«Seibo no Kishi» (Cavaleiro da Imaculada)
09
Mar 12
publicado por FireHead, às 02:16link do post | Comentar

Já por algumas vezes reparei, na Internet, que os espíritas e gnósticos de outra ordem afirmam que a doutrina da reencarnação foi uma crença suprimida pelo Cristianismo. Dizem eles, os supostos entendidos, que a Igreja Católica condenou a reencarnação dos dogmas cristãos no II Concílio de Constantinopla de 553 d.C., crença que, até meados do século VI, todo o Cristianismo aceitava. Presume-se que para atender às exigências do Império Bizantino, em decisão política, "o Concílio resolveu abolir tal convicção, cientificamente justificada, substituindo-a pela ressurreição, que contraria todos os princípios da ciência, pois admite a volta do ser, por ocasião de um suposto juízo final, no mesmo corpo já desintegrado em todos os seus elementos constitutivos". Segundo consta, Teodora, a esposa do famoso imperador Justiniano, adepta da escravatura e muito preconceituosa, tinha medo de regressar ao mundo na pele duma escrava negra, o que a levou a decidir pressionar o então Papa da altura, Virgílio, para abolir, enfim, essa anátema crença. O Concílio condenou, assim, o teólogo Orígenes de Alexandria e a doutrina reencarnacionista que próprio Cristo terá admitido, em várias passagens do Evangelho, sobretudo quando identificou em João Baptista o espírito do profeta Elias, "falecido séculos antes", e que deveria voltar como precursor do Messias (Mateus 11:14 e Malaquias 4:5).

 

O que é que as questões políticas têm a ver com a reencarnação? Como foi possível meros preconceitos pessoais duma tal mulher do imperador desembocarem numa mudança política no império só por causa duma crença? Se afirmam que toda a Cristandade acreditava na reencarnação até então, que diferença fazia suprimir tal lei irreversível e espiritual? Se Teodora realmente soubesse e acreditasse nessa suposta doutrina Cristã, adiantaria alguma coisa a subversão da reencarnação? Essa desculpa simplesmente não cola, mas acreditai vós que os espíritas e demais gnósticos devem com certeza acreditar piamente nela!
Convém realçar que em nenhum momento o citado Concílio mencionou sequer a doutrina da reencarnação como ensina o espiritismo moderno. Não há em nenhuma de suas actas referência a tal doutrina de origem oriental, e isto pode ser verificado ainda hoje através de uma tradução latina (o original da época perdeu-se devido a invasão de Constantinopla em 1453). Por séculos, a fé de milhões de Cristãos se baseava apenas na ressurreição e não na reencarnação. Todos os documentos antigos de escritores Cristãos antes desse Concílio afirmam como base da fé a ressurreição. Por outro lado, esses mesmos escritores não pouparam esforços em condenar fortemente a reencarnação, doutrina essa alheia à fé Cristã, só mencionada em seitas heréticas provindas do paganismo egípcio, babilónico ou hindu. Também é bom lembrarmo-nos que não só este Concilio, mas todos os demais antes ou depois deste, alguma vez mencionaram qualquer condenação que seja sobre a reencarnação, simplesmente porque ela nunca foi ponto de fé dos Cristãos. É mesmo difícil de acreditar que uma doutrina que supostamente era parte do credo Cristão desde a época de Cristo tivesse sido abolida assim tão bruscamente sem nenhuma contestação por parte dos demais.

O II Concílio de Constantinopla proclamou o dogma das naturezas de Cristo (humana e divina) contra o monofisismo, que acreditava só haver a natureza humana em Cristo. O mais próximo que este Concílio chegou, no que se refere à reencarnação, é que este Concílio, num dos seus cânones (mais precisamente o de número 11), condena Orígenes de Alexandria. Quem era Orígenes?


Orígenes (Ὠριγένης, 185-283 d.C.) foi um teólogo e escritor Cristão egípcio que acreditava na pré-existência da alma antes da encarnação e na doutrina da restauração universal (palingenesia, i.e., doutrina da apocatastase). Os espíritas confundem erroneamente a pré-existência das almas com a reencarnação, defendendo que Orígenes era então reencarnacionista, o que não é verdade. Seja como for, não existe nenhuma condenção explícita à reencarnação no Concílio. Segundo Orígenes, todas as pessoas já tinham sido previamente criadas no Céu como espírito e a Terra funcionava como um tipo de provação às mesmas. A pessoa viria à Terra de acordo com o seu pecado nasua pré-existência. Ela poderia receber a Cristo e ir para o Céu novamente ou então rejeitá-l'O e perder-se eternamente no Inferno, mas em momento algum ele fala sobre as pessoas se reencarnarem porque a reencarnação é, segundo o fundador do espiritismo, Allan Kardec, a volta da alma à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ela e que nada tem de comum com o antigo. Nota-se, portanto, que não tem nada a ver uma coisa com a outra.
Orígenes na verdade chegou a refutar veementemente as ideias reencarnacionistas de um tal Basilídes que pretendeu basear-se para tal nas palavras de São Paulo, que escreveu vivi outrora sem lei. Chegou a chamar tal doutrina de fábulas ineptas e ímpias. É importante realçar que esta doutrina da pré-existência das almas foi elaborada por Orígenes como uma solução para o problema filosófico do mal, mas como não havia base bíblica para tal, foi condenada no II Concílio de Constantinopla.

 

Está ordenado ao homem morrer uma só vez vindo depois disto o juízo. (Hebreus 9:27)

 

Alguns judeus criam que João Baptista era Elias ressuscitado, não reencarnado (Lucas 9:7,8). Se a reencarnação é o acto ou efeito de reencarnar - pluralidade de existência com um só espírito - é evidente que um vivo não pode ser reencarnação de alguém que não morreu. Fica claro assim que João Baptista não era Elias porque Elias não morreu, como erroneamente acreditam os espíritas, pois foi arrebatado vivo para Deus.

A reencarnação nunca fez parte dos dogmas Cristãos e o II Concílio de Constantinopla jamais se debruçou sobre esse assunto. Apenas pessoas obstinadas levadas por pressupostos errados e preconceitos é que ainda persistem em acreditar poder encontrar vestígios dessa doutrina no Cristianismo.


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