«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
31
Mar 12
publicado por FireHead, às 01:02link do post | Comentar

 

(...)

 

Maria, que carrega consigo o Sol divino, tem a Lua debaixo dos pés: está marcada por Deus, é a “cheia de graça”, é mais alta que os céus que abrigam o Sol e a Lua, é celestial, ainda que habite em Nazaré e caminhe por Jerusalém.

 

Um dos significados mais presentes na figura da Lua é o da morte e ressurreição, porque a Lua nasce, cresce, alcança um auge, mingua e “morre” para “ressuscitar” três dias depois. Não foi difícil ligar esse simbolismo ao papel de Maria: gerar Aquele que passará por todo o ciclo da vida e da morte, mas ressurgirá, refazendo a vida. Maria, imaculada, que carrega a Vida divina, tem o pequeno ciclo da vida e morte humanas sob os seus pés: é senhora e dona da vida e da morte.

 

(...)

 

Mãe e virgem ao mesmo tempo era Maria. A Lua sob os seus pés lembra o duplo e inseparável privilégio de Maria: ser mãe, permanecendo virgem.


A Lua depende do Sol, mas brilha soberana no meio da noite. Maria depende de Cristo, em função de cuja maternidade recebeu todos os privilégios, mas, exactamente por causa de Cristo-Sol, não é afectada pelas trevas do pecado, brilha límpida com a luz que lhe vem da maternidade divina.

 

Todos esses símbolos e outros estão contidos na frase do Apocalipse, que inspirou os escultores: “Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do Sol, com a Lua debaixo dos pés” (Apocalipse 12,1). Nos primeiros séculos do Cristianismo, essa mulher vestida do Sol era interpretada como sendo a Igreja, que recebe toda a luz de Cristo. Aos poucos, a mulher revestida de sol passou a significar Nossa Senhora.

 

(...)

 

Maria é a senhora dos tempos, a mãe das mães e a virgem das virgens, humana mas santíssima, terrena mas elevada acima dos astros e no mais alto dos céus, aquela que resplandece na plenitude da luz da graça sem jamais ter conhecido a escuridão do pecado.

 

(...)

 

O simbolismo da serpente, talvez, seja mais fácil de entender. É preciso recordar a página do Génesis, onde se conta, também em forma de figuras, a criação e a queda dos nossos primeiros pais. Deus criou Adão e Eva e os pôs num jardim, em cujo centro existia a árvore da vida (símbolo da imortalidade) e da qual Deus proibira comer os frutos. O Demónio, em forma de serpente, induziu Eva a colher e comer um dos frutos da árvore proibida. Em consequência, eles perderam a imortalidade: “sois pó e ao pó tornareis” (Génesis 3,19).

 

Sobre a cobra maldita Deus pronunciou, então, uma profecia. Uma profecia, que foi traduzida de diferentes maneiras. Na Bíblia Hebraica se diz: “Porei inimizade entre a tua descendência e o descendente dela”. Um substantivo masculino e no singular. Os Setenta Sábios, que passaram o texto para o grego, conservaram o masculino e o singular. Mas São Jerónimo, ao passar o texto para o latim, escreveu “entre a tua descendência e a descendência dela”, usando um feminino generalizado. Com isso, a frase que segue tem sentido ambíguo: “ela te esmagará a cabeça”. ‘Ela’ está no lugar de ‘descendência’ ou de ‘mulher’? Muitos Santos Padres atribuíram o ‘ela’ a Nossa Senhora. Outros mantiveram o hebraico e viram no ‘descendente’ (masculino e singular) uma alusão a Jesus Cristo.

 

Os pintores e escultores trabalharam subtilmente o tema: ora é Maria que esmaga a serpente ou enterra o dardo na cabeça do dragão, ora é o Menino, mas, nesse caso, a mãe tem o seu pé sobre o pé do Menino.


De qualquer maneira, a serpente aos pés de Maria, nos quadros da Imaculada, refere-se ao Demónio enganador do paraíso. Jesus é o novo Adão. Maria é a nova Eva. Ambos são vitoriosos sobre o Demónio. As tentações de Jesus no deserto confirmam a vitória (Lucas 4,1-13). No paraíso terrestre, o Demónio levou Eva e Adão à morte. Agora, o Diabo e a morte são derrotados e novamente a criatura humana se reveste de imortalidade (1 Coríntios 15,53), torna-se participante da natureza divina (2 Pedro 1,4). Com Cristo, Filho de Deus, fruto bendito do ventre de Maria, o homem reconquistou o paraíso perdido e ganhou o título de cidadão do céu.

 

A serpente debaixo dos pés de Maria Imaculada pode ter outros significados interessantes. Por exemplo, se nos lembrarmos que a cobra vive em buracos escuros, mas gosta de expor-se aos raios do Sol, ela bem poderia simbolizar o binómio “trevas/luz”, tão acentuado por João Evangelista. Maria, sem pecado, está inteiramente fora das trevas do pecado e é portadora daquele que se declarou a “luz do mundo” (João 8,12), o “Sol que vem do alto para iluminar os que estão sentados nas trevas e nas sombras da morte” (Lucas 1,79).

 

A cobra também troca de pele todos os anos. Por isso ela foi comparada nas culturas antigas à Lua que, sempre de novo, se refaz. A cobra aos pés de Maria poderia ter o mesmo sentido da Lua, significando que Maria Imaculada é portadora daquele que é o Senhor da vida e da morte e transformou a morte em vida.

 

Gostaria de lembrar mais um possível sentido para a serpente sob os pés da Imaculada Conceição. O Salmo 91, que celebra a protecção de Deus aos que O amam, e que foi citado pelo Demónio nas tentações do deserto (Lucas 4,11), no versículo 13 fala do servo de Deus que poderá andar sobre víboras e dragões. Lucas, o evangelista mariano, põe na boca de Jesus, quando os 72 discípulos retornaram da missão, estas palavras: “Dei-vos poder para pisar em serpentes e elas não vos fizeram mal” (cf. Lucas 10,19). Também Paulo, na carta aos romanos, retoma a figura para dizer que os sábios diante do bem e os íntegros diante do mal esmagarão Satanás debaixo dos pés (Romanos 16,20). Ora, Maria Imaculada foi protegida por Deus desde antes de sua concepção, amou ternissimamente a Deus com amor de mãe, de filha e de esposa, conservou-se íntegra diante do mal e do pecado. Por tudo isso, pisa na cabeça da serpente, símbolo do mal, da mentira e das insídias.

 

Em muitos quadros e imagens da Imaculada, em vez da serpente, encontramos o dragão, um animal imaginário, presente em todas as grandes culturas antigas, inclusive na Bíblia. O dragão sempre simbolizou as forças hostis à divindade. Em todos os mitos e lendas, a vitória sobre o dragão significava a vitória sobre as trevas, a maldade, o caos. O Apocalipse fala do dragão que perseguiu impotente a mulher que acabara de dar à luz um Menino (Apocalipse 12,4). Esta passagem do Apocalipse, ainda que passível de outras interpretações, aplica-se muito bem a Nossa Senhora e a seu Filho Jesus, ambos imaculados, ambos santíssimos, ambos vencedores do mal e da morte.

 

(...)

 

Os dois símbolos que lhe estão aos pés a proclamam sem nenhuma sombra de pecado, santíssima, cheia da graça divina, vitoriosa sobre o mal, o Demónio e a morte, mãe fecunda e virgem consagrada, portadora de vida e salvação, senhora vitoriosa e defensora da humanidade.

 

 

Frei Clarêncio Neotti, OFM

in "Nossa Senhora da Conceição Aparecida"

 

Fonte: franciscanos.org.br


30
Mar 12
publicado por FireHead, às 02:05link do post | Comentar | Ver comentários (2)

Como podem os Católicos afirmar que seres humanos podem ser infalíveis?

 

É estranho ouvir tal argumento partindo de indivíduos que acreditam que todo o ser humano letrado ou não letrado é infalível pelo princípio do julgamento particular [principalmente para interpretar a Bíblia], isto é, que o julgamento de um homem é tão bom como de qualquer outro, e que o julgamento de todo o mundo é correcto. A infalibilidade significa que Deus garante que, em matéria de Fé e moral, o Papa não pode cometer erros. A infalibilidade NÃO significa que o Papa não possa pecar, nem que ele não possa cometer erros noutras matérias como história, política, ciências etc., mas somente quando ele declara uma certa verdade a respeito da revelação é que ele será infalível.

 

Existem quatro condições necessárias para a infalibilidade do Papa:

 

1- Ele precisa de falar como chefe, pastor e professor da Igreja. As palavras que ele usa precisam de deixar claro a todos que ele está a falar como cabeça da Igreja em matéria de fé e moral.

 

2- Ele precisa de estar falando à Igreja Universal, isto é, aos Cristãos de todos os lugares do mundo.

 

3- Ele precisa de falar “ex catedra” ou seja, oficialmente com suprema e apostólica autoridade.

 

4- Precisa de ser em matéria de Fé e moral, e não em qualquer outra matéria. A prova disto encontra-se na primeira Epístola de São Paulo a Timóteo, onde ele fala da Igreja de Cristo como “o pilar e coluna mestra da verdade” (1Tm 3,15). Também no Evangelho de São João: “Eu pedirei ao Pai e Ele dar-vos-á um outro advogado para vos ajudar para sempre”.

 

Da mesma forma, nós sabemos pelas Escrituras que Cristo prometeu que as portas do Inferno não prevaleceriam contra a Sua Igreja; Ele também prometeu estar com a Igreja até o final dos tempos. Se estas promessas significam alguma coisa, elas significam que Cristo protegerá a Igreja nos seus ENSINAMENTOS da verdade porque Ele estabeleceu esta Igreja principalmente como uma Igreja de ensinamentos. Isto não limita a discussão ou debate entre os seus membros, porque a Igreja usa a protecção do Espírito Santo apenas em casos extremos quando for necessário determinar a verdade de uma questão; e isso sempre em verdades fundamentais.

 

 

Infabilidade não é uma inspiração ou revelação de Deus

 

Conceito: a infalibilidade é a garantia da preservação de todo o erro doutrinal pela assistência do Espírito Santo. Não é simples inerrância de facto, mas de direito. Portanto, não se deve confundir a infalibilidade com a “inspiração”, que consiste no impulso divino que leva os escritores sagrados a escreverem o que Deus quer; e nem com a “revelação”, que supõe a manifestação duma verdade antes ignorada.

 

 

Infalibidade não é descobrir coisas novas além do que foi pregado

 

O privilégio da infalibilidade não faz com que a Igreja descubra verdades novas; garante-lhe somente que, devido à assistência divina, não pode errar nem, por consequência, induzir em erro, no que respeita a questões de Fé ou moral.

 

 

Infabilidade X Impecabilidade

 

Não se confunde a “infalibilidade” com a “impecabilidade”. A Igreja nunca defendeu a tese de que o Papa não pudesse cometer pecados. O Papa é infalível quando segue as normas da infalibilidade, falando a toda a Igreja, como sucessor de S. Pedro, em matéria de Fé e moral, definindo (implícita ou explicitamente) uma verdade que deve ser acatada por todos. Na sua vida privada – ou quando não utiliza a fórmula da infalibilidade -, o Papa pode cometer erros e até pecados. Pelo exposto, fica claro que a “infalibilidade” é um privilégio daqueles a quem compete “ensinar”, isto é, os Apóstolos e, de modo especial, a S. Pedro e os seus sucessores. A infalibilidade do colégio apostólico provém, portanto:

 

a) da missão conferida a “todos os apóstolos” de “ensinar todas as nações” (Mat 28, 20);

 

b) da “promessa de estar com eles” “até à consumação dos séculos” (Mat 28, 20) e de lhes “enviar o consolador, o Espírito Santo que lhes há-de ensinar toda a verdade” (Jo, 14, 26).

 

Estas passagens mostram com evidência que o privilégio da “infalibilidade” foi concedido ao “corpo docente” tomado colectivamente. A sucessão desse poder deve ser entendida no sentido de que o colégio apostólico, actualmente composto pelos bispos, é ‘infalível’ não individualmente em cada bispo, mas no conjunto deles.

 

 

Para entender a infabilidade

 

1- Ela não significa que o Papa não pode pecar; trata-se de uma opinião errada sobre este privilégio.

 

2- Não significa que toda e qualquer palavra pronunciada pelo Papa é infalível; trata-se também de uma ideia errada.

 

3- Não significa que toda a opinião do Papa deva ser tida como opinião de Deus; certamente esta é uma das visões mais comuns e erradas do significado da infalibilidade papal.

 

Por fim, também não significa que o Papa sabe tudo sobre todas as coisas. Talvez a melhor maneira de falar sobre isto possa ser assim exemplificado: suponha que você irá aplicar uma prova ao Santo Padre versando sobre a matéria de Trigonometria (que é um ramo da matemática). Então você faz-lhe as 100 questões mais difíceis do mundo, que somente os melhores matemáticos podem responder. Qual o número mínimo de questões que o Papa deveria responder correctamente?? Muitas pessoas, que não conhecem a natureza dessa infalibilidade pregada pela Igreja, certamente responderiam: “Ele deverá responder correctamente a TODAS as questões…” ERRADO! Ele pode errar todas as 100 questões, pois a infalibilidade papal não transforma o Papa num “sabe tudo”. Se o fizesse, o Papa poderia resolver todos os problemas do mundo, como a guerra e a fome; teríamos, então, a resposta final para o ecumenismo, entre outras coisas…

 
 

Algumas observações e versículos sobre a infabilidade de Pedro

 

No caso de S. Pedro e os seus sucessores, a infalibilidade é pessoal. Provaremos isso com argumentos tirados dos textos evangélicos e da história. O argumento escriturístico deriva dos mesmo textos que demonstram o primado de S. Pedro: “Tu és Pedro…”, pois é incontestável que a estabilidade do edifício lhe vem dos alicerces. Se S. Pedro, que deve sustentar o edifício Cristão, pudesse ensinar o erro, a Igreja estaria construída sobre um fundamento inseguro e já não se poderia dizer que “as portas do Inferno não prevalecerão contra ela”. Depois, com o “Confirma fratres” (“confirma os irmãos”), Nosso Senhor assegurou a Pedro que pedira de modo especial por ele, “para que a sua Fé não desfaleça” (Luc 22, 32). É evidente que esta prece feita em circunstâncias tão solenes e tão graves (o momento da paixão de Nosso Senhor) não pode ser frustrada. Finalmente, com o “Pasce Oves” (apascenta as Minhas ovelhas), foi confiada a Pedro a guarda, o governo, de todo o rebanho. Ora, não se pode supor que Jesus Cristo tenha entregue o cuidado do Seu rebanho, colocando S. Pedro como pastor, a um pastor que pudesse desencaminhar as ovelhas eternamente, ensinando o erro.

 
 

O que diz o Catecismo e o que é o pronunciamento “ex-cathedra”

 

A doutrina da infalibilidade papal é melhor esclarecida pelo Concílio Vaticano II: “[O Papa é infalível] em virtude da sua função, quando, como pastor supremo e mestre de todos os fiéis, a quem cabe confirmar os seus irmãos na Fé (Lc 22,32), proclama por um acto definitivo qualquer doutrina de Fé ou moral. Então as suas definições, por si próprias e não pelo consenso da Igreja, serão tidas como justamente irreformáveis, pois foram pronunciadas com a assistência do Espírito Santo, assistência esta que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro”. Isto simplesmente significa que, quando o Papa define um ensino sobre Fé ou moral, e o faz para ser compreendido e pregado por toda a Igreja, foi o próprio Espírito Santo quem o guiou, pois Ele o guiará “em toda a Verdade” (Jo 16,13). Esse dogma foi historicamente promulgado pelo Concílio do Vaticano I, realizado a 18 de Julho de 1870, e lê-se da seguinte forma: “O Romano Pontífice, quando se pronuncia “ex cathedra” – ou seja, quando exerce o ofício de pastor e mestre de todos os Cristãos – e define uma doutrina sobre Fé ou moral com a sua suprema autoridade apostólica, para que seja pregada em toda a Igreja universal (“doctrinam de fide vel moribus ab universa Ecclesia tenendam definit”), pela assistência divina prometida a ele na pessoa de S. Pedro, goza daquela mesma infalibilidade que o divino Redentor desejou que a Sua Igreja tivesse para definir doutrinas que versam sobre a Fé e a moral. Portanto, tais definições do Romano Pontífice são irreformáveis por si mesmas e não pelo consenso da Igreja”.

 

 

Fonte: A Fé Explicada


28
Mar 12
publicado por FireHead, às 19:44link do post | Comentar
Quando o pastor se transforma em lobo, compete primeiramente ao rebanho defender-se. (D. Guéranger, L’Anneé Liturgique, na festa de S. Cirilo de Jerusalém)

É possível e até necessário criticar os ensinamentos do Papa, se não estiverem suficientemente baseados na Escritura e no Credo, ou seja, na Fé da Igreja Universal. (O Novo Povo de Deus, S. Paulo, Paulinas, 1974, pg. 140) - Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI

É lícito resistir ao Pontífice que tentasse destruir a Igreja. Digo que é lícito resistir-lhe não fazendo o que ordena e impedindo a execução da sua vontade. (De Romano Pontífice, lib. II, c. 29) - São Roberto Belarmino
 
Quando o Soberano Pontífice fulmina uma sentença de excomunhão que é injusta ou nula, não se deve recebê-la. (São Roberto Belarmino)
 
Se o Papa baixar uma ordem contrária aos bons costumes, não se há-de obedecer-lhe; se tentar fazer algo manifestamente contrário à justiça e ao bem comum, será lícito resistir-lhe. (De Fide, dist. X, sect. VI, n.16) - Suarez
 
Se, como absolutamente não cremos, escolherdes uma outra via, e vos negardes a confirmar as decisões de nossa paternidade, valha-nos Deus, pois assim nos estareis afastando de vossa obediência. (citado por Bouix, Tract. de Papa, t. II, p. 650) - São Godofredo de Amiens e São Hugo de Grenoble
 
Anatematizamos Honório, que não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da Tradição Apostólica, mas permitiu, por uma sacrílega traição, fosse maculada a Fé imaculada (...) e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica, a chama incipiente da heresia, mas a fomentou por sua negligência. (Denz. Sch. 563) - Papa São Leão II
 
O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, pela Sua revelação, pudessem gerar nova doutrina, mas para que, pela Sua assistência, pudessem inviolavelmente guardar e fielmente expor a Revelação, ou Depósito de Fé, entregue pelos Apóstolos. - Concílio Vaticano I
 
Nem sempre é exacto dizer de maneira um pouco simplista: "onde está o Papa está a Igreja", ou "é necessário obedecer ao Papa sem restrições mesmo no âmbito em que ele não é infalível". Esta solução é mais fácil e mais cómoda. De facto, quando o Papa aborda certos assuntos reformáveis, mesmo em união com um Concílio, ele não pode engajar, e de facto não engaja, a plenitude da sua Autoridade Suprema. Ele não é, portanto, Papa em toda a extensão do sentido em que entendemos a fórmula "onde está Pedro está a Igreja". Em tempos tranquilos e serenos, isto não suscita nenhum problema especial. Em tempos de crise, porém, a coisa já não é mais assim. É, portanto, perfeitamente concebível, em certos momentos difíceis, que um Cristão que goze de especial clarividência, como Santo Atanásio no tempo do Arianismo, se separe das opções oficiais feitas pela Hierarquia em sua maioria (...). Isto não significa de modo algum que se separe da Igreja ou mesmo da comunhão com o Papado, no sentido mais misterioso e profundo da palavra, mesmo se, em tal caso particular, esse Papa decretasse o contrário e proferisse uma excomunhão. (citado em L’Obéissance dans l’Eglise, Lucien Méroz, Ed. Martin, conf. Le Chardonnet, jun/1990) - Cardeal Charles Journet
 
Por alguma fissura, a fumaça de Satanás está no templo de Deus: a dúvida, a incerteza, o questionamento, a preocupação, a insatisfação, o afrontamento surgiram. (...) Nós pensávamos que o amanhã do Concílio seria um dia ensolarado para a Igreja. Porém, encontramos novas tempestades. Nós procuramos cavar novos abismos ao invés de aplaná-los. Que aconteceu? Nós vos confiaremos o nosso pensamento: foi um poder contrário, do diabo, este ser misterioso, inimigo de todos os homens, qualquer coisa de sobrenatural, que veio apodrecer e secar os frutos do Concílio Ecuménico e impedir que a Igreja brilhe em hinos de alegria por ter descoberto a sua própria consciência. (Y. Chiron, op. cit. p. 320)

25
Mar 12
publicado por FireHead, às 21:04link do post | Comentar

publicado por FireHead, às 00:12link do post | Comentar
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23
Mar 12
publicado por FireHead, às 17:14link do post | Comentar | Ver comentários (3)

O Pe. Santiago Martín apresenta-nos um manuscrito desconhecido, dos primeiros séculos da nossa era, que narra a vida da Virgem Maria, supostamente escrito por S. João. Aquela que sempre viveu oculta aparece aqui em primeiro plano e de uma forma muito directa. Santiago Martín nasceu em Madrid em 1954, é formado em Biologia, Teologia Moral e Jornalismo, é o Director da Secção de Religião do Diário ABC e Director do Programa da TVE "Testemunho". Autor de uma dezena de livros de espiritualidade, é também fundador de uma associação Católica - os Franciscanos de Maria - dedicada ao trabalho voluntário e gratuito com todo o tipo de excluídos e que já está presente em seis nações.

 

 

Em 1884, um especialista em manuscritos antigos surpreendeu o mundo ao descobrir uma valiosíssima peça de arqueologia. Não se tratava de um jarro antiquíssimo nem de uma escultura grega. Tratava-se de um manuscrito. J. F Gamurrini encontrou, na biblioteca de Santa Maria de Arezzo (Itália), um documento que continha um relato quase completo de uma viagem à pátria de Jesus - O Itinerarium. Tratava-se do registo das impressões vivenciadas por uma monja que, no final do século IV, decidiu desafiar todos os perigos, embarcando na aventura de visitar a Terra Santa. Aquela mulher, nascida na Espanha ainda sob o domínio romano, escreveu tudo aquilo que viu e sentiu, com a intenção de, como ela mesma relata, não privar as suas irmãs de comunidade - as que denomina "veneráveis senhoras" e "amigas da alma" - das reconfortantes dádivas espirituais que recebeu durante a sua visita aos locais santos. O Itinerarium descoberto por Gamurrini na Abadia de Arezzo era uma cópia elaborada na Abadia de Montecassino, centro do mundo beneditino e fonte do saber e da produção intelectual vigente na Idade Média. Os monges beneditinos copiaram esse livro como o fizeram com tantos outros, porque isto fazia parte de seu trabalho quotidiano. "Exportavam" para catedrais e palácios em Montecassino como em outras abadias beneditinas, os livros eram copiados em série nos Scriptorium, enquanto um monge lia em voz alta o original.


Uma dessas cópias chegou a Arezzo, onde foi descoberta por Gamurrini. O Itinerarium, da monja espanhola Egeria (ou Eteria, ou Echeria, como outros a conhecem), na forma descoberta em 1884, estava incompleto. Faltavam o início e a última parte. Além disso, no seu interior, notava-se a falta de algumas páginas, provavelmente perdidas, embora estas lacunas tenham sido preenchidas pelos especialistas com dados sobre a situação de Israel na época, recorrendo a outras fontes de informação, principalmente o Liber de Locis Sanctis, de Pedro Diácono, escrito no século XI. É evidente que a cópia que saiu de Montecassino estava completa, bem como a cópia extraída do original naquela importante abadia. Os azares da história, as pilhagens e os saques sofridos pelos mosteiros, promovidos por gente ambiciosa e sem escrúpulos, destruíram uma infinidade de obras de arte ligadas em sua origem à fé. O que ocorreu com o Itinerarium foi um caso a mais. De facto, teria desaparecido para sempre se em Santa Maria de Arezzo não tivesse sido salvo, quase milagrosamente, um dos muitos exemplares que circulavam pelo Ocidente na Idade Média. Porém, não foi Montecassino o único local que conservou o documento legado pela monja Egeria. Ela morava num mosteiro situado na Galícia espanhola, que tinha por capital, nessa época (final do século IV), a Bracara Augusta, porém contava com um número apreciável de cidades importantes, herdeiras de passados brilhantes (as actuais Astorga, León, Lugo e Oviedo, para citar somente algumas). Na época da viagem de Egeria a Israel, reinava uma certa paz no conjunto imperial. Teodósio, espanhol como Egeria, acabava de morrer (395) e deixara o seu território praticamente pacificado, dividido entre seus dois filhos. A Honório coube o território do Ocidente, e a seu irmão Arcadio, o do Oriente, incluíndo a Palestina. As peregrinações, interrompidas havia muitos anos pelas contínuas lutas e pela repressão aos Cristãos praticada pelo imperador apóstata Juliano, floresceram. Numa delas embarcou Egeria. Embora o Itinerarium tivesse sido perdido, o nome de Egeria não desapareceu, devido ao facto de que a sua obra chamou a atenção quase em seguida. Dela fala o monje galego Valério, em meados do século VII, em uma carta - Ad frates Bergidensis - dirigida a um mosteiro, hoje também desaparecido, situado em El Bierzo. Tanto a linguagem utilizada por Egeria, os seus modismos ao escrever em latim, quanto o texto de Valério confirmam a origem espanhola dessa singular monja. Esses dados confirmam também a sua elevada posição social e económica, razões que possibilitaram a sua viagem, pois isso não era barato nem seguro, a não ser que se contasse com dinheiro suficiente e com influências para receber protecção nas numerosas escalas que um peregrino do século IV se via forçado a fazer para viajar do noroeste da Espanha até o outro extremo do Mediterrâneo. Pois bem, Egeria partiu e regressou. Foi anotando tudo durante o seu trajecto como um moderno turista e, ao concluir seu périplo, redigiu as suas impressões, confiando-as às suas irmãs de comunidade, bem como aos seus superiores e aos que proporcionaram e tornaram possível a sua experiência através de donativos. O Itinerarium começou a circular e teria obtido um enorme êxito "editorial" não fosse por uma circunstância infeliz. No ano de 407, pouco depois de Egeria chegar à sua pátria, com somente algumas cópias do manuscrito original circulando pelo mundo, a Espanha sofreu invasões de vândalos, que a arrasaram. Enquanto os visigodos se fixavam na Itália, na qualidade de aliados e protetores do imperador, outras tribos godas promoviam saques, contando com o auxilio de mercenários. Neste contexto de instabilidade, foi destruído o mosteiro de Egeria. Nada se sabe do seu destino final, nem do das suas companheiras de comunidade. Os invasores estabeleceram-se na antiga província galega e conservaram a actual cidade portuguesa de Braga como a sua capital. Os vândalos, por sua vez, deixaram a península - haviam se fixado em toda a Andaluzia - e passaram a invadir a África (429) destruindo, entre outras, a cidade de Hipona, onde, na época, Santo Agostinho era bispo. A lacuna deixada pelos vândalos em Espanha foi ocupada imediatamente pelos visogodos, que se encontravam estabelecidos no sul de França e possuíam uma próspera capital em Toulouse. Com tantas idas e vindas, não só foi destruído o mosteiro de Egeria, mas também foram arrasadas diversas vilas rurais, prósperos povoados e algumas cidades. A obra de Egeria desapareceu, salvando-se milagrosamente algumas das poucas cópias que foram elaboradas, uma das quais por fim permaneceu em Montecassino.


Tudo teria acabado assim não fosse pelo recente achado que deu origem a este livro. No conjunto de desastres e guerras que sofreu a Espanha, regista-se a política anticlerical de algumas de suas autoridades. Uma delas, Juan Álvarez Mendizábal, ordenou, para maior glória das hostes reais, "desamortizar" o capital "investido", segundo ele, pelo povo durante séculos nos conventos e mosteiros. A desamortização (1835 e 1836) não passou de uma maneira delicada de justificar um roubo gigantesco, um latrocínio monumental que sequer alcançaria os seus objectivos, pois foram os ricos que adquiriram, a preço baixo, o material leiloado procedente dos mosteiros, sendo que os pobres, na sua maior parte, não obtiveram nem migalhas. Como tudo foi posto à venda de uma só vez, a liquidação foi a preço de saldo, de maneira que nem o Tesouro Real conseguiu resolver os seus problemas. O que ocorreu, em contrapartida, foi que o património cultural veio abaixo e hoje se vêem centenas de ruínas por toda a Espanha, testemunhas mudas daquilo que antes foram florescentes mosteiros, centros de espiritualidade, de cultura, bem como centros de apoio à economia rural. Num desses espólios desapareceu um antigo centro arquitectónico beneditino, o de Obona, encravado no distrito asturiano de Tineo. Nesse fértil e elevado vale tinham-se estabelecido os monges beneditinos, que, durante o século XI evangelizaram a região e auxiliaram os seus agrestes moradores a melhorar o nível de vida. Os dois mosteiros geminados de Ibona e Bárcena foram chaves na operação. Ambos caíram vítimas da rapina inútil de Mendizábal. Ambos os templos passaram a pertencer à arquidiocese de Oviedo, excepto as terras e parte dos seus tesouros culturais e artísticos.


A maior parte das posses de Obona foi adquirida por uma rica família asturiana que havia constituído a sua primeira fortuna com a importação de café procedente de Cuba e com a instalação de uma fábrica para a torrefação do produto. A biblioteca do mosteiro tornou-se apetitosa para aquele indiano, que a transladou quase toda para o seu casarão em Oviedo, sem saber exactamente o que levava, como se comprasse livros a quilo ou a metro e não pelo seu conteúdo. Tais obras passaram anos na obscuridade das estantes, embora todos na família soubessem que encerravam grandes tesouros e discutissem a necessidade de repartir a herança de bens tão incalculáveis e valiosos, que ninguém sabia precisar.

 

Por fim, numa dessas ocasiões, um fragmento do tesouro inicial, cortado e repartido ao longo do tempo, como se fossem peças de tecido ou número de contas correntes, chegou às mãos de um amigo meu, ilustre sacerdote da arquidiocese de Oviedo, cuja dedicação à leitura e ao pó dos manuscritos quase igualava-se à sua fidelidade ao Papa e aos aspectos legítimos da liturgia romana. Um dia, faz alguns meses, recebi um telefonema seu. Já me havia falado, em incontáveis ocasiões, do legado que havia recebido por herança de um tio, descendente directo da família que se beneficiara com as tropelias de Mendizábal. A ele, como sacerdote, foram confiados alguns livros procedentes do mosteiro de Obona. Folheava-os, pouco a pouco, e doava alguns ao acervo da arquidiocese, porém retinha para si aqueles que traziam mais iluminuras, entre eles uma cópia dos antigos beatos escrita originalmente nas proximidades do vale de Liébana.


Meu amigo, ao qual chamaremos de dom Ignácio, estava nervoso quando me contactou. Sabia do meu interesse pela história antiga e medieval e de meus contactos profissionais com editoras. Embora Oviedo não esteja a um passo de Madrid, ele reclamava urgentemente a minha presença na capital asturiana. Ele poderia ir a Madrid, porém não desejava transladar o "tesouro" que, segundo me disse, acabara de descobrir. Aquilo que mostrou não me decepcionou. É certo que Oviedo guarda tesouros ainda maiores - são cada vez mais consistentes os dados que identificam o sudário custodiado na santa câmara de sua Catedral com o tecido que serviu como mortalha para o rosto de Cristo -, mas aquilo que dom Ignácio possuía podia ser considerado um descobrimento comparável aos famosos manuscritos de Qumran, os rolos dos antigos essénios que viviam junto ao Mar Morto, ou, quem sabe, ainda mais importante do que esses. Era, como o leitor já pode imaginar, uma cópia do Itinerarium da monja Egeria. Uma cópia muito antiga, talvez dos primeiros anos do século VII. Possivelmente a quarta ou quinta geração das primeiras que foram feitas e levadas a algum mosteiro da Galiza hispano-romana, passando depois, junto com outros livros preciosos, por vicissitudes e perigos, até que, após a reconquista empreendida pelo mítico dom Pelágio, algum exemplar tenha ficado depositado nos mosteiros beneditinos que floresceram no novo reino Cristão, e dali, por volta do século X, tenha passado a Obona, sempre em terras asturianas. Dom Ignácio estava a par tanto da aventura da monja Egeria, quanto do seu Itinerarium. Entendia que o antigo livro que possuía era um tesouro extraordinário. Comparava-o com o de Arezzo, porque sabia que neste último faltavam alguns capítulos, e o seu estava completo. Entrei em contacto com a embaixada italiana em Espanha e com a delegação espanhola no país vizinho. Graças aos seus bons préstimos, pudemos obter, não a baixo custo, uma cópia microfilmada do texto encontrado na Itália, que cotejamos com o texto procedente de Obona. As diferenças eram mínimas, naturais das sucessivas cópias, com os habituais erros de transcrição dos copistas medievais. E foi então que decidimos traduzir os dois capítulos que foram conservados no texto asturiano mas destruídos no de Arezzo. Como não sei latim e dom Ignácio estava deslumbrado com a importância do empreendimento, ainda em segredo e sem dar a conhecer o descobrimento a ninguém, demos o trabalho relativo ao primeiro capítulo a alguns peritos da Biblioteca Nacional de Madrid; e o do último, a especialistas do Museu Nacional de Arqueologia. Não os colocamos em contacto nem dissemos de onde procedia o material cuja tradução estávamos solicitando. No primeiro caso, tudo transcorreu conforme o esperado. Era uma introdução devotada em que Egeria explicava os motivos de sua viagem e agradecia a ajuda recebida dos seus patronos e protectores. Havia somente um trecho que nos deixou confusos, porque a monja fazia uma alusão, quase como uma desculpa, à inclusão que faria no último capítulo, pois ela mesma não estava segura de que se tratava de algo correcto, de uma obra ortodoxa e não de um texto procedente de um desvio herético. Nada mais dizia e deixou que o leitor e as autoridades da Igreja julgassem por si mesmos, reiterando as suas desculpas para o caso de não ter agido correctamente ao incluir aquele texto, que não era seu, no conjunto da obra.


Quando nos chegou o relatório dos peritos do Museu de Arqueologia, o meu amigo e eu pensamos que iríamos sofrer um enfarte. A emoção de um crente se mesclava com os nervos de dois aficcionados pelos documentos antigos que possuíam em mãos, uma obra não só majestosa como também até então desconhecida. O próprio título já nos deixava estupefactos. Tratava-se do Evangelho Apócrifo da Virgem Maria. Um texto ao qual se referiram alguns dos primitivos padres da Igreja, que, no entanto, não tinham a certeza de ter existido. Naturalmente que Egeria, quando o recebeu, já traduzido para o latim, das mãos de um monge grego companheiro de São Jerónimo (que vivia em Belém, na época em que Egeria ali estivera, e havia residido na cidade natal de Jesus entre os anos 387 e 420), sentiu-se emocionada, porém teve receio de tratar-se de um texto herético, devido à confusão que envolvia o santo dálmata, em plena luta contra a heresia pelagiana, que tivera de fugir de Roma após a morte do Papa Dâmaso, acusado por Rufino de fidelidade à heresia origenista.


Egeria explica os seus temores na introdução que faz ao apócrifo mariano. Diz com clareza que não aposta na sua autenticidade e que, embora o monge que lhe fornecera a cópia garantisse se tratar de um texto autêntico e ortodoxo, ela não poderia afirmar isso com convicção. Em todo o caso, a monja espanhola não hesita em assegurar que a sua leitura revelara-se piedosa e de grande proveito espiritual, motivo pelo qual, após muito vacilar, atrevia-se a incluí-la como um apêndice do seu Itinerarium. É possível que esta dúvida de Egeria tivesse contagiado os monges de Santa Maria de Arezzo. É possível que a falta dos dois capítulos no texto que se conservava na sua biblioteca não fosse casual. É possível que algum zeloso defensor da ortodoxia chegasse a pensar que as recordações da Virgem Maria pudessem diminuir a divindade de Cristo, pois nelas se mostra o lado humano do Seu Filho. Poderia alguém ter receio que, na época mais dura da Inquisição, a inclusão de um apócrifo naquela biblioteca pudesse despertar suspeitas de conivência com as odiadas heresias. É possível até que algum severo inquisidor tenha ordenado separar e queimar os dois capítulos que faltavam à cópia italiana do Itinerarium. Em todo o caso, em Espanha se conserva agora o texto integral e o melhor que se pode fazer é ler e interpretar o que durante séculos permaneceu oculto.


Este é, segundo uma piedosa tradição, O Evangelho Secreto da virgem Maria, as suas memórias, narradas a João Evangelista em muitas daquelas tardes em que ambos descansavam das suas respectivas tarefas, nas cercanias da cidade grega de Éfeso. Que julgue o leitor o valor espiritual do texto e que deixe penetrar em si a ternura com que uma velha mãe fala de si mesma, do Seu filho e da aventura que Deus, num dia de Primavera, havia posto em andamento.

Fonte: http://www.visionvox.com.br/biblioteca/o/o-evangelho-secreto-da-virgem-maria.txt (Para quem quiser ler o apócrifo todo)


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Tive uma vez quinze anos!

 

Fazia alguns meses que me tornara mulher!

 

Lembro-me, apesar de haver passado tanto tempo e tantas coisas, a ternura da minha mãe, Ana, e a suave firmeza do meu pai, Joaquim.

 

Aquele dia era sábado. O meu pai tinha ido à sinagoga para ouvir, como sempre, a leitura de um texto da Torá e a explicação que dava o rabino. A minha mãe e eu também íamos e ficávamos bem juntas, respeitando o costume que separava os homens das mulheres. Nesse dia não pudemos comparecer e aguardámos a volta de Joaquim, para que nos dissesse o que havia ocorrido.

 

O sol já se recolhia e o sábado terminava quando o meu pai nos transmitiu o texto que fora lido na sinagoga. Era do profeta Isaías, um dos meus favoritos. Com voz solene e mais cantando do que recitando, Joaquim disse:

 

“Que belos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz boas novas, que anuncia a salvação, que diz a Sion: ‘Já reina teu Deus! Uma voz! Teus vigias elevam a voz, emitem gritos de júbilo, porque com os seus próprios olhos vêem o retorno de Yaveh a Sion. Prorrompei em uníssono em gritos de júbilo, solitários de Jerusalém, porque Yaveh consolou o Seu povo e resgatou Jerusalém’.”

 

Independentemente disto, o meu pai explicou-nos o que havia dito o rabino do nosso povoado, Asaf, filho de Coré. Tratava-se de um homem amável, idoso, porém sempre carinhoso com todos, especialmente com as crianças, por isso sempre o ouvi com dedicação, interrompendo as brincadeiras dos meus primos quando ele passava, pois todos queriam beijar a orla do seu manto.

 

Joaquim disse a mim e à minha mãe que naquela manhã Asaf estava preocupado. As notícias que chegavam das cidades que abrigavam destacamentos romanos não eram boas. Falava-se de tumultos entre alguns dos nossos e, inclusive, se comentava que na longínqua Jerusalém havia muita inquietação e que alguns rabinos haviam dito que a chegada do Messias poderia estar próxima, segundo se podia deduzir de certa profecia que fazia referência ao Seu nascimento em Belém, a cidade de David. Asaf, tranquilo como era, não desejava alarmar os seus ouvintes, entre outras coisas, porque, como ele mesmo lembrou naquela manhã, notícias semelhantes se produziam desde que os romanos ocuparam Israel e mesmo antes, sob a dominação dos sírios de Antíoco. Sem dúvida, comentou o meu pai, naquela ocasião a voz do nosso rabino parecia menos tranquila que de costume e as suas recomendações sobre calma eram menos convincentes.

 

Algo se preparava e pessoas como Asaf, como meu pai ou como a minha mãe, intuíam isso sem saber exactamente do que se tratava. Por isso o rabino escolhera o texto de Isaías; para transmitir uma mensagem de paz e esperança aos habitantes da nossa aldeia. Se o Messias estava por vir, como alguns diziam, deveríamos manter a calma, porque a Sua chegada seria a do príncipe da paz. Qualquer outra atitude seria, no fundo, uma falta de confiança no Todo-Poderoso, em cujas as mãos estão sempre as nossas vidas. Estas coisas sempre entusiasmavam a minha mãe Ana e a mim. Ouvíamos Joaquim, apertadas uma contra a outra junto ao fogo do nosso lar, numa noite de Nisan, bela e suavemente fresca. Nós as duas acreditávamos firmemente no que a Torá e os outros livros sagrados ensinavam, e Ana tinha muito cuidado ao ensinar-me o significado da fé em Yaveh, o amor e o respeito que Lhe devíamos, e a necessidade de observar fielmente a Aliança que Ele havia pactuado com o nosso povo. Por isso não nos surpreendia nada do que pudesse ocorrer, pois estávamos convencidas de que, a um só gesto de Deus, nem as poderosas legiões romanas poderiam enfrentar o Messias quando Este surgisse no mundo. Aguardávamos a Sua chegada e rezávamos todos os dias para que isto ocorresse o mais cedo possível, mas nunca antes do tempo indicado, do momento em que a vontade do Todo-Poderoso previra.

 

Eu, mais do que minha mãe, por causa dos meus quinze anos recém-completados, gostava de sonhar com o Messias. Também o faziam minhas companheiras e falávamos muito Dele nos nossos encontros, principalmente na fonte do povoado, quando íamos lavar as nossas roupas no arroio. Porém, eu desejava ardentemente que esse Messias fosse um mensageiro da paz e do amor de Deus, dois sentimentos que os meus pais sempre me inculcaram, embora quase todas as minhas amigas se deliciassem em falar de palácios e de grandes festas. Situação pior era com os meus primos, os quais tive que enfrentar em mais de uma ocasião, pois para eles o Messias que tanto se aguardava não era outra coisa senão um líder militar. Quando eu lhes falava das qualidades espirituais que adornariam a Sua alma, eles zombavam de mim dizendo que eu era uma menina incapaz de entender o que convinha ao povo de Israel, acreditando que um Messias bondoso fosse capaz de expulsar os romanos da nossa pátria.

 

Enfim, naquela noite de sábado de Primavera, a minha mãe e eu ouvíamos atentamente Joaquim, que nos estava contando a prédica do rabino Asaf. Tudo ia bem e se desenrolava conforme gostavam meu venerado rabino e meus pais, até que Joaquim disse algo que nos surpreendeu. Disse que, chegando a um certo momento da sua exortação, Asaf pareceu emudecer. Lia parágrafo por parágrafo o texto de Isaías, explicando-os em seguida até que, de repente, ao ler o que estava escrito empalideceu, fechou o livro, sentou-se e se pôs a chorar.

 

Vários homens do povoado, entre eles o meu primo José, com quem os meus pais me haviam comprometido em matrimónio, e o meu próprio pai, se acercaram de Asaf, por não conseguirem extrair dele palavra alguma. A assembleia se dissolveu e não se parou de falar sobre o assunto, todos intrigados com o que tinha lido Asaf. Como ninguém possuía o livro de Isaías, não se podia consultar o texto que tanto havia impressionado o nosso bom rabino, e assim decidiram recorrer a um homem de Caná, que morava no nosso povoado e que não fora aquela manhã à sinagoga porque estava de cama com febre. Era um mestre no conhecimento das Sagradas Escrituras e recitava de memória passagens inteiras, além de ser amigo da minha família.

 

O meu pai, consciente do aspecto intrigante que estava mostrando no seu relato, fez uma pausa e olhou-nos atentamente. Nós as duas estávamos boquiabertas, não assustadas, porque Ana, minha mãe, tem tanta fé em Deus que duvido que algo consiga abalar seu ânimo. Mas estava muito interessada. Joaquim, depois de um momento de silêncio que aumentou a expectativa, disse-nos que chegando à casa de Adonias, o cananeu, e a ele foi tudo explicado. Quando lhe disseram qual era o texto que Asaf havia lido, Adonias fechou os olhos e começoua a murmurar em voz baixa, até que chegou ao ponto do texto onde o rabino o interrompera. A partir daí, já em voz alta, acrescentou:

 

“Quem deu crédito a essa notícia? E o braço de Yaveh a quem se revelou? Cresceu como um novo broto diante dele, como raiz em terra árida. Não possuía aparência nem presença. Vimo-lO e não tinha imagem que pudéssemos estimar. Desprezível e refugo dos homens, varão de dores e conhecedor de doenças, como alguém diante de quem se oculta o rosto, desprezível, e não O percebemos. E contudo era as nossas doenças que carregava e as nossas dores que suportava! Nós O deixámos ser açoitado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi ferido por nossas rebeldias, punido por nossas culpas. Ele suportou o castigo para nos trazer a paz e com as Suas contusões fomos curados. Todos nós erramos como ovelhas, cada um seguiu o seu caminho, e Yaveh descarregou sobre Ele toda a nossa culpa. Foi oprimido, se humilhou, e não abriu a boca. Como um cordeiro levado à degola e como uma ovelha que frente aos que a tosquiam fica emudecida, Ele também não abriu a boca.”

 

Naturalmente que o meu pai pudera lembrar para nós todo aquele longo parágrafo porque o havia escutado e meditado sobre ele muitas vezes, e bastou Adonias iniciar sua declamação para que o acompanhasse em viva voz.

 

Joaquim também nos disse que alguns dos que foram consultar Adonias não quiseram dar crédito ao que dizia, porque isto poderia significar que o Messias anunciado pelo profeta Isaías não era um Messias Rei, um Messias libertador do jugo romano, e até poderia dar a entender que Ele fora traído pelo próprio povo, o que era absurdo e impossível.

 

Desse modo, divididos e confusos, saíram todos da casa do cananeu, mais preocupados ainda do que quando haviam entrado.

 

O meu pai e José, meu querido primo e quase meu marido, voltaram juntos, subindo a encosta até nossa casa, onde José deixou o meu pai, não sem antes pedir-lhe que me saudasse em seu nome, o que sempre me fazia corar. O problema é que os dois estavam de acordo em reconhecer que Adonias não se equivocara de texto e que, possivelmente, o Senhor Todo-Poderoso enviara algum sinal ao nosso rabino Asaf, que o surpreendeu a ponto de fazê-lo emudecer.

 

“Estamos em tempos sublimes, tempos de Deus. Não devemos temer, porque o Senhor nunca abandona o Seu povo, porém devemos orar intensamente para que a cada instante se faça a Sua divina vontade.”

 

Assim disse o meu pai, dando por terminado o relato e indicando-nos em seguida o horário tardio, próprio para se deitar. Obedeci imediatamente e fui ajudar a minha mãe nas últimas lidas da casa, e logo me encaminhei ao meu quarto.

 

Não podia dormir. Lá fora cantavam os grilos. A lua era lindíssima e a sua luz se filtrava pela tela de tecido que encobria a janela do meu quarto. Não havia vento e eu estava tranquila, estranhamente tranquila, pois apesar do que o meu pai nos havia contado, não me sentia inquieta. No entanto, não podia dormir.

 

Assim, comecei a rezar. Algo dentro de mim me dizia que o Senhor estava esperando uma palavra minha. Eu a pronunciei em seguida e lhe disse que se Ele queria enviar um Messias diferente daquele que todos esperavam, para mim era igual. Eu não queria que a Sua vontade se adaptasse aos meus desejos e sim o contrário. Disse-lhe também que me dava muita pena o facto de que o Messias ia ser entregue em sacrifício por nossos pecados, como um daqueles cordeiros que são mortos na noite de Páscoa, quando se comemora o gesto que marcou a origem do nosso povo, a acção de Deus contra os primogénitos dos egípcios.

 

Eu não entendia como podia vir um Messias que fracassasse no final. Os argumentos das minhas amigas, dos meus primos e dos meus antepassados, à excepção dos meus pais, pareciam-me cheios de razão. Achava lógico que Deus interviesse a nosso favor, como já havia feito no passado, na época dos Juízes ou dos Reis, quando produziu um chefe poderoso que devolveu a liberdade e a grandeza da nossa pátria. Porém, como a meus pais, não me dava prazer algum imaginar cenas de guerra e violência, de sangue e desolação que forçosamente acompanhariam essa liberdade, por mais gloriosa que fosse. Além disso, e agora a coisa já se complicava, parecia-me estranho e mais incomum ainda, que o Messias tivesse que padecer em nome de todos, sendo Ele inocente e nós culpados.

 

Sentia fortemente que, naquela noite, o Senhor esperava algo de mim. A minha resposta foi positiva. Disse-lhe que, por mim, as coisas se fariam de acordo com a Sua vontade e não seguindo os meus cálculos ou previsões. Portanto, se Ele, Yaveh, resolvera que as coisas iriam se desenvolver do Seu modo, eu aceitaria e, como em ocasiões anteriores, ofereci-me para ajudar no que fosse possível, sabedora, de antemão, que tudo o que eu fizesse seria pouco, jovem como era e a ponto de casar-me brevemente.

 

Foi quando tudo ocorreu.

 

Não havia pronunciado o meu último sim, quando o meu pequeno quarto se encheu de luz. Estava ajoelhada, com a minha roupa modesta presa acima dos joelhos para não rasgá-la, quando ele apareceu.

 

Confesso que não me assustei. Bem, me assustei sim, mas se tratava de um medo que não era medo.

 

O facto é que ali estava ele. Belo e luzidio, doce e cheio de paz. Nunca me ocorreu que fosse um enviado do Maligno, pois a paz que dele emanava era representativa apenas de Deus. Aliás, este fruto eu já saboreava antes, quando rezava e passava as longas horas livres das tardes de sexta-feira entre as oliveiras ou no meu quarto. Essa mesma paz, a de Deus, encontrava profundo eco em mim. A Sua paz e minha paz se entrelaçavam, como se no meu interior nunca tivesse existido outra coisa senão a harmonia divina, uma paz semelhante a que esse mensageiro do Senhor emanava.

 

Estou-me referindo ao anjo Gabriel.

 

Não só era belo e cheio de paz, mas também falava. Se tivesse permanecido calado, talvez eu tivesse brincado com ele, pois era grande a minha sintonia entre a sua alma e a minha tranquilidade. Porém, quando começou a falar assustei-me um pouco. Não porque a sua voz fosse feia, mas o que me disse me deixou perplexa.

 

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo”, foram suas primeiras palavras.

 

Naturalmente era de provocar espanto. O que significava “cheia de graça”? Não estávamos todos sob o efeito do pecado original, como nos ensinavam na sinagoga? Não seria, pois, um convite à soberba? Não me havia deixado enganar com a sua aparente espiritualidade?

 

Ele se deu conta em seguida e tentou tranquilizar-me: “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Irás conceber no teu ventre e darás à luz um filho, a quem darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado “Filho do Altíssimo”. O Senhor lhe dará o trono de David, seu pai. Reinará sobre a casa de Jacó pelos séculos e seu reino não terá fim”.

 

Na verdade não eram palavras muito tranquilizantes. Dizia-me “não temas”, mas o que vinha em seguida era mais sério e preocupante ainda.

 

Sem dúvida, acostumada a responder com um “sim” a tudo o que Deus me pedia e já com a certeza íntima de que aquele era um mensageiro Seu, nem pensei no problema em que me metia, nem nas consequências que poderiam resultar do facto de eu já estar de uma maneira ou de outra, casada, ou pelo menos comprometida com José. Já lhe ia dizer que sim quando o sexto sentido que possuem as mulheres me levou a fazer uma pergunta, uma espécie de prova para cretificar-me de que, em verdade, o Senhor Todo-Poderoso era quem enviava aquele mensageiro. perguntei-lhe: “Como ocorrerá isso, se eu não conheço varão?”

 

Não se tatava de algo sem importância. Para mim isto era fundamental. De facto, ou se resolvia esse ponto, deixando claro que eu não me veria forçada a fazer nada que não tivesse de acordo com os preceitos de uma jovem honesta, ou não poderia estar segura de que o que me oferecia vinha directamente de Deus. Deus não poderia contradizer Deus. Deus não poderia ter semeado em minha alma, durante toda a minha vida, uma necessidade de pureza e de consagração para depois conduzir-me por caminhos contrários. E como aquilo que eu recebera sem dúvida era coisa Sua, o que ocorria agora, se também vinha de Suas mãos, forçosamente deveria estar em perfeita sintonia com o anterior.

 

O anjo Gabriel soube dissipar todas as minhas dúvidas: “O Espírito Santo descerá sobre ti”, afirmou, “e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso Aquele que nascer será santo e será chamado Filho de Deus”. Estas últimas palavras colocaram tudo no seu devido lugar. Eu continuaria mantendo a minha virgindade e minha pureza de alma e de corpo, sem ter que passar por situações que causavam repugnância não só a mim como a toda e qualquer moça honrada. É que os meus pais haviam dito muitas vezes que eu nunca devia aceitar isso de que os fins justificam os meios, por mais que fosse um lema muito usado, principalmente na hora de realizar negócios lucrativos ou quando se queria justificar a violência contra os romanos.

 

O fim era neste caso o melhor, ou ao menos assim se apresentava: deixar que nascesse ninguém menos do que o Messias. Porém eu queria assegurar-me de que também os meios e a forma como aconteceriam os factos seriam correctos. Basicamente, se assim não ocorresse, eu saberia de imediato que por trás disso não se encontravam os desígnos de Deus. O Senhor não se contradiz – não diz hoje “sim” e amanhã “não”. Ele é sempre um “sim” grande, nobre e permanente. Além do mais, a situação não era tão diferente do assunto sobra o qual eu estava meditando antes que o enviado de Deus enchesse com a sua luz o meu pequeno quarto. O povo de Israel, meu povo, queria um libertador a todo custo. A meus pais e a mim própria parecia que neste “a todo custo” havia algo que não se encaixava muito bem com a bondade divina. Nós também desejávamos que viesse o Messias para nos libertar do jugo estrangeiro, porém não a qualquer preço, não ao preço do ódio, da guerra, da violência.

 

Ainda estava tecendo estas conjecturas quando o anjo voltou a falar. Quem sabe pensava que eu tinha dúvidas. O facto é que acrescentou: “Olha, também Isabel, tua parente, concebeu um filho em sua velhice e este já é o sexto mês daquela que chamam estéril,  porque nada é impossível a Deus.

 

Não havia necessidade deste argumento, porque eu já estava decidida. De modo que, para evitar que suspeitasse de minha vontade de aceitar o que Deus me pedia, precipitei-me a dizer-lhe o que gritava o meu coração desde o primeiro momento, uma espécie de consentimento matrimonial, um “sim, quero”, que saía de mim com tanta força que me assustou, porque eu não estava acostumada a ímpetos semelhantes. “Eis aqui a Escrava do Senhor”, disse-lhe, “faça-se em mim segundo sua palavra.”

 

Então Gabriel foi-se embora. Sorriu-me e se foi. Senti algo como um beijo nas minhas mãos, como o roçar das asas de um pássaro suave e doce. Porém, o melhor foi o seu sorriso. Durante todo o tempo que durou nosso encontro, pareceu como se ele estivesse nervoso, mais ainda do que eu. A sua atitude era de expectativa de alguém que teme que possam duvidar do seu pedido e se joga todo nele. Depois compreendi que não só ele mas também a criação inteira dependia das minhas palavras naquela noite de Primavera. Todos aguardando que uma insignificância como eu, uma menina de quinze anos que apenas começava a ser mulher, desse permissão ao Todo-Poderoso para inaugurar uma nova criação, uma nova aliança, uma história de amor definitiva e eterna com um povo na qual cabiam todos os homens.

 

O facto é que eu disse “sim”. Disse ao mensageiro para levar o recado ao Senhor. Não pensei demais nas palavras exactas. Foram as que me saíram da alma naquele momento. Sabes como são estas coisas: se te dessem tempo, comporias uma bela oração ou, até mesmo, a encomendarias a um rabino ou a um homem versado em letras. Mas assim de repente, a uma pobre adolescente de aldeia só ocorreu usar a linguagem simples e vulgar a que estava acostumada, sem adornos nem sofisticação. Por isso falei em “escrava”. Eu não era escrava. Os meus pais eram livres e tínhamos a dignidade e desejos de liberdade que sempre caracterizaram o nosso povo, indómito entre os indómitos e muito zeloso de suas tradições. Eu era e sempre fui contra a escravidão, por mais que algumas pessoas do povoado tivessem escravos em suas casas e que outros dissessem que sem a existência dos escravos nada funcionaria sob o ponto de vista económico. Em minha casa, isto de usar maus meios para bons fins nunca nos agradou, como nunca nos chegou a convencer o “mal menor” de que falavam alguns, geralmente para justificar algo injustificável.

 

Contudo, na hora de expressar o meu consentimento, falei aquilo de escrava. Pode parecer uma bobagem, um contra-senso inclusive, uma vez que eu era contra a escravidão. Porém, tão pouco me arrependo, apesar de terem-se passado tantos anos e de eu ter meditado muito sobre isso. Não só respondi prontamente, sem pensar, como também, se agora tivesse que repetir tudo de novo, eu diria o mesmo.

 

Quero ser escrava do Senhor. Somente do Senhor, isto sim. Porém, com todas as minhas formças. Ser a Sua escrava não significa não possuir dignidade nem carecer de liberdade, mas sim colocar minha liberdade ao Seu serviço e confiar a minha dignidade aos Seus cuidados. Ele sabe cuidar de mim muito mais do que eu mesma. Não fosse assim, ai estão tantos que se dizem livres e no entanto são escravos do vinho ou de vícios muito piores. Eu vivo por Ele e para Ele. Fui eu que escolhi, ninguém impôs nada, quando me foi pedida a permissão para que pudesse nascer o Messias. Porém, devido à liberdade que tenho, digo-Lhe: aqui me tens, sou Tua escrava, podes fazer de mim o que quiseres, me abandono a Ti, utiliza-me para os Teus fins e só peço que sejas Tu a cuidar de mim. Sou obra das Tuas mãos e não desejo outra coisa que ser espelho que reflicta a Tua glória e o Teu prestígio.

 

Sou a escrava do Senhor. Sou Sua esposa. Sou a Mãe do Seu Filho. Porém, esta é outra história, querido João, que te contarei amanhã.


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O Evangelho Secreto da Virgem Maria
Por Santiago Martín

 

Revista: `Pergunte e responderemos`

D. Estevão Bettencourt, OSB

Nº 480 - Ano 2002 - Pág. 229

 

 

Em síntese: O livro, falsamente atribuído à Virgem Maria, imagina a Santa Mãe de Deus, no fim da vida terrestre, a contar a João como ela viu a vida e as façanhas de Jesus. Segue a trama dos Evangelhos e a parafraseia, ilustrando-a com notícias fantasiosas. O próprio autor dessa obra afirma tratar-se de uma composição literária que não tem valor histórico senão quando segue o arcabouço do Evangelho.


As editoras Paulus (Católica) e Mercuryo (que publica livros falsamente Cristãos) oferecem ao público “O Evangelho Secreto da Virgem Maria”, obra de título atraente, mas ilusório. O autor do livro é o sacerdote espanhol Santiago Martín, que, baseado na trama dos Evangelhos, tenta descrever como a Virgem Maria se sentia nas diversas fases da sua missão de Mãe de Jesus. A narração pretende ter base num apócrifo descoberto em Jerusalém pela monja peregrina Eteria, no século IV. No fim da sua vida terrestre, Maria estaria contando a João Evangelista a sua vivência junto a Jesus. A leitura é interessante, mas põe o leitor diante de cenas gratuitamente imaginadas que podem passar por autênticas a um leitor desprevenido.

 

Na sua Nota Final (p. 223) observa o autor:


”Como o leitor, sem dúvida, adivinhado, o conteúdo deste livro é uma composição literária, por mais que beba das fontes da tradição da Igreja e esteja em sintonia com o ensinamento oficial. O autor tentou - com ousadia talvez excessiva - colocar-se na pele da personagem, neste caso a Santíssima Virgem, para tentar expressar aquilo que ela deve ter sentido e como deve-lhe ter custado amar nas difíceis travessias que Deus lhe pedira que empreendesse. Em todo caso, o resultado - o autor é também consciente disso - não é mais do que aproximado; se é difícil saber o que pensa, experimenta ou sofre outra pessoa, o mistério se torna ainda mais insondável quando se trata de nada menos que o mistério da Imaculada, daquela que foi concebida sem pecado e que jamais conheceu a mancha que nos perturba tanto a alma quanto o corpo. Se a leitura deste relato serviu para conhecer mais Maria, para amá-la mais e para imitá-la melhor, todos aqueles que trabalharam nesta obra se darão por satisfeitos e altamente recompensados. Se não é este o caso, como nas antigas representações de teatro, rogamos ao leitor que nos perdoe e seja indulgente connosco”.

 

O traço feminino que o autor mais põe em relevo, é o amor... amor de Maria a Jesus e a São José, seu esposo, como também o amor de Jesus a toda a humanidade.


Propostas estas considerações gerais, merecem atenção alguns tópicos particulares do livro.

 

 

Alguns pontos particulares 

 

1. A consciência de Jesus


O Jesus desse “Evangelho” apócrifo ignora coisas importantes:


”Disse-me que sabia que Deus era o Seu Pai e sobre a Sua concepção não saberia responder. Inclusive perguntou-me se tinha acontecido algo extraordinário” (p. 108).


”estava chegando aos trinta anos e continuava em casa, cuidando da Sua mãe... Uma vez mais, Deus O punha à prova com essa espera tão prolongada, que não se sabia quando iria terminar. Deus Lhe ensinava a escutar a Sua voz” (p. 129).

 

Donde as perguntas: Jesus ignorava algo da Sua identidade?... algo da Sua missão?


Em outros termos: Visto que Jesus era verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, pergunta-se: Jesus, como Homem ou na Sua consciência psicológica, sabia que era Deus? Sabia que a Sua natureza humana estava unida à divina e subsistia pela Segunda pessoa da Santíssima Trindade?


Eis a resposta mais plausível que a estas perguntas se possa dar: Jesus tinha uma só pessoa, que era divina, ou a pessoa do Filho de Deus. Encarnando-se, essa pessoa nada perdeu do que era e possuía eternamente; por conseguinte, mesmo peregrino na terra, o eu de Jesus conhecia tudo o que Deus conhece: o mistério da Santíssima Trindade com a sua riqueza de atributos, e todas as coisas.


Além da Sua natureza divina, Jesus tinha uma natureza humana. Esta, embora não tivesse um eu humano próprio, mas vivesse do eu do Filho, tinha uma consciência psicológica, isto é, a faculdade de conhecer a si mesmo (como todos nós a temos). É aqui que se coloca a pergunta: como essa consciência humana de Jesus via a humanidade de Jesus?

 

Respondemos. A consciência humana de Jesus:

 

1) Sabia que Jesus era verdadeiro Homem e vivia como verdadeiro Homem;

2) Sabia que subsistia pela subsistência da Segunda pessoa da Santíssima Trindade.

3) Não podia crer que tinha uma pessoa humana; isto implicaria em Jesus uma tremenda ilusão a respeito de Si mesmo.


Em conseqüência, Jesus teve uma experiência religiosa tal como nenhuma criatura humana teve. Por isto podia dizer que ninguém conhece o Pai senão o Filho e ninguém conhece o Filho senão o Pai (cf. Mt 11, 25s). Não era possível que Jesus tivesse a consciência humana de Si mesmo sem conhecer que Ele tinha Deus como Pai... o Pai que é a primeira pessoa da Santíssima Trindade.


Na consciência de Jesus, o Divino tinha a supremacia; o principal traço dessa consciência era saber-se Filho de Deus. Isto, porém, não atenuava em Jesus a noção de ser verdadeiro homem, portador do destino do mundo inteiro, chamado a uma vida autenticamente humana até a morte, e morte de cruz.


Todavia não é necessário dizer que Jesus tinha sempre de modo plenamente actual a consciência de ser o Filho de Deus. Com outras palavras: não somos obrigados a crer que Jesus pensasse a todo momento: “Eu sou o Filho de Deus”; podemos admitir que Ele possuísse tal noção como um hábito que nunca se apagava, mas que nem sempre emergia das profundidades da Sua consciência; paralelamente, um Rei, embora nunca ignore que é Rei, nem sempre está a recordar que é Rei da Sua nação.

 


2. Uma ou três mulheres?


O autor identifica Maria, irmã de Marta e Lázaro, com a Madalena:


”Do outro lado, encontravam-se a outra Maria, irmã de Lázaro e Marta, a que chamam de Madalena...” (p. 194).


Em nossos dias a exegese distingue três mulheres, que os antigos identificavam entre si numa só, chamada Madalena. Com efeito:


- a irmã de Marta e Lázaro é uma santa mulher, que escolheu “a melhor parte”, pondo-se a ouvir o Mestre (Lc 10, 41);

 

- Madalena é aquela de quem Jesus expulsou sete demónios; tornou-se seguidora do Senhor (Lc 8, 1-3);

 

- há ainda uma mulher anónima, que em casa de Simão fariseu lavou os pés de Jesus com as suas lágrimas de pecadora arrependida e os enxugou com os seus cabelos.

 

Por ser pecadora, esta terceira mulher foi identificada com Madalena, a endemoniada, e, por ter lavado e ungido os pés de Jesus, foi identificada com Maria, irmã de Marta e Lázaro, que ungiu os pés de Jesus (mas não os lavou com lágrimas, porque não era mulher de má vida); cf. Jo 12, 1-3.


Eis como de três mulheres se fez uma só; são muito ténues os traços que pretensamente as identificam entre si. É mais correcto distingui-las.


Quanto à adúltera de Jo 7, 53-8, 11, é uma quarta mulher.

 


3. O sinal da cruz


Conforme o apócrifo, Jesus fazia o sinal da cruz antes mesmo da Sua Paixão, quando a cruz era o patíbulo da ignomínia - o que é anacrónico. A cruz só foi honrada após a Páscoa do Senhor. Por conseguinte não têm propósito os seguintes dizeres:


Jesus abençoou S. José moribundo e fez suavemente, como à sua avó, o sinal da cruz na sua testa, nos seus olhos, na sua boca e nas suas mãos” (p.126; cf. p. 122).

 

 

4. João Baptista, primo de Jesus?

 

À p. 133 lê-se:


Diz Maria: “Foi o meu próprio filho quem me falou da alegria que havia sentido ao ver seu primo João”.


A suposição de que Jesus e João Baptista eram primos um do outro deve estar baseada na hipótese de que Maria e Isabel eram primas uma da outra. Ora tal hipótese é infundada. O texto grego de Lc 1, 36 diz que Isabel era syggenís de Maria, ou seja, parente, familiar. Isabel devia ser bem mais velha do que Maria. É oportuno guardar o sentido amplo do texto grego.

 


5. Verónica


À p. 196 lê-se:


”Ali nós nos pusemos também contigo. Ela se chamava Verónica e, ao saber que eu era a mãe, dirigiu-me a palavra e, após abraçar-me fortemente, entregou-me o que levava nas mãos”.


Verónica teria enxugado a face ensanguentada de Jesus e esta teria ficado gravada no respectivo pano. Tal episódio não se encontra nos Evangelhos. É de autenticidade discutida; o nome Verónica pode provir de vera eikón (verdadeira imagem).

Eis algumas das considerações que o livro de Santiago Martín sugere. O autor o conclui com um Epílogo, no qual lembra que Deus é amor e espera a resposta do amor dos homens (p. 222).

 

Direitos reservados à Ed. Mercuryo, São Paulo (SP), 130 x 200 mm, 223 pp.

 

 

Fonte: Exsurge Domini


22
Mar 12
publicado por FireHead, às 16:33link do post | Comentar

I. Indicações Bíblicas sobre a Função de Maria

 

a) Maria como a Rainha Mãe

 

Existe uma palavra aramaica, Gemera, que significa "Rainha Mãe. Tradicionalmente, ao lado do trono do Rei, existe um segundo trono. Muitos afirmariam que o segundo trono pertenceu à esposa do Rei, mas em Israel ele pertencia à mãe do Rei. A Gemera era uma posição oficial e que era conhecida por todos (inclusive por Jesus e Seus discípulos). A sua função era ser advogada do povo; qualquer pessoa que tinha um pedido ou solicitava uma audiência com o Rei fazia-o através dela. Ela era uma intercessora, apresentando os desejos e interesses do povo para o Rei. Isto não significa que o Rei era inacessível, ou que o povo tinha medo ou era incapaz de falar com ele. Isso meramente significava que o Rei honrava a sua mãe e tratava os pedidos dela com especial consideração. Da parte das pessoas do povo, elas se sentiam muito próximos a ela, como se fossem também os seus filhos.

 

Tal função é mencionada em:

 

* 1Reis 15,13: "Até Maaca, sua avó, depôs da dignidade de rainha-mãe".
* 2Reis 10,13: "Somos irmãos de Acazias, e descemos a saudar os filhos do rei e os filhos da rainha-mãe".
* Jeremias 13,18: "Diz ao rei e à rainha-mãe: humilhai-vos, e assentai-vos no chão".

 

O seu lugar específico de honra e intercessão é dramaticamente ilustrado em 1Reis 2,13-21: "Então veio Adonias, filho de Hagite, a Bate-Seba, mãe de Salomão. Perguntou ela: 'De paz é a tua vinda?'. Respondeu ele: 'É de paz'. E acrescentou: 'Uma palavea tenho que dizer-te'. Disse ela: 'Fala'. Disse ele: 'Bem sabes que o reino era meu, e todo o Israel tinha posto a vista em mim para que eu viesse a reinar, ainda que o reino se transferiu e veio a ser do meu irmão; pois foi feito seu pelo Senhor. Agora um só pedido te faço; não mo rejeites'. Ela lhe disse: 'Fala'. Ele disse: 'Peço-te que fales ao rei Salomão (pois não to recusará), que me dê por mulher a Abisague, a sunamita'. Respondeu Bate-Seba: 'Muito bem, eu falarei por ti ao rei'. Quando Bate-Seba foi ter com o rei Salomão, para falar-lhe por Adonias, o rei se levantou a encontrar-se com ela, inclinou-se diante dela, e se assentou no seu trono. Mandou que pusessem um trono para a mãe do rei, e ela se assentou à sua mão direita. Disse ela: 'Só um pequeno pedido te faço, não mo rejeites'. E o rei lhe disse: 'Pede, minha mãe, porque não to recusarei'. Disse ela: 'Dê-se Abisague, a sunamita, por mulher a Adonias, teu irmão'".

 

De particular importância são as seguintes observações:

 

1. Adonias supunha que a rainha-mãe poderia defender seu interesse perante o Rei; ou seja, ele confiava nela.
2. A reacção do Rei é notável: ele se levantou para vir ao encontro da sua mãe e prestou-lhe o seu respeito.
3. Um trono foi providenciado para ela; ela se sentou à direita do Rei.
4. Seu poder de intercessão é enfatizado pela repetição da ideia de que o rei "não a recuse".

 

O mesmo fazemos hoje com Maria. Nós acreditamos que ela se aproximará do Rei para defender os nossos interesses. Porém, neste instante, muitos protestantes dirão: "Não podemos chegar até Ele por meio de ninguém; podemos tratar directamente com Deus". Sim, podemos e devemos fazê-lo. Porém, duvido que o mesmo protestante que usou esse argumento JAMAIS pediu a um amigo seu para que orasse por ele ou com ele. Pedimos a nossos amigos para que orem conosco ou por nós, não porque achamos que é impossível se aproximar directamente de Deus, mas porque formamos uma família em Cristo e porque é agradável. Nós nos preocupamos com os outros e pedimos sempre a Deus para que conceda os interesses daqueles que amamos. Por que limitar esse cuidado e assistência somente àqueles que estão vivos hoje na terra? São Paulo nos diz que somos rodeados por uma nuvem de testemunhas - será que essas testemunhas não demonstram um mínimo de preocupação para connosco? O Apocalipse nos diz que as preces dos santos elevam-se como incenso perante Deus (Apocalipse 8,4). Por quem estariam orando? Em Tobias, lemos: "Quando tu e Sara fazíeis oração, era eu (arcanjo Rafael) quem apresentava as vossas súplicas diante da glória do Senhor e as lia" (Tobias 12,12).

Se pedimos para os nossos irmãos vivos para orarem por nós, poderíamos deixar de fazer o mesmo para aqueles que já se encontram presentes diante de Deus? E se pedimos para aqueles que estão diante de Deus, como poderíamos deixar de pedir a intercessão daquela que é a mãe do Rei? A Tradição (aquela mesma Tradição - lembre-se disso - que nos deu a Bíblia) nos diz que quando Jesus estava agonizando na cruz, disse certas palavras a seu discípulo [João] que são aplicadas a cada um de nós; tais palavras são: "Eis aí a tua Mãe..."

 

 

b. Maria como a Arca da Nova Aliança

 

Este ponto nos dirige directamente para o dogma da Imaculada Conceição de Maria; entretanto, tratarei mais detalhadamente sobre esse assunto (bem como suas objecções) um pouco mais abaixo.

A Arca da Antiga Aliança abrigava os Dez Mandamentos, que eram a Palavra de Deus. Na Bíblia, São João chama também Jesus de Palavra (= Verbo) de Deus e Maria, por carregá-lo no seu ventre, tornou-se a Arca da Nova Aliança. A Arca da Aliança é santa e pura. Se Maria tivesse o pecado original, ela não poderia ser pura e, consequentemente, também não poderia ser a Arca da Nova Aliança. Este conceito é apresentado na Bíblia quando comparamos o Antigo Testamento com o Novo Testamento. Observe estas semelhanças:

 
Antigo Testamento: quando a Arca da Aliança foi trazida perante o rei David - "Temeu David ao Senhor naquele disse, e disse: 'Como virá a mim a Arca do Senhor?'" (2 Samuel 6,9).

Novo Testamento: quando Maria foi visitar a sua parente Isabel, que estava grávida de João Baptista - "De onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?" (Lucas 1,43).

Antigo Testamento: quando o rei David dançou de júbilo porque ele estava na presença da Arca, que continha a Palavra de Deus - "Quando a Arca do Senhor entrava na cidade de David, Mical, a filha de Saul, estava olhando pela janela. E vendo ao rei David, que ia saltando e dançando diante do Senhor, o desprezou no seu coração" (2 Samuel 6,16).

Novo Testamento: quando o profeta João Baptista saltou de júbilo no ventre de sua mãe, Isabel. Ele fez isto quando ouviu a voz de Maria, que estava grávida de Jesus, o qual também é chamado de Palavra (= Verbo) de Deus - "Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre, e Isabel foi cheia do Espírito Santo" (Lucas 1,41).

Antigo Testamento: os israelitas encheram-se de grande júbilo porque estavam muito próximos da Arca que continha a Palavra de Deus - "Assim David e toda a casa de Israel subiam, trazendo a Arca do Senhor com júbilo e ao som de trombetas" (2 Samuel 6,15).

Novo Testamento: mostra como Isabel e João Baptista se encheram de júbilo por estarem na presença de Maria, que carregava a Palavra de Deus - "Exclamou ela [Isabel] em alta voz: 'Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre. Ao chegar-me aos ouvidos a voz da tua saudação a criancinha saltou de alegria no meu ventre'" (Lucas 1,42.44).

 

Se tudo isto é verdade, que Maria é a Arca da Nova Aliança, então ela deve ter sido pura e não poderia haver qualquer tipo de pecado na sua alma. O facto de que Maria tenha nascido sem pecado original tem sido um ensinamento muito claro não apenas da Igreja Católica como também dos fundadores do protestantismo. Apenas recentemente algumas denominações protestantes se afastaram desta doutrina tradicional do Cristianismo.

"É uma doce e piedosa crença esta de que a alma de Maria não possuía o pecado original; assim, a sua alma estava completamente purificada do pecado original e embelezada com os dons de Deus, por ter recebido de Deus uma alma pura. Portanto, desde o primeiro momento de sua vida, ela estava livre de todo o pecado" (Martinho Lutero, "Sermão sobre o Dia da Conceição da Mãe de Deus", 1527).

Não há outro "símbolo" que eu gostaria de discutir antes de falar de Maria no Novo Testamento e tal símbolo é o de Maria como "portão de entrada". A melhor explicação que vi sobre esse assunto foi postado numa lista de discussão - embora não me lembre qual, nem o nome do seu autor. Apresento essa explicação logo abaixo, com um mínimo de edição da minha parte, e peço desculpas de não poder dar o devido crédito ao autor, pelo motivo exposto.

Quando Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém, Ele montava um jumentinho, o qual ainda não havia sido montado por ninguém (Mc 11,2-10). Ele também foi encerrado numa sepultura nova, a qual também não havia sido usada antes (Jo 19,41). Estas coisas não eram necessárias, mas assim aconteceu - tanto com o jumentinho quanto para a sepultura usados por Cristo, mas jamais usados por qualquer outra pessoa - simplesmente para indicar o quanto especial era Jesus.

No Antigo Testamento também existem símbolos que prefiguram pessoas ou eventos do Novo Testamento. A pessoa ou evento do Novo Testamento que é prefigurada no Antigo é chamada de arquétipo. O arquétipo no Novo Testamento é sempre importante. Adão, por exemplo, é símbolo de Cristo, cf. Rm 5,14.

O profeta Ezequiel refere-se a uma porta que é o símbolo de Maria:

  • Ezequiel 44,1-3: "Então me fez voltar para o caminho da porta do santuário exterior, que olha para o Oriente, a qual estava fechada. Disse-me o Senhor: 'Esta porta estará fechada, não se abrirá; ninguém entrará por ela. Porque o Senhor Deus de Israel entrou por ela, estará fechada. Quanto ao príncipe, ele ali se assentará como príncipe, para comer o pão diante do Senhor; pelo caminho do vestíbulo da porta entrará, e por esse mesmo caminho sairá".

  • Ezequiel 46,8.12: "Quando entrar o príncipe, entrará pelo caminho do vestíbulo da porta... Quando for o príncipe [...], a porta oriental lhe será aberta, [...] então ele sairá e a porta será fechada assim que ele sair".

    O príncipe é o símbolo de Cristo. E a porta prefigura Maria, já que através de seu ventre que Jesus veio ao mundo. Tal passagem demonstrava que a porta estava reservada para o príncipe, prefigurando que o ventre de Maria estava reservado apenas para Jesus. Como no caso do jumentinho e da nova sepultura, como vimos acima, era adequado e oportuno que a graça de Deus guiou Maria a aceitar uma vida de virgindade consagrada, de maneira que a sua Virgindade Perpétua seja sinal que aponta para a extraordinariedade de Jesus Cristo.

 

c. Maria como Intercessora

 

Ainda que todos os Cristãos tenham o poder de interceder uns pelos outros, a pureza e santidade do intercessor aumentam o poder da súplica. A Bíblia está repleta de exemplos do Senhor "escutando" as preces dos justos. Eis alguns casos:

  • Provérbios 15,8: "O sacrifício dos ímpios é abominável ao Senhor, mas a oração dos rectos é o seu contentamento".

  • Provérbios 15,29: "O Senhor está longe dos ímpios, mas escuta a oração dos justos".

  • Tiago 5,16-18: "A oração de um justo é poderosa e eficaz. Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós, e orou com fervor para que não chovesse, e durante três anos e seis meses não choveu sobre a terra".

  • Provérbios 28,9: "O que desvia os seus ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominada".

  • 1 Pedro 3,12: "Pois os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos atentos à sua súplica, mas o rosto do Senhor é contra os que fazem o mal"

  • Salmo 32,6: "Pelo que todo aquele que é santo orará a ti, a tempo de te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas a ele não chegarão".

  • Daniel 9,21-23: "Estando eu, digo, ainda falando na oração, o homem Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio voando rapidamente, e tocou-me à hora do sacrifício da tarde. Ele me instruiu, e me disse: 'Daniel, agora vim para fazer-te entender o sentido. No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para declará-la a ti, porque és muito amado...'".

  • 2 Crónicas 6,29-30: "Toda oração e súplica que qualquer homem ou todo o teu povo de Israel fizer, conhecendo cada um a sua praga e a sua dor, e estendendo as mãos para esta casa, ouve tu dos céus, do assento da tua habitação. Perdoa, e dá a cada um conforme a todos os seus caminhos, segundo vires o seu coração (pois só tu conheces o coração dos filhos dos homens)".

Agora, uma vez que a Bíblia demonstra tão claramente que aqueles que são justos ou correctos são ouvidos pelo Senhor, e já que também sabemos que aqueles que se encontram no céu não são impuros nem injustos (caso contrário não teriam como resistir à presença de Deus), então nós podemos afirmar que as preces dos santos têm um poder e eficácia muito maiores do que às daqueles que ainda se encontram sobre esta terra, que ainda caminham na imperfeição.

De acordo com isto, percebemos que as orações intercessórias de Maria, que é a Mãe de Deus e mais pura que qualquer outra pessoa humana, têm um poder ainda mais especial.

 

 

II. A Antiga Tradição Cristã a respeito de Maria

  • "Filho de Deus pelo desejo e poder de Deus, nasceu verdadeiramente de uma Virgem" (Santo Inácio de Antioquia, "Carta aos Magnésios", ~110 dC).

  • "E novamente, como Isaías havia expressamente previsto que Ele nasceria de uma virgem, ele declarou o seguinte: 'Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e seu nome será chamado "Deus-connosco"'.. A frase 'Eis que uma virgem conceberá' significa certamente que a virgem iria conceber sem ter um relacionamento. Se ela tivesse um relacionamento com qualquer um que fosse, ela não poderia ser virgem. Mas o poder de Deus, vindo sobre a Virgem, a encobriu, e a induziu a conceber, embora ainda permanecesse Virgem" (São Justino Mártir, "Primeira Apologia", 148-155 dC).

  • "A Virgem Maria mostrou-se obediente ao dizer: "Eis aqui a Tua serva, Senhor; faça-se em mim conforme a Tua palavra". Entretanto, Eva foi desobediente; mesmo enquanto era virgem, ela não obedeceu. Como ela - que ainda era virgem embora tivesse Adão por marido... - foi desobediente, tornou-se a causa da sua própria morte e também de todo género humano; então, também Maria, noiva de um homem mas, apesar disso, ainda virgem, sendo obediente, se tornou a causa de salvação dela própria e de todo o género humano... Assim, o problema da desobediência de Eva foi eliminado pela obediência de Maria. O que a virgem Eva causou em sua incredulidade, a Virgem Maria eliminou através da sua fé" (Santo Ireneu, "Contra as Heresias", 180-199 dC).

  • "A Virgem Maria, tendo sido obediente à palavra de Deus, recebeu de um anjo a alegre notícia de que iria dar à luz ao próprio Deus" (Santo Ireneu de Lião, "Contra as Heresias V,19,1", 189 aD).

  • "Apesar de permanecer virgem enquanto carregava um filho em seu ventre, a serva e obra da sabedoria divina tornou-se a Mãe de Deus" (Efraim o Sírio, "Canções de Louvor 1,20", 351 aD).

  • "O Verbo gerado do Pai do céu, inexpressavelmente, inexplicavelmente, incompreensivelmente e maneira de eterna, nasceu há tempos atrás da Virgem Maria, a Mãe de Deus" (Santo Atanásio, "A Encarnação do Verbo de Deus 8", 365 dC).

  • "Se alguém disser que a Santa Maria não é a Mãe de Deus, ele está em divergência com Deus. Se alguém declarar que Cristo passou pela Virgem como se passasse por um canal, e que não se desenvolveu divina e humanamente nela - divina porque não houve a participação de um homem, e humanamente segundo a lei da gestação - tal pessoa é também herege" (São Gregório de Nanzianzo, "Carta ao Sacerdote Cledónio", 382 dC).

  • "Nos ajuda a compreender os termos "primogénito" e "unigénito" quando o Evangelista diz que Maria permaneceu Virgem "até que deu à luz ao seu filho primogénito" [Mt 1,25]. Nada fez Maria, que é honrada e louvada acima de todas as outras: não se relacionou com ninguém, nem jamais foi Mãe de qualquer outro filho; mas, mesmo após o nascimento do seu filho [único], ela permaneceu sempre e para sempre uma virgem imaculada" (Dídimo o Cego, "A Trindade 3,4", 386 dC).

  • "Entre todas as mulheres, Maria é a única a ser, ao mesmo tempo, Virgem e Mãe, não somente segundo o espírito, mas também pelo corpo. Ela é mãe conforme o espírito, não d'Aquele que é nossa Cabeça, isto é, do Salvador do qual ela nasceu, espiritualmente. Pois todos os que nele creram - e nesse número ela mesma se encontra - são chamado, com razão, "filhos do Esposo" [Mt 9,15]. Mas, certamente, ela é a mãe dos seus membros, segundo o espírito, pois cooperou com seu amor para que nascessem os fiéis na Igreja - os membros daquela divina Cabeça - da qual ela mesma é, corporalmente, a verdadeira mãe" (Santo Agostinho, "A Virgindade Consagrada 6,6", 401 dC).

  • "Entretanto, quando eles perguntaram: 'Maria é a mãe de um homem ou a Mãe de Deus?', nós redundamos: 'De ambos'. O primeiro pela natureza do que ocorreu e o segundo pela relação. Mãe de um homem porque era ser humano que estava e que saiu do ventre de Maria; e Mãe de Deus porque o homem que nasceu era o próprio Deus" (Teodoro de Mopsuéstia, "A Encarnação 15", 405 dC).

  • "Agora, herético, tu dirás (qualquer um de vós que negar que Deus nasceu da Virgem) que Maria, a Mãe de nosso Senhor Jesus Cristo, não pode ser chamada de Mãe de Deus, mas somente de Mãe de Cristo e não de Deus, porque nenhuma mulher - afirmarás tu - pode dar à luz a alguém mais velho do que ela própria. A respeito deste estúpido argumento [...] deixe-nos provar por testemunhos divinos de que tanto Cristo é Deus como Maria é a Mãe de Deus" (João Cassiano, "Sobre a Encarnação de Cristo contra Nestório 2,2", 429 dC).

  • "O próprio Verbo, vindo por sua vontade à Bem-Aventurada Virgem, assumiu para si o seu próprio templo da substância da Virgem e saindo dela, fez-se completamente homem de modo que todos pudessem vê-lo externamente, mas sendo verdadeiramente Deus internamente. Portanto, Ele preservou a sua Mãe virgem mesmo depois dela ter dado à luz" (São Cirilo de Alexandria, "Contra aqueles que não desejam professar que a Santa Virgem é a Mãe de Deus 4", 430 dC).

  • "Assim como os marinheiros são guiados ao porto por uma estrela, também os Cristãos são guiados ao céu por Maria" (São Tomás de Aquino).

Também os "reformadores" [protestantes] foram fiéis defensores de Maria:

  • "Creio firmemente que Maria, conforme as palavras do Evangelho que afirmam que de uma Virgem nos nasceria o Filho de Deus, permaneceu sempre pura e intacta Virgem durante e depois do nascimento de seu Filho" (Ulrich Zwinglio, citado em "Corpus Reformatorum" v.1, p.424).

  • "Ele, Cristo, nosso Salvador, era o fruto real e natural do ventre virginal de Maria... Isto aconteceu sem a participação de qualquer homem e ela permaneceu virgem mesmo depois disso" (Martinho Lutero, "Sermões sobre João", cap. 1 a 4, 1537-39 dC).

  • "[Maria é a] maior e a mais nobre jóia da Cristandade logo após Cristo... Ela é nobre, sábia e santamente personificada. Jamais conseguiremos honrá-la suficientemente" (Martinho Lutero, "Sermão do Natal de 1531").

  • "É uma doce e piedosa crença esta que diz que a alma de Maria não possuía pecado original; esta de que, quando ela recebeu a sua alma, ela também foi purificada do pecado original e adornada com os dons de Deus, recebendo de Deus uma alma pura. Assim, desde o primeiro momento da sua vida, ela estava livre de todo pecado" (Martinho Lutero, "Sermão sobre o Dia da Conceição da Mãe de Deus de 1527").

  • "Certas pessoas têm desejado sugerir desta passagem [Mt 1,25] que a Virgem Maria teve outros filhos além do Filho de Deus, e que José teve relacionamento íntimo com ela depois. Mas que estupidez! O escritor do Evangelho não desejava registar o que poderia acontecer mais tarde; ele simplesmente queria deixar bem clara a obediência de José e também desejava mostrar que José tinha sido bom e verdadeiramente acreditava que Deus enviara o seu anjo a Maria. Portanto, ele jamais teve relações com Maria, mas somente compartilhou da sua companhia... Além disso, nosso Senhor Jesus Cristo é chamado o primogénito. Isto não é porque teria que haver um segundo ou terceiro [filho], mas porque o escritor do Evangelho está se referindo à precedência. Assim, a Escritura está falando sobre a titularidade do primogénito e não sobre a questão de ter havido qualquer segundo [filho]" (João Calvino, "Sermão sobre Mateus", publicado em 1562).

  • "Não se pode negar que Deus escolheu e destinou Maria para ser a Mãe de Seu Filho, garantindo-lhe a mais alta honra. Isabel chama Maria de "Mãe do Senhor" porque a unidade da pessoa nas duas naturezas de Cristo era tal que ela poderia ter dito que o homem mortal gerado no ventre de Maria era, ao mesmo tempo, o Deus eterno" (João Calvino, citado em "Corpus Reformatorum" v.45, p.348).

 

III. A Virgindade Perpétua de Maria

 

Todos os Cristãos crêem que Maria era virgem quando deu à luz a Jesus. "Mas Maria disse ao anjo: 'Como pode ser isso se não conheço varão?' E o anjo lhe respondeu: 'O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te encobrirá. Então a criança que irá nascer será chamada santa, o Filho de Deus'" (Lucas 1,34-35).

Quando José ficou sabendo que Maria estava grávida, ele já era noivo dela, embora ainda não vivessem juntos. Ele quis romper o compromisso pois sabia que aquela criança não era sua.

"Enquanto assim decidia, eis que o anjo do Senhor manifestou-se a ele em sonho, dizendo: 'José, filho de David, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo" (Mateus 1,20).

Tudo isto foi previsto no Antigo Testamento e aconteceu para que se cumprissem as profecias dadas por Deus ao povo judeu: "Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem concebeu e dará à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel" (Isaías 7,14).

O ensinamento da Bíblia sobre esta matéria é tão claro que todas as denominações Cristãs concordam sobre a sua interpretação.

Os Católicos crêem que Maria permaneceu virgem e não teve outros filhos. Algumas denominações, porém, afirmam que Maria teve outros filhos. Elas dizem isto porque a Bíblia às vezes menciona os "irmãos do Senhor". Mas, nos tempos bíblicos, todos os membros da família, inclusive primos, eram considerados "irmãos". E também vemos que, na Bíblia, o termo "irmão" é várias vezes usado para se referir a pessoas que não são irmãos no mesmo sentido em que entendemos a palavra hoje.

Eis alguns exemplos bíblicos:

  • Génesis 14,14: "Quando Abrão soube que o seu IRMÃO fora levado prisioneiro, fez sair seus aliados, seus familiares, em número de trezentos e dezoito, e deu perseguição até Dã".

    O "irmão" em questão nesta passagem é Lot. Mas, era Lot irmão de Abrão? Não. Ele era o filho de Arão, irmão falecido de Abrão (v. Génesis 11,26-28). Portanto, Lot era sobrinho de Abrão.

  • Génesis 29,15: "Então Labão disse a Jacó: 'Por seres meu IRMÃO, irás servir-me de graça? Indica-me qual deve ser teu salário".

    Acaso era Labão irmão de Jacó? Não, ele era seu tio.

    A explicação, então, é simples: não existe palavra hebraica ou aramaica para "parente". Os escritores teriam assim que usar os termos "irmão" ou "irmã", ou escrever "o filho da irmã do meu pai". É evidente que preferiam usar a palavra "irmão".

Assim se vê que, em termos bíblicos, "irmão", "irmã" e "irmãos" pode significar parentes próximos, parentes de sangue ou até mesmo amigos íntimos como, por exemplo:

  • 1 Reis 9,13: "Ele disse: 'Que cidades são estas que me deste, meu irmão?' E deu-lhes o nome de 'terra de Cabul', que persiste até hoje".

  • 2 Samuel 1,26: "Tenho o coração apertado por tua causa, meu irmão Jónatas. Tu eras imensamente querido, a tua amizade me era mais cara do que o amor das mulheres".

    Também pode significar um aliado:

    * Amós 1,9: "Assim falou Javé: 'Pelos três crimes de Tiro, pelos quatro, não o revogarei! Porque entregaram populações inteiras de cativos a Edom e não se lembraram da aliança de irmãos'".

Alguns também vêem nas palavras: "José não conheceu Maria até o momento em que deu à luz a Jesus" um significado de que, após o nascimento de Jesus, ela teve relações com José. Contudo, na Bíblia, o termo "até que" simplesmente significa "o que se deu no passado" e não tem a mesma conotação que temos em português, significando "algo que aconteceu após".

A Bíblia menciona uma mulher que não teve filhos até "o tempo de sua morte" (v. 2 Samuel 6,23). Será, então, que produziu descendentes após a sua morte?

Uma pesquisa cuidadosa no Novo Testamento nos mostrará que realmente existe um exagero de expressão se dissermos que Maria teve outros filhos:

Quando Jesus foi encontrado no templo, com a idade de 12 anos (Lucas 2,41-51), não se menciona a existência de outros filhos, embora toda a família tivesse peregrinado junto. O povo de Nazaré refere-se a Jesus como "o filho de Maria" (Marcos 6,3) e não como "um dos filhos de Maria". A expressão grega inplica que Ele era o seu único filho. Na verdade, ninguém nos Evangelhos é chamado de filho de Maria, ainda quando são chamados de "irmãos do Senhor".

Existe ainda um outro ponto que requer uma compreensão da antiga cultura oriental. Em tal cultura, o termo "irmão" era usado para se referir aos mais velhos - parentes com mais idade cuja função era dar conselhos aos mais novos. Em João 7,3-4, encontramos os "irmãos" de Jesus aconselhando-o a deixar a Galileia e ir para Judeia, para que os Seus discípulos pudessem ver as Suas obras. Se os "irmãos" forem compreendidos neste sentido, conforme a cultura oriental, eles certamente seriam mais velhos que Jesus, o que elimina de vez a possibilidade de serem Seus irmãos de facto, já que todos nós sabemos que Jesus era o filho primogénito de Maria.

Finalmente, devemos considerar o que aconteceu aos pés da cruz (João 19,26-27). Se Tiago, José, Simão e Judas fossem mesmo irmãos de Jesus, porque Jesus fez vista grossa a esse facto e confiou a Sua mãe ao Seu discípulo João? O Evangelhos nos dizem que "a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa". Por que ela iria para a casa de um discípulo se ela tinha pelo menos mais quatro filhos?

 

 

IV. Maria, a Mãe de Deus

 

O facto de que Maria é a Mãe de Deus é meramente lógico:

Uma mulher que dá à luz a um filho é a mãe desse filho + Maria deu à luz a Jesus = Maria é a Mãe de Jesus

Maria é a mãe de Jesus + Jesus é Deus (é uma Pessoa Divina - 2ª Pessoa da Santíssima Trindade) = Maria é a Mãe de Deus

Ou, simplesmente, podemos ler na Bíblia:

Lucas 1,42-43: "Com um grande grito, exclamou: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?'"

Agora, mais um pouco de lógica:

Maria é "a mãe do meu Senhor" + O Senhor é Deus = Maria é "a Mãe do meu Deus"

Para contradizer esta verdade é necessário afirmar que Jesus não é Deus ou dizer que Maria não deu à luz a Jesus.

Algumas denominações protestantes evitam chamar Maria de Mãe de Deus porque eles acham que isso a coloca no mesmo nível de Deus [como se ela fosse uma deusa]. Ao invés, eles preferem dizer que ela era a mãe do "homem Jesus Cristo". Isto, porém, trai a verdade e coloca a teologia protestante num dualismo previsível. Cristo Jesus é UMA pessoa e não duas. Ele é UMA pessoa que possui duas naturezas: é inteiramente humano e inteiramente divino. As duas naturezas, contudo, são unidas em UMA só Pessoa. Podemos dizer que as nossas mães são mães da nossa "natureza"? Não, mas simplesmente dizemos que elas são nossas mães - de nós, como pessoas. Eu não estou dizendo que Maria gerou ou deu vida à natureza divina de nosso Senhor, uma vez que ele é UMA Pessoa e não duas. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade "se fez carne" - isto é o que chamamos de "encarnação" (do latim caro que significa carne. De onde ele obteve a carne? Se Jesus é Deus e Maria é Sua mãe, como é logicamente possível dizer que Maria não é a Mãe de Deus?

 

 

V. A Imaculada Conceição de Maria

 

Comecemos com as objecções... A posição protestante pode ser resumida da seguinte forma:

  • Não há qualquer suporte bíblico para se falar de Maria. Paulo afirma na sua carta aos romanos que "não há nenhum justo, nem um sequer: todos pecaram e estão privados da glória de Deus". Logo, se Maria nasceu sem pecado, não precisava de nenhum Salvador, pois ela estaria salva por si mesma.

Para começar, há evidência escriturística para a pureza única de Maria (Imaculada Conceição) - basta comparar a Arca da Aliança que guardava os Dez Mandamentos e Maria como a Arca da Nova Aliança e como a porta (v. parte I, item b).

Porém, a objecção mais comum é o uso das palavras de Paulo, de que "todos pecaram". A palavra usada para "todos", na versão original em grego, que é a linguagem utilizada por Paulo, é "paz". Tal termo, entretanto, não tem carácter exclusivista, que não admita excepção, mas tem o significado de "esmagadora maioria". Podemos ver na Bíblia outros exemplos em que a palavra "todos" é usada, mas claramente admitindo excepção:

  • "Pessoalmente estou convicto, irmãos, de que estais cheios de bondade e repletos de TODO conhecimento e em grau de vos poder admoestar mutuamente" (Romanos 15,14).

    Neste texto, "todo" certamente não significa "sem excepção alguma". Se havia todo conhecimento, sem excepção, então os romanos teriam TODO o conhecimento de Deus!

Como esta última objecção, também não é verdade de que Maria, tendo nascido sem mancha do pecado original, não precisaria de um Salvador. A redenção vem da cruz de Cristo, inclusive para Maria. Ela não nasceu sem pecado por seu próprio mérito, mas por um acto de misericórdia da parte de Deus. Se acreditamos que Jesus nos salva do pecado e da morte mesmo depois de termos cometido pecados pessoais, porque deveríamos negar a ideia de que Ele salvou a mulher que escolheu para ser a Sua Mãe do pecado e da morte antes mesmo do seu nascimento? A Imaculada Conceição de Maria produziu-se pela graça da cruz e não por qualquer coisa que ela tenha feito ou por poder próprio dela. Maria de maneira nenhuma é uma Salvadora. Porém, ela é a Mãe do Salvador e, como tal, precisava ser tão pura quanto possível.

Nossa fé está repleta de exemplos da obra de Deus em formas misteriosas e miraculosas, alimentando o Seu povo no deserto, concedendo filhos àquelas que são incapazes de engravidar, curando os doentes, ressuscitando os mortos, recebendo carne e tornando-se homem... Observe que, em vista de tudo isso, porque nos seria difícil acreditar que Deus misticamente aplicou os méritos e graças obtidos no Calvário à Sua Mãe, já que ela foi digna o possível para ser a Arca da Nova Aliança, a Mãe de Deus? Nós sabemos que, já que Ele é Deus, Ele é capaz de fazer isto se assim o quiser. A única questão que fica remanescente é: "qual a probabilidade de Deus ter desejado para a mulher que escolheu para trazer Jesus Cristo ao mundo ter sido tão pura e merecedora de uma graça que nenhum outro ser humano poderia ter?". Talvez soe melhor fazendo uma declaração negativa: "qual a probabilidade de Deus ter permitido que Jesus Cristo viesse à carne, sendo nutrido por nove meses num ventre ou tendo nascido ou sido amamentado e educado por uma mulher corrompida pelo pecado original?".

 

 

Fonte: The Bible Defends Catholic Church!

Tradução: Carlos Martins Nabeto


21
Mar 12
publicado por FireHead, às 16:59link do post | Comentar

Em síntese: Em 1917, a  Ryland, de Manchester, adquiriu no Egipto um pequeno papiro, cujo conteúdo foi identificado em 1939; é o texto de uma oração dirigida a Maria Santíssima invocada como Theotókos (Mãe de Deus) no século III. Quando em 431 o Concílio de Éfeso proclamou Maria Theotókos, fez eco a uma tradição cujo primeiro termo conhecido remonta a Orígenes (243).

 

Em 1917 a Biblioteca John Ryland, de Manchester (Inglaterra), adquiriu no Egipto um pequeno fragmento de papiro de 18 x 9,4 cm, que foi catalogado como Ryl. III, 470. Esse papiro apresenta uma oração mariana de grande importância tanto pelos seus dizeres como pela sua data.

 

Examinaremos, a seguir, o conteúdo do papiro e a respectiva datação.

 

 

1. O conteúdo do papiro

 

O texto do fragmento papiráceo foi editado em 1938, sem que se tivessem até então identificado os seus dizeres. Isto só foi feito no ano seguinte por F. Mercenier: este pesquisador verificou que se tratava da oração mariana conhecida e recitada ainda hoje com as palavras iniciais "Sob a vossa protecção" (Sub tuum praesidium, em latim). Embora o texto não esteja completo, mas deteriorado pelas intempéries dos séculos (coisa normal entre os papiros), o sentido das palavras pode ser depreendido com clareza e segurança.

 

O texto, devidamente reconstituído, diz o seguinte:

 

Sob a tua misericórdia nos refugiamos.

Mãe de Deus!

Não deixes de considerar as nossas súplicas nas nossas dificuldades,

Mas livra-nos do perigo, única casta e bendita!

 

 

A oração, redigida na primeira pessoa do plural, parece ser, por isto mesmo, pertinente ao uso da Liturgia. Comentemo-la, levando em conta as traduções da mesma existentes nas diversas tradições litúrgicas.

 

 

Sob a tua misericórdia nos refugiamos - Uma das diferenças mais notáveis quando consideramos as versões recentes, está em que o antigo orante se refugiava debaixo da misericórdia de Maria, ao passo que o texto latino diz praesidium, protecção, asilo, defesa - o que parece ser mais sóbrio. A expressão "sob a tua misericórdia" se encontra nas versões bizantina, copta e ambrosiana, ao passo que a Liturgia síria reza mais enfaticamente ainda: "sob o manto da tua misericórdia". Por sua vez, o rito etíope diz: "sob a sombra das tuas asas".

 

Alguns manuscritos latinos do século X traduzem literalmente: sub tuis visceribus, isto é, em tuas entranhas nos refugiamos. Esta versão faz ressoar um semitismo bíblico: a misericórdia é comparada às entranhas de uma mãe, que no seu íntimo defende e abriga o seu filho. Na verdade, o vocábulo grego eusplanchían significa boas entranhas. Como se vê, o texto original põe em relevo a confiança filial e a índole afectiva das relações entre o Cristão orador e a Santa Mãe de Deus.

 

 

Theotókos - O título que comumente se traduz por "Mãe de Deus", quer dizer, ao pé da letra: "Aquela que deu à luz Deus", em latim Deipara. Este título professa que a pessoa que Maria deu à luz, é a pessoa do Filho de Deus ou a segunda Pessoa da Santíssima Trindade na medida em que quis assumir a carne humana. Note-se que o vocábulo Theotóke é forma de vocativo; donde se depreende que a oração é dirigida a Maria, como expressão da grande antiguidade da devoção mariana no povo de Deus.

 

 

Não deixes de considerar as nossas súplicas em nossas dificuldades Ao pé da letra, o fiel pede a Maria: "não afastes das nossas súplicas o teu olhar". Basta, pois, que a Mãe de Deus esteja atenta às nossas súplicas para que estejamos seguros. Não se trata, porém, de qualquer súplica, mas daquelas que brotam das dificuldades.

 

 

Mas livra-nos do perigo - Observe-se que o texto actual desta prece menciona "os perigos", ao passo que o papiro fala do perigo. Quem recua até o ambiente egípcio do século III, verifica que o perigo por antonomásia eram as perseguições movidas pelo Império Romano contra os Cristãos. O historiador Eusébio de Cesaréia (+339), na sua "História da Igreja", descreve a grande crueldade das perseguições ocorridas no Egipto. Por conseguinte, pode-se crer que a comunidade que compôs tal oração, em tempo de perseguição, recorria à protecção da misericórdia da Mãe de Deus. Se tal suposição é correcta, vê-se que a oração reflectia dramaticamente a alma do povo de Deus.

 

 

Única casta e bendita! - A exclamação final professa a virgindade de Maria Santíssima. O termo agne significa pura, casta, santa; além da virgindade, proclama a fidelidade de Maria à vontade de Deus.

 

 

2. O problema da datação

 

Os estudiosos concordam entre si ao afirmar a grande antiguidade do texto, mas oscilam entre o século III e o século IV.

 

Os que preferem o século III valem-se de argumentos papirológicos (material sobre o qual se fez a escrita, tipo de letra, caligrafia...). Os partidários do século IV baseiam-se em razões de ordem doutrinária: o uso da expressão Theotókos, dizem, não se encontra antes do século IV. Todavia, a pesquisa atenta das fontes literárias ou patrísticas leva a concluir claramente em favor do século III. Eis o que se pode apurar:

 

Por volta de 428 Nestório, Patriarca de Constantinopla, rejeitou o costume, arraigado no povo Cristão, de chamar Maria Theotókos; preferia falar de Christotókos (a que deu à luz o Cristo). Com isto Nestório queria pretensamente salvaguardar a humanidade completa de Cristo, mas na verdade estava separando o divino e o humano em Jesus e negando a verdadeira Encarnação. A réplica a Nestório não se fez esperar. São Cirilo, Bispo de Alexandria, sede tradicionalmente oposta a Constantinopla em questões cristológicas, assumiu a defesa do título Theotókos. O Concilio geral de Éfeso em 431, valendo-se das palavras de Cirilo, declarou que os Santos Padres "não duvidaram em chamar Theotókos à Santissima Virgem" - o que não queria dizer que a Divindade começou a existir a partir de Maria, mas que Aquele que nasceu de Maria, desde o seio materno está unido hipostaticamente ao Verbo de Deus.

 

A controvérsia assim oriunda tem as suas raízes em épocas anteriores. Com efeito, quando Nestório se pôs a negar o título Theotókos, encontrou-o já inveterado no povo de Deus, principalmente no Egipto ou na região de Alexandria. Retrocedendo ao século IV encontramos o grande Bispo Atanásio de Alexandria, que por volta de 340 atribuiu algumas vezes o título Theotókos a Maria Santíssima, tanto nos seus escritos contra os arianos quanto na sua "Vida de Antão".

 

O antecessor de Atanásio na sede alexandrina, S. Alexandre, também usou tal título: numa das suas cartas afirmou que o Verbo assumiu um corpo verdadeiro, e não aparente, de Maria, a Theotókos (PG 18, 568c).

 

Em 300 foi eleito Bispo de Alexandria Pedro I: ao referir-se ao mistério da Encarnação, chama duas vezes Maria Theotókos (PG 18,517b). Nem Pedro nem Alexandre nem Atanásio sentem a necessidade de justificar ou explicar o título - o que mostra que era tranquilamente aceite pelo povo de Deus.

 

Entrando agora no século III, notemos que o mártir alexandrino Piero (+300) cognominado Orígenes Júnior, escreveu um tratado sobre a Theotókos (Peri tes Theotókou), como refere Filipe de Side.

 

Recuando mais ainda, regista-se uma observação do historiador Sócrates, o Escolástico, na sua "História da Igreja": afirma que Orígenes de Alexandria (+254) no início do seu comentário sobre a epístola aos Romanos (redigido por volta de 243), elaborou ampla explicação do sentido que tem o termo Theotókos; em tal caso pode-se crer que Orígenes sentia a necessidade de explicar o título mariano. Infelizmente, porém, esse comentário da epístola aos Romanos se perdeu. O vocábulo Theotókos ocorre ainda em alguns textos de Orígenes cuja autenticidade é discutida (o fragmento 80 sobre Lucas é tido geralmente como genuíno). Há certamente algumas afirmações de Orígenes, nas suas homílias sobre São Lucas, que sugerem ter Orígenes, já na primeira metade do século III, chamado Maria Santíssima Theotókos.

 

Este título ocorre outrossim na obra "As Bênçãos dos Patriarcas", de Hipólito de Roma (+235), que pode datar de fins do século II (julga-se, porém, que a referência ao título é devida a uma interpolação e não pertence à integridade do texto).

 

Como quer que seja, pode-se reconstituir a série de autores alexandrinos que aplicam a Maria a designação Theotókos: Orígenes, Piero, Pedro I, Alexandre e Atanásio; tal série vai de 243 a 340, evidenciando a antiguidade do texto.

 

Estes dados de literatura patrística são assaz significativos para que se possa atribuir a oração em pauta ao século III. Ela é testemunho de que a piedade mariana desde remotas épocas existe no povo de Deus, pondo em relevo a figura maternal de Maria: Mãe de Deus feito homem e Mãe dos homens que seguem a Cristo perseguido e vencedor da morte.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 

Fonte: Pergunte e Responderemos


20
Mar 12
publicado por FireHead, às 15:54link do post | Comentar

Nem todos os judeus no começo da era Cristã respeitavam o cânone corrente nos dias actuais. Havia dois cânones entre os judeus naquele tempo: o palestiniano e o de Alexandria, além do Talmude da Palestina e do Talmude da Babilónia. O cânone da Jâmnia transformou-se no conjunto de textos sagrados dominantes entre os judeus; muitos judeus aceitaram o cânone de Jâmnia. Os judeus da Etiópia, por exemplo, seguem um cânone idêntico ao Antigo Testamento Católico, incluindo os sete livros Deuterocanónicos. Esse mesmo Concilio de Jâmnia que rejeitou os Deuterocanônicos rejeitou também os Evangelhos e os demais textos do Novo Testamento. Jâmnia é uma cidade localizada ao sul de Jafa, na fronteira de Judá. Foi nessa cidade que os judeus da Palestina estabeleceram os critérios para a constituição de seu cânone das Sagradas Escrituras. A Igreja Católica, portanto, não considerou as decisões de Jâmnia, porque um concílio posterior a Cristo não tem autoridade sobre os Cristãos. Jâmnia definia que só seriam válidos os textos escritos na Terra Santa, segundo a lei de Deus e até o tempo de Esdras.
 

Rebelião Protestante

A Reforma protestante retomou o cânone de Jâmnia para o Antigo Testamento, principalmente porque estes textos afirmavam a importância da oração pelos mortos e a sobrevivência da alma após a morte.

 

Os primeiros Cristãos aceitaram, portanto, os livros que se encontravam na Septuaginta (Tradução em grego das Sagradas Escrituras feita pelos judeus que viviam no Egipto).

 

Jâmnia rejeitou os livros usados por Cristo e pelos apóstolos, o que é inaceitável! Os Deuterocanónicos são citados dezenas de vezes no Antigo Testamento e no Novo Testamento.

 

O cânone do Novo Testamento, por seu turno, foi definido no I Concilio de Nicéia. Os Deuterocanónicos foram confirmados nos concilios de Hipona (393), Cartago (397 e 419), Concílio Florentino (1441) e Concílio de Trento (1546).

 

Os anglicanos e os ortodoxos aceitam os chamados livros Deuterocanónicos.

 

 

Os livros Deuterocanónicos estão sobrando ou faltando na Bíblia?

Um dos temas que muitas vezes chega a sair discussão entre as pessoas da fé Católica e de outras denominações é a alegação de que estaria sobrando livros na Bíblia Católica na qual eles chamam de “apócrifos”. Afinal os nossos “deuterocanónicos” estão sobrando ou faltando livros? Neste simples estudo iremos expor as respostas adequadas a esta dúvida.

 

Inicialmente a palavra “apócrifo” é mal utilizada em relação a estes livros já que a palavra apócrifo provém do grego άπόκρυφος (apokryphos), “oculto” e são aplicados aos livros que a Igreja retirou no Concílio de Cartago quando se formou o cânone das Escrituras tal como conhecemos hoje. Os sete livros que estão na Bíblia Católica não são apócrifos, são chamados de “Deuterocanónicos” mesmo que o termo descreva com poucas propriedades estes livros, eles são chamados Deuterocanónicos porque não estão no cânone judeu da Palestina, aprofundar-nos-emos mais neste assunto a seguir. Mas, quais são estes livros?

Livro de Tobias

Livro de Judite

Complementações em grego do Livro de Ester

Complementações em grego do Livro de Daniel

Primeiro livro dos Macabeus

Segundo livro dos Macabeus

Livro da Sabedoria

Sirácides ou Eclesiástico

Livro de Baruc

Qual é a origem destes livros? Analisando um pouco a História devemos levar em consideração que os judeus NÃO possuíam livros e sim rolos e para eles os escritos fundamentais na sua leitura e estudos eram a Torá, ou seja, os cinco primeiros livros, assim como é até os dias de hoje. Os judeus também não possuíam uma compilação dos outros livros santos, além disso, dentro do judaísmo não existia um cânone escritural: existia sim uma grande disputa sobre qual seria o cânone correcto.

 

O movimento religioso dos saduceus sustentava que somente o Pentateuco fazia parte do cânone das Escrituras enquanto que outros grupos consideravam também as Escrituras dos Nevi’im (Profetas) e a Hagiographa (Livros históricos e didácticos).

 

 

A Primeira tentativa de se reunir todos os livros inspirados foi no século II ANTES de Cristo na cidade de Alexandria.

 


O nome dos Setenta se deve a uma tradição judaica, transmitida na Epístola de Aristeas que atribui a sua tradução a 72 sábios judeus (seis de cada tribo) em 72 dias. Esta tradição tem a sua origem na Gematria, uma técnica exegética que dá valores interpretativos aos nomes onde o 7 equivale a perfeição. É denominado também como alexandrina por ter sido feita em Alexandria e ser usada pelos judeus de língua grega no lugar do texto hebraico. É a principal versão grega pela sua antiguidade e autoridade. A sua redacção iniciou no século III aC (ano de 250 aC) e foi concluída no final do século II antes de Cristo (ano 150 aC).

 

Esta versão gozou de grande popularidade em todo o mundo judeu por ser a Primeira Grande Compilação das Escrituras e por ser escrita em grego, idioma universal do mundo da época, mais de trezentas citações das Epístolas de São Paulo e citações do Antigo Testamento são tiradas desta versão o que indica que foi utilizada pelos Apóstolos e a Igreja Primitiva.

 

 

Até o momento já vimos três bases:

 

a) Os judeus NÃO tinham um cânone Escritural como nós, pois tinham como canónicas somente a Torá; os demais livros inspirados NÃO estavam definidos canónicamente.

 

b) A primeira tentativa de compilação foi feita em Alexandria no século III antes de Cristo e esta versão JAMAIS foi questionada ou recusada pelo Templo.

 

c) Esta era a versão mais conhecida e utilizada no tempo de Jesus e no tempo Apostólico.

Esta era a situação Escritural na época de Jesus: nas Sinagogas lia-se os rolos da Lei e para o estudo individual era utilizado a Versão dos Setenta. Depois do Pentecostes a situação não mudou muito e a Igreja nascente seguiu utilizando nos seus cultos e nos seus ensinamentos a versão dos Setenta junto dos Escritos Apostólicos (ainda sem definição canónica). Até o ano 70 e depois da destruição de Jerusalém, o Sinédrio junto com o grupo dos fariseus (que consideravam um cânone formado pela Lei, os Profetas e as Escrituras) continuou insistindo e trabalhando em um cânone definitivo já que tinham à sua frente à chamada “Seita Cristã” com os seus livros judeus e as suas novas Escrituras.

Yavne, Iamnia, Yibna, Ibelin 

Assim, no ano de 90 d.C. o Sinédrio estabelecido em Jâmnia finalmente formou um cânone judeu e teve três regras para a sua formação:

1) Deveria haver uma cópia do livro em questão que indicasse que foi escrito antes do ano 300 a.C. ( quando a helenização chegou a Palestina, com os problemas culturais e religiosos subsequentes).

2) Que as cópias fossem escritos em hebraico ou pelo menos em aramaico (menos o grego que era a língua e cultura invasora e que era utilizada nos escritos Cristãos).

3) Que tivesse uma mensagem considerada como inspirado ou dirigido ao povo de Deus (judeu).

Uma das razões para retirar os livros escritos em grego, que eram na sua maioria Sapienciais e bem próximos ao início do Cristianismo é que “soavam muito Cristão”. Este concílio judeu em Jâmnia definitivamente NÃO teve nenhum efeito sobre a Igreja que já havia há vários anos se tinha separado do judaísmo, este que foi ditado pelo mesmo órgão (e que por sua cegueira espiritual) havia crucificado o Messias esperado.

 

A Aliança então foi transferida para a Igreja como Nova Aliança da Graça e os anciãos de Israel não possuíam nenhuma autoridade sobre a nova Fé. A Igreja seguiu utilizando como Escritura a antiga Versão dos Setenta. Curiosamente, fragmentos destes livros retirados da versão hebraica foram encontrados nos “Pergaminhos do Mar Morto”.

 

São Jerónimo (342-420 d.C.) fez a tradução das Escrituras judaicas do hebraico para o latim e excluiu os livros escritos em grego como não canónicos; contra isso Santo Agostinho se opôs e ratificou a importância dos livros escritos em grego no Concílio de Hipona (393). A decisão de Jerónimo foi recusada pelos concílios e ele aceitou a decisão outorgada pelos concílios.

 

A partir do século IV a Igreja introduz o termo “cânone”, para indicar com ela a clausura física do conjunto de livros integrados pelo Antigo Testamento e o Novo Testamento. Assim é declarado que a Biblia, por ser inspirada por Deus, é normativa no âmbito de doutrina e da Fé. E assim a Escritura começou a viver e dar frutos na Igreja Católica por 1120 anos até a fatídica data de 1517 quando um papel cravado nas portas de uma Igreja causou a ruptura de dezesseis séculos de Cristianismo. Com a Reforma do Sacerdote Agostiniano Martinho Lutero, é iniciado uma nova etapa no Cristianismo que foi mais do que uma “Reforma”: foi uma demolição da Fé dos Apóstolos baseada no critério de um ou vários homens (os reformadores). Uma das primeiras consequências sofrida é na Bíblia. Rapidamente Lutero dá-se o trabalho de reformar as Escrituras baseado nos seus conceitos que entendia serem correctos. Martinho Lutero e outros reformistas decidiram tentar remover os livros que faziam parte da Escritura Cristã desde os primórdios tais como Apocalipse e Tiago nas quais ele recusava como podemos ler nos seus escritos:

 

“… A Epístola de Tiago é uma epístola cheia de palha, porque não contém nada evangélico.” (Prefácio ao Novo Testamento de Lutero)

 

“… Ao meu parecer [o Livro das Revelações ou Apocalipse] não tem nenhum indício de carácter apostólico ou profético… Cada um pode formar a sua própria opinião sobre este livro; pessoalmente tenho antipatia, e para mim isso é razão suficiente para recusá-lo.” (Sammtliche Werke, 63, pp. 169-170)

(Muitos protestantes que baseiam as suas doutrinas no Apocalipse não sabem que quase o perderam, pois Lutero tentou retirar das Escrituras o Apocalipse, a Carta aos Hebreus e a Epístola de Tiago entre outros). Martinho Lutero num ataque de soberba e desprezando as decisões do Concilio de Roma e de Cartago, acatou as decisões do Concílio Judeu de Yannia (Jâmnia), aceitando o cânone judaico do ano 90 d.C. sem os sete livros escritos em grego e assim a bíblia protestante continua até os DIAS de hoje. É por isso que NÃO NOS SOBRAM livros, já que estavam por mais de 1800 anos juntos e no século XVI foram removidos, e são os que FALTAM para a igreja protestante. Actualmente existem muitas provas de que estes livros estiveram junto ao povo judeu e eram utilizados por eles, algumas delas são:

a) Os manuscritos mais antigos do Antigo Testamento (mil anos) contêm os Deuterocanónicos. Com excepção da ausência de Macabeus no Codex Vaticanus, o mais antigo texto grego do Antigo Testamento, TODOS OS DEMAIS manuscritos contêm os sete livros.

b) Dos 850 documentos que foram achados em Qumran, uns 223 são cópias de livros distintos do Antigo Testamento; foram encontrados quase todos os livros da Bíblia hebraica (menos Ester), e alguns deuterocanónicos (Tobias, e Ben Sira ou Eclesiástico)…

c) Os judeus apesar de não aceitarem religiosamente os livros Deuterocanónicos aceitam-nos historicamente ao celebrar festas que só são mencionados nestes livros, entre eles o Purin que é mencionado no Livro de Ester e o Hanuká que é mencionado no Livro dos Macabeus.

 

 

No começo da Reforma a nossa versão bíblica não foi alvo ataques como podemos ver:

 

a) Martinho Lutero no seu Comentário sobre São João disse: “Somos obrigados a admitir dos Papistas que eles têm a Palavra de Deus, que a recebemos deles e que sem eles não teríamos nenhum conhecimento dela”. Esta Igreja pronunciou que TODOS os 73 livros que compõe o Antigo e Novo Testamento são revelação.

b) Foram aceites pela Igreja pós-Pentecostes e por toda a Igreja Primitiva

c) Foram proclamados CANÓNICOS ao mesmo Tempo e pela mesma autoridade que os 27 Livros do Novo Testamento.

Martinho Lutero retirou-os em:

a) Um acto unitário e arbitrário.

b) Sem consultar a Igreja nem a um Concilio.

c) Sem levar em consideração os aspectos históricos da permanência destes livros na Igreja.

 

d) Aceitou a decisão de um concílio judeu que NÃO tinha nenhuma autoridade sobre os Cristãos, não foi um concilio Cristão dirigido pelo Espírito Santo.

 

 

Como vimos, os judeus na época de Jesus nunca tiveram um cânone escritural, vimos que este cânone foi criado no ano de 90 d.C. quando a Igreja já estava separada do judaísmo há vários anos, vimos que estes livros NÃO foram aceites pelo concílio judaico da Jâmnia por estar escrito na mesma língua dos textos Cristãos e por sua linguagem ser muito similar a estes. Martinho Lutero num acto de soberba, desprezo a obra do Espírito Santo no Concílio de Cartago preferiu aceitar a definição do mesmo Sinédrio que NÃO reconheceu o seu Messias.

 

Não se pode desprezar parte da obra de um Concílio e aceitar outra. Um Concílio é aceite ou recusado por inteiro, pois bem, a mesma autoridade que formou o cânone do Novo Testamento formou também o cânone do Antigo Testamento, NÃO se pode aceitar os 27 livros do Novo Testamento e desprezar a versão dos Setenta. Ora, se a Igreja se equivocou ao definir como canónico a Versão dos Setenta então os 27 livros do Novo Testamento também definidos pela Igreja estariam expostos a um equívoco e se estes 27 livros são duvidosos, vã é nossa Fé.

Duvidar da Igreja é duvidar das Escrituras. A quem escutas?

 

 

Foi a Tradição Apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos livros Sagrados. A definição dos livros canónicos aconteceu no Concílio Regional de Hipona, no ano 393, definindo o cânone amplo como sendo o correcto para o uso da Igreja Católica. Outros Concílios foram confirmando esta definição. Exemplos: Cartago III (397),Cartago IV (419), Trulos (692), os Concílios Ecuménicos de Florença (1442), Trento (1546), Vaticano I (1870). ”Que não seja lido nada na Igreja além da Bíblia Canónica… A lista da Bíblia Canónica é esta: Génesis, Êxodo, Levítico, Números… Tobias, Judite, Ester… 1 e 2 Macabeus,… Jeremias, Lamentações, Baruque, Ezequiel, Daniel, Sirácida ou Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, Sabedoria… Em nome dos 217 bispos reunidos em Cartago, deixo isto enviado ao nosso irmão e bispo de Roma, Bonifácio, com os bispos de todas as partes, para confirmar este cânone XXIV deste Concílio… Conforme o código africano estabelecido em Hipona (393) no cânone XXVI…” (Conteúdo do Concílio de Cartago IV – ano 419). A lista completa é denominada “Cânone” das Escrituras. Ela comporta, para o Antigo Testamento, 46 (45, se contarmos Jr e Lm juntos) escritos e 27 para o Novo conforme: Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio, Josué, Juízes, Rute, os dois livros de Samuel, os dois livros dos Reis, os dois livros das Crónicas, Esdras e Neemias, Tobias, Judite, Ester, os dois livros dos Macabeus, Jó, os Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes (ou Coélet), o Cântico dos Cânticos, a Sabedoria, o Eclesiástico (ou Sirácida), Isaías, Jeremias, as Lamentações, Baruque, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, para o Antigo Testamento.

 

 

Por que a bíblia protestante tem menos livros?

Sabemos que de facto, foi a Igreja Católica quem berçou a Bíblia. Demorou alguns séculos para que a Igreja Católica chegasse à forma final da Bíblia, com os 72 livros como temos hoje. Em vários Concílios ao longo da História, a Igreja, assistida pelo Espírito Santo (cf. Jo 16,12-13) estudou e definiu o Índice (cânone) da Bíblia; uma vez que nenhum de seus livros traz o seu Índice.

 

 

Por que a Bíblia Católica é diferente da protestante?

Esta tem apenas 66 livros porque Lutero e, principalmente os seus seguidores, rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruque, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16; Daniel 3,24-20; 13-14. A razão disso vem de longe.

 

No ano 100 da era Cristã os rabinos judeus se reuniram no Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes), no sul da Palestina, a fim de definir a Bíblia Judaica. Isto porque nesta época começava a surgir o Novo Testamento com os Evangelhos e as cartas dos Apóstolos, que os judeus não aceitaram.

Nesse Sínodo os rabinos definiram como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o seguinte:

 

a) Deveria ter sido escrito na Terra Santa;

 

b) Escrito somente em hebraico, nem aramaico e nem grego;

 

c) Escrito antes de Esdras (455-428 a.C.);

 

d) Sem contradição com a Torá ou lei de Moisés.

 

 

Esses critérios eram puramente nacionalistas, mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio da Babilónia em 537 a.C.. Por esses critérios não foram aceites na Bíblia judaica da Palestina os livros que hoje não constam na bíblia protestante, citados antes. Mas a Igreja Católica, desde os Apóstolos, usou a Bíblia completa.

 

Em Alexandria, no Egipto, cerca de 200 anos antes de Cristo, já havia uma forte colónia de judeus, vivendo em terra estrangeira e falando o grego. O rei do Egipto, Ptolomeu, queria ter todos os livros conhecidos na famosa biblioteca de Alexandria; então mandou buscar 70 sábios judeus, rabinos, para traduzirem os livros sagrados hebraicos para o grego, entre os anos 250 e 100 a.C, antes do Sínodo de Jâmnia (100 d.C). Surgiu assim a versão grega chamada Alexandrina ou dos Setenta, que a Igreja Católica sempre seguiu. Essa versão dos Setenta, incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas, rejeitaram.

 

Havia então no início do Cristianismo duas Bíblias judaicas: uma da Palestina (restrita) e a Alexandrina (completa – Versão dos LXX).

 

Os Apóstolos e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina), considerando inspirados (canónicos) os livros rejeitados em Jâmnia. Ao escreverem o Novo Testamento usaram o Antigo Testamento, na forma da tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta era diferente do texto hebraico. O texto grego “dos Setenta” tornou-se comum entre os Cristãos; e portanto, o cânone completo, incluindo os sete livros e os fragmentos de Ester e Daniel, passou para o uso dos Cristãos.

 

Das 350 citações do Antigo Testamento que há no Novo, 300 são tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o uso da Bíblia completa pelos Apóstolos. Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom 1,12-32 se refere a Sb 13,1-9; Rom 13,1 a Sb 6,3; Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg 1,19 a Eclo 5,11; Mt 11,29s a Eclo 51,23-30; Hb 11,34 a 2 Mac 6,18; 7,42; Ap 8,2 a Tb 12,15.

 

 

Nos séculos II a IV houve dúvidas na Igreja sobre os sete livros por causa da dificuldade do diálogo com os judeus. Mas a Igreja ficou com a Bíblia completa da Versão dos Setenta, incluindo os sete livros.

 

Após a Reforma protestante, Lutero eos  seus seguidores rejeitaram os sete livros já citados.

 

É importante saber também que muitos outros livros que todos os Cristãos têm como canónicos não são citados nem mesmo implicitamente no Novo Testamento. Por exemplo: Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum, Rute.

Outro facto importantíssimo é que nos mais antigos escritos dos santos Padres da Igreja (Patrística) os livros rejeitados pelos protestantes (Deuterocanónicos) são citados como Sagrada Escritura. Assim, São Clemente de Roma, o quarto Papa da Igreja, no ano de 95 escreveu a Carta aos Coríntios, citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico; livros rejeitados pelos protestantes. Ora, será que o Papa S. Clemente se enganou, e com ele a Igreja? É claro que não.

Da mesma forma, o conhecido Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso de Eclesiástico, e de Macabeus II; Santo Hipólito (†234), comenta o Livro de Daniel com os fragmentos Deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada Escritura Sabedoria, Baruque, Tobias, 1 e 2 Macabeus. Fica assim, muito claro, que a Sagrada Tradição da Igreja e o Sagrado Magistério sempre confirmaram os livros Deuterocanónicos como inspirados pelo Espírito Santo.

 

Vários Concílios confirmaram isto: os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397), Cartago IV (419), Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha.

 

No século XVI, Martinho Lutero (1483-1546) para contestar a Igreja, e para facilitar a defesa das suas teses, adotou o cânone da Palestina e deixou de lado os sete livros conhecidos, com os fragmentos de Esdras e Daniel.

Lutero, quando estava preso em Wittenberg, ao traduzir a Bíblia do latim para o alemão, traduziu também os sete livros (Deuterocanónicos) na sua edição de 1534, e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete livros nas edições da Bíblia.

 

Neste facto fundamental para a vida da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje.

 

Disse o último Concílio: “Pela Tradição torna-se conhecido à Igreja o Cânone completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar, atuantes.” (DV,8).

Se negarmos o valor indispensável da Igreja Católica e da sua Sagrada Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia. Os seguidores de Lutero não acrescentaram nenhum livro na Bíblia, o que mostra que aceitaram o discernimento da Igreja Católica desde o primeiro século ao definir o Índice da Bíblia.

É interessante notar que o Papa São Dâmaso (366-384), no século IV, pediu a São Jerónimo que fizesse uma revisão das muitas traduções latinas que havia da Bíblia, o que gerava certas confusões entre os Cristãos. São Jerônimo reviu o texto grego do Novo Testamento e traduziu do hebraico o Antigo Testamento, dando origem ao texto latino chamado de Vulgata, usado até hoje.

 

 

Convém fazer algumas distinções quanto aos nomes:

 

a) Cânone, do Grego Kanón = Regra, medida e catalogado

 

b) Canónico = Livro catalogado – o que significa que também é inspirado por Deus

 

c) Protacanónico = Livro catalogado próton, isto é, em primeiro lugar ou sempre catalogado

 

d) Deuterocanónico = Livro catalogado, deuteron ou em segunda instância, posteriormente (após sido Controvertido)

 

e) Apócrifo = Do grego apókryphon = Livro oculto, isto é, não lido nas Assembleias públicas de culto. Reservado à leitura particular.

 

Os livros Deuterocanônicos (Judite, Tobias, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1 Macabeus e 2 Macabeus, os capítulos 13 e 14 e os versículos 24 a 90 do capítulo 3 de Daniel, os capítulos 11 a 16 de Éster, estão na Tradição chamada Septuaginta, que foi traduzida do Hebraico por setenta sábios em setenta dias, cada um trabalhando isoladamente e chegando todos ao mesmo texto.

 

No ano 100 d.C. aproximadamente, os sábios fariseus se reuniram em Yavné (Jâmnia) na Galileia, e começaram a trabalhar numa recentralização da religião, que era antes centrada no templo.

 

Os fariseus procuraram estabelecer regras mais rígidas de vida, ampliando ainda mais a “cerca em torno da lei”. Nesse período, é bom lembrar que, saduceus e essénios já tinham desaparecidos ou assimilados outras crenças, sobrando os fariseus.

 

Entre as decisões tomadas pelos fariseus, que não aceitaram a Cristo, fixaram um Cânon Bíblico que propositadamente impediria o Novo Testamento como palavra de Deus. Evidentemente esses critérios não eram seguidos pelos Cristãos, que não tinham mais nada a ver com os fariseus que não aceitaram a Jesus Cristo.

 

 

Os critérios dos fariseus eram os seguintes:

 

a) O Cânone deveria estar disponível em hebraico, não em aramaico ou grego.

 

b) Não poderia ser escrito fora da terra de Israel.

 

c) Não depois de Esdras (458 – 428 a.C).

 

 

Comentário

a) Se a palavra de Deus fosse para ser escrita somente em hebraico, isso já colocaria de fora todo o Novo Testamento.

b) Acontece, porém, que em Alexandria, no Egipto, havia judeus, que traduziram os livros Sagrados, do hebraico para o grego entre 250 e 100 a.C.

c) Ao escrever o Novo Testamento, os Apóstolos e Evangelistas usaram a tradução grega feita entre 250 e 100 a.C, pelos próprios judeus de Alexandria.


Quando a tradução foi feita por São Jerónimo, ela continha a íntegra dos textos confiados por Deus à Sua Igreja, incluindo no Antigo Testamento os sete livros que Lutero depois arrancou.

 

 

Todas as Bíblias desde então continham estes livros; uma prova disso é a Bíblia de Gutemberg e outras Bíblias mais antigas. Lutero, porém, ao fazer a sua revolta, resolveu traduzir a Bíblia para o alemão. Ora, ao contrário de São Jerónimo, que usou manuscritos muitos antigos, Lutero tinha à sua disposição apenas manuscritos recentes dos judeus de Jâmnia ou Yavné, que evidentemente não continham os livros que os fariseus arrancaram do cânone bíblico muito depois de Cristo.

 

Basta ver qualquer edição ou exemplar manuscrito da Bíblia antes de Lutero a importância da Tradição e do Magistério, a verdadeira doutrina sobre a Graça, enfim, vários pontos da Doutrina ensinada por Cristo e pelos Apóstolos que estavam sendo negados pelos protestantes.

 

Não é razoável a interpretação protestante, visto que esta acaba dizendo que a Bíblia se prova pela Bíblia. Ora, isso é uma temeridade. A Bíblia se prova pela Igreja que a compôs!

 

A Igreja Católica adoptou o cânone grego.

 

 

O Novo Testamento cita os livros Deuterocanónicos?

 

Objecção protestante: “São conhecidas, no Novo Testamento, 263 citações e 370 alusões ao Antigo Testamento, porém nenhuma delas se refere aos livros ‘apócrifos’”

 

Primeiramente, devemos notar que esta afirmação é facilmente refutada por diversas obras e autores. Por exemplo, o rev. dr. Milo Gates, ex-vigário da Igreja Protestante Episcopal da Intercessão, declarou em Nova Iorque, em 1928: “…Em segundo lugar, ninguém pode realmente compreender o Novo Testamento sem conhecer esses livros. Há mais de 111 citações e alusões aos apócrifos no Novo Testamento. Em terceiro lugar, algumas das mais abençoadas doutrinas da Igreja provieram desses livros, e outras encontramos o seu desenvolvimento nesses livros” (New York Times, 10.dez.1928).

 

Segundo. Pergunto aos protestantes: onde se encontra a exigência, na Bíblia, de que um livro, para ser considerado canónico, deve ser citado pelo Novo Testamento? Ou isto é uma mera estipulação humana? Eles não têm como responder…

 

Terceiro. Se é verdadeira a posição protestante que defende a canonicidade dos livros citados pelos escritores do Novo Testamento, então não devemos também considerar como Escrituras Sagradas a “Assunção de Moisés” (citado em Judas 1,9) e a “Profecia de Enoque” (citado em Judas 1,14-15)? Ambos são escritos tardios, considerados “apócrifos”, mas foram citados por um escritor do Novo Testamento, São Judas. Entretanto, ninguém (nem judeu, nem Cristão) jamais os consideraram como Escrituras.

 

Quarto. Mesmo que fosse verdadeira essa afirmativa protestante – o que eu não admito – realmente isso não prova nada! Isto porque quinze livros do Antigo Testamento do cânone hebraico não foram citados pelo Novo Testamento. São eles: Josué, Juízes, Rute, 2 Reis, 1 e 2 Crónicas, Esdras, Neemias, Ester, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Lamentações de Jeremias, Obadias, Naum e Sofonias.

Portanto, se fosse necessário o Novo Testamento citar os livros do Antigo Testamento para demonstrar a sua canonicidade, então teríamos neste quinze livros a menos, totalizando vinte e dois (contando, porém, os Deuterocanónicos). Ademais, precisaríamos acrescentar dois novos livros ao cânone, ou sejam, a “Assunção de Moisés” e a “Profecia de Enoque”.

 

 

 

Fonte: ÍNDICE DAS MENTIRAS CONTRA A IGREJA CATÓLICA


19
Mar 12
publicado por FireHead, às 00:47link do post | Comentar | Ver comentários (2)

A figura de São José é um bocado secundária na Igreja. Ao contrário das festas de Nossa Senhora, são José conta apenas com duas festas ‘directas’ e uma indirecta. As festas ‘directas’ são as do dia 19 de Março e 1 de Maio (S. José operário), e a indirecta é a da sagrada família.
Isto a nível oficial. No entanto, sabemos que a devoção a São José, embora tardia, esteve sempre presente na piedade popular.
Já no século V, no âmbito da Sagrada família, já se fala da missão importante de São José estando ao serviço de Maria e de Jesus; ele é um homem justo, o casto esposo de Maria, o pai de Jesus, exemplo de uma vida de fé e de trabalho... Depois, na Idade Média aparece, numa perspectiva mais popular como patrono dos carpinteiros; no século XIII Santa Margarida de Cortona reza diariamente 200 Pai-Nossos em honra de São José e depois no século XV começa a divulgar-se e a escrever ‘vidas de São José’ como São Vicente Ferrer, e a famosa Suma dos dons de São José também de um dominicano Isidoro de Isolanis.
Não se pode falar da devoção a São José sem falar de Santa Teresa de Ávila. Quando ela é curada aos 26 anos atribui a cura a São José. Diz ela: “Tomei por advogado e Senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claramente que, tanto desta necessidade como de outras maiores de honra e perda de alma, este Pai e Senhor meu me tirou com maior bem do que eu lhe sabia pedir. Não me recordo até agora de lhe ter suplicado coisa que tenha deixado de fazer. É coisa de espantar as grandes mercês que Deus me tem feito por meio deste bem-aventurado Santo e dos perigos que me tem livrado, tanto no corpo como na alma.” Mais á frente conclui Santa Teresa: “parece-me que há alguns anos que, cada ano no seu dia, lhe peço uma coisa e sempre a vejo realizada: se a petição vai algo torcida, ele a endireita para maior bem meu”.
De tal maneira que vai dedicar a São José todos os mosteiros que vai fundando. O primeiro será em 1562 com o nome de Mosteiro de São José de Ávila.
Em 1517 nasce, em Génova, a primeira congregação religiosa com a invocação de São José: As filhas de São José.
É no pontificado de Gregório XV (1621) que se fixa a festa de São José a 19 de Março.
Em 1787. Santo Afonso Maria de Ligório Consagra a Ordem dos Redentoristas a São José. Também por esta altura se faz a grande propaganda da Devoção aos Três corações de Jesus, Maria e José.
Pio IX no final do Concílio Vaticano I, declarou oficialmente São José Patrono da Igreja Universal confirmando a data da festa a 19 de Março.
Foi Leão XIII quem publicou, em 1889 a primeira Encíclica de São José. Ele incentiva a devoção a S. José e dedica-lhe todo o mês de Março e ainda todas as quartas-feiras do ano.
É nesta época que surge também Teresa de Saldanha, fundadora das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, com a sua grande devoção a São José: desde pequena que a tinha, entregou ao seu cuidado a vocação e prometeu que a primeira obre seria dedicada a São José. Escreve assim ela nas suas notas: “A 19 de Março de 1866 Sua Eminência deu verbalmente a sua plena aprovação à ideia da instituição em Portugal de uma Congregação de Irmãs Terceiras e acrescentou que semelhante projecto parecia-lhe um tanto luminoso no meio das trevas tão densas que o rodeavam. Autorizou-me a que fizesse tudo o que quisesse, mas com prudência, prometendo proteger esta empresa que ele disse julgava ser segundo os desígnios de Deus. (...)
E por ser dado este passo tão importante no dia da festa do glorioso Patriarca S. José, como prova de reconhecimento pela protecção que o grande Santo se dignou conceder-me permitindo que a resposta do Patriarca fosse favorável fiz a promessa que a primeira Casa que se fundasse havia de ser de S. José e a primeira igreja seria dedicada a S. José.
Neste percurso histórico cabe ainda dizer que foi Pio XII que proclamou o dia 1 de Maio como o dia de São José, operário, João XXIII confiou o Concilio Vaticano II a S. José e mandou que se introduzisse o seu nome no cânone da Missa e finalmente João Paulo II escreveu a segunda encíclica sobre São José “O guarda do Redentor”.
Todo este percurso deve levar-nos então a tentar saber se São José é só o guarda do Redentor e padroeiro das questões financeiras (é padroeiro dos ecónomos...) ou outras razões que nos levem a ver nele a figura do próprio Pai.
São José só aparece no Novo Testamento. Não há outro escrito extra-bíblico que nos fale deste homem. No Evangelho aparece-nos umas 10 ou 11 vezes.
Nos Evangelhos São José não fala, não há um diálogo, é uma figura discreta; para muitos, como dissemos há pouco, até muito secundária neste mistério da Encarnação.
Mas não é. Creio que São José estará à mesma altura de Nossa Senhora. Isto é claro nos relatos evangélicos: O filho de Maria é também o filho de José. Era assim que ele ela conhecido: “Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a mãe?” (Jo 6, 42). Ou no relato do encontro de Jesus no Templo quando Maria, na pergunta que faz a Jesus também lhe diz: “Teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura”.
Ora, tal como Maria, também José colaborou com Deus, tornou-se disponível para este plano de salvação de Deus. Aceitou como Maria ou se quisermos, aceitou o que Maria já tinha aceitado na Anunciação. Há da parte de José a disponibilidade da vontade, ou seja, a consciência de que o plano de Deus é mais importante que a sua própria vida, que os seus próprios projectos.
Se no Evangelho de Lucas tudo se passa por Maria, no de Mateus a Anunciação é feita a José e Ele faz tudo como o Anjo lhe indica.
Neste aceitar o plano de Deus, José faz da sua vida um serviço na humildade e no silêncio.
Na humildade. São José é um pai como os outros pais. São José não foi o pai biológico de Jesus; Ele é dom do Espírito, milagre de Deus no seio de Maria. Por isso José sabe que não é protagonista de nada mas nem por isso deixa de cumprir os seus deveres de pai: quando o bebé nasce dá-lhe o nome, quando chega o dia de ir ao templo apresentar o Menino, leva as duas pombinhas, como lhe competia, ao ver a vida do seu filho em perigo foge para o Egipto, quando Jesus atinge os doze anos, acompanha-o a Jerusalém… José e Maria são a família de Jesus: partilham os bens, a vida, as preocupações, a responsabilidade de educar o filho... (nos evangelhos apócrifos São José até dá um puxão de orelha a Jesus...) Não é pai por acidente… São uma família ‘normal’, unida.
E também Jesus via José como pai. O Evangelho diz que Jesus lhes era submisso: a José e a Maria. E não podia ser de outra maneira.
Não há uma palavra de São José. Ele é o homem do silêncio. Acolhe a mensagem de Deus no silêncio, contempla o seu filho Jesus no silêncio, caminha no silêncio, trabalha no silêncio. Leonardo Boff, teólogo brasileiro, num artigo que escreveu sobre o seu último livro dedicado a São José, onde me inspirei para esta conferência, disse que São José é o padroeiro dos anónimos. Por causa deste silêncio. É uma ideia simpática, porque na discrição, no silêncio, José cumpre o seu papel de esposo, de trabalhador, de pai e de educador.
Seria, portanto, um erro pensarmos que a família de Jesus era diferente das outras famílias. Foi certamente uma família como as outras em que havia amor, unidade, responsabilidade, respeito, comunhão. E por isso podemos dizer que aquela família de Nazaré pode e deve ser modelo para todas as famílias Cristãs. Não pelo extraordinário, não pelo protagonismo, mas pela humildade, pelo serviço e pelo amor.
Jesus precisou do amor de uma família. E é este amor que as famílias devem viver: de pais com os filhos, dos filhos para com os pais, entre os esposos, entre os irmãos…
Há coisas da Tradição ou tradições sobre São José que não favorecem a devoção a São José: a ideia de que ele seria idoso (93 anos) e viúvo quando casou com Nossa Senhora... esta hipótese é boa porque responde a duas questões complicadas: a virgindade de Maria e a questão dos ‘irmãos’ de Jesus.
Se compararmos com um casamento ‘normal’, vemos um São José que teria os seus 18 anos quando decidiu viver com Maria. E assim vemos um pai seriamente comprometido com o plano de Deus e com a sua missão familiar do que um protector de Maria e de Jesus...
Como diz Leonardo Boff no seu livro: “De qualquer forma, podemos imaginar a força e a doçura, a ternura e o vigor que se mostravam no pai José em relação a Jesus, seu filho. José, como qualquer pai, toma a criança no colo com ternura, eleva-a até ao rosto, enche-a de beijos, diz-lhe palavras doces, embala-a com movimentos suaves; quando mais crescida, coloca-a às cavalitas, brinca com ela no chão e, como carpinteiro, faz-lhe brinquedos da sua cultura: carrinhos de madeira, ovelhinhas, boizinhos e vaquinhas. Qualquer adolescente precisa de um modelo com o qual se medir, no qual sentir firmeza e segurança, experimentar os limites e o alcance das coisas e, ao mesmo tempo, doçura e enternecimento”.
Não querendo romancear, podemos desenhar como foi a história de José: ele aparece sempre no Novo Testamento em contexto família onde não há palavras, só sonhos. Sabemos que ele não vem do mundo das letras; a sua profissão é a de um construtor-artesão: um carpinteiro que fazia casas, telhados, móveis... provavelmente sabia também trabalhar na pedra... moldava o ferro... E Jesus terá sido iniciado neste estilo de vida como o seu pai. Ele vai ser conhecido pelo ‘filho do carpinteiro’, ou na passagem de Marcos (Mc 6, 3) ‘o carpinteiro’.
Era também o esposo de Maria como nos dizem os Evangelhos da Infância. Além da importância ‘normal’ de Jesus ter um pai, acresce a da sua ascendência davídica que lhe vinha por José e por consequência, ser reconhecido como Messias: “Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. [interessante que não é José que gera Jesus... as primeiras comunidades Cristãs tinham como certo que Maria era e ficou virgem, mesmo sendo mãe]. E também impor o nome ao filho, tarefa importante do pai porque o ligava à sua tribo.
Maria e José são a família ‘natural de Jesus’. Como escrevia o Papa: “uma verdadeira família humana”.
No exílio, por exemplo, José dá segurança, quer pela presença de pai, quer pelo seu trabalho.
Esta família, como qualquer família, cumpre as tradições de Israel. E então vemos José, como qualquer pai, a levar o seu filho templo, com oito dias para o circuncidar e impor-lhe o nome ‘Jesus’. Quarenta dias depois oferecem-no no templo,
Terá sido José que iniciou Jesus na oração: Os dois rezavam juntos a oração da manhã, voltados para Jerusalém, iam todos os sábados ao culto na sinagoga, iam a Jerusalém celebrar a Páscoa... Certamente que Jesus ao chamar a Deus de Abbá – paizinho – tinha também esta relação com o seu pai, José.
Mas o que mais caracteriza São José é o seu silêncio.
Mais do que dizer, José fez. As suas acções estavam envolvidas no silêncio, num clima de contemplação...
Silêncio para escutar a Palavra. Como Maria. Diante do mistério apenas o silêncio. A fala de José, como a de qualquer trabalhador, são as suas mãos e não a sua boca.
Mas ele é também a imagem do silêncio do Pai. De certa maneira, o pai José representa Deus Pai.
Finalmente o silêncio expressa o nosso quotidiano e a nossa vida interior.
São José torna-se mestre da vida interior silenciosa. Mostra-nos a fecundidade não do falar mas do fazer: não do expressar-se, mas do estar no lugar certo com a sua presença e acção.

 

Fonte: Retalhos da vida de um padre


17
Mar 12
publicado por FireHead, às 23:31link do post | Comentar

16
Mar 12
publicado por FireHead, às 17:02link do post | Comentar

A reencarnação é uma doutrina que se baseia na falsa asseveração de que os mortos retornarão a este mundo em outros corpos. Segundo esse ensino, os homens não necessitam de Deus a fim de serem salvos do Inferno, pois "purificam-se" a si mesmos em "ciclos" de vida e morte até que acabem as consequências de todos os erros que cometeram em vida. É um dos ensinos predilectos dos mestres cegos e dos guias sem rumo. Está presente em sistemas idolátricos como o hinduísmo, o budismo, o espiritismo e na sopa esotérica da New Age Movement (Movimento Nova Era).

No hinduísmo, o pai do budismo e da New Age, o Karma ruim seria a causa das repetidas transmigrações das almas dos homens que, para os hindus, retornam a este mundo (em corpos de seres humanos, em corpos de vacas, em corpos de cães, de répteis, de insectos ou até de plantas) a fim de “ascenderem” rumo à “libertação” dos ciclos reencarnacionistas. Para o hinduísmo, o pecado é tratado como coisa de somenos, e o que importa é a “libertação” da “ignorância” dos homens em relação à sua necessidade de unir-se a Brahman (a “coisa” sem consciência e sem inteligência a que chamam deus), o que se daria através da meditação, da prática do Yoga, das recitações dos mantras e através dos ciclos reencarnacionistas.

O cerne da doutrina da reencarnação, bem como da sua congénere "transmigração da alma", é apenas mais uma tentativa inútil de escapar ao juízo divino, quer seja por uma opção consciente por uma religião onde Deus é deixado de lado (hinduísmo, budismo, espiritismo, New Age), quer pela submissão imposta pelo engano sedutor de Satanás, o pai da mentira (João 8:44). A doutrina da reencarnação invoca a auto-justificação e a auto-salvação por um meio fantasioso e irreal.

Segundo a doutrina da reencarnação, os homens não necessitariam do sacrifício de Cristo para nada, pois eles “salvar-se-iam a si próprios” pelos repetidos ciclos reencarnacionistas e por todo um enorme e variável conjunto de leis, normas, regras, rituais e comportamentos auto-suficientes que “elevariam” o homem a uma “condição superior”.

 

 

Reencarnação, a causa do infame sistema de castas da Índia

 

A reencarnação é o sistema doutrinário básico para cerca de 800 milhões de hindus, cerca de 300 milhões de budistas, 6 milhões de adeptos do jainismo, etc. Para essas seitas, a reencarnação é um aspecto essencial dos seus ensinos. Também para quase todos os cultos orientais e para práticas relacionadas com o Yoga e a meditação transcendental, as suas proposições baseiam-se na busca de uma "consciência mais elevada" em função da premissa da reencarnação.

A Cientologia (tão propagada por Tom Cruise e John Travolta) se propõe a remover traumas de vidas passadas com o uso de um artefacto a que chamam de E-meter; alguns psiquiatras e muitos psicólogos praticam a "terapia de vidas passadas", e têm os seus consultórios cheios, e há estatísticas que mostram que um enorme contingente populacional considera a reencarnação como uma "possibilidade". Na mente de muitos, a clássica pergunta "quem sou eu?" está sendo substituída por "quem fui eu?". Há até mesmo casos em que terapeutas chegam ao ponto de documentar "casos de reencarnação".

O conceito de reencarnação é muito popular e há um crescente interesse nesse tópico nos dias actuais, incentivado, em enorme medida, por livros e por revistas, programas de TV, filmes e palestras. A maioria deles relacionada com o mundo da "sabedoria esotérica" e do ocultismo. A reencarnação é também muito falada na Internet.

Muitos têm aceitado o conceito da reencarnação, não apenas os adeptos de religiões orientais e da Nova Era, mas mesmo por parte de quem não possui tais convicções e interesses esotéricos.

As doutrinas da reencarnação e do Karma resultaram no perverso sistema de castas da Índia, e os que são a ele submissos não podem vislumbrar a mínima possibilidade de melhorarem as suas vidas dentro desse sistema, pois os seus destinos miseráveis foram, como eles próprios afirmam, determinados pelas suas vidas passadas.

Se a reencarnação e a lei do Karma fossem tão benéficas a nível prático, como propõe a doutrina da reencarnação, como explicar os imensos problemas sociais e económicos da Índia, os quais a cada dia mais se agravam? Pobreza e miséria generalizada, fome, doenças, e um horrível sofrimento são persistentes e se agravam numa nação onde a reencarnação tem sido sistematicamente ensinada ao longo da História. Basta uma rápida passagem pelas terras onde a reencarnação tem sido ensinada há séculos para que se possa ver de perto o nível de vida subumano em que vivem multidões de pessoas guiadas por tais ensinamentos. Da próxima vez que algum guru hindu, algum mestre em meditação transcendental ou algum mestre zen lhe oferecer ajuda para terminar com todos os seus problemas, diga-lhe que vá para a Índia, eles lá precisam de muita ajuda!

A simples e mera lógica do pensamento humano, assim como o bom senso natural que há nos homens, pode aniquilar as pretensões da reencarnação: que benefício poderia haver em alguém ser punido por algo do qual nem sequer se lembra de ter feito? E por que se tiraria alguém do fundo do poço, se limparia as suas feridas, o alimentaria, se alguma lei impessoal se encarregará de perpetuar o seu estado de fome e de dores, a lei do Karma?

O conceito de reencarnação é proveniente dos Vedas do Hinduísmo e chegou à Europa durante a Idade Média com o Hermetismo proveniente do Neo-Platonismo. A reencarnação só começou a ser mais amplamente promovida no Ocidente no começo do século XX com a Teosofia e, posteriormente, com a Antroposofia. Os seus esforços persistentes, juntamente com o de diversos gurus orientais, e, principalmente, pelos esforços do Movimento Nova Era, combinados, foi o que desencadeou uma ampla aceitação da reencarnação como hoje vemos na nossa sociedade ocidental. A reencarnação, totalmente oposta aos ensinos do Cristianismo, tornou-se em uma doutrina sedutora a fim de explicar a origem e o significado da vida.

Novos formatos e novas versões remodeladas surgiram para "explicar" a reencarnação, com versões substancialmente diversas das que são propaladas pelas religiões orientais. Por exemplo, diferentemente do ensino de que a reencarnação seria um tormento do qual muitos deveriam escapar a qualquer preço, pela abolição de suas individualidades, a Nova Era declara que a reencarnação faz parte de um eterno processo de progressão da alma rumo a níveis mais elevados de existência espiritual, o que é, do mesmo modo, totalmente oposto aos ensinamentos do Cristianismo.

 

 

A reencarnação é impossível pelas leis numéricas

 

Se há uma alma por pessoa, e se a população do mundo está a crescer (e muito), de onde estão a vir essas novas almas? Por outras outras palavras, a população mundial mais do que dobrou, desde a viragem do século XIX até o século XXI, de cerca de 2 mil milhões para mais de 7 mil milhões de pessoas hoje. Se cada uma dessas 7 mil milhões de pessoas tivesse vivido pelo menos uma única vida passada, de onde veio esse excedente de tantos milhares de milhões de almas? Mas, segundo os reencarnacionistas, parece haver algumas "explicações possíveis" para isto:

 

- Essas novas almas estariam a vir de animais ou de rochas (rochas, um ser não vivo?) e de plantas.

- Essas novas almas estariam a vir de outros planetas (e fica-se com um défice de almas neles?), como afirmou uma das mais activas promotoras da Nova Era, Shirley MacLaine.

- Haveria pessoas a viver com mais do que uma alma (!!!)...

 

Mas como a definição clássica de reencarnação envolve uma alma por pessoa, a última opção está descartada. Agora, se se aceita o ensino clássico hindu sobre a reencarnação, o que envolve a aceitação de que se pode reencarnar numa barata ou num verme intestinal se tiver vivido uma vida realmente má, então a primeira opção parece poder ser uma solução. E se a tolice for uma de suas características, então a segunda opção é a solução.

 

 

A reencarnação é impossível porque afronta o bom senso, a inteligência e a razão

 

A reencarnação não faz o menor sentido, pois a razão de vivermos supostas vidas futuras seria com a finalidade de progredir sobre o mal que fizemos noutras vidas, e também para que sejamos punidos. Mas quem, honestamente e em sã consciência, pode dizer que se lembra das suas vidas passadas? Como é que eu poderei tornar-me melhor em relação ao que eu fiz em vidas passadas se eu não lembro do que fiz? Há pessoas que afirmam lembrar-se de vidas passadas quando submetidas a algumas técnicas, principalmente a hipnose. Porém, é facto cientificamente documentado que a hipnose não é um método nada confiável. Não pode sequer ser chamada ciência. Há pessoas que, sob hipnose, declaram ter viajado em naves espaciais, terem tido relações sexuais com extraterrestres e até que foram responsáveis por mudar o curso da História! É realmente possível acreditar nesses disparates?

O psiquiatra canadiano Ian Stevenson alega que já documentou 2500 casos de reencarnação, uma documentação fraudulenta, evidentemente. Se não for fraudulenta pelo facto de envolver algumas pessoas criadas em ambientes propícios a fazê-las acreditar na reencarnação, é fraudulenta pela actuação de Satanás, o qual pode fornecer diversas informações a fim de que se procure "confirmar" uma suposta existência prévia nesta terra; especialmente quando a hipnose é usada. Estados de transe hipnótico podem ser facilmente manipulados por forças demoníacas a fim de que sejam simuladas existências pregressas.

A reencarnação é um ciclo de desesperança, depressivo e ultrajante. A própria doutrina hindu afirma que o mal é apenas uma "ilusão".

A crença na reencarnação é também incompatível com a razão, com o raciocínio lógico mais elementar. Afinal, para que seja possível aprender com um erro, é necessário que nos lembremos do erro cometido. Isto ocorre não apenas com os seres humanos, mas também com os animais. Um cachorro aprende a não satisfazer suas necessidades fisiológicas no lugar errado sendo castigado quando o fez, ou sentindo o cheiro do que fez para que se lembre de seu acto. Alguém que tentasse ensinar um cachorro a controlar a sua bexiga à espera da hora em que o animal não mais se lembrasse do acto proibido para, de sopetão, castigá-lo, conseguirá na melhor das hipóteses traumatizar o pobre animal, nunca ensiná-lo a controlar a bexiga. Afinal, o pobre animalzinho não saberá porque terá sido castigado! 

A crença na reencarnação pressupõe na existência de um deus punitivo e sem misericórdia, ou melhor, um mecanismo que funciona por conta própria em que as pessoas são punidas com uma vida pelos pecados de que não se lembram, por erros que não sabem que cometeram, com o único objectivo de expiar uma falta que desconhecem totalmente ter cometido. Assim, evidentemente, não pode haver aprendizagem. Como poderia uma pessoa que sofre com as consequências de um suposto pecado numa suposta vida passada aprender a não mais cometer aquele pecado, se ela nunca soube tê-lo cometido? Como poderia ela saber que errou, que está a ser punida por aquele erro e que não mais deve cometê-lo, se ela não tem lembrança alguma dessa suposta vida anterior e só vê as misérias que sofre e que lhe parecem absolutamente desprovidas de valor, já que não tem como ligá-las com aquilo que teria sido a causa destes sofrimentos e que teoricamente os faria justos?

A justiça humana exige que o reú castigado saiba por que é punido; o bom senso revolta-se contra uma punição que não tenha explicação. Para que eu me possa emendar dos erros pelos quais sou punido, devo saber quais foram. A lei do Karma reduz o conceito de Deus ao de um juiz ou tirano inexorável, induzindo ao fatalismo e ao mecanismo físico no plano moral.

A crença na reencarnação é também incompatível com a razão pelo simples facto de que não ajuda em nada uma pessoa pelos pecados que ela não sabe ter cometido, como não faz sentido dizer ser a mesma pessoa (ou dar a ela uma punição!) quando ela nasceu de outros pais, com outro nome, noutro lugar, sem lembrança alguma da sua suposta vida anterior, da sua personalidade nesta "vida passada", dos seus erros, acertos, ignorâncias e saberes.

Uma pessoa que não fala a mesma língua, não tem a mesma cultura, nasceu de outros pais, num outro país, não se lembra da "encarnação" anterior, não tem conhecimento algum de nada do que agora o afectaria, não é nem pode ser considerada a mesma pessoa que uma sua suposta "encarnação" anterior. Qual seria o ponto em comum entre essas pessoas? Apenas uma espécie de "carné" de pecados para pagar, que seria passado de uma pessoa/"encarnação" para outra pessoa/"encarnação", sem que seja possível lembrar-se da origem daqueles sofrimentos, sem que seja levado nada de uma "encarnação" a outra a não ser os pecados a pagar. 

Assim, podemos dizer que a crença na reencarnação pressupõe na verdade que os pecados cometidos por uma pessoa (João da Silva, nascido em Botucatu dia 25 de Janeiro de 1965 e falecido em Belo Horizonte em 30 de Agosto de 1997, teria por pura maldade quebrado a perna de uma criança) são pagos por outra (José de Souza, nascido em 27 de Setembro de 1997 em Belém do Pará, nascido com a perna aleijada). Ora, isso não apenas é injusto como é absurdo! Não é a mesma pessoa, já que não há nada (paternidade, nome, personalidade, naturalidade, cultura, conhecimentos...) em comum, e José de Souza não teria como saber que sofre pelos pecados de João da Silva, que teria morrido e deixado assim de ser punido pelos seus pecados, passados a José para que a pobre criança os pagasse! 

A crença na reencarnação, além disso, é incompatível com a razão (ao menos quando os reencarnacionistas afirmam que todas as "encarnações" ocorrem em seres humanos e na Terra) porque a população de hoje no planeta é equivalente à soma de todas as pessoas que cá já viveram até o século passado. Assim, cada pessoa poderia no máximo estar na primeira ou segunda "encarnação". 

A crença na reencarnação é também incompatível com o bom senso mais elementar e é facilmente perceptível como apenas um reflexo do eterno orgulho humano quando percebemos que praticamente todas as pessoas que acreditam em reencarnação fazem questão de citar imediatamente supostas "encarnações" anteriores como reis, rainhas, pessoas famosas... conheço umas cinco ou seis Cleópatras! 

Hoje em dia, com a queda dos padrões morais da sociedade, está também na moda ter sido uma prostituta elegante de alguma corte em supostas vidas anteriores. Isto reflecte-se apenas as ânsias das pessoas, a sua incapacidade de enfrentar a realidade, mas evidentemente não corresponde à realidade.

 

 

O espiritismo e a reencarnação

 

O espiritismo e a reencarnação pressupõem uma concepção dualística platónico-cartesiana de alma e corpo que nega a unidade substancial do ser humano e leva à posição errada do materialismo.

Escreve Carlos Aldunate no seu livro "O Cristão frente ao paranormal" – Provocar esses fenómenos significa entrar voluntariamente no estado particular de receptividade que se chama TRANSE. Nele, o médium deixa de lado o seu espírito crítico e se faz transportar da sua própria sensibilidade. Por isso, o transe é um estado degradado do homem. (...) O médium em transe suspende as próprias capacidades superiores, por estar permeável às forças do inconsciente inferior. (...) Essas forças são desconhecidas: podem vir do inconsciente do médium, do inconsciente do cliente ou do inconsciente colectivo. Podem vir também de um espírito desconhecido, porque não há nunca plena segurança que venham do espírito invocado. Podem, enfim, vir de um demónio. Certamente, não podem vir de Deus, porque Deus não pode ser captado e obrigado a responder às nossas perguntas. Cria-se facilmente uma dependência dos espíritos; dependência que pode resultar bastante funesta. Conhecemos vários casos nos quais a invocação dos espíritos provocou obsessões com vozes, sensações corporais, impulsos ao suicídio etc. (...) Se uma actividade é essencialmente insalubre para o homem, é sinal de que ela não é conforme à sua natureza, não entra na intenção do Criador. Aquela actividade é simplesmente contra a ética; não se deve realizar. Os perigos das práticas espíritas, os efeitos perniciosos que frequentemente produzem, advertem-nos que eles não devem ser realizados. O transe sempre comporta uma diminuição da clareza intelectual, do espírito crítico e da liberdade humana; portanto, deriva sempre uma diminuição da responsabilidade, que é a característica própria do homem adulto e maturo.O homem em transe é como um homem mais ou menos drogado, um homem diminuído. Este transe verifica-se no médium e também na pessoa que o consulta e que entra na sugestão desencadeada pelo médium.

A doutrina da reencarnação é, na sua realização prática, como uma roda que parte de um ponto para retornar ao lugar de partida. A diversidade dos seres é momentânea, presente apenas nas existências intermediárias que se manifestam entre a partida e a chegada: minerais, depois plantas, depois animais, depois homens entre eles desiguais e enfim a igualdade e isto é um espírito perfeito, idêntico. Segundo tal doutrina, os homens seriam mais ou menos avançados dependendo se estiverem mais ou menos próximos do ponto da chegada, que é similar ao pleroma gnóstico: o pleroma gnóstico é uma espécie de magma originário e indistinto e o gnóstico Basílides o chama abertamente de nada.

Na doutrina da reencarnação:

 

- Os homens não têm um ser próprio, uma identidade pessoal própria: de facto, eles não têm conhecimento das próprias existências anteriores, não podem traçar a própria continuidade e a própria unidade. Esta amnésia das existências precedentes está em contradição mesmo com a teoria da reencarnação, a qual pressupõe a existência de um espírito independente do corpo, isto é, de um espírito que está no corpo como uma substância de natureza completa e que, portanto, guia o corpo como o piloto guia a nave. De facto, se o espírito é uma substância em si mesma completa, no desencarnar deveria levar embora consigo as lembranças e, sem perder a posse delas, deveria entrar no novo corpo do mesmo modo como o piloto não perde as próprias lembranças no passar de uma nave a outra.

- A ignorância das existências anteriores torna inútil a reencarnação. De facto, considerando a ignorância das existências precedentes, não se vê de que modo a reencarnação possa servir a favorecer o progresso individual. Para os reencarnacionistas, a doutrina da reencarnação serviria para fazer progredir os indivíduos através das vidas sucessivas correspondentes ao seu estado de avanço espiritual: esta seria a chamada lei do Karma. Para que o avanço do espírito possa ter lugar, ele deveria ser perfeitamente consciente da experiência adquirida em cada uma das existências precedentes, mas como se pode realizar um tal progresso se o espírito perde a lembrança das existências precedentes?

- Os homens não têm mais uma verdadeira família: de facto, para a doutrina da reencarnação, os filhos já existiam antes que os progenitores lhes concedessem um corpo no qual se encarnar. Antes de serem nossos – segundo tal doutrina – os filhos foram de outros progenitores, que foram provavelmente também de outra família, de outra nação, de outra pátria, de outra raça. Os próprios progenitores poderão se reencarnar num corpo concedido a eles pelos filhos.

- Os homens não teriam mais uma verdadeira identidade sexual: de facto, a reencarnação pode acontecer num corpo sexualmente diferente do precedente.

- E não haveria verdadeira diferença entre o homem e o animal: porque podemos ter sido animais e podemos sê-los no futuro.

 

Admitida a doutrina da reencarnação, se torna fácil, de um ponto de vista filosófico, justificar comportamentos desviados como o incesto, a homossexualidade, a zoofilia. Além do mais, deste núcleo filosófico reencarnacionista, é inevitável que tenham origem doutrinas contrárias à família e às justas e naturais desigualdades entre os homens.

Da doutrina da reencarnação deriva também uma concepção panteísta: o homem se salva por si através das sucessivas reencarnações e Deus termina por identificar-se com a soma de todas as coisas. Mas se não existe mais um Deus pessoal e transcendente, a natureza não é mais a obra do Criador, não é mais o fruto do Logos, o resultado de um projecto racional e, portanto, não existiram mais nem verdade, nem leis, nem direitos absolutos, sagrados, invioláveis. A natureza tornar-se-ia apenas uma espécie de material nascido do acaso, fruto de simples e momentâneas conexões de força, um material sobre o qual o mais forte tem o direito de exercer a sua força: ficaria um só direito e também um só dever, o da força.

Na realidade, o verdadeiro e autêntico domínio do homem sobre a natureza pode actuar somente através do conhecimento e o respeito das leis naturais.

A natureza não pode ser dominada atropelando-se as leis: a natureza se deixa dominar somente conhecendo-se as leis e aplicando-as. O domínio concedido pelo Criador ao homem não é um poder absoluto, nem se pode falar de liberdade de ‘usar e abusar’, ou de dispor das coisas como melhor agrade. A limitação imposta pelo mesmo Criador desde o princípio, e expressa simbolicamente com a proibição de ‘comer o fruto da árvore’ (cf. Gn 2,16), mostra com suficiente clareza que, no que diz respeito à natureza visível, estamos submetidos a leis não somente biológicas, mas também morais, que não se podem impunemente transgredir.

 

 

Mais algumas objecções científicas à reencarnação

 

A regressão hipnótica seria, para os reencarnacionistas, prova da reencarnação. Na realidade, no subconsciente acontece uma reelaboração caótica de todos os dados recebidos durante a existência e é possível que haja uma identificação com dados, histórias e acontecimentos depositados e reelaborados no inconsciente, identificação induzida pelo hipnotizador: o influxo do hipnotizador é evidente no facto de que, se sugere ao sujeito um retorno à infância, este age e fala como um menino; se lhe sugere ter sido um animal, este fala e age como um animal; se lhe sugere voltar a uma outra vida, começa a elaborar a história de uma outra vida. Além disso, as histórias dos sujeitos em estado de hipnose são sugeridas mais ou menos conscientemente pelos próprios hipnotizadores.

De facto, os sujeitos hipnotizados por Keeton aceitam o esquema do hipnotizador deles: declaram que todos são reencarnados logo após a morte. Aqueles hipnotizados por Arnall Bloxham transcorrem longos períodos nas esferas astrais. Aqueles de Helen Wambach escolhem o sexo antes de se reencarnarem e aqueles de Edith Fiore se reencarnam entre parentes que se odeiam. As famosas experiências do Dejà vu são facilmente explicáveis com dados e elaboração dos dados que ressurgem do subconsciente seguidos a associações emotivas induzidas por imagens, sensações, lugares, pessoas, situações que contêm elementos análogos àqueles depositados no subconsciente. Além do mais, a própria parapsicologia fornece instrumentos analíticos para demonstrar como muitos casos de suposta reencarnação são na realidade fenómenos de possessão.

Todos os relatos obtidos em transe hipnótico como sendo de existências pregressas até hoje foram reduzidos à qualidade de narrações de factos vividos pelo próprio narrador na vida presente. Sim, é notório que temos na nossa consciência psicológica apenas 1/8 dos conhecimentos que adquirimos desde a infância; 7/8 ficam latentes no nosso subconsciente ou inconsciente. Ora, colocados em sono hipnótico, perdemos o controlo sobre as nossas faculdades e dispomo-nos a obedecer cegamente ao operador. Por conseguinte, se este manda que alguém narre a trama da sua pretensa vida pregressa, tal pessoa associará, de maneira mais ou menos livre e arbitrária, as reminiscências e imagens que guarda no seu subconsciente; constituirá assim, um enredo que surpreenderá os ouvintes e o próprio paciente, mas que nada de novo apresentará, submetido a controlo, tal enredo será identificado como a soma de experiências vividas pelo paciente no decorrer mesmo desta vida. O mais famoso caso que a propósito se conhece, é o de Bridey Murphy, relatado e comentado no opúsculo "Reencarnação: prós e contras", Escola Mater Ecclesiae, CP 1362, 20001-970 Rio de Janeiro.

Os génios? As pessoas geniais, segundo os reencarnacionistas, seriam os espíritos que se aperfeiçoaram em numerosas encarnações anteriores. Tal explicação é gratuita. Quem observa os génios, verifica que não nasceram sabendo, mas são pessoas que estudam e pesquisam concentradamente ou sem dispersão. Ora , isto supõe inteligência perspicaz e vontade decidida, mas não supõe encarnações anteriores.

E as crianças-prodígio? Muitas vezes as crianças-prodígio são as que aprendem com rapidez e facilidade. Todavia, estes predicados devem-se à constituição nervosa de tais crianças, de tal modo que raramente elas se tornam pessoas talentosas. Ao contrário, as crianças aparentemente não talentosas, mas  dotadas de natureza calma, aprendem de maneira mais contínua, podendo chegar a ser pessoas de importância ou mesmo geniais. Deve-se também observar que as crianças tidas como prodígios na matemática ou na música são como as demais crianças em outros sectores de actividade intelectual. Ora, verifica-se que os prodígios do cálculo são os mais mecânicos que há, pois as máquinas calculadoras os podem reproduzir (sem ter inteligência); às vezes, pessoas pouco prendadas têm extraordinária facilidade para o cálculo - o que mostra que este não é sinal de prodígio nem genialidade. Algo de semelhante se verifica em relação aos prodígios musicais.Em relação ao fenómeno da paramnésia (dejà vu), muitas pessoas que vão pela primeira vez a determinado lugar têm a impressão de já terem lá estado, reconhecendo o ambiente com as suas características. Pergunta-se: como explicar tal fenómeno, dito de paramnésia, senão pela reencarnação? Na vida pregressa, a pessoa já teria visitado tal lugar. A propósito podem-se fazer quatro ponderações, que dispensam a reencarnação:

 

- Às vezes, a pessoa não esteve conscientemente no lugar, mas lá esteve inconscientemente; ora o inconsciente (mesmo o de uma criança de colo) colhe impressões e as guarda latentes. Digamos, pois, que uma criança seja levada a uma praça pública ou a um cemitério; trinta anos mais tarde supostamente, essa pessoa volta a tal ambiente; compreende-se que o reconheça imediatamente. Afirmará conscientemente já ter visitado o lugar - o que será verdade, não, porém, numa encarnação anterior.

- Pode acontecer também que a pessoa tenha visto imagens do lugar em fotografias de livros ou filmes - o que leva a crer que já tenha estado no lugar.

- Existe também a explicação pela hiperestesia. Há pessoas cujo inconsciente é capaz de ler o inconsciente de outrem, como dito. Ora, se vou ao Japão pela primeira vez e tenho a impressão de já ter estado lá, posso perguntar-me se nunca me achei ao lado de uma pessoa que já tivesse estado no Japão. Caso positivo (o que é plausível), eu terei percebido inconscientemente o que o amigo vira conscientemente e trazia no seu inconsciente.

- Acontece também que há muitos objectos semelhantes, de modo que, ao dizermos que já vimos algo, podemos estar confundindo esse algo com algum semelhante. Em suma, há várias explicações para o fenómeno da paramnésia dotadas de base científica; a única destituída de fundamento seria o recurso à reencarnação.

- E será que os lugares/espaços permanecem imutáveis com o passar do tempo de modo a que permaneçam conhecíveis?

 

 

Aprender é recordar

 

Há pessoas que aprendem com tanta facilidade que dão a impressão de estar apenas avivando conhecimentos já adquiridos (no caso... adquiridos na vida pregressa). A respeito, observe-se que a arte de estudar e aprender é uma actividade psicossomática; está em relação não só com o psíquico do estudioso, mas também com as suas disposições físicas ou corporais; a imbecilidade, a debilidade mental ou a idiotice são consequências de lesões do organismos e, em especial, do cérebro. De outro lado, os espíritos ditos mais "evoluídos" beneficiam de disposições orgânicas e fisiológicas que tornam a aprendizagem mais fácil, imediata e intuitiva. Uma alma bem dotada, num corpo sadio, é naturalmente propensa a célere e perspicaz apreensão da verdade.

 

 

 

Fonte:

Intellectus

Veritatis Splendor

Sinais dos Tempos


15
Mar 12
publicado por FireHead, às 02:18link do post | Comentar

Gnose: total perversão da moral

 

Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos... hão-de possuir o Reino de Deus. (I Coríntios, 6,9-10)

 

Toda a ética ou moral tem uma base filosófica e/ou teológica. Assim, a ética e a moral gnósticas são fruto da sua cosmovisão, da sua "teologia". Suas concepções e "percepções" a respeito de Deus, do universo e do homem têm consequências nefastas sobre o agir humano; e, como resultado, sobre a vida social.

 

 

Completo amoralismo

 

Se, de acordo com a Gnose, a causa do mal é a matéria, para o homem o mal moral vem do seu corpo; de onde fica eliminada toda a noção de responsabilidade pessoal. Mais ainda: para o gnóstico, o aperfeiçoamento moral é consequência da aquisição de um saber mágico , de uma iluminação que põe o homem em contacto directo com a divindade. Daí cair por terra a necessidade de boas obras e da prática da virtude: basta apenas o conhecimento (Gnose) .

Por fim, se a verdadeira essência do homem está na partícula divina aprisionada nele, nada do que faça de bom ou mau pode alterar para melhor ou pior essa sua natureza. De onde se segue que tanto faz praticar o bem como o mal moral; existe uma liberdade sem freios.

Santo Irineu de Lião (130-202), no seu célebre livro Contra as Heresias (Adversus Haereses), apresenta a argumentação dos gnósticos para justificar o seu amoralismo:

 

"Eles afirmam que as boas obras são necessárias a nós outros, do contrário é impossível salvar-nos. Mas, para eles mesmos, julgam que estão indubitavelmente salvos, não por causa de sua conduta, mas porque eles são espirituais (pneumáticos) por natureza. Porque, assim como é impossível que a substância material compartilhe da salvação, assim também é impossível para a substância espiritual (pela qual eles se designam a si mesmos) ser corrompida, sejam quais forem as acções que pratiquem. E exemplificam que, assim como o ouro tombado na lama não perde seu valor e beleza, da mesma forma eles não podem sofrer dano ou perder a beleza de sua substância espiritual, quaisquer que sejam as acções nas quais estejam envolvidos."

Não se trata de mera liberdade ou permissão para agir deste ou daquele modo. Essa licenciosidade é requerida como um meio de libertar a partícula divina, conforme explica Hans Jonas: "Essa liberdade, entretanto, é mais do que meramente permissiva; a sua prática está ligada a um interesse metafísico. Existe um positivo dever de realizar qualquer tipo de acção, de não deixar de explorar nenhuma possibilidade, de realizar tudo o que for possível, com o fim de esgotar todas as capacidades da natureza; somente assim é que se pode finalizar o ciclo das reencarnações."

 

 

Duas vertentes da Gnose: libertinagem e ascetismo

 

De acordo com as psicologias individuais, esse desprezo pela matéria conduz a dois extremos aparentemente contraditórios, mas que na realidade se complementam: de um lado a completa libertinagem (Gnose libertina); de outro, o mais rigoroso ascetismo (Gnose ascética). Na primeira modalidade, a matéria é achincalhada por práticas sexuais aberrantes; na segunda, a matéria é castigada por macerações desequilibradas e pela proibição ou limitação de todo o contacto carnal. Em ambas o fim é o mesmo: evitar a procriação e a consequente multiplicação de partículas divinas aprisionadas. É o que explica o mesmo Hans Jonas: "Nesta vida, os pneumáticos (como os possuidores da Gnose chamam-se a si mesmos) colocam-se como seres à parte em relação ao resto da humanidade. A iluminação imediata não somente torna a pessoa soberana na esfera do pensamento, mas também na da acção. De um modo geral, a moralidade pneumática é determinada pela hostilidade em relação ao mundo (a matéria) e o desprezo pelas obrigações mundanas. Deste princípio, entretanto, são estabelecidas duas conclusões contraditórias, ambas as quais encontram os seus representantes extremos: a ascética e a libertina. A primeira deduz da posse da Gnose a obrigação de evitar qualquer contaminação com o mundo, e portanto reduzir ao mínimo os seus contactos mundanos; a segunda deriva da mesma posse o privilégio da liberdade desenfreada."

A "ascese" praticada na Gnose nada tem em comum com a ascese Cristã. Ao contrário desta, está totalmente desvinculada da perfeição moral, tendo como finalidade destruir a ligação com a matéria, aviltar o corpo humano e impedir a propagação da espécie. É o que está afirmado num artigo divulgado online em 2000 pelo Institute for Gnostic Studies:

A finalidade da vida gnóstica é a libertação (da partícula divina), e não o moralismo . O foco é o retorno ao Reino da Luz (Pleroma), não a sustentação de padrões morais. Mesmo que a Gnose não aceite totalmente a afirmação de que os fins justificam os meios, ela chega extremamente perto disso. Ainda que a moral e a ética tenham a sua razão de ser para a classe dos hílicos , entretanto, para aqueles que estão acima da massa da humanidade, sejam psíquicos, sejam pneumáticos , a moralidade e as leis deste mundo material têm para eles pouco valor . (...) Ascetismo ou indulgência são parte do mesmo processo. Enquanto a Gnose rejeita de todo o coração a família e a reprodução, fora disto o uso da sexualidade ou do ascetismo é uma escolha que o estudante pode fazer ao longo do caminho.

 

 

Violar a lei moral por ódio a Deus

 

No seu estudo sobre o Gnosticismo, o Pe. J. P. Arendzen escreve a respeito dos gnósticos dos primeiros tempos do Cristianismo: "Como a lei moral tinha sido dada pelo Deus dos judeus, era um dever (para os gnósticos) violar essa lei como sinal de oposição a esse mesmo Deus. Assim ensinava a seita dos nicolaítas, existente nos tempos apostólicos, cujo princípio, segundo Orígenes, era parachresthai te sarki (deve-se abusar da carne)."

 

 

Moral de perdição

 

Ninguém dotado de são julgamento pode deixar de concordar que a disseminação do Gnosticismo e da sua negação da moral conduz necessariamente à destruição da vida social organizada. Pois a moral é a força que mantém coesa a sociedade, permitindo aos homens viver em harmonia e colaboração entre si.

Em vez da humildade, da castidade e da obediência Cristãs, o orgulho, a sensualidade e a revolta propugnados pelo Gnosticismo transformam o homem num inimigo do seu semelhante, num homo homini lupus, num lobo voraz em relação a outro homem, no qual vê tão somente um meio de satisfazer os seus desejos e vantagens.

 

 

Gnose: tentativa de infiltrar-se na Igreja

 

Por muito tempo pensou-se que a Gnose era uma heresia Cristã, uma vez que tão logo a Igreja foi fundada e começou a difundir-se, esse sistema religioso pagão tentou infiltrar-se nela. Para tanto adoptavam uma linguagem Cristã, que servia de invólucro para encobrir as suas reais doutrinas e lhes permitia servir-se do Cristianismo para propagá-las.

 

 

Tempos apostólicos

 

A luta da Igreja contra o Gnosticismo, nos primeiros tempos, foi renhida.

Essa luta, entretanto, não foi infrutífera - assinala o Pe. Jules Lebreton -, pois deu maior vigor à autoridade da Igreja e maior precisão ao dogma.

Tomamos conhecimento dessa luta, já nos tempos apostólicos, através dos textos do Novo Testamento, dos escritos dos Padres da Igreja e dos Escritores Eclesiásticos.

Os Actos dos Apóstolos (Act 8,9-25) falam-nos de Simão o Mago, o qual, por suas artes diabólicas, seduzia o povo da Samaria. Graças à pregação do diácono Filipe, e depois dos Apóstolos São Pedro e São João, o povo se converteu. Simão, tendo visto os prodígios operados pelo Espírito Santo, aproximou-se dos Apóstolos e ofereceu-lhes dinheiro para que obtivessem os mesmos dons para ele.

São Justino, na sua Primeira Apologia, escreve que esse Simão posteriormente foi adorado como um deus em Roma, e era seguido por uma mulher de nome Helena , uma ex-prostituta que ele afirmava ter libertado dessa vida pelo seu poder.

 

 

Infiltração gnóstica em Corinto

 

Tem sido observado que certas passagens das cartas de São Paulo parecem referir-se aos gnósticos. Em especial, escrevendo aos coríntios, o Apóstolo denuncia a presença de libertinos e blasfemadores, os quais chegam a dizer "Jesus seja maldito".

Ora, como poderia alguém pretender ser Cristão e ao mesmo tempo maldizer o Salvador? Encontramos a resposta a essa pergunta na tentativa dos gnósticos de se infiltrarem na Igreja. Para eles, a Encarnação, a Paixão e a Morte de Nosso Senhor eram uma "loucura".

Trata-se dos mesmos "Cristãos" condenados por São João, quando diz que aqueles que negam a Jesus Cristo são mentirosos. 

São Paulo condenou com vigor esses gnósticos, mostrando que só tem o Espírito de Deus quem aceita Jesus Cristo, e que esta aceitação é um efeito da graça de Deus, dispensada pelo Paráclito: Por isso, eu vos declaro: ninguém, falando sob a acção divina, pode dizer: Jesus seja maldito; e ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a acção do Espírito Santo. (1Cor 12,3); Se alguém não amar o Senhor, seja maldito! (1Cor 16,23)

 

 

Condenações nas Epístolas, nos Evangelhos e no Apocalipse

 

As Epístolas dos Apóstolos, os Evangelhos e o Apocalipse de São João denunciam e condenam os erros gnósticos.

São Judas fala de certos homens que se infiltram secretamente nas comunidades Cristãs e que não têm a graça de Deus. Trata-se de revoltosos que renegam a graça divina e a soberana autoridade de Nosso Senhor: Pois certos homens ímpios se introduziram furtivamente entre nós, os quais desde muito tempo estão destinados para este julgamento; eles transformam em dissolução a graça de nosso Deus e negam Jesus Cristo, nosso único Mestre e Senhor.

São João tem palavras de fogo contra esses "Cristãos" que rejeitam a divindade de Cristo negando que Ele seja um só com o Pai. A esses tais ele chama "anticristos" .  

O autor do Apocalipse condena especialmente os nicolaítas, gnósticos que iam contra toda a lei moral por ódio ao "Deus da Bíblia". Tais "Cristãos" não são verdadeiros Cristãos, antes pertencem à "sinagoga de Satanás".  

São Pedro deixa claro que os Cristãos não se baseiam em "hábeis fábulas", mas no testemunho directo dos Apóstolos: Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a Sua majestade com nossos próprios olhos.

São Paulo caracteriza as loucuras gnósticas como "doutrinas diabólicas" que proíbem o casamento e as coisas legítimas criadas por Deus para os homens.

Por fim, São Tiago  condena essa pretensa "sabedoria": Esta não é a sabedoria que vem do alto, mas é uma sabedoria terrena, humana, diabólica.

 

 

Evangelho de São João: refutação do Gnosticismo

 

Segundo São Jerónimo, o Apóstolo São João foi solicitado a escrever seu sublime Evangelho para refutar os gnósticos.

O último apóstolo, João Evangelista - a quem Jesus dedicou especial dileção, e que, reclinado sobre o peito do Senhor, hauriu um rio de puríssima doutrina, o qual foi o único que mereceu ouvir junto à Cruz as palavras "Eis a tua mãe" - estando na Ásia, quando já pululavam as sementes dos hereges cerintanos e ebionitas, e de outros que negam haver Cristo vindo ao mundo em carne, os quais foram por ele qualificados de anticristos na sua epístola, e constantemente combatidos pelo apóstolo Paulo, foi instado pelos bispos da Ásia e por representantes de muitas igrejas a escrever sobre a divindade do Salvador, e para tal, como direi, formular com temeridade tanto audaz quanto feliz o que é o Verbo de Deus. Donde narrar a História Eclesiástica que, pressionado pelos seus irmãos a escrever, respondeu que escreveria caso fizessem todos eles em conjunto um jejum para imprecar a Deus. Tendo feito o jejum, saturado pela Revelação, exprimiu as palavras iniciais vindas do Céu: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus .

Ante as fantasias gnósticas segundo as quais o mundo teria sido criado por uma "semi-divindade", o Demiurgo; que Jesus não era Deus, mas apenas um éon, um mensageiro; e que não tomou a natureza humana, mas apenas a sua aparência , São João proclama: Jesus é o Verbo de Deus, consubstancial com Ele, e o Criador de todas as coisas, o qual se fez homem para nos salvar:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito. Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.

Contra as fantasias gnósticas de um deus aprisionado em nós, o que nos faria divinos por nossa própria natureza, ele proclama a verdadeira participação na vida divina, por meio da graça, a filiação adoptiva de Deus.

(O Verbo) era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O reconheceu. Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam. Mas a todos aqueles que O receberam, aos que crêem no Seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

Todos nós recebemos da Sua plenitude graça sobre graça.

 

 

O testemunho da verdade e do sangue

 

O Cristianismo derrotou a Gnose não apenas pela força sobrenatural da Revelação divina, pela sabedoria e zelo dos Apóstolos e dos Doutores, pela beleza de sua moral e sublimidade de sua fé. Tudo isso seria magnífico, mas insuficiente caso não fosse capaz de despertar um entusiasmo que levasse ao heroísmo do martírio. Só ama inteiramente a verdade aquele que está disposto a lutar e a morrer por ela.

A Igreja nasceu no sangue divino do Redentor e vicejou no sangue dos mártires, a começar pelo dos Apóstolos, os quais, com a excepção de São João, morreram em testemunho da fé.

Em três séculos de perseguições cruentas (da morte de Cristo até o édito de tolerância de Constantino, em 313), milhares de Cristãos de todas as condições uniram-se a esse testemunho: eruditos filósofos, como São Justino; donzelas da mais alta nobreza, como Santa Cecília; soldados endurecidos pelas batalhas, como a Legião Tebana; sacerdotes, bispos, Papas.

A sublimidade desse testemunho do sangue move as almas, como escreve muito bem Daniel-Rops sobre a Igreja primitiva.

Há algo que arrasta no heroísmo, ao qual a alma humana, embora possa não conter grande dose de nobreza, é muito susceptível. Dessa forma, a epopeia dos mártires (dos primeiros séculos) não é apenas um episódio no tempo, perdido no passado, num período definido da História. Ela é um facto de importância única, que jaz no próprio coração da fé Católica, estando ligado com o mais essencial dos dogmas Cristãos.

Em suma, a Igreja não venceu o Gnosticismo pelo auxílio - aliás, tardio e incompleto - de Constantino, mas pela força intrínseca da sua doutrina, pelo seu elevado ensinamento moral e pelo testemunho de seus mártires. Com o Pe. Jules Lebreton, S.J., dizemos que as causas da vitória do Cristianismo sobre a Gnose podem ser reduzidas a uma: oCristianismo trouxe uma resposta às mais profundas aspirações da humanidade, a resposta que ela nunca tinha recebido antes.

 

 

Fonte:

- Santo Irineu, Adversus Haereses , Livro I, Capítulo 6, nº 2, in http://www.newadvent.org/fathers/0103106.htm .

- Objectivamente falando, e sem julgar intenções, não se pode deixar de ver certo fundo gnóstico em campanhas sistemáticas contra a procriação - seja pela contracepção, pelo aborto ou pela disseminação do homossexualismo - ainda quando as pessoas envolvidas não se dêem conta disso.

- "Eis o sentido profundo da ascese Cristã. 'Ascese': a própria palavra evoca a imagem do subir para metas elevadas. Isto exige necessariamente sacrifícios e renúncias. De facto, convém levar só o equipamento essencial para que a viagem não se torne pesada; estar dispostos a enfrentar todas as dificuldades e superar qualquer obstáculo para alcançar o objectivo estabelecido. Para sermos autênticos discípulos de Cristo, é preciso renunciar a si mesmo, tomar a própria cruz todos os dias e segui-lo (cf. Lc 9, 23). É o caminho difícil da santidade, que cada Cristão está chamado a percorrer" (Homilia do Papa João Paulo II na quarta-feira de cinzas,  25 de fevereiro de 2004 in http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/2004/documents/hf_jp-ii_hom_20040225_ash-wednesday_po.html ).

- Jules Lebreton, Christian Life at the End of the First Century, p. 359.

- Padres da Igreja  (ou Santos Padres): são certos escritores eclesiásticos antigos, que se distinguiram pela pureza de doutrina e santidade de vida e são reconhecidos pela Igreja como testemunhas da Tradição divina. Entre estes, distinguem-se os Padres apostólicos, os quais viveram por volta de fins do século I ou da primeira metade do século II (incluídos também os autores anónimos de certos escritos da mesma época), que se julga terem conhecido os Apóstolos e recebido deles a sua doutrina. Destacam-se São Clemente de Roma, discípulo e terceiro sucessor de São Pedro; Santo Inácio, bispo de Antioquia, e São Policarpo, bispo de Esmirna e discípulo de São João Evangelista. Os principais escritos anónimos são: A Doutrina dos Doze Apóstolos (ou Didaqué) ; O Pastor de Hermas e o Símbolo dos Doze Apóstolos (todos do século II).
- Escritores Eclesiáticos: São escritores sacros dos primeiros séculos notáveis pelo seu saber, aos quais, porém, falta alguma das características dos Santos Padres, a saber: santidade de vida ou pureza da doutrina. Os principais são Tertuliano e Orígenes. Naquilo que têm de ortodoxo, eles são testemunhas da Tradição e, embora não tenham a mesma autoridade dos Padres da Igreja, são citados pelos Papas e pelos teólogos.

- De onde vem a palavra simonia, para designar o tráfico de coisas sagradas.

- São Justino, Primeira Apologia, Cap. 26, 1-3, in Veritatis Splendor - Patrística, http://www.veritatis.com.br/conteudo.asp?pubid=333

- Cfr. Walter Schmithals, Gnosticism in Corinth , Abingdon Press, New York, 1971.

- Walter Schmithals, Gnosticism in Corinth, p. 127.

- "Os cerintianos distinguiam entre Jesus e Cristo; este último, um dos mais altos éons , desceu sobre Jesus, o filho do Demiurgo, e depois abandonou-o e retornou para o Pleroma" (Jules Lebreton, The Gnosis and Montanism, in Lebreton e Zeiler, op. cit., v. II, p. 620, nota 7).

- "As doutrinas desta seita, de acordo com Santo Irineu, são semelhantes às dos cerintianos e às dos carpocratianos. Eles negavam a divindade e o nascimento virginal de Cristo; aferravam-se em manter a Lei judaica; viam São Paulo como um apóstata, e usavam apenas o Evangelho segundo S. Mateus (Adv. Haer., I, xxvi, 2; III, xxi, 2; IV, xxxiii, 4; V, i, 3)." (J. P. Arendzen, Ebionites , in The Catholic Encyclopedia, s. v., NewAdvent.org-Catholic Encyclopedia on CD-ROM.

- Apud Cornelii a Lapide, Comentarius in Evangelium S. Joannis, in Commentaria in Scripturam Sacram, Parisiis, MDCCCLXXXI, Tomus Decimus Sextus, p. 288.

- Henri Daniel-Rops, The Church of Apostles And Martyrs, Image Books, Garden City, NY, 1960, pp. 248-149, 253.

- Lebreton-Zeiller, The History of the Primitive Church, t. II, p. 1228.

 

Sinais dos Tempos


13
Mar 12
publicado por FireHead, às 23:08link do post | Comentar
Os três falsos princípios protestantes são o sola fide, o sola scriptura e o sola gratia. Esses três princípios conduzem o homem a um pecado contra o Espírito Santo, o pecado da presunção da salvação, o que ao invés de agradar a Deus constitui uma ofensa muito grave.
Neste mundo existe apenas uma única religião que é a Igreja Católica. Existe, do outro lado, a anti-religião, que é a religião do demónio. Em Génesis 3, 15, apercebemo-nos da existência da religião verdadeira que é composta por aqueles que são da raça da mulher e a religião falsa constituída pela raça da serpente. Esta última é a Gnose e ela é composta por uma infinidade de seitas que, de forma mais ou menos descarada, têm na religião verdadeira a sua obsessão porque o que ela mais deseja é destrui-la para assim poder ocupar o seu lugar.
 
Para a Gnose, o mundo é mau porque foi criado por Demiurgo, o deus mau e arrogante. Demiurgo criou o mundo como prisão para o verdadeiro deus, que seria formado por inúmeras partículas divinas, as quais estariam presas na matéria, e que passariam pela evolução, do mineral ao vegetal, depois ao animal e então ao homem, onde então adquiririam consciência de seu estado. A finalidade da Gnose (conhecimento) seria, pois, libertar as partículas divinas aprisionadas no mundo, formando novamente a Divindade, com a união das partículas libertadas de todas as criaturas. E como se faz isso? Superando as prisões que Demiurgo criou, tais como a matéria, a inteligência e a moral, para assim dar ao homem o conhecimento salvífico, que é a compreensão de que o homem é deus, e de que deve libertar-se dessas três prisões que impedem a sua parcela de divindade de retornar ao todo divino. O homem seria assim redentor de si próprio.
O protestantismo é uma das seitas, que originou milhares de outras seitas, da falsa religião, da raça da serpente, porque é contra a Igreja Católica, e não estando com Cristo, logo está necessariamente contra Ele. A doutrina segue exactamente o mesmo esquema da Gnose. Por outras palavras, o protestantismo é uma "versão cristianizada" da Gnose.
 
Compreendamos, então, os três solæ protestantes:

 

1. O sola scriptura é contra a Escritura, pois impinge ao livro sagrado um poder mágico de auto-interpretação que ele não possui. Quando os protestantes pretendem exaltar a Bíblia, destroem-na. O próprio Lutero, ao dar início à primeira seita protestante (luteranismo), retirou vários livros da Bíblia (não materialmente, mas desqualificando-os, como considerando Tiago como sendo uma "epístola de palha" ou o Apocalipse como sendo nem evangélico nem profético), mostrando que a Bíblia era escrava da vontade dos reformadores. Ao desprezar tudo o que Lutero considerava humano em relação à revelação, como os sete livros deuterocanónicos e a Tradição, bem como os concílios e a hierarquia, de facto ele estava-se a opor a tudo o que era material, à criação. Segundo Lutero, esses livros retirados da Bíblia não produziam a experiência que despertaria no fiel a noção de salvação, e como tal não poderiam ser inspirados. Tais livros não traduziam de facto o kerigma, que é - mais importante que as verdades reveladas - o anúncio salvífico. Ao propor o sola scriptura, Lutero queria a libertação da matéria, para ouvir somente a voz (divina) que falaria ao interior do homem. É a libertação da primeira prisão da partícula divina, como na Gnose.

 

2. O sola fide é qualquer coisa menos fé verdadeira. Para os protestantes o que vale é a experiência com Cristo, e não a aceitação das verdades reveladas por Deus. Geralmente se considera que o sola fide se opõe apenas às boas obras. Porém, se nos detivermos um pouco mais nesse princípio, veremos que ele se opõe à participação da inteligência na obra da regeneração, pois a fé protestante não pode passar pela razão, mas provém unicamente da emoção e da experiência vivencial. A inteligência - desprezada e odiada por Lutero - impede que o homem chegue ao verdadeiro conhecimento de Deus, que segundo Lutero se dá através da experiência catalisada pela leitura da Bíblia. A fé protestante é confiança: confiança de que está salvo, confiança de que realmente Cristo revelou o Deus inerente ao homem. Ao desprezar a inteligência e confiar somente na experiência religiosa, o fiel protestante elimina a segunda prisão do Demiurgo, a inteligência.

 

3. O sola gratia vai contra a verdadeira graça santificante. Esse princípio diz que o fiel justificado está livre do pecado, não porque não o possua mais ou não possa cometê-lo, mas porque o tem encoberto pela graça de Cristo. Assim, o justificado tem graça e pecado ao mesmo tempo - simul iustus et peccator. Com isso, dá-se ao fiel a ilusão de impecabilidade, e mesmo a permissão de pecar com a garantia do perdão antecipado - é o pecca fortiter. Assim Lutero habilmente conseguiu impugnar os dez mandamentos, ao dizer que o homem é incapaz de praticá-los e, portanto, não pode ser culpado por cometer pecado. Ora, a graça é propriamente a participação na vida divina, pois a Santíssima Trindade de facto habita na alma justificada pelos méritos de Cristo. Como poderia habitar Deus e pecado na mesma alma? É impossível, e uma ofensa à graça divina. Por isso o pecado mortal é a expulsão de Deus da alma, cuja presença se adquire com o Baptismo e se recupera com a confissão. O sola gratia é a libertação da terceira prisão do Demiurgo: a moral.

 

Conclusão: no que é que se torna o fiel protestante libertado das três prisões através dos três solæ? Torna-se um "Cristão", segundo Lutero, livre para fazer o que bem entender, incluindo o livre-exame da Bíblia, não limitado por nenhum mandamento, pois estaria salvo, certo da sua salvação pela confiança (Fé) na remissão de Cristo. (Lutero, A liberdade do Cristão, de 1520). E o "Cristão" protestante passa a fazer parte do número dos eleitos, não porque tivesse mudado de vida, passando de pecador a justo, pois para Lutero o homem é predestinado para o Céu ou para o Inferno e nada pode fazer para mudar a sua condição (doutrina da predestinação). Na verdade, o "Cristão" é justificado porque Deus já o predestinara à salvação. E como o "Cristão" sabe que está salvo? Através da riqueza material e do sucesso, que são os sinais da sua amizade com Deus. A busca da glória e da riqueza terrenas passa a ser a vocação - beruf, como explica Max Weber - o objectivo do protestante justificado, do "Cristão" protestante. Começando pelos príncipes alemães que roubaram as terras da Igreja, tornando-se tiranos civis e religiosos. O "Cristão" protestante é uma caricatura do santo, que adquire a sua liberdade não pela imitação de Cristo, mas pela libertação das prisões do Demiurgo, como num rito iniciático.

 
O protestantismo actualmente faz sucesso porque é a Gnose "cristianizada", daí o seu apoio e a sua crescente propagação pelo mundo. Conclui-se, portanto, que cada vez existem mais inimigos de Deus.
 
 
Fonte: Montfort Associação Cultural

12
Mar 12
publicado por FireHead, às 17:08link do post | Comentar
 

Os Católicos são idólatras, pois adoram estátuas!… Quem nunca ouviu essa afirmação? Infelizmente, uma vez que os Católicos usam estátuas nas suas igrejas, enfrentamos a acusação de  violar um dos mandamentos de Deus:

Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que está em cima nos céus, nem em baixo na terra, ou seja nas águas debaixo da terra: tu não deves curvar-te a elas nem as servirás (Êxodo 20:4-5)

Ai, este povo cometeu um grande pecado, pois eles fizeram para si deuses de ouro (Ex . 32:31).

Adoração do Bezerro Dourado

 

Loraine Boettner, no seu livro "Catolicismo Romano", faz a afirmação genérica: Deus proibiu o uso de imagens na adoração (281) para criticar a Iconografia Sacra praticada no Catolicismo. No entanto, se as pessoas Examinassem as Escrituras (cf. João 5:39),  iriam descobrir que o oposto disto é verdadeiro.

 

 

Mas Deus proibiu mesmo toda imagem?

 

Deus proibiu a adoração de estátuas, mas não proibiu o uso delas. Em vez disso, Ele de facto mandou que fossem usadas em contextos religiosos, como provarei em baixo. Portanto, aqueles que se opõem à iconografia e estatuária religiosa esquecem-se das muitas passagens onde o Senhor ordena a confecção de estátuas. Por exemplo:

Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado e outro de outro, fixando-os de modo a formar uma só peça com as extremidades da tampa. Terão esses querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada. Colocarás a tampa sobre a arca e porás dentro da arca o testemunho que eu te der. Ali virei ter contigo, e é de cima da tampa, do meio dos querubins que estão sobre a arca da aliança, que te darei todas as minhas ordens para os israelitas. Farás uma mesa de madeira de acácia, cujo comprimento será de dois côvados, a largura de um côvado e a altura de um côvado e meio. Recobri-la-ás de ouro puro e farás em volta dela uma bordadura de ouro. Farás em volta dela uma orla de um palmo de largura com uma bordadura de ouro corrente ao redor. (Ex. 25:18-20).

David deu a Salomão a planta do templo: Também determinou a quantidade de ouro refinado que o altar do incenso deveria ter. Deu-lhe o modelo do carro dos querubins de ouro, que cobriam com as suas asas a Arca da Aliança de Javé. Tudo isso estava num escrito que Javé havia entregado a David, explicando a fabricação do modelo. (1 Cr. 28:18-19). A planta de David para o templo, que o autor bíblico nos diz que foi escrita pela mão do Senhor, incluía estátuas de anjos.

Da mesma forma Ezequiel 41:17-18 descreve escultura (talha) das imagens do templo idealizado, que lhe havia sido mostrada numa visão, pois ele escreve: Nas paredes ao redor na sala interior e (sobre) a nave foram esculpidos semelhanças de querubins.

 

 

O uso religioso de imagens

 

Durante uma praga de serpentes enviadas para punir os israelitas durante o êxodo, Deus disse a Moisés para fazer (a estátua de) uma serpente e a colocasse num poste, e todo aquele que for picado e ver a serpente viverá. Então Moisés fez uma serpente de bronze, e prendeu-a num poste, e qualquer pessoa picada que olhasse para a serpente de bronze viveria. (Num. 21:8-9).

Bastava olhar para a estátua de bronze da serpente para ser curado, o que mostra que as estátuas poderiam ser usadas ‘sacramentalmente’, ou seja, como símbolo externo que manifesta a fé existente interior, e não apenas como ornamentos religiosos. Eis aqui apenas mais uma evidência bíblica que Deus  de facto utilizou símbolos ou sinais físicos para dispensar Suas Graças ao Seu Povo já no Antigo Testamento. O mesmo pode ser dito do método escolhido por Deus para saciar a sede dos israelitas no deserto, quando ordenou a Moisés que usasse o seu cajado contra uma pedra, que somente então jorraria água e salvaria o povo de Israel de morrer de sede. Não poderia Deus ter apenas feito chover? Obviamente que sim, mas o Senhor escolheu um modo simbólico de apresentar a Sua bênção ao Seu povo, permitindo assim que através do gesto de Moisés a fé de todos aqueles presentes fosse aumentada.

Os Católicos usam estátuas, pinturas e outros recursos artísticos para “recuperarem” a pessoa ou a cena representada na arte. Da mesma forma que ao olharmos para uma fotografia lembramo-nos da pessoa nela contida, ao olharmos para uma estátua nos remetemos mental e espiritualmente àquilo que ela representa.

Os Católicos também usaram as estátuas como ferramenta de ensino. No início da Igreja elas foram especialmente úteis para a instrução dos analfabetos. Muitos protestantes usam imagens de Jesus e outras figuras da Bíblia na escola dominical para ensinar as crianças, uma tradição tipicamente Católica.

Os Católicos também usam estátuas para imortalizarem a lembrança de certas pessoas e eventos, do mesmo modo que muitas igrejas protestantes nos EUA e no mundo usam presépios tridimensionais no Natal.

Sendo assim, se o mesmo peso e a mesma medida forem usados, os protestantes também estariam praticando a “idolatria” de que acusam os Católicos. Mas não há idolatria em nenhuma dessas situações, pois Deus proíbe a adoração de imagens como deuses, mas  não proíbe a sua realização. Se fosse o caso, os filmes religiosos, vídeos, fotografias, pinturas, e todas as coisas semelhantes seriam idolatria. Mas, como no caso da serpente de bronze de Moisés, Deus não proibiu o uso ritual de imagens religiosas.

O problema é quando as pessoas começam a adorar a estátua como um deus, o Senhor se zanga. Assim, quando os judeus do Antigo Testamento começaram a adorar a serpente de bronze como um ‘deus-serpente’ (a qual chamaram “Neustã”), o rei justo Ezequias mandou destruí-la (2 Rs. 18:4).

 

 

Prostração: postura idólatra?

 

Às vezes os anti-Católicos citam Deuteronómio 5:9, onde Deus disse a respeito de ídolos, Vós não deveis vos curvar a eles para formularem a sua acusação.  Uma vez que muitos Católicos às vezes se ajoelham diante de estátuas de Jesus e mesmo dos santos, as pessoas confundem esse acto de veneração com o pecado da idolatria.

Apesar da curvatura e a genoflexão (acto de ajoelhar-se) poderem ser posturas de adoração, isso não quer dizer que sempre que elas ocorrem esteja caracterizada a adoração. Assim, um Católico que se ajoelha diante de uma imagem sacra não está prestando adoração à estátua, mas apenas assumindo uma postura de oração. Ou seja,a genoflexão é uma postura de reverência que exterioriza um sentimento de humildade e piedade interior,  ela somente caracterizaria um acto de adoração se houvesse  a atribuição do status de divindade ao objecto (imagem sacra) em substiuição a Deus, o que não ocorre na prática Católica. A Bíblia Sagrada nos prova isso:

Moisés saiu ao encontro do sogro e, prostrando-se, o beijou. Em seguida, depois de mútua saudação, os dois entraram na tenda. (Ex. 18:17)

Josué rasgou suas vestes e prostrou-se (diante da Arca da Aliança) com a face por terra até a tarde diante da arca do Senhor, tanto ele como os anciãos de Israel, e cobriram de pó as suas cabeças. Seria esse o desejo de Deus?

Obadias ajoelhou-se diante de Elias e esse por sua vez não o repreendeu, pois percebia o gesto de Obadias como acto de respeito:

Enquanto Obadias caminhava, eis que veio Elias a seu encontro. Abdias reconheceu-o e prostrou-se com o rosto por terra, dizendo: És tu, meu senhor Elias? (1 Reis 18,7)

Eliseu também se pôs de joelhos:

Os filhos dos profetas que estavam em Jericó, vendo o que acontecera defronte deles, disseram: O Espírito de Elias repousa em Eliseu. Foram-lhe ao encontro, prostraram-se por terra diante dele. (2 Reis 2:15)

As mulheres se ajoelharam diante dos anjos no sepulcro:

Não sabiam elas o que pensar, quando apareceram em frente delas dois personagens com vestes resplandecentes. Como se estivessem amedrontadas, inclinaram o rosto para o chão, disseram-lhes eles: Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? (Lucas 24: 4-5)

Alguns recorrem ainda a Deuteronómio 4:15-18 para condenarem o uso  de estátuas religiosas:  No dia em que o Senhor, vosso Deus, vos falou do seio do fogo em Horeb, não vistes figura alguma. Guardai-vos, pois, de fabricar alguma imagem esculpida representando o que quer que seja, figura de homem ou de mulher, representação de algum animal que vive na terra ou de um pássaro que voa nos céus, ou de um réptil que se arrasta sobre a terra, ou de um peixe que vive nas águas, debaixo da terra.

Já mostramos que Deus não proíbe a confecção de estátuas ou imagens de várias criaturas para fins religiosos (cf. 1 Rs 6:29-32, 8:6-66; 2 Crónicas 3:7-14) mas sim o 'endeusamento' de estátuas  em substituição ao culto a Deus. Muitos protestantes diriam que mesmo assim essa prática é errada, pois Deuteronómio 4 nos diz que os israelitas não viam a Deus sob uma forma concreta e, portanto, não devemos fazer representações simbólicas de Deus. Mas será que Deuteronómio 4 proíbe tais representações?

 

 

A resposta é não!

 

No início de sua história, Israel foi proibida de fazer quaisquer representações de Deus, porque Ele não havia se revelado de uma forma visível. Dada a cultura pagã ao seu redor, os israelitas poderiam ter sido tentados a adorarem a Deus sob a forma de um animal ou algum objecto natural (por exemplo, um touro ou o sol), como de fato o fizeram.

Mais tarde, porém, Deus revelou-se sob formas visíveis, como em Daniel 7:9: Enquanto eu olhava, foram colocados tronos e um que era Ancião de Dias, tomou o seu lugar, o seu vestido era branco como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã; o seu trono era chamas de fogo, suas rodas eram fogo ardente. Os protestantes em geral fazem representações de Deus Pai,  de acordo com essas descrições quando fazem ilustrações das profecias do Velho Testamento.

O Espírito Santo revelou-se pelo menos sob duas formas visíveis: a de uma pomba, no baptismo de Jesus (Mateus 3:16, Marcos 1:10, Lucas 3:22, João 1:32) e como línguas de fogo, no dia de Pentecostes (Actos 2:1-4). Os Cristãos não-Católicos usam essas imagens para representarem episódios bíblicos. Nos EUA, por exemplo,  usam alfinetes na lapela com a representação do Espírito Santo em forma de pomba, ou ainda emblemas nos seus carros, etc...

Mas, mais importante, na encarnação de Cristo, Seu Filho, Deus mostrou à humanidade um ícone de si mesmo. Em Colossenses 1:15 Paulo disse: Ele é a imagem. (Em grego imagem = ikon) do Deus invisível, o primogénito de toda a criação. Cristo é o tangível "ícone" divino do invisível, do Deus infinito.

Nós lemos que, quando os Reis Magos foram entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se, o adoraram. Então, abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra (Mt 2:11). Embora Deus não tivesse revelado uma forma no Monte Horeb, Ele revelou uma na casa em Belém.

A questão é, quando Deus estabeleceu a Sua Nova Aliança connosco, Ele revelou-se sob uma forma visível em Jesus Cristo. Por esse motivo, nós podemos fazer representações de Deus em Cristo. Até mesmo os protestantes usam todos os tipos de imagens religiosas: imagens de Jesus e outras personagens bíblicas aparecem numa variedade de Bíblias, livros de fotos, camisolas, bijuterias, adesivos, cartões, discos compactos, e presépios. Cristo ainda é simbolicamente representado pela Icthus ou "emblema de peixe."

O bom senso nos diz que, uma vez que Deus se revelou em várias imagens, sobretudo na encarnação de Jesus Cristo, não é errado para nós usarmos imagens destas formas para aprofundar o nosso conhecimento e  amor a Deus. É por isso que Deus revelou-se nessas formas visíveis,  é por isso que são feitos ícones e estátuas.

 

 

A Igreja Católica condena a idolatria há 2000 anos

 

Desde os tempos dos apóstolos, a Igreja Católica  sempre condenou o pecado da idolatria. Os Padres da Igreja alertam contra este pecado, e concílios da Igreja também abordaram a questão.

O Segundo Concílio de Niceia (787 D.C) referia-se sobretudo à questão do uso religioso de imagens e ícones dizendo: "Aquele que nos redimiu das trevas da idolatria insana, Cristo nosso Deus, quando assumiu a Sua noiva, a Sua santa Igreja Católica, prometeu que iria protegê-la e garantiu aos Seus santos discípulos, dizendo: Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos tempos… A esta graciosa oferta algumas pessoas não prestaram atenção, sendo ludibriadas pelo inimigo traiçoeiro, elas abandonaram a verdadeira linha de raciocínio… e elas não conseguiram distinguir o sagrado do profano, ao afirmar que os ícones de nosso Senhor e dos Seus santos não eram diferentes das imagens de madeira dos ídolos satânicos.

O Catecismo do Concílio de Trento (1566 DC) ensinou que a idolatria é cometida quando há a adoração de ídolos e imagens como Deus, ou acreditar que elas possuem qualquer divindade ou virtude que os autorizem a nossa adoração, por meio da oração, ou depositando confiança neles ( 374).

A idolatria é uma perversão do sentido inato do homem religioso. Idólatra é aquele que”transfere a sua indestrutível noção de Deus como algo diferente de Deus (CIC 2114).

A Igreja absolutamente reconhece e condena o pecado da idolatria. Os não-Católicos, ao acusarem os Católicos de Idólatras, não reconhecem a distinção entre o pensamento  que eleva um pedaço de pedra ou gesso ao status de um deus e o desejo de visualmente lembrar Cristo e dos santos no céu, fazendo estátuas em sua homenagem. A fabricação e utilização de estátuas religiosas é uma prática totalmente bíblica. Quem disser o contrário não conhece a Bíblia.

 

 

 

Fonte: Catholic Answers


11
Mar 12
publicado por FireHead, às 15:45link do post | Comentar | Ver comentários (2)
 

Gerou-se uma enorme polémica no Brasil depois do Pe. Paulo Ricardo ter dito que os protestantes (erradamente apelidados de "evangélicos") são otários. Mas onde é que está a novidade? Os protestantes são mesmo otários, sim! Mas e se fosse o contrário? Quantos não são os protestantes que dizem que a Igreja Católica é a besta do Apocalipse, que os Católicos são satânicos, idólatras, depravados, pedófilos, etc? Fica assim provado uma coisa: o que os protestantes dizem é mentira, é irrelevante e não é o suficiente para provocar polémicas; e o que os Católicos dizem é a mais pura das verdades! A verdade magoa demais, não magoa?
Força, Pe. Paulo Ricardo!!


publicado por FireHead, às 00:01link do post | Comentar
 

300 + 2.847 + 10.000. O resultado dessa soma é um registo da quantidade de fiéis Católicos reunidos, nesta semana, para apoiar o padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, sacerdote da arquidiocese de Cuiabá (MT, Brasil) que, no dia 27 de Fevereiro, foi alvo de uma carta aberta difamatória assinada por 27 militantes marxistas que receberam o sacramento da ordem.

 

As manifestações de apoio ao padre começaram pelas redes sociais e, na quinta-feira, 08/03, em apenas uma hora, contabilizaram 2.847 menções importantes no Twitter de acordo com o site Analytics Topsy. A ferramenta informa o número e a influência de poderosas acções em 140 caracteres comuns em protestos políticos, na divulgação de marcas e em manifestações populares nas quais cada indivíduo com uma conta na rede Twitter expressa o seu sentimento sobre um tema do momento.

 

Além das menções, no Twitter, 10 mil pessoas participaram de um abaixo-assinado, também electrónico e pelo menos outras 300 estiveram reunidas, fisicamente, no Santuário Eucarístico Nossa Senhora do Bom Despacho, em Cuiabá, para rezar pelo padre, o primeiro sacerdote Católico a experimentar a força das redes sociais, no Brasil.

 

O padre que deixa as redes sociais em polvorosa, no país (Brasil), não é nenhuma celebridade acostumada a dar autógrafos. Ele não canta, não é bonitão, nem escreve livros de auto-ajuda ou apresenta programas diários no rádio ou na TV. Padre Paulo Ricardo, um careca de aproximadamente 1,90 metros, é o que o Vaticano chama de webpastor, uma figura facilmente encontrada no Google, sempre presente no YouTube e, o mais importante, um homem de fácil diálogo com uma comunidade de fiéis que em nada se confundem com fãs à espera da próxima dose de emoção oferecida pelos seus artistas preferidos.

 

Os seguidores de padre Paulo Ricardo, termo comum à redes sociais, são hiperconectados à rede mundial de computadores, gostam de opinar, criticar, e rezar – alguns em latim, outros com o dom de línguas do Espírito Santo, outros com véu sobre a cabeça. A maioria desses seguidores é jovem, está preocupada com os assuntos internos do Catolicismo e reconhece no Papa Bento XVI não somente a figura de um homem religioso, mas de um intelectual que não cansam de ouvir e citar em seus Twitters, Facebooks, contas de Youtube e numerosos blogues – alguns até mesmo premiados em concursos nacionais.

 

O que é preciso para mobilizar mais de 10 mil pessoas em menos de uma semana, sem usar os média tradicionais? O segredo de padre Paulo Ricardo passa pela sua figura de liderança, mas está, principalmente, num valor comum ao mundo digital: a transparência. O que pode ser uma descoberta nova para a religião no ciberespaço já é praticado por muitas ONG's, empresas, governos e pessoas públicas.

 

Na religião, o que seria a transparência? A julgar pela mensagem do padre das redes sociais, neste caso transparência é assumir o discurso religioso sem receios do politicamente correcto. Não que assumir a sua própria identidade seja uma novidade para a religião Católica, mas, não é difícil admitir que tanta música e conselhos de auto-ajuda estavam, ultimamente, personalizando demais a mensagem Católica ao gosto do freguês.

 

Padre Paulo Ricardo, membro do Conselho Internacional de Catequese (Coincat), da Congregação para o Clero, uma espécie de Ministério do Vaticano para os Sacerdotes, puxou a tomada dos holofotes do politicamente correcto e encarou o desafio da transparência. A julgar pela defesa ferrenha dos seus milhares de seguidores e pela reacção contrária, igualmente ferrenha, de seus poucos adversários: ele acertou.

 

 

Fonte: Vida sim, aborto não!


10
Mar 12
publicado por FireHead, às 03:10link do post | Comentar

*Por Alexandre Semedo

 

 

1- Não sou protestante porque o protestantismo não existe desde o princípio do Cristianismo. Surgiu 1500 anos depois da era Apostólica. As suas "igrejas" são locais, regionais ou nacionais, não existindo uma Igreja Universal.

 

R - Mas o Cristianismo existe e é dele que fazemos parte. O Cristianismo é universal. O Católico Martinho Lutero, um dos expoentes da Fé Reformada, teve a coragem de protestar contra a venda de indulgências, um comércio que estava denegrindo o Cristianismo. A partir daí, o Cristianismo, sob a graça de Deus, seguiu o seu caminho livre das heresias.
A ruptura foi necessária num momento em que o Catolicismo pretendia se estender por todo o mundo, sempre com a ameaça de colocar na fogueira os seus opositores. Então o Cristianismo seguiu o seu caminho com a verdade bíblica, tendo unicamente Jesus como Senhor, Mediador, Advogado e Intercessor, conforme as Escrituras.


Repare que, nesta refutação, os pastores não encaram o problema principal (aliás, esta é uma constante nestas refutações que eles resolveram fazer). Eles não enfrentam o facto de que, nos primeiros 1500 anos do Cristianismo, simplesmente não havia protestantes. Não havia "sola scriptura" (e nem poderia, visto que as cópias manuais da Bíblia eram extremamente raras). Chega a ser engraçada a afirmação implícita de que Deus fez surgir o protestantismo (com Lutero à frente) porque a Igreja ameaçava dominar o mundo. A Igreja sempre foi universal (Católica) e já se havia espalhado por todo o mundo conhecido.
Gostaria de chamar a atenção para a frase "a partir daí, o Cristianismo seguiu o seu caminho livre das heresias". Ou seja, para esta tríade protestante, antes disto o que existia era uma heresia. A promessa do Senhor de que as portas do Inferno não prevaleceriam contra a Igreja (cf. Mt 16,18-19) não passou, para eles, de uma fábula.

 

 

2 - Não sou protestante porque apesar da afirmação de que somente a Bíblia deve ser considerada como norma de fé e prática, eles não concordam entre si no tocante a pontos importantes, entrando assim, em contradições. São mais de 20.000 mil denominações diferentes. Cada uma pregando uma suposta verdade.

 

R - Ser a Bíblia a norma de fé e prática do Cristão não é uma afirmação dos crentes; é uma declaração da própria Palavra de Deus (Rm 10.17; 2 Tm 2.15; 3.16-17 ;4.2). Há muitas denominações registadas em cartório, mas existe unidade na fé em Cristo Jesus. Desprezamos dogmas criados por homens. Não comemos pelas mãos dos outros. Cada crente examina as Escrituras, e debate, e troca opiniões, assim como faziam os primeiros Cristãos.

Isto é absolutamente falso. A Bíblia jamais afirma ser a única norma de fé. E nem poderia ser, visto que a primeira geração de Cristãos passou sem que qualquer livro do Novo Testamento tivesse sido escrito. Quase todos os apóstolos já haviam morrido antes que se escrevessem Hebreus, as Epístolas Joaninas, o Apocalipse e, segundo alguns exegetas, a Segunda Epístola de Pedro. Até o final do quarto século, não havia definido o cânone bíblico. Os protestantes não se dão conta de que, se a "sola scriptura" fosse verdadeira, os primeiros Cristãos (justamente aqueles que mais heroicamente deram a vida em testemunha de Cristo) não seriam Cristãos legítimos, visto que não possuíam uma Bíblia para examinar, debater e trocar opiniões (como eles supõem que faziam...)
Veja-se que a "sola scriptura" não pode ser um ponto de fé genuinamente Cristão pelo simples facto de que até o Concílio de Hipona (393 d. C.) ainda não haver uma "scriptura" para que os Cristãos baseassem a sua fé "sola" na mesma. Aliás, até à invenção da imprensa, os Cristãos achariam ridícula a afirmação de que a Bíblia é a única norma de fé por dois motivos:

a) Havia pouquíssimas Bíblias, visto que a cópia era manual e muito demorada;

b) A quase totalidade dos Cristãos era analfabeta, pelo que aos mesmos (que não podiam ler a Bíblia e dela retirar a sua fé) só restava confiar naquilo que a única Igreja ensinava.

Ou seja, o "sola scriptura" pode ser até tentador no dia de hoje, quando é fácil obter uma Bíblia e quando a maioria dos Cristãos a podem ler (embora poucos tenham capacidade de a entender). Mas até algumas décadas antes de Lutero, isto teria sido considerado absurdo por todo o povo de Deus.

Para finalizar, se o que conta é a "uniformidade na fé em Cristo Jesus", não há porque se separar da Igreja Católica, visto que "fé em Cristo Jesus" nós também temos...

 

Vejam: "Estes foram mais nobres do que os de Tessalónica, pois de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" (Actos 17.11). A Bíblia chama de "nobre" aquele que examina a Palavra e dela tira as suas próprias conclusões. Somos uma só fé, uma só religião, uma só doutrina.

Esta afirmação seria engraçada se eles não estivessem falando sério. Uma só fé? Uma só religião? Uma só doutrina? Até parece que estão falando dos Católicos...
É óbvio que, ou isto é uma mentira descarada, ou uma cegueira sem limites. São mais de trinta mil "igrejas" protestantes. Umas aceitam o sábado, outras o domingo, outras não aceitam dia algum de descanso. Umas somente baptizam adultos; outras, crianças; umas entendem ser o baptismo essencial para a salvação; outras, ser o mesmo um mero rito sem muito sentido; umas dizem que, para o baptismo, basta a aspersão de águas; outras, dizem ser essencial a imersão; outras, afirmam que só é válido o baptismo em águas correntes; outras, enfim, que as águas correntes devem ser fluviais... Umas dizem que ou se descansa aos sábados ou se tem a marca da Besta. Umas dizem que Cristo é Deus; outras, que Ele é uma mera criatura. Umas aceitam a existência de almas; outras, não. Poderíamos continuar ad nauseam com estes belos exemplos de unidade de fé, religião e doutrina...

Com relação ao trecho citado, os nobres protestantes (como qualquer adepto da "sola scriptura") derraparam em interpretação enviesada. Os Cristãos mencionados receberam oralmente a fé, creram pela autoridade apostólica de São Paulo e, depois de receberem a verdadeira e sã doutrina, foram às Escrituras (hebraicas, obviamente, visto que todo o Novo Testamento não havia ainda sido escrito) apenas para verificarem a exactidão do ensinamento apostólico. Estes "nobres Cristãos" não saíram, por aí, tirando as suas próprias conclusões bíblicas. Apenas confirmaram, nas Escrituras, a fé que haviam recebido e aceitado.

 

Só adoramos o Santo dos santos, Aquele que morreu em nosso lugar. Não louvamos, nem adoramos, nem suplicamos a outros deuses (Mateus 4.10). Se alguma denominação ensina outro Evangelho, não faz parte do Corpo de Cristo, não é considerada Cristã, não é Igreja de Jesus.

Aqui é óbvio que a tríade quis dizer que a Igreja Católica não é Cristã, pois, ao "adorar os santos" prega um evangelho diferente do aceite pelos três.

O facto é que, se a tríade estivesse certa, e, se todo Cristão que venera os santos não participa do corpo de Cristo, então os reformadores, que veneravam Maria, não eram Cristãos, e as "igrejas" fundadas pelos mesmos também não eram. Ocorre que estes protestantes disseram que, com Lutero, a Igreja Cristã seguiu o seu caminho livre de heresias. Incoerências protestantes... Se eles estivessem certos, Lutero e os seus comparsas eram hereges, não somavam com Cristo e, portanto, dividiam. A Reforma seria obra do Demónio, e obra do Demónio seriam todas as "igrejas" nascidas, directa ou indirectamente da mesma, já que os primeiros reformadores também veneravam os santos.

Não é fantástico? Por linhas tortas, chegaram à conclusão correcta!

 

 

3- Não sou protestante porque atribuem a si próprios o direito de interpretar a Bíblia. Acreditam ter uma iluminação pessoal vinda do Espírito Santo sem intermediários, ou seja, sem a Igreja. O mais interessante é a diferença que o Espírito Santo manifesta em cada uma das centenas (talvez milhares) de ramificações do protestantismo.

 

R - Fazemos o que Deus quer que façamos, ou seja, que nos dediquemos à leitura da Sua Palavra, e Nela meditemos dia e noite (Salmo 1), pois sabemos que "toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra" (2 Tm 3.16-17).

Sobre este famoso versículo da Segunda Carta a Timóteo, vou colar um texto que escrevi para uma protestante que, num debate, citou este trecho bíblico.

Vou terminar apenas comentando a famosa passagem "toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente preparado para toda boa obra". Com ela, os protestantes acham que provam a "sola scriptura" e a desnecessidade da Igreja. Não provam, pois Paulo não disse "apenas as escrituras divinamente inspiradas...", como tu interpretas. Eu concordo com Paulo e, no entanto, confortavelmente, aceito toda a Tradição da Igreja. Quando Paulo escreveu este trecho, boa parte do Novo Testamento não havia, ainda, sido escrito. Ainda que a tua interpretação deste trecho (na qual tu colocas um "somente" onde não existe) fosse correcta, ela só faria sentido se a Bíblia tivesse caído pronta do céu. Mas tu sabes que não foi assim. Então, eu te pergunto: a que "escrituras" Paulo se refere? Vejamos as possibilidades:

 

1ª Possibilidade: Paulo está-se referindo apenas aos escritos judaicos (ou seja, ao Antigo Testamento). Particularmente, é isto o que eu entendo. Se tu concordares comigo, existem muitos problemas para a tua fé. Primeiramente, uma boa parte dos livros que tu tens por inspirados não o seriam, e muitos versículos que usas para atacar a Igreja seriam "tradições humanas", como dizem os protestantes. Em segundo lugar (embora tu negues isto até à morte) Paulo era um judeu da diáspora, e, como todo judeu da diáspora, ao referir-se às escrituras judaicas pensava em todos os livros que, hoje, compõem o Antigo Testamento Católico. Por outras palavras, aceita esta primeira possibilidade, não apenas lês livros não inspirados, mas também há livros inspirados que tu não lês. Creio que tu não gostaste muito, não é mesmo? Passemos à segunda possibilidade.

2ª Possibilidade: Paulo se referia aos escritos judaicos e a todos os escritos da era apostólica. Possivelmente, esta possibilidade é melhor que a primeira. Cuidado em aceitá-la, pois também traz dificuldades. Primeiramente, há escritos apostólicos que se perderam, pelo que nem toda "palavra inspirada e útil" estaria na Bíblia. Em segundo lugar, porque existem escritos da era apostólica que não compõem o cânon do Novo Testamento (e que provam que os Cristãos primitivos já acreditavam em tudo aquilo que os protestantes insistem em dizer terem sido inventados por "Roma" séculos mais tarde), o que novamente nos conduz à negação da "sola scriptura". Novamente, acho que já deves ter rejeitado esta hipótese. Não tem problema, existem mais duas.

3ª Possibilidade: Paulo se referia aos escritos judaicos e mais alguns (inclusive várias de suas próprias cartas) que, por revelação divina (sonho, aparição, etc.), soube que, trezentos anos mais tarde, viriam a ser estabelecidos num concílio Cristão. Novamente, acho que tu terás problemas com esta possibilidade, pois este mesmo concílio estabeleceu, como sendo inspirados, todos os livros do Antigo Testamento que não fazem parte da tua Bíblia. Esta possibilidade levar-te-ia a aceitar como bíblicos pontos de fé Católicos que rejeitas (Purgatório, intercessão, orações pelos mortos, etc.). Vejamos a última possibilidade.

4ª Possibilidade: É muito parecida com a terceira. Só que na revelação de Paulo, ele soube que, mil e duzentos anos após o citado concílio, um monge iria arrancar do cânone deste concílio vários livros do Antigo Testamento. É a este conjunto de livros que Paulo se referia. Exactamente o mesmo conjunto de livros que tu tens por inspirados. Ocorre que isto não apenas coloca 1500 anos do Cristianismo no ostracismo histórico, como também torna inútil a recomendação que Paulo deu a Timóteo. Afinal, as escrituras inspiradas e úteis para ensinar somente estariam à disposição dos Cristãos séculos mais tarde.

 

O acesso à Bíblia não é proibido na Igreja de Cristo. Qualquer um pode ler; tendo dúvida, pede ajuda aos mais entendidos. Para isso, há escolas dominicais e cursos teológicos. Todo crente deve saber manejar bem a palavra da verdade para apresentar-se a Deus aprovado (2 Tm 2.15). Deus não quer ignorantes da Sua Palavra.

Podemos recorrer também ao Espírito Santo que não está preso numa redoma de ouro e guardado num cofre; Ele está em nós (Sl 51.11; Lc 11.13; At 2.4; Ef 1.13; Rm 8.9; 1 Co 3.16,19) e nos ajuda em nossas fraquezas, pois Ele é uma Pessoa (Rm 8.16,26; Lc 12.12; 14.26; 1 Co 2.13). Temos iluminação pessoal? E Jesus não disse que somos a luz do mundo e sal da terra (Mt 5.13,14)?

 

A contradição é assombrosa! Ora, se temos o Espírito Santo; se Ele nos ajuda e nos inspira; se é tão simples ler a Bíblia, então, por que escolas dominicais, cursos bíblicos, livretos, pregações, etc.? O "sola scriptura" vivido coerentemente resumiria o Cristianismo a leituras e meditações particulares da Bíblia, cada um no seu cantinho.

A lógica nos diz que, se não há um magistério infalível dado por Deus, então cada crente, ao ler e meditar a mesma Bíblia, iluminado pelo mesmo Espírito, deveria chegar às mesmas conclusões às quais chegaram os demais. Ou, então, este Espírito Santo, contradizendo-se, não é Deus. Como a uniformidade não ocorre (e, sabendo que o Espírito Santo é Deus), é lógico que o pressuposto adoptado (a "sola scriptura") está errado, o que nos conduz à necessidade da Igreja. E tal necessidade, por sua vez, é a ruína do protestantismo. Se a Igreja for necessária, não só os protestantes não cumprem a vontade de Deus como, também, lutam contra ela.

 

 

4- Não sou protestante porque a doutrina não tem unidade, as "igrejas" não são infalíveis em questões de moral e fé. As suas hierarquias não são rígidas, os preceitos são secundários. A salvação está em somente crer em Cristo, mas sabemos que não basta somente crer, pois, é preciso viver a fé, e vivê-la em santidade. Daí os Mandamentos. Daí a moral que a Igreja ensina. Dizer que a salvação vem somente do crer em Cristo, é continuar vivendo uma vida injusta ou dissoluta, é mentir à própria consciência.

 

R - E os papas são infalíveis? E as histórias repugnantes sobre diversos Papas? E a diabólica Inquisição? E o perdão pedido aos chineses, aos aborígenes, a Galileu? Não é o reconhecimento de erros cometidos pelo Catolicismo? A rigidez moral do Catolicismo funciona?

 

Os protestantes confundem, sempre e sempre, infalibilidade com impecabilidade. Os Papas pecaram, mas jamais erraram ao se pronunciarem, ex-cathedra, sobre doutrina e moral. Ou seja: dizer que os Papas não são infalíveis porque pecaram é, ou desconhecer o dogma da infalibilidade, ou agir de má-fé. A tríade, em questão, parece conhecer o dogma da infalibilidade. Então...

Apenas para pôr os pontos nos is, o Catolicismo jamais cometeu erro. Isto é teologicamente errado. Os filhos da Igreja erraram (e, às vezes, gravemente), mas a Igreja segue santa e imaculada, pois tais erros ocorreram apesar da Igreja.

Repare-se que, também aqui, eles não refutaram o facto apresentado por D. Estevão. Eles se limitaram à tentativa de provar que nós, Católicos, somos tão ruins quanto eles... Aceitaram, ainda que sem perceber, o facto de que o protestantismo não possui qualquer autoridade infalível e que não há segurança doutrinária entre as mais diversas "igrejas" cristãs. Tal forma de agir (atacar para não ter que se defender de algo indefensável) confunde os leitores menos atentos. Mas o facto é que, implicitamente, reconheceram a veracidade daquilo que disse D. Estevão.

 

E o caso de assédio e violência sexual de sacerdotes Católicos contra religiosas, em 23 países, para ficar só neste exemplo? Ensinamos o que ensina a Palavra. A fé no Senhor Jesus envolve arrependimento dos pecados; sem isso não há perdão nem salvação. A santidade faz parte da vida Cristã. Quem nos convence do pecado é o Espírito Santo (João 16.8). As boas obras são decorrentes dessa fé salvífica.

 

Os protestantes adoram desviar o assunto. Como não têm resposta à evidência apresentada por D. Estevão (qual seja, no protestantismo não há autoridade infalível) tentam atacar o Catolicismo. São muito tristes os escândalos sexuais envolvendo padres, mas, repita-se, são erros dos filhos da Igreja. Poderia, também, citar exemplos chocantes envolvendo protestantes, mas isto não vem ao caso.

 

QUEM NELE CRÊ NÃO SERÁ JULGADO; QUEM NÃO CRÊ JÁ ESTÁ CONDENADO, porque não crê no nome do unigénito Filho de Deus (palavras de Jesus (Jo 3.18). Vejam também Romanos 10.9. Acontece que o Catolicismo ensina a salvação pelas obras; mas não somos salvos pelas obras, mas para as boas obras (Ef 2.8). Ademais, "o justo viverá pela fé" (Romanos 1.17)

 

Gostaria de saber de onde a tríade tirou esta informação de que, segundo o Catolicismo, somos salvos pelas obras. Para a Igreja, é Cristo que nos salva pela Sua Cruz e Ressurreição, sendo que, pelas boas obras, cooperamos para que esta salvação ocorra. Aliás, o que esta afirmação gratuita e inverídica tem a ver como o tema proposto por D. Estevão? Absolutamente nada.

 

 

5- Não sou protestante porque apesar deles lerem a Bíblia (embora sem alguns livros e com interpretações diversas) não possuem nenhuma autoridade superior Infalível, para declarar que uma palavra tem tal sentido, e exprime tal verdade.

 

R - Qual seria a autoridade infalível na Terra? Só surgiu um homem assim: Jesus Cristo, porque não tinha a mancha do pecado. A Palavra diz: "Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso", e que "não há um justo, nem um sequer" (Rm 3.4,10). Não temos um PAPA falível, mas temos um Pai do Céu infalível capaz de suprir todas as nossas necessidades (Fp 4.19). "O Senhor é o meu Pastor e nada me faltará" (Salmo 23).

Novamente, a mesma confusão entre infalibilidade e impecabilidade. O Papa não é, digamos, "impecável", mas infalível. Quem o diz é o próprio Cristo: "eu te darei as chaves do Reino dos Céus; o que ligares na Terra será ligado nos céus; o que desligares na Terra, será desligado nos céus" (Mt 16,19). E em outra passagem: "eis que eu estou convosco todos os dias, até o final do mundo" (Mt 28,20). Todos os Papas pecaram; nenhum deles, contudo, jamais contradisse um seu antecessor ao usar do seu Magistério Infalível.

O questionamento de D. Estevão é muito contundente: os protestantes não possuem uma autoridade infalível, então, como saber qual das diversas interpretações que eles propõem é verdadeira? A tríade, novamente, não enfrentou o problema e desviou o assunto.

 

 

6 - Não sou protestante porque eles negam a Tradição oral. Sendo que na própria Bíblia, Paulo recomenda os ensinamentos de viva voz (Tradição) que nos foram transmitidos por Jesus e passam de geração em geração no seio da Igreja, sem estarem escritos na Bíblia. Confira em (2 Tim 1,12-14).

 

R - Negamos a Tradição oral porque ela foi a maior fonte de problemas já na teologia do Antigo Testamento, distorcendo as palavras já escritas na Torá; e ela também tem sido comprovadamente a maior fonte de heresias no meio da Igreja Romana. No caso do Antigo Testamento, dizia Jesus aos fariseus: MC 7.9 - "E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição".

 

Aqui partem de uma visão bastante apriorística das coisas. Ao afirmarem que não adoptam a tradição porque a mesma tem sido fonte de heresias, tomam por provado o que querem provar: que a Igreja Católica está repleta de erros. Primeiramente, eles deveriam comprovar que existem heresias na Igreja Católica para, depois, provar que a Tradição as gerou.

A "tradição" a que Jesus se refere não é a Tradição oral que os judeus tinham por Palavra de Deus, mas a tradição dos fariseus que, para evitarem infracções ainda que involuntárias da Lei, criaram uma série de prescrições, assim como fazem os pastores protestantes, que proíbem os fiéis de jogar futebol, ver televisão, coisa que não foi ordenada por Deus. Tais prescrições acabaram por se tornar um peso.

A Tradição oral é a matriz das Escrituras. Por exemplo: entre Abraão e a escrita dos Génesis houve um intervalo de 1000 anos, em que a história do Pai dos Crentes foi passada apenas oralmente. É a Tradição oral em acção, e, dela, bebe o escritor sagrado ao colocar por escrito esta estória. Quando os evangelistas começaram a escrever as primeiras linhas dos Evangelhos, algumas décadas já se haviam passado desde a Ascensão de Cristo. Até então, as primeiras comunidades se formaram, exclusivamente sobre a Tradição oral dos Apóstolos. Dizer que a Tradição oral não é Palavra de Deus equivale a afirmar que as palavras de Cristo somente se tornaram divinas décadas depois de Sua morte.

No entanto os nobres apologistas protestantes esquecem-se que São Paulo também mandou guardar a Tradição Apostólica, isto é, o que os Apóstolos ensinaram e que não foi escrito: "Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, SEJA POR PALAVRAS, seja por epístola nossa." (2Tss 2,15)

 

Note-se que Deus não deixou nada escrito, tanto no Antigo Testamento como no Novo. Mas a existência de ESCRITURA deixada por Moisés e outros homens de Deus limitou todos os sermões de Jesus a somente o que estava escrito. Ele combatia tudo o que se afastasse do que estava escrito.

 

Isto é mais falso do que nota de vinte e cinco! Diversos sermões de Jesus são baseados nos ditos e nas tradições rabínicas dos fariseus, que se desenvolveram a partir da Tradição oral. Jesus, por exemplo, afirma: "ouvistes o que vos foi dito: amarás teu próximo e odiarás o teu inimigo." Os pastores poderiam mostrar em que parte da Bíblia está escrito que devemos "odiar nossos inimigos"? Não o podem, pois isto vem da tradição rabínica de se afastar do am ha aretz, aquele que desconhece a Torá. Portanto, grande parte dos discursos de Jesus não se limitou "ao que estava escrito", mas a toda Palavra escrita e oral aceite pelos judeus.

 

Paulo e os demais apóstolos podiam aconselhar os irmãos a seguir o que dissessem, pois estavam VIVOS e o seu testemunho era real. Após as suas mortes, tudo o mais que alguém poderá dizer que ouviu deles é mera especulação.

 

Notem a contradição nesta afirmação. Se após a morte dos apóstolos tudo que se diz e escreve é especulação, então porque crêem nos Evangelhos de Lucas e Marcos, na Epístola aos Hebreus, livros estes que não foram escritos pelos apóstolos e foram escritos após as suas mortes? Como dizia Drummond: "E agora, José?"

Se não havia apóstolos vivos para legitimá-los, como então hoje são aceites como canônicos? Negam a verdade clara e evidente de que a autoridade das Sagradas Escrituras deriva da autoridade da Santa Igreja.

Pobres protestantes que não aceitam o poder de Deus. Deus é potente para preservar as Suas Palavras e evitar que se corrompam. Sejam tais palavras escritas, sejam orais. A Tradição oral se preservou sem deturpações porque próprio Deus prometeu que seria assim. Prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja; prometeu que o Papa teria as chaves do Reino dos céus; prometeu que estaria com os Seus discípulos até o fim do mundo. E apenas os Católicos acreditam, realmente, que tais promessas se cumpriram.

 

Tome-se por exemplo a Igreja da Galácia: tinha sido evangelizada e fundada PESSOALMENTE pelo apóstolo (Act 18:23), mas isso não impediu que os crentes ali logo perdessem a fé genuína para os judaizantes, obrigando Paulo a, POR ESCRITO, trazê-los de volta à verdadeira fé: "(GL 4:11) - Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco". "(GL 4:18) - É bom ser zeloso, mas sempre do bem, e não somente quando estou presente convosco" "(GL 5:7,8) - Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade? Esta persuasão não vem daquele que vos chamou". E Paulo termina a sua pregação, por estar ausente, por meio de documento escrito: "(GL 6:11) - Vede com que grandes letras vos escrevi por minha mão".

Se isso aconteceu num curto período de tempo, ainda em vida do Apóstolo que evangelizou os gálatas pessoalmente e na sua ausência se perderam, o que não dizer de séculos de ignorância quando a Igreja de Roma inclusive PROIBIA a leitura da Bíblia pelos seus seguidores?

 

Aqui novamente são infelizes. Vejam que eles mesmos reconhecem que São Paulo escreve à Igreja dos Gálatas para exortá-los na Sã Doutrina. Ora, se os Gálatas não se tivessem afastado na fé, provavelmente o apóstolo não teria escrito a eles. Se isto tivesse acontecido significaria que o apóstolo não deixou de viva voz a sua doutrina aos Gálatas? Claro que não. A própria carta paulina mostra que São Paulo já havia pregado a esta comunidade, deixando então para eles a Tradição. No entanto, São Paulo em pleno exercício de sua acção pastoral escreve aos Gálatas não porque tinha que lhes deixar algo por escrito, mas porque como estava impossibilitado de estar com eles, lhes escreveu. Isto mostra mais uma vez que a preocupação principal dos apóstolos era pregar o Evangelho e não deixar a sua doutrina por escrito. Como vemos o que foi escrito o foi em ocasiões muito especiais, em ocasiões esporádicas.

Poder-se-ia perguntar à tríade acima: se a Tradição oral não é confiável, como podem eles confiar nos Evangelhos? Como eu já disse, o Evangelho existiu, primeiramente, como Tradição oral, para depois ser escrito. Como, então, ter certeza de que as palavras de Jesus não foram distorcidas nas décadas seguintes até serem escritas? Como se pode ter certeza de que Jesus realmente falou aquilo que está escrito? Pela lógica da tríade, não se poderia ter a certeza, pois, em pouco espaço de tempo, a Tradição oral se corrompe... Aliás, é justamente isto que afirmam os perseguidores do Cristianismo: que os evangelistas, já distantes dos acontecimentos, não são dignos de confiança. Pelo menos estes perseguidores são coerentes, o que não se pode dizer da tríade de pastores autora desta refutação.
Nós, Católicos, confiamos nas promessas do Senhor: as portas do Inferno não prevaleceriam contra a Igreja. A assistência do Mestre é eterna, pelo que a Tradição oral jamais se corrompeu. Assim, podemos ter a certeza de que os Evangelhos dizem a verdade sobre Jesus; podemos ter a certeza de que o restante da Tradição também o diz.

 

A maior prova da falha da tradição oral está na Cronologia dos Dogmas, com doutrinas humanas criadas em épocas muito tempo após a morte dos apóstolos, sendo que não se encontra nenhum documento anterior prescrevendo tal doutrina na Igreja Primitiva (tais como Purgatório, Assunção de Maria, Concepção Imaculada de Maria, Oração pelos mortos, etc).

Nossos queridos protestantes não sabem o que são dogmas... Pensam que a Igreja, ao dogmatizar um ponto de fé afirma algo do tipo: "a partir de agora, todos acreditaremos nisto". Só que não é assim! A Igreja, ao dogmatizar algo, diz claramente: "os Cristãos, sempre, desde os primórdios, e em todos os lugares, acreditaram nisto, pelo que não é lícito a nenhum Católico duvidar que esta é a fé verdadeiramente Cristã." Portanto, importa muito pouco que um dogma tenha sido proclamado no século IV ou no século passado. O facto é que os Cristãos sempre acreditaram neles. Aliás, os protestantes, ao citarem a "cronologia dos dogmas" sempre omitem que a divindade de Cristo e a Santíssima Trindade também foram proclamados pela Igreja Católica como dogmas de fé séculos após a era apostólica. Pela lógica da tríade, os Cristãos, antes, não acreditavam que Jesus e o Espírito Santo são um com o Pai...

O Demónio é o pai da mentira. E é mentirosa a afirmação de que não existam escritos primitivos a apoiar os dogmas. Basta estudar Patrística. Basta ler os escritos dos Padres da Igreja para se saber, com certeza, no que acreditavam os Cristãos primitivos. E, com certeza, estes Cristãos primitivos anatematizariam a tríade acima.

Acreditar na Tradição oral que nunca foi registada na Igreja do primeiro século, é combater o próprio ensino de Paulo, que escrevia cartas e mandava que fossem lidas em todas as Igrejas, intercambiando com outras que já havia escrito: "CL 4:16 - E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodicéia lede-a vós também". "1TS 5:27 - Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a todos os santos irmãos".

Não há, para os Católicos, nenhum problema com esta passagem. Aceitamos que tudo na Bíblia é palavra de Deus, mas acreditamos (como os Cristãos de todos os tempos) que a Palavra é anterior às Escrituras, perpassa as Escrituras e vai além das Escrituras.

E outra coisa importante: este argumento Católico se baseia na carta a Timóteo, certo? Vejamos tal carta na sua totalidade:

1. Em todas as orientações que foram dadas sobre a comunicação oral, os apóstolos ordenavam sobre pronomes pessoais: "palavras que de MIM tendes ouvido";

2. Paulo nunca mandou alguém obedecer quem não fosse apóstolo e queria que fosse ensinado o que saiu dele mediante TESTEMUNHAS: "(2Tm 2:2) - E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idóneos para também ensinarem os outros".

3. Paulo recomenda a perfeição do obreiro de Deus pela Palavra escrita e não incluiu a tradição em pé de igualdade: "(2Tm 3:16,17) - Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra".

 

Costumo brincar dizendo (e passando por cima das regras de latim), que o "sola scriptura", rapidamente, transforma-se num "sola" algumas partes da "scriptura". Os protestantes, para defender os seus pontos de vista, apegam-se a alguns trechos bíblicos e ignoram todos os demais. Vejam as seguintes citações:

 

a) 2 Tm 1, 15: neste trecho, Paulo manda que Timóteo instrua terceiros que, por sua vez, passarão a fé às gerações futuras. É um exemplo de sucessão apostólica. Paulo, portanto, diz que estes terceiros deveriam obedecer Timóteo e que, por sua vez, as gerações futuras obedeceriam a estes terceiros. Como, então, a tríade diz que os apóstolos jamais afirmaram que se devesse obedecer a outros que não eles? E será que eles podem provar que durante estes 2000 anos de Cristianismo não houve a Sucessão Apostólica? Nós podemos provar que sim. No entanto o ónus da prova é do acusador...

b) Tt 1, 5: Também aqui Paulo confere autoridade apostólica a Tito: "Eu te deixei em Creta para acabares de organizar tudo e estabeleceres anciãos em cada cidade, de acordo com as normas que te tracei". Ora, organizar as igrejas, estabelecer os seus líderes (anciãos) não eram trabalho dos apóstolos? Se Tito não recebera autoridade apostólica de São Paulo, sendo assim seu legítimo sucessor, como poderia realizar tais obras?

É óbvio que Paulo usa "pronomes pessoais" porque, na Igreja primitiva, existiam apóstolos e apenas eles é que podiam ensinar. Os Cristãos deveriam seguir os ensinamentos apostólicos e rejeitar aqueles provenientes dos pastorezinhos hereges de então. A autoridade apostólica não se comunicava a todos os baptizados, pelo que nem todos poderiam ensinar. Isto não quer dizer que esta autoridade apostólica encerrou-se com a morte do último apóstolo, pois, como demonstrado acima, a mesma foi transmitida. Aliás, leia-se a "História Eclesiástica" de Eusébio de Cesaréia para se ter certeza deste facto.
Mas chamo atenção para a gravidade das conclusões que estão implícitas na assertiva dos pastores. Eles afirmam que a Igreja Primitiva se construiu sobre autoridade apostólica, mas que, morrendo o último apóstolo, esta autoridade encerrou-se e, a partir de então, todos os crentes só podem confiar na Bíblia. Então:

a) Existiram duas Igrejas diferentes, com duas matrizes doutrinárias diferentes: a do primeiro século (eminentemente apostólica) e a dos séculos posteriores (exclusivamente "bíblica"). Quero vê-los citando qualquer versículo bíblico que apoie, ainda que remotamente, esta heresia!

b) O protestantismo não possui a mesma matriz doutrinária do Cristianismo Primitivo (do que não é capaz um protestante para defender os seus devaneios...).

c) O Catolicismo possui a mesma matriz doutrinária do Cristianismo Primitivo, mas, visto que os bispos não foram testemunhas oculares da vida de Cristo, esta matriz não é mais válida.

Em resumo: o protestantismo distanciou-se do Cristianismo Primitivo, mas é verdadeiro; o Catolicismo manteve-se fiel, mas é falso. Seria brilhante se não fosse trágico. E, note-se, na primeira refutação da tríade eles afirmaram que o Catolicismo afastou-se do Cristianismo Primitivo e o protestantismo, com Lutero, resgatou-o. Haja Espírito Santo para inspirar tanta incoerência!!!

 

Mais um detalhe: para ser apóstolo, deveriam existir dois requisitos básicos: "(Act 1:20-22) - Porque no livro dos Salmos está escrito: "Fique deserta a sua habitação, E não haja quem nela habite. Tome outro o seu bispado. É necessário, pois, que, dos homens que conviveram connosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o baptismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça connosco testemunha da sua ressurreição".    

Nenhum outro homem, além dos doze, merecia tal título. Paulo foi chamado Apóstolo dos Gentios devido ao seu chamado, não se considerava como um dos doze e depois dele nenhum outro homem mereceu este título, por não preencher os requisitos básicos do apostolado. Portanto, a autoridade apostólica morre com o último apóstolo, João, restando os seus ensinamentos escritos, o que aliás foi o mais importante critério para determinação do cânone do Novo Testamento pela Igreja Primitiva.

 

Estas regras para ser apóstolo foram criadas pela tríade. A Bíblia mostra claramente que os versículos acima citados profetizavam sobre a sucessão Apostólica de Judas, dando o episcopado a Matias (cf. At 1,26), mas segundo eles somente São Paulo merecia tal honra. Ora, se somente São Paulo merecia tal honra porquê então Matias foi escolhido como apóstolo? O problema é que além de se enganarem, enganam também os outros!

Impressiona-me como alguém pode ser tão incoerente sem maiores constrangimentos. Para ser apóstolo era necessário que o mesmo tivesse convivido com "apóstolos" (não é incrível?!) desde o baptismo de Jesus. Isto, por si só, torna tudo impossível, pois, ao tempo do baptismo de Jesus não havia nenhum grupo de discípulos escolhidos. Ou seja, pela lógica brilhante acima, ninguém é apóstolo. E aquele que os protestantes chamam de "Apóstolo Paulo"? Este daí é um caso a parte, houve um chamado especial, etc, etc. Tudo perfeitamente conveniente. Se fizesse algum sentido, é claro!
O curioso é que, se apenas os apóstolos é que tinham autoridade para ensinar (oralmente e por escrito), os protestantes têm lido livros não inspirados e indignos de confiança. A carta aos Hebreus não foi escrita por nenhum dos doze (e nem por Paulo), nem o foram o Evangelho de Marcos e de Lucas; o apêndice do Evangelho de João; e, segundo estudiosos autorizadíssimos, também não o foram a epístola de Tiago e a segunda Epístola de Pedro. E agora? Como ficamos? O argumento acima (visando solapar a Tradição oral) joga no lixo boa parte da Bíblia. Mas, não estando a tríade preocupada com coerência, a mesma pode, novamente, ser incoerente e continuar o seu ministério Cristão.
Por outro lado, existem uma série de livros dos apóstolos que não fazem parte da Bíblia e outros, ainda, que se perderam. Adoptado o ponto de vista dos pastores, temos que:

a) Eles não lêem e nem meditam uma série de livros divinamente inspirados e úteis para a formação Cristã;

b) Uma outra série destes livros se perdeu e a Palavra de Deus estaria aleijada da sua plenitude. Deus teria falhado em preservar a totalidade do Cristianismo e as portas do Inferno teriam prevalecido contra a fé Cristã.

 

É claro que os eles preferem não falar desta incoerência.


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