanto, privado do conhecimento do pecado, do erro e do mal. Essas ideias dos cismáticos são sem dúvida de natureza gnóstica porque afirmar que existe uma energia incriada, mas "não essencial" de Deus, é algo que se assemelha muito aos conceitos gnósticos referentes à existência de supostas divisões e de partículas divinas, ou ainda, de emanações divinas, distintas, da essência divina. São de natureza gnóstica e indicam uma certa influência, talvez da Cabala, pois é na Cabala, especialmente a luriânica, que se acentua a existência do mal em Deus. Essa tal "energia vivificante" uniria o mundo espiritual ao mundo fisico e natural.

Os ortodoxos alegam assim que a definição escolástica-tomista de Deus como Acto Puro, omnipresente, omnipotente e omnisciente contradiz o conhecimento prévio de Deus sobre o mal. Se Deus conhece o pecado, se Deus sabe previamente da "queda do homem", o mal estaria na Sua essência como um arquétipo e não apenas na obra da criação corrompida pelo pecado de Adão.

Os ortodoxos afimam também que os Católicos consideram as penas temporais como sendo impostas por Deus aos homens desde a "queda" de Adão e que, por isso, Deus, na óptica Católica, seria a fonte directa de sofrimento e de castigos. Deus seria portanto o autor do mal que frequentemente se confundiria com as acções próprias de Satanás.

Para os ortodoxos, Deus não pune ninguém. Ele permite que a humanidade se torne susceptível ao sofrimento e às tentações dos anjos decaídos, porém, jamais sendo Ele a fonte do mal, o autor do mal.

 

Existem outras divergências entre os cismáticos como o facto deles negarem a existência de um governo universal da Igreja a partir de Roma e de negarem igualmente o primado de Pedro. Alegam ser teocêntricos e não concordam com a ideia de um Vigário para o Cristo na terra. Para eles a Cabeça da Igreja é o Espírito Santo. Eles não aceitam também a doutrina do Purgatório, negam a existência do "pecado original" e afirmam que o Espírito Santo procede apenas de Deus-Pai e não de Deus-Filho (Filioque), o que faria com que, segundo eles, Deus-Filho fosse Pai de Deus-Espírito Santo, o que é uma leitura equivocada do fenómeno das processões divinas ad intra e ad extra. O Espírito Santo é o Espírito de Verdade e, como tal, deve proceder da Verdade de Deus, da Inteligência de Deus, que é o Deus-Filho, engendrado eternamente em Deus como parte da Sua Natureza imanente, gerado mas não criado, consubstancial ao Pai.

 

Só um ecumenismo "ingénuo" vê as Igrejas Ortodoxas apenas como um cisma, julgando que elas têm a mesma doutrina que o Catolicismo em tudo excepto na obediência ao Papa.

 

 

*Excertos extraídos do site Associação Cultural Montfort


15
Abr 12
publicado por FireHead, às 18:15link do post | Comentar

A máxima: “Fora da Igreja não há salvação, não condena senão os adultos de má-fé.”

“É injusto, é cruel que Deus grite a todos os homens de má-fé: Fora da Igreja não há salvação! Há injustiça em excluir da beatitude os que dela se excluem voluntariamente, conscientemente? Há barbárie em recusar uma salvação aos que absolutamente não a querem?”

 

“Fora da Igreja não há salvação” não é uma máxima desumana, cruel e bárbara, tirânica, ou, digamos, de outra época!

 

(...)

 

I. O indiferentismo em matéria religiosa.

 

Os primeiros protestantes admitiam, como os Católicos, que para a salvação é obrigatório pertencer à verdadeira Igreja de Jesus Cristo. “Fora do seio da Igreja, diz Calvino, não se pode esperar a remissão dos pecados nem a salvação”, e as confissões helvécia e écossaise retomam a mesma doutrina. Nessa época, cada seita pretendia ser a verdadeira Igreja e condenava todas as outras. Mas o princípio do livre exame, reivindicado igualmente por todas as seitas, iria fatalmente levar ao indiferentismo eclesiástico relativo, que consiste em admitir a possibilidade da salvação em todas as confissões "Cristãs": luteranismo, calvinismo, anglicanismo, etc. (cf. Guarde a Fé nº 1: Apologética).

 

 

II. Vejamos o que nos ensina a doutrina Católica sobre a necessidade de pertencer à Igreja

 

A Igreja é, segundo a doutrina de São Paulo, um corpo vivo, de que Jesus Cristo é a cabeça, o chefe. Deve-se pois distinguir nela uma alma e um corpo. Mas, assim como, no homem, certas funções da alma, como a razão e a vontade, não dependem necessariamente do corpo, e assim como um membro, um braço morto, por exemplo, faz parte do corpo humano sem ser vivificado pela alma, assim se pode pertencer à alma da Igreja sem pertencer ao seu corpo, e pertencer a seu corpo sem pertencer à sua alma.

 

· Pertencer à alma da Igreja é estar unido a Jesus Cristo pela Fé junto à graça santificante.

· Pertencer ao corpo da Igreja é professar exteriormente a doutrina de Jesus Cristo, participar dos Seus sacramentos e obedecer aos Seus ministros.

 

Posto isto, diga-se que, para a salvação, é necessário:

 

- como necessidade de meio, pertencer à alma da Igreja;

- como necessidade de preceito, pertencer ao corpo da Igreja.

 

Prova desta doutrina pela Santa Escritura

 

Para salvar-se, é necessário, como necessidade de meio, pertencer à alma da Igreja: a nossa salvação, com efeito, não vem senão de Jesus Cristo:

 

Deus enviou seu Filho ao mundo... para que o mundo seja salvo por Ele.” (S. João, III, 17)

“Não há salvação senão por Cristo; Seu nome é, sob o céu, o único nome que nos pode salvar.” (Actos, IV, 12)

 

Se pois não há salvação fora de Jesus Cristo, não há salvação fora da alma da Igreja, que não é, essencialmente, senão a participação na vida sobrenatural de Jesus Cristo. A necessidade, para a salvação, de pertencer à alma da Igreja é necessidade de meio, ou seja, todo homem está irrevogavelmente excluído do Reino dos Céus se privado da graça santificante, seja isto por sua culpa ou não, conheça ele ou ignore a existência da Igreja. Para salvar-se, é necessário, como necessidade de preceito, pertencer ao corpo da Igreja.

 

“O que tiver crido, diz o Salvador, e tiver sido baptizado, será salvo; mas o que não tiver crido será condenado.” (S. Marcos, XVI, 16).

“Se alguém não renasce da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus.” (S. João, III, 5)

“Se alguém não escuta a Igreja, que ele vos seja como um pagão e um publicano.” (S. Mat. XVIII, 17)

 

Vê-se por estes textos que não poderá salvar-se ninguém que não se tenha unido à Igreja por estes três laços que constituem o corpo, a saber: a profissão exterior da fé, a participação dos sacramentos e a submissão aos legítimos pastores.

 

Prova pela Tradição

 

Para os Padres da Igreja, é a arca de Noé: aquele que nela não está corre perigo nas águas do dilúvio; é o corpo de Cristo: aquele que dele está separado não pode ser vivificado pelo Redentor. A necessidade, para a salvação, de pertencer ao corpo da Igreja é necessidade de preceito, ou seja, todo homem que, por uma negligência gravemente culpável, deixa de buscar a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, ou que, após a ter reconhecido com certeza, recusa professar exteriormente o seu símbolo, participar dos seus sacramentos, obedecer aos seus pastores, é excluído da salvação eterna.

 

 

III. Condenação do indiferentismo pelo Syllabus (cf. Guarde a Fé nº 1: Apologética): Proposições XV, XVI, XVII, XVIII.

 

 

IV. Uma objecção!

 

A esta doutrina Católica sobre a necessidade de pertencer à Igreja e que nos deu o dogma de fé “fora da Igreja não há salvação” nos vem uma forte objecção: “Se houvesse uma religião na terra fora da qual não houvesse senão uma pena eterna, e da qual em qualquer lugar do mundo um só mortal de boa-fé não tivesse sido tocado por sua evidência, o Deus desta religião seria o mais cruel e o mais iníquo dos tiranos” (J.J. Rousseau).

 

Esta objecção supõe que a doutrina Católica envie sem remissão às chamas eternas todos os que vivem fora da Igreja romana, os heréticos, os cismáticos, os infiéis, as crianças mortas sem o baptismo. Isso é puro sofisma, o sofisma chamado pelos lógicos ignorância da questão, sofisma habitual entre os inimigos da Igreja, que blasfemam o que ignoram. Segundo a doutrina exposta mais acima, não há nada na máxima incriminada que implique nem o mais leve atentado à justiça e à bondade de Deus.

 

Com relação à alma da Igreja

 

Esta máxima não exclui da visão beatífica senão as crianças mortas antes de ser regeneradas. Sendo esta felicidade um dom puramente gratuito, Deus não é de modo algum injusto e cruel a este respeito; ele absolutamente não lhes deve uma felicidade que não tem relação com a Sua natureza. Teria sido necessário um milagre para que elas não fossem privadas da graça baptismal. Pode-se exigir que Deus intervenha sobrenaturalmente, para suprir a falha das diversas causas que levam a tal privação? Ademais, esta espécie de crianças não é a dos condenados ao fogo eterno. Pode-se afirmar sem ferir a Fé que não somente elas não estão submetidas a penas sensíveis, mas também, sem ter ideia alguma dos desfrutes da visão intuitiva, elas não experimentarão nenhuma aflição da privação de tão grande bem, e são felizes de toda a felicidade natural de que é capaz a natureza humana.

A máxima em questão não exclui necessariamente da visão beatífica nenhum dos que vivem fora da comunhão eclesiástica, nem os heréticos, nem os cismáticos, nem os infiéis. Eles podem, sendo de boa-fé, pertencer à alma da Igreja pela Fé, pela esperança e pela caridade, alma que se estende bem além de seu organismo visível, de sua hierarquia oficial.

Quanto aos que, diz o Papa Pio IX, “ignoram invencivelmente a religião Católica mas observam a lei natural e os mandamentos que Deus inscreveu no coração de todo homem, obedecem prestamente a Deus e levam uma vida honesta e direita podem, sob a acção da luz e da graça divina, obter a vida eterna; pois Deus, que perscruta as almas, vê claramente e conhece os sentimentos, os pensamentos, as disposições, não pode de modo algum sofrer, em Sua suprema bondade e clemência, que alguém seja punido com as penas eternas se não se afastou d’Ele por uma falta voluntária” (Encíclica de 10 de Agosto de 1863). Se pois um herético, um cismático, um infiel é condenado, tal não se deve propriamente ao facto da heresia, do cisma ou da infidelidade, mas a faltas não expiadas. Deus não condena a ignorância invencível, mas somente a violação voluntária do dever. Onde está aqui a injustiça, a crueldade?

 

Com relação ao corpo da Igreja

 

A máxima: “Fora da Igreja não há salvação, não condena senão os adultos de má-fé”.

Deus estabeleceu, como meio ordinário para nos comunicar e manter a Fé e na graça santificante, o magistério doutrinador, o ministério santificante e a autoridade governamental do Papa e dos bispos. Ele instituiu o preceito de crer neste magistério, de receber deste ministério os sacramentos, e de obedecer às leis que edita esta autoridade. Este preceito, por ser positivo, absolutamente não obriga os que o ignoram invencivelmente, é só os condena por sua próprias faltas. Mas, para quem o conheça, há a obrigação grave de observá-lo. Por conseguinte, o herético, o cismático, o infiel que, supondo e, com mais razão ainda, sabendo que está num caminho ruim, se recusa a esclarecer-se, a render-se à verdade, desobedecendo gravemente a Deus, encontrará a sanção terrível.

“É injusto, é cruel que Deus grite a todos os homens de má-fé: Fora da Igreja não há salvação! Há injustiça em excluir da beatitude os que dela se excluem voluntariamente, conscientemente? Há barbárie em recusar uma salvação aos que absolutamente não a querem?”

Sejamos apóstolos, façamos o dever de caridade de esclarecer os que estão nas trevas da ignorância e da morte, repetindo-lhes alto e bom som esta bela e grande máxima, este dogma de fé, razão de ser de todas as obras missionárias da Igreja, que é Una, Santa, Católica e Apostólica: Fora da Igreja não há salvação!

 

 

Fonte: Boletim Guarde a Fé

 

Últimas Misericórdias


14
Abr 12
publicado por FireHead, às 15:50link do post | Comentar

Tenho um amado irmão em Cristo que é protestante, sempre trocamos muitos e-mails e creio que aprendemos sempre juntos. Numa destas nossas trocas de e-mail ele me disse que cria no "Cristo Vivo que está presente nas Sagradas Escrituras".

Sei que ele é uma pessoa sincera (diferente de outros...) e que ama a Cristo de todo coração e que, como eu, deseja seguir a Verdade. Mas tendo contanto com o que ele entende do Evangelho e o que vejo de outros protestantes, não me parece que o Cristo em que ele crê seja o Cristo das Escrituras.

Não tenho direito de julgar, mas tenho o dever de exortar os irmãos para a Verdade.

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras instituiu o Sacramento da Penitência, dando poder à Igreja de perdoar os pecados dos Crentes: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." (Jo 20,22-23)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras ensinou que quem rejeita a Palavra da Igreja rejeita a Ele próprio: "Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou." (Lc 10,16)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras ensinou que só teremos vida se comermos a Sua carne e bebermos o Seu sangue: "Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos." (Jo 6,53)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras ensinou que aquele que come a Sua carne e bebe o Seu sangue ressuscitará: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia." (Jo 6,54)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras não deixou dúvida que o Seu corpo e o Seu sangue são bebida e comida no sentido próprio: "Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida." (Jo 6,55)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras ensinou que quem come o Seu corpo o bebe o Seu sangue estará unido a Ele: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim." (Jo 6,56-57)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras ensinou que a Sua carne e o Seu sangue devem ser comidos e bebidos durante a celebração Eucarística: "Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados." (Mt 10,26-28)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras deu-nos como filhos de Sua Mãe e a Sua Mãe como nossa Mãe: "Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa." (Jo 19,26-27)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras atende o pedido de Sua Santa Mãe: "Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou. Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. Tirai agora , disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram." (Jo 2,3-8)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras colocou Pedro como Pedra da Sua Igreja: "E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela." (Mt 16,18)

- O Cristo das Sagradas Escrituras deu a Pedro o poder de governar a Sua Igreja:

"Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus." (Mt 16,19)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras deixou as Suas ovelhas (os Cristãos) aos cuidados de Pedro: "Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: Amas-me?, e respondeu-lhe: Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas." (Jo 21,15-17)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras deu a Pedro o dever de confirmar toda a Igreja na Fé Verdadeira, e por este motivo orou por ele: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos." (Lc 22,31-32)

 

- O Cristo das Sagradas Escrituras ensinou que para cada pecado há uma tipo de pena (e não que pecado é tudo igual): "O servo que, apesar de conhecer a vontade do seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis será açoitado com poucos golpes. Porque, a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há-de exigir." (Lc 12,47-48)

 

Poderia elencar aqui tantos outros exemplos, mas creio serem estes suficientes.

 

 

Alessandro Lima

 

Fonte: Veritatis Splendor


13
Abr 12
publicado por FireHead, às 18:15link do post | Comentar

1. O facto como critério

 

Nós dispomos de um documento histórico que chegou até nós para nos mostrar como o problema surgiu pela primeira vez: os Evangelhos. A natureza deste documento colocou problemas à investigação histórica. Antes de entrarmos no mero registo dos factos tal como eles nos chegaram, façamos algumas observações.

 

a) Comecemos por esclarecer o que os Evangelhos não são: deste modo evitaremos usar, para os abordar, um método inadequado ao objecto. Das definições de diversos autores podemos tomar de empréstimo alguns exemplos “em negativo” dos Evangelhos, a dificuldade está só na escolha. Citamos uma, bem conhecida e recapitulativa das definições dadas: «Os evangelistas [...] não pretenderam [...] fazer nenhum relato estenográfico do que Cristo dizia ou um relatório das suas acções, como poderia fazer um oficial da polícia» (R. Schnackenburg, La Chiesa nel Nuovo Testamento, Milão, Jaca Book, 1973, p.14). Eis como o documento conciliar Dei Verbum define a actividade dos evangelistas: «Os apóstolos, depois da ascensão do Senhor, transmitiram aos seus ouvintes aquilo que Ele tinha dito e feito, com aquela mais completa compreensão de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito da verdade, gozavam. E os autores sagrados escreveram os quatro Evangelhos escolhendo algumas coisas entre as muitas que tinham sido transmitidas oralmente ou até por escrito, sintetizando algumas, explicando outras, tendo em conta a situação das igrejas, conservando, enfim, o carácter de anúncio, mas sempre de modo a referirem-se a Jesus com sinceridade e verdade» (Dei Verbum, 19).

Somos, deste modo, avisados de que não estamos diante de todos os factos acontecidos, mas certamente diante de factos acontecidos, que nos foram confiados pela recordação de testemunhas, movidas pela urgência e pelo imperativo de dá-los a conhecer aos indivíduos e à humanidade. Por exemplo, se o meu carro novo, desejado durante muito tempo e comprado com sacrifício, fosse roubado e depois encontrado, eu poderia ter conhecimento disso de dois modos diferentes. Poderia ser chamado à esquadra e ver o relatório da polícia, assinalando a presença de um carro abandonado numa determinada estrada, sem pneus e sem matrícula, mas correspondente à descrição que forneci ao fazer a queixa, ou então poderia receber o telefonema de um amigo a dizer que, ao passar de autocarro, tinha visto o meu carro numa estrada secundária, de que não sabe o nome, mas que tem a certeza de poder localizar. Não perde tempo a descrever o carro, mas garante-me que aquele era o meu. E iríamos ver. Ambos os modos de receber a notícia são razoavelmente fidedignos: o que muda é o método da verificação.

 

b) Encontramo-nos, portanto, diante de um documento que, como outros, tem que ver com a memória e, de modo original, com a intenção do anúncio: a forma do documento é dada por esta intenção. O seu valor histórico poderá ser reconhecido desde que não se menospreze aquilo que o caracteriza: o que se pretende relatar é a recordação de um facto excepcional transmitido por alguém que considera vital dá-lo a conhecer a outros. Tendo apurado, assim, que não nos encontramos diante de um relato estenográfico, de uma acta, de uma redacção feita com a preocupação de cumprir um dever de crónica no sentido estrito do termo, devemos, para o compreender, colocar-nos diante do dado tal como ele surge: memória e anúncio. É preciso encará-lo na sua globalidade e perguntarmo-nos: «É plausível? É convincente?». Qualquer outro método evitaria o dado tal como ele hoje chega até nós e, por isso, seria aplicado a um objecto no fundo inexistente.

A este respeito parecem muito persuasivas as observações de Von Balthasar: «O primeiro pressuposto para compreender é a aceitação do facto tal como ele se dá. Se desde o início são feitos cortes no Evangelho, o fenómeno não conserva a sua integridade e torna-se incompreensível. [...] Já não se conserva um contexto minimamente plausível. Cada elemento, de facto, apenas é plausível dentro da totalidade da imagem» (Hans Urs von Balthasar, «A percepção da forma», in Gloria, Una Estetica Teologica, Milão, Jaca Book, 1985, pp. 437, 438, 456). É preciso, portanto, estarmos dispostos a deixar-nos provocar pela totalidade do facto, que não consiste no inventário completo dos seus factores. Isto é reforçado por De Lubac quando, referindo-se ao Concílio, recorda: «Ora, também para o Concílio o objecto da Revelação é Deus propriamente dito, mas este Deus vivo interveio na história dos homens e nela deu-nos testemunhas, e todas essas testemunhas remetem para a Testemunha por excelência, a Testemunha fiel e verdadeira, que é a sua palavra encarnada. O primeiro objecto da minha fé não consiste numa lista de verdades, inteligíveis ou não [...]. Se esse objecto me é, no sentido etimológico do termo, incompreensível - e como poderia desejar que assim não fosse? -, se não o posso circunscrever como faria com uma criação do meu espírito, isso resulta do facto de que ele [...] é o abraço de uma Pessoa viva. [...] Isto é o essencial, o objecto revelado não é concebido como uma série de proposições [...], mas é reconhecido na sua unidade originária como o mistério de Cristo, a realidade de um ser pessoal e vivo» (H. de Lubac, «La rivelazione divina e il senso dell’uomo», in Opera Omnia, vol. XIV, Milão, Jaca Book, 1985, pp. 161-167).

Adverte ainda de Lubac: «É impossível dissociá-Lo do seu Evangelho. [...] O Padre Pierre Rousselot (†1915) tinha-o dito de forma admirável numa página escrita há mais de cinquenta anos: “O cristianismo está fundado num facto, o facto de Jesus, a vida terrena de Jesus. E os cristãos são, mesmo hoje, aqueles que crêem que Jesus ainda vive. É esta a originalidade fundamental da religião cristã”»(H. de Lubac, op.cit., pp. 33-34). Um facto é um critério ao alcance de qualquer pessoa. Um facto pode ser encontrado, pode-se embater num facto, desde que se esteja em condições de vê-lo. Como poderemos então captar o facto de Cristo para depois avaliarmos a sua pretensão? Começando a percorrer a memória e o anúncio que d’Ele fazem os que já foram alcançados por Ele.

Começaremos, então, por abordar a companhia dos primeiros que O encontraram.

 

 

2. Uma consideração metodológica

 

Antes de entrarmos no âmago da narrativa, é oportuno ter em conta a importância do método para estudar um objecto. Neste caso, o objecto consiste na veracidade de um testemunho a respeito de uma pessoa viva que pretendeu ser o destino do mundo, o Mistério entrado para fazer parte da história. Mantém-se presente, por isso, a unicidade de tal pretensão [cf. Apêndice: Primeira premissa].

 

Sintonia com o objecto no tempo

 

Chamamos a atenção aqui para a primeira das observações feitas por nós relativamente à obtenção d a certeza existencial: «Eu estarei tanto mais habilitado a ter uma certeza sobre ti quanto mais atento estou à tua vida, quer dizer, partilho a tua vida. Por exemplo, no Evangelho, quem foi capaz de compreender que era preciso confiar naquele Homem? Não a multidão que ia para se curar, mas quem o seguiu e partilhou a sua vida.» (L. Giussani, O Sentido Religioso, Lisboa, Editorial Verbo, 2000, p.35). Isto é, a necessária sintonia com o objecto que se quer chegar a conhecer é uma disposição viva que se constroi no tempo, na convivência. «Para ver que o aspecto singular recebe verdadeiramente o seu sentido pleno apenas numa totalidade que o ultrapassa é necessária a arte da visão da totalidade.[...] O arqueólogo é capaz de reconstruir a estátua a partir de um braço, o paleontólogo reconstitui o aminal a partir de um dente. O teórico da música poderia talvez reconhecer, do motivo particular de uma fuga, se ele faz parte de uma fuga dupla ou tripla e que estrutura rítmica devem mais ou menos ter o segundo e o terceiro tema... O mesmo é válido para o Evangelho.» (H.U. von Balthasar, A Percepção..., p. 480).

Como se deduz dos exemplos citados aquela «arte da totalidade» só pode ser obtida, para continuarmos na analogia artística, escutando muita música, vendo muitos quadros ou, para passar à analogia científica, reconstruindo muitas estátuas ou muitos animais fósseis. O que confirma a condição da «convivência» - ou seja, «tempo dado» - para os propósitos de obtenção daquela prerrogativa qualitativa que determina certeza.

 

A inteligência dos indícios, caminho da certeza

 

Voltamos agora à segunda das observações que dizem respeito ao método do conhecimento que conduz à certeza existencial. «Quanto mais alguém é intensamente humano, tanto mais é capaz de chegar a certezas sobre o outro a partir de poucos indícios, [...] tanto mais é capaz de confiar, porque intui os motivos adequados para acreditar em outra pessoa. [...] Isto pode ser irrazoável se não existem motivos adequados; é razoável se eles existem. [...] Se a razoabilidade residisse unicamente na evidência imediata ou pessoalmente demonstrada [...] o homem não poderia nunca agir, porque cada um teria sempre de refazer todos os processos do início» (L. Giussani, O Sentido Religioso, pp.35-36). Rousselot sublinha-o neste belo texto:

«No conhecimento natural, quanto mais a inteligência é ágil e penetrante, tanto mais lhe basta um indício ténue para induzir com certeza uma conclusão» (P. Rousselot, Gli Occhi della Fede, Milão, Jaca Book, 1977, p.57).

Também esta inteligência do mínimo indício, ainda que o homem disponha dela a um nível fundamental para sobreviver, precisa de tempo e de espaço para chegar a evoluir.

Uma inteligência que reconhece os indícios a fim de encontrar a certeza acerca de qualquer coisa fundamental para a sua existência é uma inteligência mais aberta do que aquela que a priori nega poder fazê-lo.

 

 

3. O ponto de partida

 

O Mistério escolheu entrar na história do homem com uma história idêntica à de qualquer homem: por isso entrou de modo imperceptível, sem que ninguém o pudesse observar e registar. Num dado momento, apresentou-se e, para quem o encontrou, esse foi o grande instante da sua vida e de toda a história. Partiremos então desse ponto, servindo-nos de uma página do Evangelho de S. João em que, como qualquer coisa de extremamente importante que se aponta no bloco de notas, é transcrito o que poderemos designar como o primeiro instante, o primeiro estremecimento perante o problema de Cristo tal como se apresentou na história. Jesus, até à idade em que começou a falar em público, vivia como qualquer outro rapaz e observava rigorosamente os ritos religiosos do seu povo. Naquela época, o nome de João Baptista estava muito difundido; falava-se dele como o profeta que há 150 anos faltava ao povo hebreu, o qual tinha sempre sido acompanhado pelo fenómeno profético. João Baptista, isto é, aquele que baptiza, interrompia finalmente aquilo que era vivido pelo povo como um desconcertante período de seca. Vinham de toda a Judeia e de toda a Galileia, para o ouvir falar. Hoje diríamos que ele era objecto de algo semelhante a uma peregrinação. Até Jesus foi ter com ele. Disse anteriormente que a página em que este facto é relatado se assemelha muito à página de um bloco de notas. Conserva-se uma frase, talvez truncada, e o apontamento resume uma infinidade de coisas que são dadas por supostas; o apontamento pretende ser um sinal para uma memória em actividade, para uma influência já vivida e não, como num romance, para acompanhar o leitor numa descrição detalhada que tem como ideal a recriação de uma continuidade até ao ínfimo pormenor para uma totalidade sem vazios. O romance tem um público, a nota tem um utilizador. A nota é concisa e, lendo-a, quem a usa imagina o que não está dito entre uma frase e outra, aquilo que um ponto final remete para a recordação. É o fenómeno da memória. A memória não retém o passado segundo a sequência ininterrupta dos factos, antes o grava em fragmentos.

Ora, esta página de que vamos falar exprime a memória de um homem que conservou no olhar e no coração, durante toda a vida, o instante em que a sua existência foi atingida e virada ao contrário por uma determinada presença. Conservou com lucidez esse instante até à velhice: mas naquele momento certamente não se deu conta da plenitude e da totalidade em que embatera. Como duas pessoas que se encontram normalmente e que depois, sem o terem previsto, acabam por casar-se; e um dia, mais tarde, na velhice dizem: «Lembras-te de quando nos encontrámos pela primeira vez, na montanha? Quem poderia imaginar o que ia suceder?».

Assim é esta página. Nela, cada ponto é completado por um desenvolvimento que é dado por adquirido pela pessoa que escreve. Pois bem, também Jesus tinha ido ouvir João Baptista. Suponhamos que era por volta do meio-dia e que, como de costume, havia um grupo de pessoas que se demorava a ouvi-lo. A certa altura, Jesus, que tinha ido ouvi-lo, levanta-se para se ir embora. E João, como que tomado pelo espírito profético, grita: «Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo». Os seus ouvintes estão provavelmente habituados a ouvi-lo explodir em frases nem sempre compreensíveis; aceitam-no, porque «É o profeta», mas não lhe prestam muita atenção. Contudo, há alguns que se impressionam com aquele grito e com aquele olhar fixo nessa pessoa. São dois homens que vêm de longe, dois pescadores da Galileia, e que estavam ali atentíssimos a tudo o que acontecia, como dois provincianos na cidade. Ora bem, aqueles dois, reparando em quem João Baptista olhava ao pronunciar a frase, seguem-no. «Jesus voltou-se e, vendo que o seguiam, disse: “Que quereis?”. E eles disseram-lhe: “Rabi, onde moras?». Jesus responde: “Vinde e vede”. Eles foram, viram onde Jesus morava e ficaram com Ele até à noite. Era por volta das quatro da tarde». É sugestiva a falta de lógica com que se relata que os dois ficaram com Ele até à noite e depois, sem mais, volta-se à hora em que começaram um relacionamento com Ele: às quatro da tarde. Um deles chamava-se André. Encontrando o seu irmão Simão, diz-lhe: «Encontrámos o Messias». Bem, duas pessoas vão a casa de um desconhecido, passam meio dia com ele, e não nos é dito o que fizeram ou o que disseram. O que sabemos é que um deles, ao voltar a casa, diz ao irmão: «Encontrámos o Messias». Há uma incrível naturalidade nesta narração. Eles ficaram lá até se esquecerem de que estava a chegar a hora em que os seus companheiros sairiam para pescar, à noite; ficaram lá e obtiveram aquela certeza que depois comunicaram. Não são descritos os passos intermédios. Mas eles devem ter feito alguma coisa: ouviram-no falar, fizeram-lhe perguntas, viram-no mover-se e agir em casa, ocupar-se dos seus afazeres, viram a sua mãe a preparar a comida. Nós só voltamos a vê-los na manhã seguinte, no lugar onde os barcos atracavam na praia, à espera daqueles que tinham ido trabalhar sem eles, e a primeira coisa que um deles diz ao irmão que está no barco é: «Encontrámos o Messias». Podemos imaginar as reacções e tudo o mais; o facto é que André leva Simão a Jesus. Pensemos em Simão, ali, cheio de curiosidade diante daquele indivíduo de quem o seu irmão dissera: «É o Messias». Sente-se olhado por Ele e ouve dizer: «Tu és Simão, filho de João; chamar-te-ás Pedro».

Os judeus costumavam atribuir uma alcunha para indicar o carácter de uma pessoa ou um facto importante ou singular que lhe tivesse acontecido. Assim, Pedro, através daquele olhar, sente-se compreendido até ao fundo do seu carácter, sólido, granítico. No dia seguinte, à tarde, os pescadores estavam na praia, a consertar as redes. Jesus tinha decidido ir à Galileia, e o caminho passava perto da praia. Simão e André devem tê-lo visto e terão dito aos outros: «Olhem, é aquele que vai ali a passar». E um deles, Filipe, impulsivo como o seu irmão Tiago, põe-se em pé e corre pelo caminho para vê-lo de perto; com muita familiaridade, Jesus diz-lhe: «Acompanha-me». Através de uma sucessão de certezas comunicadas com naturalidade, Filipe encontra Natanael e também ele lhe diz, tal como os outros tinham feito: «Encontrámos o Messias, aquele que foi prometido por Moisés! Chama-se Jesus, é de Nazaré, é filho de José». Natanael é o mais velho, o sábio do grupo, aquele que já não se deixa perturbar por nada. E diz a Filipe: «De Nazaré? Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?», que, de facto, não gozava de boa fama. «Vem e vê», replica Filipe. Jesus vê chegar Natanael e, voltando-se para ele, diz-lhe: «Eis um verdadeiro israelita em quem não há fingimento». A reacção de Natanael trai quase um instinto de defesa: «Como podes dizer isso, se nem sequer me conheces?». Jesus responde: «Antes de Filipe te chamar, já eu te tinha visto, quando estavas debaixo da figueira». E Natanael gritou: «Tu és o Filho de Deus, Tu és o Messias». Reparemos bem onde estão os sinais de veracidade, a natureza de memória desta página. Não diz, não descreve, pressupõe tudo, não selecciona num projecto orgânico os acontecimentos que devem passar para a história.

Esta página, tal como está formulada, testemunha-nos qualquer coisa que permanece válido desde então e enquanto o sol continuar a levantar-se sobre o mundo, hoje e amanhã; testemunha-nos a modalidade profunda e simplicíssima com a qual o homem compreendeu, compreende e compreenderá quem é Cristo. Pessoas que, sem jamais o terem imaginado, seguem aquele homem por curiosidade, ficam com ele até à noite, esquecendo-se até de ir trabalhar. Ficam tão impressionadas que referem como verdadeira uma afirmação talvez feita por Ele próprio, que respondia a todas as expectativas daquele tempo.

Não há proporção aparente entre aquela modalidade simplicíssima que estivemos a percorrer de novo, entre aquele homem que convida para ir à sua casa, e a certeza dos dois: «Encontrámos o Messias», certeza que depois se repercute em Simão, Filipe e Natanael. Encontravam-se diante de uma pessoa diferente das outras. Os que entram em contacto com ele sentem-se atraídos pela sua personalidade excepcional. A vida poderá talvez trazer outros detalhes, mas a impressão, a primeira percepção da diversidade singular permanece.

Na certeza de terem encontrado o Messias, tudo pareceria concluído. Mas isto é só o ponto de partida.

 

 

4. A trajectória da convicção

 

Vejamos agora como se confirmou o carácter excepcional do facto encontrado, como uma impressão, embora carregada de evidência, se transformou em convicção.

Depois dos encontros que descrevemos, Jesus continuava a viver como todos e, como sempre, em sua casa, dedicado às suas ocupações. Mas aqueles três ou quatro que ficaram tão impressionados com ele tornaram-se seus amigos, iam ter com Ele, e Ele ia pescar com eles. O segundo capítulo do Evangelho de João narra uma festa de casamento. Segundo o costume, o convidado levava os amigos; e como Jesus foi convidado para aquele casamento com a sua mãe, levou o grupo de novos amigos.

O milagre das bodas de Caná – esse estranho prodígio pelo qual, no fim da festa, a água se transformou em vinho – é uma das páginas mais significativas da concepção que Jesus tem da vida: qualquer aspecto da existência, mesmo o mais banal, é digno da relação com Ele e, portanto, também da sua intervenção. «Segundo o costume judaico, se a esposa se casava pela primeira vez, a festa durava uma semana. Preocupavam-se em ter vinho suficiente, porque durante a festa se bebia abundantemente. Era normal dar presentes de casamento, aliás, era lícito pretendê-los da maior parte dos convidados. Por isso, é compreensível o embaraço do dono da casa quando o vinho veio a faltar» (R. Schnackenburg, Il Vangelo..., p.460).

Maria, a mãe de Jesus, com uma atenção e sensibilidade que certamente a familiaridade com o filho lhe tinham ensinado (recordemos que ela devia ser só 15 ou 16 anos mais velha que Ele) percebe aquele embaraço e comunica-o a Jesus. E Ele intervirá. O evangelista conclui a narração desse episódio dizendo: «E os discípulos acreditaram nele»(Jo 2, 11). Essa frase poderia surpreender-nos. Não tínhamos visto, no capitulo anterior, que os discípulos já tinham «acreditado nele»? No entanto, essa é a descrição psicologicamente perfeita e precisa de um fenómeno comum a todos nós. Quando encontramos uma pessoa importante para a nossa vida, há sempre um primeiro momento em que o pre-sentimos; alguma coisa dentro de nós se curva à evidência de um reconhecimento iniludível: «é ele», «é ela». Mas só o espaço dado à repetição dessa documentação confere à impressão um peso existencial. Só a convivência, de facto, faz com que essa impressão entre mais profunda e radicalmente em nós até que, num determinado momento, se torna absoluta.«Os primeiros discípulos tinham reconhecido, mas não ainda inteiramente conhecido»(R. Schnackenburg, Il Vangelo..., p.455). E este caminho de «conhecimento» receberá muitas outras confirmações no Evangelho, isto é, terá necessidade ser muito sustentado, tanto que a expressão «os discípulos acreditaram nele» será repetida muitas vezes, até ao fim. Esse reconhecimento consistirá numa persuasão que acontecerá lentamente e nenhum passo sucessivo desmentirá os precedentes: também antes já tinham acreditado. A convivência confirmará aquela excepcionalidade, aquela diversidade que desde o primeiro momento os impressionara. Com a convivência, tal confirmação aumenta.

 

A descoberta de um homem incomparável

 

O primeiro grupinho vai-se habituando cada vez mais a acompanhar Jesus quando Ele começa a falar nas cidades, nas praças e nas casas. Um dia, Ele foi convidado para almoçar numa casa, em cuja entrada se comprimia uma pequena multidão para O escutar. Jesus detém-se, quase como se tivesse dificuldade em se separar de quem está atento às suas palavras. Na primeira fila estão as autoridades do lugar. Jesus tinha iniciado o seu itinerário público há pouco tempo, mas quem detinha um certo poder já estava alerta. Enquanto está a falar, chegam alguns homens que carregavam um paralítico deitado num leito. Eles queriam chegar ao pé de Jesus, mas o povo impede-os. Então, resolvem dar a volta a casa, subir com o doente ao telhado, onde abriram um buraco nas telhas para descer o paralítico para dentro de casa, por trás de Jesus. Este volta-se e olha para eles. Imaginemos como aquele homem se deve ter sentido, olhado por Jesus e ouvindo-o dizer: «Tem confiança, filho; os teus pecados te são perdoados». A reacção das autoridades presentes é imediata: ninguém pode perdoar os pecados, a não ser Deus. Mas Jesus, desviando o olhar do enfermo, fixa-o naqueles que o contestam: «O que é mais fácil dizer a um homem: os teus pecados te são perdoados ou levanta-te e anda? Para que saibais que eu tenho o poder de perdoar os pecados, eu digo-te: levanta-te, toma o teu leito e anda!». E ele levantou-se, entre os gritos compreensíveis do povo (cf. Mc 2, 1-12; Lc 5, 17-26). Experimentemos pensar naquele grupo de pessoas que durante semanas, meses e anos viram coisas deste tipo todos os dias. Aqueles primeiros amigos, e outros que se juntaram, assistem quotidianamente e cada vez mais à excepcionalidade, à exorbitância daquela personalidade.

O que impressiona não é só a repetição do facto de os prodígios chegarem a preencher os seus dias: As coisas, o tempo e o espaço obedecem-lhe sem nenhum aparato «mágico». Ele consegue-o com uma manipulação inteiramente «natural» da realidade, como quem é o senhor da realidade. O Evangelho observa que à noite ele estava «cansado de curar», tendo exercido ininterruptamente o seu poder sobre a realidade física. Mas não era essa a coisa mais impressionante. Nem mesmo a sua inteligência, capaz de confundir e encostar à parede a proverbial esperteza dos fariseus, como no episódio do tributo a César (Cf. Mt 22,15-22; Mc 12,13-17; Lc 20,20-26).

A sua inteligência aniquilava qualquer tentativa de surpreendê-lo em alguma falha. Trazem à sua presença uma mulher apanhada em flagrante adultério (Cf. Jo 8, 1-11) e perguntam-lhe se, na sua opinião, deveria ou não ser aplicada a Lei de Moisés, lapidando-a. Ele deixa-os falar, olhando-os com aquele olhar penetrante que descobria o coração dos homens, curva-se e com uma das mãos rabisca sinais no pó, como se dissesse: «As vossas palavras são palavras escritas na poeira». Os acusadores pensam que o apanharam e insistem para obter uma resposta. Ele levanta-se e diz: «Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra». Podemos imaginar a consistência do silêncio que se segue às suas palavras. Lentamente, todos se voltam e vão-se embora, enquanto ele permanece ali rabiscando as suas simbólicas letras na poeira e a mulher de pé, perturbada, sozinha diante dele. Jesus diz-lhe: «Ninguém te condenou?». E ela: «Ninguém». E Jesus então diz-lhe: «Nem eu te condeno. Vai e não peques mais». Nem essa inteligência consequente, essa dialéctica imbatível, representavam a impressão mais vertiginosa para aqueles que o acompanhavam sempre.

O maior milagre, que impressionava os discípulos todos os dias, não era o das pernas curadas, da pele purificada, da visão readquirida. O maior milagre era aquele de que já falámos: um olhar revelador do humano, a que ninguém podia subtrair-se. Não há nada que convença mais um homem do que um olhar que o atinja e reconheça o que ele é, que revele o homem a si mesmo. Jesus via o homem por dentro, ninguém podia esconder-se diante dele, diante dele a profundidade da consciência não tinha segredos. Como no caso da mulher da Samaria (cf. Jo 4,1-42), que numa conversa ao pé do poço ouviu-o contar toda a vida dela e narrou tudo isso aos habitantes da cidade como testemunho da grandeza daquele homem: «Ele disse-me tudo o que fiz!». O mesmo acontece no caso de Mateus, o publicano (cf. Mt 9, 9-13; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32) considerado um pecador público porque estava ao serviço do poder económico romano, a quem Jesus, ao passar, disse simplesmente: «Vem». E Mateus, reconhecido, tomado, aceite, deixou tudo e seguiu-o. A mesma coisa aconteceu com o chefe dos publicanos, o homem mais odiado de Jericó: Zaqueu (cf. Lc 19,1-10). Jesus, rodeado por uma grande multidão, ia a passar pela estrada e ele, de baixa estatura, sobe a uma árvore, curioso, para vê-lo. Quando Jesus passa por baixo da árvore, pára, olha-o e diz: «Zaqueu!», e acrescenta: «Desce depressa porque hoje quero ir a tua casa». O que é que teria acontecido com Zaqueu? O que é que o teria feito correr cheio de alegria? Projectos sobre as suas riquezas, desejo de restituir em abundância o que conquistara fraudulentamente, dar a metade dos bens aos pobres? O que é que o perturbou e mudou? Simplesmente foi acolhido e penetrado por um olhar que o reconhecia e o amava tal como era. A capacidade de apreender o coração do homem é o maior milagre, o mais persuasivo.

 

O poder e a bondade

 

É difícil que uma pessoa poderosa seja verdadeiramente boa. Com Jesus, porém, aqueles que foram suas testemunhas puderam ver aquele olhar não só poderoso e prodigioso, inteligente e penetrante, mas também bom. Como quando numa cidade, ele depara com um cortejo fúnebre e vem a saber que o morto é o filho único de uma mãe viúva (Cf. Lc 7, 11-17). Imediatamente a dor da mãe comove-o, e diz-lhe: «Mulher, não chores». O seu primeiro gesto é um acto de ternura; depois, restituir-lhe-á o seu filho vivo. Não lhe fora pedido nem o milagre nem o gesto de profunda compaixão.

Diversos textos evangélicos relatam a sua atenção com as crianças, a sua capacidade de se relacionar com elas (cf. Mt 19, 13-15; Mc 10, 13-16; Lc 18, 15-17). O evangelista Marcos diz: «traziam as crianças para que ele as acariciasse» e ele não se limita a um vago gesto de bênção: toma-as nos braços, reage contra quem quer impedi-lo e depois abençoa-as, recomendando a todos, para poderem entrar no reino dos céus, aquela atitude de positiva dependência do real que as crianças têm.

Jesus aprecia no homem aquilo que este lhe pode dar e não coloca obstáculos de qualquer natureza política, social ou cultural a esse seu acolhimento. Como no episódio narrado por Lucas (cf. Lc 7, 36-50), quando, durante uma refeição em casa de um fariseu, irrompe, certamente sem ser convidada, uma conhecida prostituta que rodeia Jesus de atenções, provocando a indignação do dono da casa, que se pergunta até que ponto seria possível dizer que Jesus era um profeta, visto que aceitava os perfumes e os gestos afectuosos de uma mulher daquele nível. A reacção de Jesus é imediata, e mostra ao fariseu Simão que acolheu os beijos e as lágrimas da mulher como sinal da fé n’Ele que ela podia testemunhar, desafiando comentários e conversas, ao contrário de Simão, que poderia muito bem, como anfitrião, ter-Lhe oferecido água para os pés empoeirados e o beijo da amizade, mas que não o fizera: «A ela, muito foi perdoado porque muito amou». Devemos recordar também a emoção até as lágrimas que tomou Jesus por ocasião da morte de seu amigo Lázaro, emoção misteriosa, mas sinal de uma íntima solidariedade com o coração humano e as suas vicissitudes (cf. Jo 11, 1-44).

 

 

5. O aparecimento de uma pergunta e a irrupção de uma certeza

 

Jesus mostra-se em todas as circunstâncias como um ser superior a todos os outros; há nele alguma coisa, um “mistério”, porque jamais se vira uma tal sabedoria, um tal poder, uma tal bondade. Essa impressão, como dissemos, torna-se aos poucos mais precisa apenas naqueles que se envolvem numa convivência sistemática com Ele: os discípulos. Nascia espontaneamente uma pergunta paradoxal: "Quem é?". Paradoxal porque eram bem conhecidas a origem de Jesus, a sua identidade, a sua família, a sua casa. Esta pergunta surgia inicialmente nos amigos e depois, muito tempo depois, também nos inimigos, que estavam muito bem informados sobre Ele. Esta pergunta demonstra que não seria possível dizer por conta própria aquilo que Ele realmente é. Só é possível constatar que Ele é diferente dos outros, merece a maior confiança, e quem o segue experimenta a plenitude de uma vida sem comparação. Assim, quando Jesus, num momento de dramática tensão, toma a iniciativa e rompe o silêncio perguntando, de forma provocadora, aos seus discípulos: «Vós também vos quereis ir embora?», Pedro, com a sua veemência, irrompe com a frase que resume toda a experiência de certeza que eles tinham: «Senhor, nós também não compreendemos o que dizes, mas se formos embora, a quem iremos? Só tu tens palavras que explicam, que dão sentido à vida» (Jo 6, 22-69).

 

 

6. Um caso de certeza moral

 

Psicologicamente, na frase de Pedro está presente aquela posição humana identificável com a expressão «certeza existencial ou moral». Aquela atitude é, de facto, profundamente racional. Com base na convivência com a excepcionalidade do ser e das atitudes de Jesus, aquele grupinho não poderia deixar de confiar nas suas palavras. Deveriam negar uma evidência mais persuasiva que os seus próprios olhos: «Se eu não posso crer neste homem não posso crer em mais nada». Certamente, para a multidão que ia vê-lo por curiosidade ou por interesse e depois se ia embora sem se confrontar com aquilo em que tinha embatido, o brilho daquela excepcionalidade não podia determinar nenhum juízo digno desse nome. O juízo exige que se enfrente a experiência incluindo nesta o tempo da sua «duração».

Por isso, para responder à pergunta de amigos e inimigos: «Mas então, quem és tu?» (cf. Mc 4, 35-41 para os amigos; cf. Jo 10, 24 para os inimigos), Jesus esperou que o tempo tornasse os discípulos mais seguros do seu apego e os inimigos mais pertinazes na sua hostilidade. Ou seja, Jesus esclareceu o Seu mistério quando os homens já estavam definitivamente fixados no Seu reconhecimento ou no Seu desconhecimento. A Sua revelação final revelou também «os pensamentos secretos dos corações» (cf. Lc 2, 33-35) como profetizara Simeão. A sua revelação final confirmou a extrema pobreza de espírito daqueles que acreditavam nele; e ofereceu o último e supremo pretexto para aqueles que, no seu coração, já tinham decidido recusá-lo. «Bem-aventurados os pobres de espírito» (Mt 5, 3), «se não vos tornardes como crianças, não entrareis jamais...» (Mt 18, 3).

 

 

Fonte: As origens da pretensão Cristã


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Abr 12
publicado por FireHead, às 14:48link do post | Comentar
Acusação: Jesus nasceu pobre na gruta de Belém. Por que o Papa, em Roma, vive no rico palácio do Vaticano ao lado da rica basílica de S. Pedro?

Resposta: Numa parábola (Mt 13,31-32), Jesus compara a Sua Igreja (o Reino dos Céus) com o grão de mostarda, que semeado cresceu e tornou-se grande árvore, e nos seus ramos aninharam-se aves vindas de toda parte.

Assim na vida de Jesus, esta sementinha da Igreja, era constituída apenas pela Sagrada Família; depois também pelos doze Apóstolos, discípulos e santas mulheres. Jesus andava com eles e ensinava o povo à beira do lago ou nos montes. Jesus não precisava de casas nem de dinheiro. Para o culto divino e público Jesus se servia de sinagogas e do magnífico templo de Jerusalém. Nunca proferiu uma só palavra contra a riqueza e beleza do templo de Deus! - Pelo contrário, com energia expulsou os profanadores (Mt 21,12) e (Mc 12,42).

Quando este Reino de Cristo (a Sua Igreja) tornou-se uma "grande árvore", abrigando quase mil milhões de pássaros (ou seja, fiéis Católicos), esta mesma Igreja necessita de muitos e grandes templos para o culto divino, e muitos edifícios para a propagação e administração deste Reino de Deus visível na terra.

Como no Governo, há câmaras municipais e presidentes das câmaras, assim na Igreja há Bispos e párocos com igrejas e as moradas. E há um Papa que preside toda a Igreja. Dos departamentos do Vaticano com os seus auxiliares, ele administra a Igreja de Cristo, residindo ali num modesto apartamento.

Além disso, os prefeitos, os governadores e presidentes cada um tem a sua esposa e filhos, casas e propriedades, e quando morrem, deixam geralmente para os filhos e netos consideráveis heranças. O mesmo fazem os pastores das seitas (pseudo-)cristãs. O Papa, porém, a exemplo de Jesus, não tem para si nem mulher nem propriedade nenhuma. E quando morre, deixa apenas o bom exemplo e os ensinamentos para todos. Vive e morre pobre como Jesus.
 
 
Pe. Vicente Wroz

11
Abr 12
publicado por FireHead, às 02:35link do post | Comentar

O padre e autor de vários livros Dwight Longenecker tem um blogue chamado Standing on my Head. Ontem (dia 9 de Abril de 2012), ele fez uma análise bem simples sobre os argumentos usados contra o facto da ressurreição de Cristo. Como eu disse ontem, este assunto é tema de tese de doutoramento de William Craig (talvez o maior especialista no assunto do mundo). Craig tem mais argumentos, acho que há vídeos no Youtube no qual ele explica isso (até com legendas em português). Mas pela simplicidade e lógica dos argumentos, o texto do padre Longenecker merece ser lido.

 

Aqui vai tradução do texto do padre:

 

Ou Jesus Cristo ressuscitou dos mortos ou não. Se Ele não ressucitou, há apenas quatro opções:

 

. A coisa toda foi inventada.

. Os discípulos cometeram um erro honesto.

. Jesus realmente não morreu.

. Jesus morreu, mas alguma coisa aconteceu com o Seu corpo.

 

 

A coisa toda é uma ficção

 

Nesse grupo estão os académicos que pensam que os primeiros Cristãos gostavam das histórias de deuses pagãos de morte e ressurreição e decidiram adoptá-las e adaptá-las para o seu herói Jesus.

Problema: Os primeiros Cristãos eram judeus e tanto para os Cristãos como para os judeus os gentios pagãos eram o grande problema. Eles eliminavam qualquer aspecto do paganismo e morreriam antes de oferecer um grão de incenso aos deuses pagãos. Teríamos de acreditar que eles alegremente colocaram histórias pagãs na história de Jesus?

Também nesta categoria estão os académicos da "escola da demitologização" que dizem que, "de alguma maneira bonita os ensinamentos de Jesus continuaram a ser vividos pelos Seus seguidores após a morte de Cristo, e não é isso realmente o que a ressurreição significa?

Problema: o Novo Testamento diz que realmente aconteceu. Eles eram pessoas simples, trabalhadoras, que ficaram aterrorizadas, desnorteadas, confusas e espantadas, não do tipo que sai por aí construindo contos de fadas.

 

 

Os discípulos cometeram um erro honesto

 

Neste grupo estão as pessoas que dizem que os discípulos tiveram um sonho ou pensaram ter visto um fantasma, ou, atormentados pela dor, eles imaginaram que Jesus estava realmente vivo novamente. Talvez eles tenham tido uma alucinação. O que aconteceu foi que eles fizeram um erro honesto.

Problema Nº 1: Eles eram pessoas de cabeças duras, da classe trabalhadora, que sabem distinguir sonho da realidade. Eram pescadores, colector de impostos, prostituta... Estas pessoas podem ser frágeis, mas não eram sonhadoras e visionárias.

Problema Nº 2: Os inimigos de Cristo tinham a intenção da Sua morte. Eles queriam ter a certeza da execução. Se ouvissem histórias de uma ressurreição, eles teriam produzido o corpo. E diriam: "Perdão, rapazes. Vós estais sonhando. Aqui está o corpo do seu mestre, e está começando a cheirar mal."

 

 

Jesus realmente não morreu

 

Esta é a alternativa mais louca. O Homem foi açoitado com cordões de couro com pedaços de cerâmica e de vidro que rasgaram grande parte da carne do Seu corpo. Depois, Ele foi crucificado em público por carrascos profissionais (que a própria vida pode ser arriscada se não matar a sua vítima). O golpe de lança entrou na cavidade do coração e a ciência médica moderna diz que a água e o sangue só saem após a morte já ter ocorrido. Se a pessoa ainda estava viva apenas o sangue fluiria. Nós devemos acreditar que o autor do primeiro século do Evangelho tinha esse tipo de conhecimento médico, com o intuito de fingir?

Problema: Mesmo com a possibilidade de que de alguma forma Jesus sobreviveu à flagelação, os espancamentos e a crucificação, é suposto acreditar que, uma vez envolto em linho e colocado num túmulo com uma pedra de duas toneladas no lugar onde Ele acordou, desembrulhou o linho, dobrou-o cuidadosamente, colocou o ombro para a pedra e rolou para trás a partir do interior e entrou no jardim para atender os Seus amigos. Assim, o corpo do Homem estaria quebrado e ferido. Ele teria cambaleando nu e quase morto com os Seus discípulos dizendo: "Olhai! É a ressurreição gloriosa do Senhor Jesus Cristo!"

Uhh. Acho que não. Será que não dizem, "Geesh! Eca! Ele sobreviveu. Vamos levá-lo a um médico!"

 

 

Outra coisa aconteceu com o corpo

 

De acordo com esta teoria, eles jogaram o corpo de Jesus no monte de lixo e o cachorro comeu-o ou os discípulos foram ao túmulo errado ou eles roubaram o corpo.

Problema Nº 1: os judeus eram (e ainda são) muito meticulosos sobre enterrar os seus mortos. Não há evidência de que eles jogaram o corpo fora. Exactamente o oposto, todas as evidências são de um enterro cuidadoso e respeitoso. Se não fosse este o caso, as testemunhas oculares teriam corrigido o relato do Evangelho falsificado.

Problema Nº 2: os discípulos roubaram o corpo? Estamos a crer que esses homens que eram covardes demais para seguir o eu Senhor para a Sua morte de repente descobriram a sua coragem e organizaram uma conspiração que conseguiu enganar os líderes judaicos, Pilatos e os guardas no túmulo de Jesus?

Problema Nº 3: Se eles roubaram o túmulo, eles iriam sofrer tortura e martírio para manter uma farsa? Qual era o ganho para eles? Eles iam ser os fundadores de uma nova religião e ganhar muito dinheiro? Eles estavam-se a tornar mundialmente famoso por criar uma farsa para levar as pessoas a seguir um criminoso executado como seu Senhor e Salvador?

 

Não. A ressurreição de Jesus Cristo é o ponto de viragem da história humana. É o facto em torno do qual tudo gira. Decida hoje de novo para torná-lo o ponto de viragem da sua vida e o facto de em torno do qual gira toda a sua vida. A sua vida pode depender dela!

 

 

Fonte: THYSELF, O LORD


09
Abr 12
publicado por FireHead, às 02:16link do post | Comentar | Ver comentários (2)

Eis o motivo para seguir Jesus Cristo. Porque aconteceu exactamente tal como Ele disse: 

 

 


08
Abr 12
publicado por FireHead, às 04:05link do post | Comentar

E era com grande poder que os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, gozando todos de grande simpatia. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse. (Actos dos Apóstolos, 4: 34-35)

 

O dia que hoje celebramos no mundo de matriz Cristã tem um significado que ultrapassa a letra da liturgia, podendo ser assimilado por todos os seres humanos de boa vontade. Simboliza desde logo a supremacia absoluta da espiritualidade sobre o materialismo. Simboliza o resgate de todos os injustiçados à face da terra - aqueles que, como Jesus, também sobrevivem à traição, à calúnia, à humilhação e à tortura. Simboliza enfim o triunfo dos justos contra a iniquidade política (personificada em Pôncio Pilatos, que sabia estar a permitir a condenação de um inocente) ou religiosa (personificada em Caifás, sumo sacerdote da Judeia). Cristo, ao transcender o plano da morte física após sucumbir sob intenso sofrimento, demonstra que todos os filhos de Deus são revestidos da mesma dignidade essencial. "Nenhum poder terias sobre mim se do Alto te não fosse dado", diz a um perplexo Pilatos, segundo relata o Evangelho de João.

O Cristianismo, para não trair a sua raiz nem o seu destino, jamais deve omitir a face humana de Jesus, que nasce numa gruta obscura e morre crucificado entre dois salteadores. Alheado de toda a glória mundana, despojado de todos os bens terrenos, proclama para a eternidade que nem a morte é capaz de travar a indomável essência do espírito.

Reflexão para esta Páscoa. Reflexão para qualquer Páscoa que vier.

 

 

Fonte:Delito de Opinião


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